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17/fev

Introdução

 

No que diabos você está se transformando, Stefs?

 

Essa é a pergunta que tem martelado na minha cabeça desde a virada do ano. Sempre tive a impressão que, devido à coleção de experiências desagradáveis conquistadas na minha adolescência, me tornaria um monstrinho. Um filhotinho que deixaria o Voldemort morto de orgulho. Que sentiria prazer em espatifar o coração alheio, ao ponto de pegar os cacos e ajudar a tacá-los no lixo. Uns bons anos mais tarde, a vida me mostrou que sou mais dessas que pegam os cacos e ajuda a colá-los.

 

Sinceramente, nunca me preocupei em colar os meus cacos. Mesmo não me sentindo a mais especial das adolescentes, eu era uma boa ouvinte. Falar que é bom, nada.

 

A transição dos 14 para os 15 anos foi uma fase muito tensa. Tive momentos bons, mas, se eu colocar tudo na peneira, só restava as trevas. Não me tratava bem, não me respeitava e não me amava o bastante. Três verdades que serviram de estepe para não tratar bem determinadas pessoas, não respeitar determinadas pessoas (ou ambientes) e não amar tanto o quanto jurava que amava certas pessoas. Fui humilhada e humilhei. Fui pisada e pisei. Fui xingada e xinguei. Eu era como uma maldição imperdoável. Não perdoava nada.

 

Se a vida não tivesse me dado mais de uma rasteira enquanto rumava para a vida adulta, tenho certeza que seria aquele tipo de mulher que não suporto: que se vinga por motivo flop e que ama puxar o tapete alheio. Obrigada vida por você ter acontecido.

 

Por mais que fosse essa tentativa de maldição imperdoável, sempre me preocupei com o tipo de pessoa que me tornaria. Não por causa daquela fatídica pergunta: o que você quer ser quando crescer, mas porque uma pessoa muito próxima disse que eu não seria absolutamente nada no futuro.

 

Parece mentira, mas não é. Isso me perseguiu por anos. Pensar que poderia ser uma “pessoa sem futuro” se tornou uma gastrite nervosa. Tornei-me absurdamente perfeccionista. Nota 7,0 me fazia chorar. E comecei a viver depressa, o que fez minhas relações pessoais encarecer. Fui emudecendo. Tive apenas uma amiga e, juntas, nos apoiamos para sobreviver ao resto do ensino médio (tinha 16 anos). Harry Potter foi um salva-vidas também.

 

Eu sabia que não era tão ruim quando uma atitude péssima da minha parte não afetava apenas outra pessoa. Afetava-me também. Mas era azeda demais para admitir. Vivi nesse ritmo rebote “ah, mas se não pediu desculpas, também não vou rastejar”. Não me sinto mal de não ir a um encontro, por exemplo, mas fico com peso na consciência quando trato outras pessoas de um jeito desagradável. Digamos que até hoje minhas palavras tendem a ser ácidas, mas pondero mais antes de falar – o que justifica minha demora em responder mensagens.

 

Não é todo mundo que vê sinceridade como algo bom. É fácil você sair como arrogante e insensível quando, na verdade, você só quer que aquelas palavras tenham o mesmo efeito de um tapa bem dado para ver se a pessoa do outro lado se toca e se recomponha.

 

Filhote do Voldemort em transição

 

Quando pergunto o que me tornei ou tenho me transformado, não é em tom de repulsa, mas de reflexão. Fui desacreditada muito cedo, com os benditos 15 anos. Isso mudou TUDO. Algo trincou dentro de mim e afetou todos os âmbitos da minha vida. Passei a ter fobia de fracassos, mas fazia questão de mostrar os meus sucessos. Não por metidez, mas para me autoafirmar que estava dando forma ao meu futuro que, em tese, não teria.

 

Conseguir um emprego por conta própria foi uma vitória. Entrar na faculdade e pagar por ela foi outra vitória. Ter meu nome embaixo do título de uma matéria foi outra vitória. Como disse, fiquei meio obcecada em evitar fracassos, mas percebi que desistia com facilidade. Afinal, não tem como fracassar desistindo, pois você não terminou de investir no que queria. Nem um pouco coerente.

 

Desistir é um tipo de fracasso inaceitável.

 

Em algum momento, tive que pensar sobre isso. Descobri o óbvio: estava me provando para alguém. Fazia o que fazia por essa pessoa e não por mim. Provava-me o tempo todo para alguém que nem ligava para minha existência. Estava colecionando prêmios, minhas provas, meus apetrechos que tinham me levado para algum lugar… Todos sem sentido porque não venci para mim, venci pelo outro.

 

Não que não tenha orgulho, tenho sim e muito, mas fazer algo por si mesmo é totalmente diferente. Descobri que ter um hater nem sempre é ruim, pois é impulso. É motivação. Tenho vitórias que mais soam como uma vingança maligna. Uma vingança maligna que deu certo. Mostrei o meu valor, mas continuava rancorosa.

 

Tive que parar e pensar: até quando levaria esse rancor comigo?

 

O rancor tornou minha vida um filme noir, meio Nosferatu. Eu era a pessoa solitária do filme, combatendo medos, inseguranças, sozinha, como se meus braços estivessem atados ao corpo. Tinha vergonha de falar dos meus problemas e só me dava conta deles quando voltava para a torre. Conforme crescia, o rancor aumentava. Os problemas de saúde também.

 

A quebra aconteceu em um tempo não muito distante, quando resolvi me liberar desse rancor.

 

Acreditem: a vida começou a fluir mil vezes melhor!

 

Ao invés de culpar essa pessoa, descobri que era melhor perdoar e agradecer por ter me dito aquelas coisas horríveis que nenhum adolescente, mesmo que incorrigível, merece ouvir. Sabem por quê? Porque tenho certeza de que se não ouvisse nada daquilo, não seria metade da pessoa que sou hoje. Tive uma fase conturbada. Foi ruim? Foi! Doeu? Pra caramba! Mas minha história, minhas experiências, meus tropeços me trouxeram até aqui.

 

As coisas acontecem no timing certo

 

Alexis Jones, fundadora do I AM THAT GIRL

 

No que diabos você está se transformando, Stefs?

 

Essa pergunta sempre me atormenta quando estou em silêncio, perdida nas minhas caraminholas, mas nunca há uma resposta. Sempre há reticências. Insistentes. Agora com 28 anos, só penso no quanto está tarde para fazer certas coisas. Às vezes, penso que entrei na faculdade muito tarde. Que fiz este blog muito tarde. Que resolvi escrever um livro muito tarde. Que resolvi me engajar em coisas que importam muito tarde.

 

O que passei na adolescência, e em alguns momentos da vida adulta, é algo que não adoraria ver minha irmã passar, por exemplo. Mas ela passou e, assim como eu, não teve suporte. Eu fui meu próprio suporte durante grande parte do percurso e não foi fácil. Sempre precisei de mãos, mas aprendi a não confiar nelas também.

 

Como reajustar isso?

 

Com 15 anos, algo muito esquisito aconteceu: decidi fazer trabalho voluntário com o grupo dos populares da minha sala. Nunca tive problemas com popularidade. Sempre conversei com todo mundo e sabia perfeitamente que falavam mal de mim pelas costas, por eu não ser da panelinha. Mas esses espertinhos adoravam meu ombro amigo para chorar e eu adorava fazer isso, mesmo ciente de que meus conselhos não adiantariam de nada.

 

É o que acho até hoje.

 

Enfim, encarei esse desafio em uma creche. Teve uma menininha que simplesmente não largava do meu pé. Fiquei meio na defensiva, porque não tinha nem amor-próprio, como poderia dar atenção para um projetinho de gente que me chamava de tia a plenos pulmões? Se eu não estava sendo boa comigo mesma, como poderia ser com uma criança?

 

Até hoje não acredito que fiz isso. E até hoje me lembro dela. Ela me mostrou que minha tentativa de pagar de Mean Girl jamais vingaria. E não vingou.

 

Foi bem triste o último dia de trabalho voluntário. Era um projeto que me preenchia.

 

Dizem que as circunstâncias mudam você. E elas mudam. Eu não respeitava meu corpo e minha mente. Eu me desrespeitava o tempo inteiro. Fazia coisas das quais ficava morta de vergonha depois, mas nunca tive peito de assumir ou de pedir desculpas. Eu sabia que era capaz de fazer uma pessoa chorar se me enchesse muito o saco – mas isso não me preenchia.

 

A vida aconteceu. Tornei-me criativamente chata, estranhamente otimista com certas coisas e percebi com mais força que escrever é minha forma de transmitir minhas mensagens. E, mais importante, parei de me vitimizar porque era bem isso que fazia de vez em quando com meus 15 anos (“minha vida é cruel, buhu, a sua também será”). Pessimista ao extremo!

 

Depois veio a faculdade, o blog e o I AM THAT GIRL.

 

Um capítulo chamado I AM THAT GIRL

 

Mergulhar no IATG foi mais fácil do que imaginei. Nunca cheguei a aprofundar meu conhecimento sobre o movimento até ano passado, por motivos de muito tempo livre. Quando meu ano estava prestes a terminar, fiz algo que não chamaria de loucura, mas algo que tinha certeza de que não teria feedback: mandei um e-mail, elogiando o trabalho, dizendo que minha adolescência teria agradecido por uma iniciativa como essa.

 

Elas foram umas lindas e responderam. Foi assim que rolou a oportunidade de mandar dois textos para aprovação e, quando o ‘sim’ veio, me senti como a Lily – irmã da Chloe – chorando enlouquecidamente com o celular na mão – como se fosse para a Disney.

 

E, então, outra coisa maravilhosa se concretizou: neste momento, eu, Stefs, sou Chapter Leader do I AM THAT GIRL em São Paulo. Em outras palavras, sou líder e criarei um capítulo desse movimento maravilhoso aqui na minha cidade.

 

Transitando para uma Chapter Leader

 

Fevereiro foi um turbilhão, como ele sempre é.

 

Como vocês, caros leitores, bem sabem, sou uma pessoa que acredita em sinais, e quando recebi o aval de escrever para o IATG, pensei: algo está acontecendo. E daí veio o Manifesto Aleatório e voltei a sentir que realmente algo estava acontecendo.

 

Paquerei no decorrer de dezembro do ano passado o formulário para trazer um Local Chapter para São Paulo. Paquerei, paquerei, paquerei, paquerei. Queria investir na ideia, mas o pavor de não saber o que fazer depois – caso fosse aceita – tornou a paquera platônica. Até o Google me mostrar a existência de um capítulo no Brasil, o de Porto Alegre, o primeiro. Corri para mandar mensagem e tirar minhas dúvidas. A Isa terminou de me empurrar para cima da paquera que agora se tornou um relacionamento que está prestes a terminar em casamento.

 

Tudo foi muito rápido. Antes de investir na paquera, rascunhei um projeto aqui para o blog, o Garota Aleatória, o cantinho de inspiração para as minhas leitoras. Já tinha esse desejo dentro de mim de inspirar e de propiciar nem que fossem 5 segundos de autoestima. Escrever o Manifesto Aleatório tem sido uma das melhores coisas de 2015 desde então. Agora, para arrematar todos os meus desejos de fazer algum tipo de diferença, pertenço há um grupo já grande de líderes locais que carregam um capítulo em nome do I AM THAT GIRL.

 

No dia 15 de fevereiro de 2015, me tornei uma Chapter Leader. Uni-me as líderes maravilhosas de Porto Alegre (Isa) e de Recife (Luana).

 

O que isso significa?

 

Uma das minhas funções como líder do capítulo de São Paulo é formar um grupo de meninas/mulheres para conversarmos sobre assuntos que importam. Momentos felizes e tristes, sucessos e fracassos, medos e sonhos, assuntos cotidianos e influentes. Como líder, contribuirei para que o I AM THAT GIRL se expanda no meu Estado. Fazer com que mais pessoas conheçam esse sistema de suporte que poderia ter feito minha adolescência muito melhor. Como líder, organizarei encontros para sentarmos em círculo e manifestar a melhor versão de nós mesmas.

 

E por que você decidiu fazer isso Stefs?

 

Vendo um vídeo da Alexis Jones, fundadora do I AM THAT GIRL, ela explicou que seguiu em frente com essa ideia porque ela precisava disso. Eu decidi por esse caminho porque preciso disso. Não havia ninguém para segurar minha mão quando era adolescente. Quando estava nessa fase, tive uma relação muito conturbada com meus pais por causa do divórcio e comecei a maltratar tudo e a todos em vez de ajudar. Adoraria, como disse no email que enviei para elas, ter tido contato com um movimento como o IATG com 15 anos, pois tenho certeza que teria lidado melhor com todos os meus demônios.

 

Porém, pensando bem, acredito que jamais teria abraçado algo tão grande como o IATG se não tivesse passado tudo que passei e até mesmo vivenciando por um ângulo diminuto o crescimento da minha irmã. Isso não quer dizer que o movimento é apenas para adolescentes, pois estou aqui, uma mulher crescida que quer ser ouvida e ouvir, que continua a precisar de ajuda e que quer ajudar. Sempre quis me comprometer a coisas maiores do que eu e fazer parte do I AM THAT GIRL matou a sede que ficou quando o trabalho voluntário acabou.

 

No fundo do meu coração, sei que tomei uma das medidas mais certas da minha vida. Meu consciente sabia disso quando comecei a explorar mais esse lado abafado da minha pessoa. Acredito em inspiração. Acredito em sonhos. Acredito em muitas coisas que só conseguiram se tornar mais claras quando mantive o Random Girl vivo por muito tempo. Quando comecei a receber feedbacks positivos em algumas postagens, até ser encontrada e reconhecida pela minha bolsa da Branca de Neve em um encontro com a Cassandra Clare por alguém afirmando que alguns dos meus textos lhe dão força, não poderia ignorar isso por mais tempo.

 

Parafraseando Emma Watson, apenas pensei: se não fosse agora, quando?

 

O que vem agora?

 

No que diabos você está se transformando, Stefs?

 

Resposta: uma melhor versão de mim mesma.

 

Tudo que contei no começo deste post rebate perfeitamente no agora. De novo, tenho certeza que não teria me tornado essa pessoa se não tivesse convivido em um meio conturbado. Se não tivesse sentido a maldade na pele ou visto pessoas ficarem magoadas por minha causa. Nem todo passado é ruim. Ele tem plena capacidade de nos tornar versões melhores de nós mesmos. Como sempre digo: o resultado está em nossas mãos.

 

Quando caiu a ficha de que seria uma Chapter Leader, o dia seguinte teve um gosto diferente. Senti-me especial, como há muito tempo não me sentia. Importante. Que não estou aqui apenas para tomar brisa. Acredito que ninguém está aqui à toa, de que ninguém está aqui apenas para sofrer ou ser feliz, para amar ou para ser menosprezado. Uma vida sem propósito é uma vida sem luz, e sempre fui muito indecisa sobre tudo o que queria e ainda quero para mim (geminianos indecisos). E quando encontrei esse ponto sensível, aquele que você sabe que acarretará possíveis mudanças, ele não poderia ser ignorado.

 

Por agora, o meu desafio é lançar o capítulo. E encontrar um espaço com Wi-fi (qualquer indicação ajuda).

 

E, claro, abro o convite para quem quiser conhecer o I AM THAT GIRL. Não importa de que canto de São Paulo, adoraria apresentá-la ou apresentá-lo a esse movimento. Bastam encaminhar um email para stefslima@gmail.com.

 

Mais conteúdo sobre I AM THAT GIRL será compartilhado aqui no Random Girl para vocês conhecerem melhor esse sistema de suporte gracioso. Mais rápido do que imaginam! #BeThatGirl

Stefs
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  • *-*

  • heyrandomgirl

    Own marida, linda! <3 Obrigada! *-*

    Pois venha. Cê sabe que será mais do que bem-vinda! <333 Porque há amor aqui – e eu obviamente hahhahahahahaha.

  • Mônica Oliveira

    Se eu já não te amasse, passaria a te amar depois desse post! Marida minha, tô MUITO feliz por você!! Tenho certeza que você é a pessoa certa pra isso, e fará um job maravilhoso como chapter leader. Taí mais um motivo pra eu visitar São Paulo com mais frequência <3

  • heyrandomgirl

    AMÉM! Tomara mesmo que tudo dê certo e estou mto, mto, mto feliz em fazer parte do movimento, completamente. Vamos compartilhar muitos capítulos juntas <3333

  • heyrandomgirl

    Oie, Fabiana, obrigada pelo seu comentário lindo e motivador! *-* Não vejo a hora de começar como se deve, embora o primeiro passo seja o mais importante para continuar a trajetória. Mto, mto obrigada *-*

    Beijossss!

  • Fabiana Ribeiro Do Nascimento

    Oi Stefs!
    Faço parte do grupo de Porto Alegre com a Isa! :) Vim aqui te mandar um beijão e dizer que tu é muito bem-vinda no movimento, e com certeza os altos e baixos da tua vida contarão (e muito) pra um chapter bem-sucedido! 😀
    Abraço!

  • Isadora

    Tu é uma linda! Toda e qualquer menina ou menino que fazer parte do teu grupo vai ser extremamente sortudo! Muito feliz de compartilhar essa vida that girl contigo! <3