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26/jan

O Jogo da Imitação (The Imitation Game) tem muito daquilo que sou apaixonada: história e retrocessos. Sou facilmente atraída por filmes situados nas linhas do tempo que envolvem acontecimentos importantíssimos, como, neste caso, a Segunda Guerra Mundial. O longa me deixou arrepiada do começo ao fim e com lágrimas nos olhos quando os créditos subiram. É maravilhoso! Não só por se desenrolar em uma época tão crítica, como também pela atuação impecável do Benedict Cumberbatch, que concorre ao Oscar de Melhor Ator.

 

Nem sei por onde começar. Este filme me deixou 100% destruída (pausa para refletir).

 

A cinebiografia é inspirada no livro de Andrew Hodge, Alan Turing: The Enigma, publicado em 1983. O filme começa com uma aparente investigação liderada pelo Detetive Nock, que fareja Alan a fim de comprovar algo que só é revelado no final da história. Esse é o primeiro momento em que o conhecemos, numa fase da vida que não é explorada. Para preencher as lacunas, a trama salta de 1951 para 1939, em Londres, cuja narrativa do personagem, que não passa do depoimento dado ao oficial, se entremeia aos acontecimentos e aos retrocessos.

 

Alan Turing ganha a cena com seus 27 anos, na época da Segunda Guerra Mundial. O matemático conquista um emprego não tão simples: quebrar os códigos Enigma, máquina de criptografia alemã que encaminha mensagens, entre a  marinha, sobre novos ataques. O Comandante Denniston (Lannister!) é quem lidera essa iniciativa que faz parte de um programa secreto monitorado pelo M66, Serviço Secreto de Inteligência.

 

Quebrar o código é a única maneira de derrotar Hitler. Porém, a tarefa é complicadíssima, até para um dos mais brilhantes matemáticos. Por ser atrevido e sagaz, Alan parte pelo caminho oposto ao plano combinado, e resolve criar uma máquina, batizada de Christopher, para resolver o problema de uma vez só. Um confronto de máquina contra máquina, como explica, uma ideia que se torna o coração do filme e o anseio de quem o assiste. O objeto promissor é o que traz as tensões na trama.

 

O filme tem uma atmosfera que gera a sensação de que algo dará errado o tempo todo. Bletchley Park, local de trabalho de Alan e da sua equipe de gênios, instiga a pensar só no pior. Um sentimento que engrandece com o passar dos anos, até empacarmos em 1941. No decorrer desse período, os personagens não lidam apenas com a suposta falta de empatia de Alan, mas com a pressão. Anos se passaram, a guerra continua e o Enigma permanece inquebrável. Contudo, mesmo com os atritos em torno da máquina, as relações se alteram, especialmente do ponto de vista do protagonista que, graças a Joan Clarke, personagem da Keira Knightley, se torna mais agradável.

 

Quem aprende mais, claro, é Alan, que nunca teve relações interpessoais duradouras. O que se apresenta do personagem é a camada fria, analítica, arrogante e um pouquinho debochada. Joan é quem consegue trazer à tona o lado humanizado dele. Graças aos retrocessos da infância, que pontua seus traumas e sua dificuldade de ter amigos, vemos esses e outros anseios serem vencidos. Turing é um personagem que combinou perfeitamente com Benedict. A forma de falar, de ovacionar a própria inteligência, de mudar do quente para o frio em segundos… Detalhes que o ator tem experiência – vide Sherlock.

 

Assim, a sensação de insucesso, de desconfiança, de impossibilidades começa a consumi-los e a nos consumir. A trama torna, pouco a pouco, o oxigênio rarefeito por causa do mistério em torno de uma máquina que tinha tudo para falhar. O passar dos anos aumenta a agonia e a urgência de quebrar o Enigma, impressões que ganham reforço nas cenas de guerra que compõem a dramática da situação. Não há como negar que é isso que torna O Jogo da Imitação muito mais envolvente. Todas as imagens da Segunda Guerra Mundial são um meio de indicar que o tempo está curto. Que a equipe de Turing precisa ser mais ágil.

 

Ao longo da trama, desvendamos que a máquina não é apenas um desejo profissional, mas pessoal também. É a razão da sua vida. A história transita em momentos-chave da vida de Alan, como a adolescência no internato, um retrocesso que explica tanto o nome Christopher quanto a sua orientação sexual. Na fase adulta, o roteiro explora os altos e baixos de construir a engenhoca, bem como atitudes e descobertas da equipe que se misturam para atingir o ápice da trama: a vitória. Infelizmente, o sucesso não é o ponto final dessa trajetória.

 

Homossexualismo e o papel da mulher

 

Um ponto da história de Alan que não é aprofundada: a homossexualidade. Um detalhe centrado em 1951, o começo do filme, um tease que se encaixa na conclusão. Li algumas resenhas que criticaram a ausência dessa abordagem e discordo completamente. O término ficou de muito bom tom. Afinal, o foco era o Enigma, a genialidade do matemático, o fato dele, mais tarde, ter salvado mais alguns milhões de vidas. A orientação sexual se tornou a moral para que víssemos um homem pagar caro por ser quem era. Seus méritos não valeram de nada.

 

É nesse momento que a verdade de O Jogo da Imitação nos atinge em cheio: Alan poderia muito bem ter sido condenado por afanar alguns papéis para ganhar vantagem na hora de construir Christopher ou por ser supostamente um espião, mas isso aconteceu por ser homossexual. Esse é o toque humanizado mais profundo dessa adaptação. No fim, vemos o declínio de uma pessoa brilhante, já que, na época, gostar de pessoas do mesmo sexo era crime, com direito a pena ou tratamento. Foi o que mais doeu quando o filme acabou, pois, depois de tudo que foi feito, ele ainda se deu mal. Por um motivo que hoje diríamos ter nenhum cabimento.

 

Joan sinalizou outro de muitos problemas da época: a mulher não ocupar cargos ditos para homens e o preconceito de ser inteligente ao ponto de ser dona do nariz. Nesse período, a figura feminina era resumida ao papel de secretária. A cena em que a personagem é indagada por ter concluído a cruzadinha de Turing foi curta, mas o bastante para pontuar como ser independente e perspicaz não era bem quisto. Keira está maravilhosa, mereceu a indicação de atriz coadjuvante. Exausta desse povo afirmando que ela só faz as mesmas expressões.

 

Concluindo…

 

Por mais que o ponto de interesse de O Jogo da Imitação tenha sido quebrar o Enigma para interromper a guerra, aqui está mais uma lição de que não importa o bem que você faz, quantas pessoas ajudou, em algum momento você será julgado por ser quem você é. Na época de Alan, de nada importava quem você era se algo no seu comportamento ou na sua fé fosse contra as regras.

 

O Jogo da Imitação é inteligente, tem sacadas geniais, uma lição de matemática que deixa o cérebro em contagem regressiva para ter uma explosão. O roteiro adaptado é ácido, como os diálogos, em meio a um plano intrincado. Há expectativa, demais, especialmente de que coisas ruins acontecerão. Você se envolve por inteiro e é capaz que berre junto quando Christopher funciona pra valer. É temer e se emocionar, muito bem embalado pela trilha sonora assinada pelo sempre maravilhoso Alexandre Desplat.

 

Diria que essa é mais uma história sobre confiar em si mesmo, vencer obstáculos e aprender. Alan veio de uma infância que lhe ditou que não seria nada e se tornou uma inspiração para a geração posterior. Não é isso que queremos? Inspirar pessoas? Turing simplesmente lutou contra a maré, mesmo pagando de arrogante algumas vezes. Esse é um personagem que passou metade da sua vida assustado e que criou algo tão desacreditado quanto sua pessoa.

 

E fez a diferença.

 

Sometimes it is the people who no one imagines anything of who do the things that no one can imagine

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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