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07/jan

Hoje é Dia do Leitor e nada mais sensato que trazer uma resenha de livro. Vamos? <3

 

O Apanhador no Campo de Centeio foi o último livro que li em 2014. Na verdade, reli. Meus encontros com Holden Caulfield não são mais inéditos. Toda vez que o tiro da prateleira significa que estou insatisfeita com alguma coisa, mas isso não quer dizer que seja um bom título para extravasar. Fico deprimida, fato, mas o amo assim mesmo.

 

Não pretendia encarar uma releitura tão cedo, pois cada página desse clássico aflora muitos sentimentos e pensamentos que me deixam baqueada. A cada virada de página, volto a ser adolescente de 16 anos como o protagonista, um período em que a transição para a vida adulta se acelera. Mergulho de cabeça nas palavras de Holden e o que me resta no final é o gosto amargo na garganta. Adicionado a isso, aquela básica pausa reflexiva.

 

Assinado por J.D. Salinger, esse é aquele livro que o leitor precisa de maturidade para engolir cada palavra. Não, não é uma leitura complicada. Digo isso por se tratar de uma obra que se apoia nos desabafos de um adolescente insatisfeito com muitas coisas. Quando foi publicado lá no começo dos anos 50, o título foi sinalizado para adultos e é esse público que tende a se identificar mais por já ter vivido a adolescência.

 

Sobre o livro

 

 

O Apanhador no Campo de Centeio é um clássico da literatura americana, referência para tudo, e é o primogênito de Salinger. A história é narrada do ponto de vista de Holden Caulfield que está em uma clínica psiquiátrica. Ele faz um retrocesso que nos apresenta os fatos pré-internação, cujo início se dá na expulsão do Internato Pencey. Por ter sido “convidado a se retirar” antes do recesso de final de ano, o adolescente tem a brilhante ideia de perambular por uma Nova York friorenta até a fatídica quarta-feira – o dia que poderia supostamente chegar em casa e fingir que nada aconteceu.

 

Holden enfrenta um inverno massacrante, pula de táxi em táxi, e encontra os mais variados ‘tipos’ de adultos que só servem para deprimi-lo. O “passeio” inusitado traz altos e baixos que se entremeiam às neuras e aos pensamentos nada otimistas dele, garantindo uma pitada emocional que tenta se camuflar com o humor nada agradável do protagonista. Conforme caminha, mais ele se sente depressivo e abandonado. As situações o obrigam a refletir sobre tudo que encontra e sobre as coisas/lembranças negativas que não são debatidas/revividas com entusiasmo.

 

Por mais que a narrativa seja em 1ª pessoa, o livro traz impressões limitadas sobre tudo. Até mesmo sobre Holden, um personagem duvidoso, cuja mente “apagou” certos momentos que podem não ter acontecido como imaginou. Ele consegue dividir opiniões sobre tudo que vê. É muito fácil se perguntar no decorrer da leitura o quanto o adolescente tem razão ou o quanto o relato é verdadeiro. Inclusive, é difícil (de início) aceitar que a vida dele é tão ruim por pertencer à classe alta, o que, em tese, não lhe dá o direito de resmungar.

 

Sim, o garoto resmunga muito para quem tem praticamente tudo nas mãos. Mas qual adolescente não faz isso? Holden é bem de vida e dá a entender que os pais se esforçam para lhe dar o melhor. Porém, ele não hesita em ser irresponsável. Não um rebelde, mas um provocador que se esconde em comportamentos erráticos, no cinismo e na insolência por não saber lidar com o que sente. Especialmente com as coisas que o afligem. Quanto mais gatilhos são puxados, mas o personagem se encolhe na própria concha até surtar.

 

O grande problema do protagonista é que ele vive alienado em um mundo cruel. Um mundo que não faz a mínima questão de pertencer. É aqui que entra a questão da dificuldade em aceitar a transição da adolescência para a vida adulta. O personagem está no meio desse processo e tem uma vontade insana de barrá-lo. Não é à toa que muitas passagens do livro frisam o quanto ele é um apaixonado pela infância. Do quanto é formidável ser criança.

 

Sem contar que a mentalidade dele parece que empacou no tempo. Para um adolescente que poderia ser um pouco positivo, Holden é extremamente pessimista e tem dificuldade em aceitar o mundo corrompido, detalhe que fica claro na maneira como vê as coisas. Um exemplo: toda vez que relembra alguém, os momentos mais simplórios ganham a narrativa. Não há maldade, embora os pensamentos dele sejam bem venenosos. Em todas as páginas há um comparativo azedo entre ser criança e ser adulto, um dos pontos-chave da narrativa.

 

Por mais que Holden levante questionamentos sinceros sobre os adultos, argumentos impossíveis de discordar, não dá para negar que ele também foi contaminado pelo universo que tanto despreza. Chego até a pensar que o personagem nem se dera conta disso. A preservação da inocência é uma pequena camuflagem de um adolescente que não percebe que é tão igual aos garotos que são alvos das suas piadinhas. Um conflito de moralidade, justamente porque Holden é tão alienado que não percebe os arredores. O único ponto fixo dele é Phoebe, a irmã mais nova, a figura que está o tempo todo nos pensamentos dele e que frisa o tema inocência.

 

Holden se descreve como um idiota que obedece a certos comandos, como respeitar uma garota enquanto os conhecidos investem sem respeitar os desejos dela. Por mais que se comporte como o meio que lhe dá arrepios, ele encontra um meio termo entre a pureza e a malícia. Para isso, o livro possui um linguajar provocativo que se entrelaça a certas atitudes imaturas de Holden. As pessoas que o encontram no meio do caminho ou o chamam de maluco ou o enxotam por ser uma companhia insustentável.

 

O problema é que o protagonista mascara o que sente, como qualquer adolescente. E é muito, muito sincero. Quando se vê pressionado, o personagem parte para a insolência e para o sarcasmo. A alienação, a dificuldade de conversar, a falta de senso, e o amor pela infância são detalhes que considero a origem do colapso emocional.

 

Coisas que mais gosto

 

 

O livro é monótono, mas traz uma reflexão com um Q de melancolia. É como se Holden estivesse ao seu lado, lhe contando essa parte da própria vida. Dentre os tópicos que Salinger pontuou na narrativa está a depressão, o sentimento que impulsiona o personagem aos mais variados comportamentos erráticos. Ele também é impulsivo quando é consternado e tem colapsos nervosos de tanto medir as infelicidades. Além disso, há a briga para não perder a inocência. Problemas possivelmente acarretados pelos traumas da infância e pelas pressões externas em ter que crescer. Holden é um adolescente que não aguenta os clichês do mundo adulto e os acha uma tristeza.

 

O que me cativa sempre que leio O Apanhador no Campo de Centeio é que Holden, mesmo sendo insolente, não consegue entender a crueldade, a artificialidade ou a malícia das pessoas. Nada disso faz sentido para ele. Isso o ajudou a ser ainda mais pessimista. Ele não consegue se comunicar abertamente e não tem estabilidade emocional para lidar com ninguém, salvo Phoebe. Ao longo da jornada, o personagem tem só a mente como companhia. Um gatilho para uma dezena de surtos, já que fica aparente que ele não tem os sentimentos no lugar.

 

Outro ponto essencial que me faz gostar tanto desse livro é que Holden mostra que na adolescência sempre há o estopim que justificam certos comportamentos. Tudo por causa de experiências ruins que podem definir uma pessoa para sempre. O protagonista não teve a chance de escolher uma rota e foi tragado. A sede de se agarrar a inocência das coisas, sendo que elas não existem, foi sua ruína. Em seu futuro, Holden prevê o posto de apanhador no campo de centeio. Uma posição, talvez, de salvador contra as malícias do mundo.

 

O que realmente mexe comigo é saber o quanto a nossa mente é a principal razão de ficarmos perto da berlinda. Não tem sensação pior que pensar muito na vida e não encontrar uma rota de fuga, né? Holden sente isso na pele. Cada pensamento negativo o deixa deprimido e a beira do colapso. Ele perambula até a fatídica quarta-feira com a mente a mil. Quanto mais reflete sobre os prós e os contras da vida adulta, mais ele fica doente. Para abafar tais sentimentos e pensamentos, o personagem se mete em encrenca, talvez, como forma de se desligar da realidade que não o faz nem um pouco feliz.

 

Incluso a tudo isso, há a busca pela identidade, um drama que abala qualquer adolescente, especialmente aquele que se recusa a ser como os demais. A marca registrada do protagonista é o chapéu de caça vermelho, que todo mundo zomba, mas é um mecanismo que julgo como uma capa da invisibilidade que o protege do mundo externo.

 

Concluindo

 

 

Quem resmunga sobre O Apanhador no Campo de Centeio afirma que Holden não passa de um riquinho mimado, ocupado em pontuar defeitos alheios. Se você anular essa realidade do personagem e se permitir ir a fundo na história, a narrativa traz um garoto que dá importância ao que é inocente e puro. Ele é um adolescente com pensamentos de criança. Cada parágrafo mostra uma briga corpo vs. mente que cresce por causa do medo da transição. Holden gosta do real e do palpável. Ele é um irritante debochador, mas tem um coração de ouro.

 

Encaro a habilidade de falar mal dessa obra por causa da questão que pontuei no início desta resenha: falta de identificação com o narrador. Por ter um único ponto de vista cheio de sinceridade, de conflito e de pessimismo, acredito que o leitor que passou ou passa por momentos semelhantes aos do personagem nessa fase se apaixonará. Se sua adolescência foi incrível, sem complexos, sem dificuldades e sem o típico duelo consigo mesmo, Holden não passará de um ser detestável, contraditório e uma péssima companhia.

 

O Apanhador no Campo de Centeio tem tudo a ver com vivência. Digo isso porque a adolescência é o período mais difícil das nossas vidas. É a fase que nos define. Esse meu período foi marcado por grandes reviravoltas, estive insatisfeita com muitas coisas e, conforme crescia, mais criava uma redoma de vidro para ninguém se aproximar e me machucar. Coube a mim escolher quem eu queria ser no futuro. Vejo-me muito no Holden em algumas passagens, pois tive os mesmos tipos de indagações que me deixavam inconformada na fase teen.

 

 

Ao longo das páginas, você percebe que Holden não é de todo mal. Na verdade, ele é muito bacana porque, na realidade, não consegue ser sacana. Male, male, personagens como o protagonista de Salinger tentam preservar algo que, conforme os anos passam, pode se perder: a identidade. O protagonista bem que tentou, mas já era parte do mundo cruel.

 

Holden não é um coitadinho, embora mexa com meu pobre coração toda vez que nos encontramos. Ele não é de todo ruim. O que acredito é que o personagem foi influenciado pelos entornos – por mais que estivesse alienado – que, infelizmente, tendem a impulsionar comportamentos arredios e cretinices típicos da adolescência. No fundo, o acho um jovem com perspectiva. O problema foram os desejos que não deram muito certo.

 

O Apanhador no Campo de Centeio é um retrato de um adolescente com medo da transição para a vida adulta. O livro garante boas risadas, porque Holden é que nem eu, só trabalha com verdades, em meio a muitas reflexões. Preparem-se para ficar com o gosto amargo na garganta depois da leitura.

 

PS: essa resenha tinha 6 páginas! Tive que dividi-la por ter ganhado um viés que renderá um post de reflexão. Logo mais, no Random Girl.

 

 

Na Prateleira

Título: O Apanhador no Campo de Centeio
Autor: J.D. Salinger

Páginas: 208
Editora do Autor

Stefs
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