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24/fev

Simplesmente, não podia deixar esse discurso passar batido. Ele me fez lembrar justamente deste pedaço de mundo aleatório e de algo que acredito muito: a beleza no diferente.

 

Dentre poucas coisas que realmente me cativaram ou me emocionaram na 87ª edição do Oscar, está o discurso de Graham Moore, que levou o prêmio de Melhor Roteiro, honrando a maravilha chamada O Jogo da Imitação. Ele nem precisou completar o pensamento para eu me familiarizar com tais palavras. Sou completamente sensível a determinados temas e, como era de se esperar, chorei como se não houvesse amanhã. E morri de orgulho por ver um homem expor o lado mais sensível e inseguro de si mesmo para milhões de pessoas.

 

Afinal, sempre é a mulher que desabafa seus problemas pessoais ou gritam por #EqualPay na mídia. Ver Moore no centro do mundo, agarrado ao seu homem dourado, pedindo para que todos continuem a ser esquisitões, ofuscou até mesmo a deusa Patricia Arquette, que também fez um discurso inspirador que tirou Meryl Streep da cadeira.

 

Moore tentou tirar a própria vida aos 16 anos. Por se sentir diferente. Por se sentir esquisito. Quem nunca sentiu esse ácido na pele, certo? Sempre indo contra a maré, sendo visto como um criminoso por não acompanhar o mesmo barco que todo mundo. O roteirista alegou que é heterossexual, já que muitos pensaram o contrário, pois parte do discurso foi inspirado no filme que escreveu. Isso não o impediu de ser sensível e transparente com algo que abala muitos adolescentes. Isso não o impediu de ser verdadeiro.

 

Assim como muitos de nós, o Moore adolescente achou que não se encaixava, o que o levou a depressão. Ele achou que não era o bastante. Ele se achava esquisito demais para uma sociedade que ainda força goela abaixo essa necessidade de perfeição. Essa necessidade de estar impecável. E é sempre muito bom quando os esquisitões são donos da festa.

 

Oficialmente, Graham Moore se tornou orador do Random Girl. Ele reafirmou algo que comentei por aqui no ano passado: seja esquisita, seja aleatória, seja quem você é. Emendando o pensamento dele: acho que todos nós nos sentimos esquisitões por motivos diferentes.

 

E é esse o segredo da felicidade: não ter vergonha de si mesmo.

 

Há muitas coisas que nunca cansarei de repetir e uma delas é: a adolescência é um divisor de águas. Dos 15 aos 17 anos, há um duelo interno e externo sobre quem você é e quem você será. Por mais que possa haver pressão dos pais, nada mais árduo e desesperador que brigar consigo mesmo. Não só para mensurar o próprio valor, mas para se enxergar e se reconhecer diante do espelho. Uma tarefa que ainda é complicada para muitos.

 

Muitos dizem que a criança é mais frágil, e discordo. Nossos pais nos protegem (ao menos, é o que se espera) até chegar o momento de sair da bolha. Há sim as piadinhas infantis. Elas também machucam, acarretam cicatrizes ou traumas, mas na adolescência as coisas são mais agressivas. Literalmente, é um Jogos Vorazes. Você precisa sobreviver e se lembrar disso o tempo inteiro.

 

Alguns bambeiam para não cair, outros chegam perto de cair, como Moore, e outros simplesmente caem. Essa é a fase que nem todos têm as melhores lembranças. Afinal, enfrentamos os mais variados tipos de situações, conhecemos os mais variados tipos de pessoas, e batemos de frente com os mais variados empecilhos que, a meu ver, não passam de testes de caráter. Porém, não são todos que saem bem-sucedidos dessa batalha.

 

No fim, o produto final dessa vivência só dá duas opções: ser um adulto melhor ou pior.

 

Nos meus adorados anos 90, a diferença entre um e outro era medida nas coisas que você tinha, na forma que você se apresentava ou nos seus hobbies. Não que isso tenha mudado hoje em dia, mas era a nossa etiqueta. Um exemplo simples: a minha sala de aula se dividia entre meninas que tinham pastas de alguma boy band e meninas que faziam de tudo para chamar a atenção dos meninos.Eu era (ainda sou) fangirl.

 

Até hoje tenho as pastas que montei com o passar dos anos, desde Leo DiCaprio até Harry Potter. Quando tinha 15 anos, sentia orgulho disso. Como adulta, há pessoas que querem que eu sinta vergonha dessas preciosidades. Traduzindo: elas querem que eu tenha vergonha de quem eu sou por causa dessa “esquisitice” de ser fangirl. Só lamento!

 

Um problema que nem merece ser chamado de problema, mas simboliza uma diferença. Porque é mais confortável e seguro ser igual a todo mundo. Porque é esquisito uma garota que deveria ter interesses “mais reais”, como o escândalo dos vazamentos do HSBC, vibrar em nome de alguém ou algo que admira muito. Como se eu tivesse realmente muito interessada na mídia camuflando certas coisas pela milésima vez em cada século.

 

Cada um tem a sua luta, essa é a mais pura verdade. Driblei muitos problemas e engoli vários que afetaram minha autoconfiança, minha autoestima e minha autoimagem. Sentia-me estranha por não ser como uma daquelas meninas bonitas, com os cabelos lisos e impecáveis. Sentia-me estranha por ser a única da roda com pais divorciados. Fui cruel na maioria das vezes com outras pessoas. Em grande parte, por ser insegura e/ou por não querer que ninguém me machucasse. Fui egoísta até ver que tanta angústia não me levaria a canto algum. Muitos desses problemas carreguei para a minha vida adulta e ainda há muito o que melhorar.

 

Por mais que seja uma luta, você precisa vencer sobre ela. Tornar a dificuldade em um aprendizado.

 

No fim, tive que descobrir o que valia a pena. Não só para ser uma adulta melhor, mas pela minha sanidade e pela minha saúde. Dentre tantas coisas que enfrentei na adolescência, está uma anemia forte, que tem como um dos “brindes” a depressão, e eu quase cheguei lá. Tudo por causa do meu perfeccionismo extremo de querer me provar para os outros e não para mim. Foi tão forte que me sentia exausta de sair do quarto e ir até o banheiro.

 

Hoje em dia, dizer que alguém sofreu bullying, que sofreu com depressão, que lidou com um distúrbio alimentar vem bem acompanhado da palavra “besteira” ou “frescura”. E não é besteira. Nem muito menos frescura. Por causa desses “adjetivos”, ninguém sabe quem realmente sofre. Ou quem sofreu. Ou quem continua a sofrer em silêncio.

 

As experiências do passado podem colocar em cheque quem você será. Isso é fato. Há quem as usam como estepe para justificar certas atitudes. Outros simplesmente vencem e se tornam seres humanos incríveis. Circunstâncias negativas colocam em cheque a autoaceitação. E é justamente onde tudo começa, nessa descrença de si mesmo por causa das pressões externas e internas. A insegurança de não vencer misturada com o pavor de não ser alguém. Quando você se acerta com você, as mudanças começam. Tudo flui.

 

E quando se aprende do jeito mais difícil, como Moore aprendeu, como eu aprendi, e como tantos outros aprenderam, não desejamos que mais ninguém passe pelo mesmo.

 

Na infância, temos medo do escuro. Ao sairmos da toca, temos medo das pessoas e das circunstâncias. Estamos expostos e, por mais que sejamos fortes, nem sempre um baque é recebido como se espera. E é justamente aos 15, 16 e 17 anos que todos esses baques nos definem. Eles nos preparam para a vida adulta. Dali por diante, a escolha está nas nossas mãos.

 

Graham optou por viver. Ele contou com o apoio dos pais e dos amigos durante a recuperação. Eu passei por um tratamento que me manteve aqui. Seria maravilhoso se o único problema da adolescência fosse falta de mesada, não é? Há pessoas que enfrentam coisas demais muito cedo e não deveria ser assim. Ainda mais em uma fase que experimentar e curtir são ordens.

 

Mas há males que vão para o bem. Todos os dias, me convenço de que se não tivesse passado por essas e outras coisas, não seria a pessoa que sou hoje. Mesmo tendo passado muito tempo fechada, sempre soube onde estava minha sensibilidade. Minha visão sobre determinados assuntos é mais delicada. Minha escrita é mais emocional e, talvez, mais profunda. Meu modo de fazer as coisas tem mais amor envolvido. E tornei-me sincera.

 

Aquelas circunstâncias que nos fazem esquisitos aos olhos dos outros, que nos impulsionam as tais maiores burradas, especialmente contra nós mesmos, são as que tornam muitos de nós sobreviventes. Acima de tudo, especiais.

 

Moore usou seus poucos minutos no palco para dizer o que muitos adolescentes adorariam ouvir: seja quem você é. Esquisitões também têm direito aos holofotes. Esquisitões também pertencem a essa sociedade. Esquisitões podem ser tão bem-sucedidos quanto os Impecáveis. Ele quis que os poucos minutos, caso ganhasse, fossem significativos, e suas palavras renderam um belo discurso. Verdadeiro. Real. Genuíno.

 

Dessa forma, é importante que pessoas que passaram por dificuldades semelhantes conversem e mostrem que há sim como ultrapassar essa fase. É válido lembrar da mensagem incrível de O Jogo da Imitação: às vezes, são as pessoas que ninguém espera que fazem as coisas que ninguém imagina. Alan Turing não teve condições de lutar por si mesmo, mas usou sua genialidade para salvar vidas. Graham Moore é um escritor e tenho certeza que esse é só o começo de uma promissora carreira.

 

E eu estou aqui apenas para frisar: continue a ser esquisita, continue a ser diferente, continue a ser quem você é. Continue a ser aleatória. Há beleza na diferença. Seja seu próprio herói ou heroína. Não há ninguém que possa lhe salvar a não ser você mesmo. Demora para se ter coragem, mas, dando o impulso, você verá que seu cantinho neste mundo está a sua espera.

 

 E, lembrem-se:  são as pessoas que ninguém espera que fazem as coisas que ninguém imagina.

 

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento.

Stefs
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  • heyrandomgirl

    Graham, melhor pessoa! Já virou símbolo do RG! Hahahahaha Tinha que rolar uma entrevista exclusiva, sem mais #sonha

    Falar dos dark days nunca é fácil, mas vamos que vamos, certo? Vomitar o que tá engasgado.

    HAHAHAHAAHAHAHAH minhas pastas custaram muito dinheiro para jogá-las fora. Nem quando era wannabe Amy Lee fiz uma barbaridade dessas [e tenho uma pastinha do Evanescence, que só não ficou maior por causa de HP].

  • Mônica Oliveira

    Pensei em você na hora que eu vi o discurso dele!!! Amo quando você escreve sobre os dark days da adolescência, Marida. E te invejo por ainda ter as suas pastas, eu joguei todas as minhas fora quando comecei a gostar de rock e achava que era gótica! hahahahahahaha Pastas e mais pastas dos BSB, discografias completas dos BSB, das Spice, do Westlife… que dor no coração!!!