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11/fev

Gosto muito de filmes que deixam um gosto amargo na garganta e oportunizam uma sinistra pausa para reflexão, ao ponto de nos fazer rebobinar alguma fase da vida. Foi isso o que aconteceu comigo quando terminei de assistir Livre (Wild), estrelado por Reese Witherspoon. Jean-Marc Vallée é quem o dirige, um nome que tem meu voto de confiança por ter assumido dois longas que amo demais – Clube de Compra Dallas e A Jovem Rainha Victoria. Então, já estava bem convicta de que minha decepção com esse projeto seria nula. E foi.

 

Livre também pertence à lista de cinebiografias badaladas desta temporada de premiação, junto com O Jogo da Imitação e A Teoria de Tudo, e rendeu a Witherspoon a indicação ao Oscar de Melhor Atriz. O roteiro foi inspirado no livro Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail, assinado por Cheryl Strayed, a protagonista dessa história. Resumidamente, o longa retrata as aventuras, encontros e desencontros dessa mulher que simplesmente sai da sua vida bagunçada, motivada pela dor da perda e pela vergonha de si mesma, e decide fazer uma trilha. Apenas com a cara e a coragem.

 

A história começa com Cheryl, sentada, sentindo dor por causa de uma unha do pé. Até aí, você se pergunta se é o cliffhanger do filme ou os primeiros sinais de que a aventura está de mal a pior. A frustração da personagem aumenta quando perde um pé de suas botas. Revoltada, ela ruge contra a natureza, rancorosa, desabafando a dor física e emocional. Incômodos e sentimentos lançados no ar e que fazem parte da trajetória dessa mulher que tenta extirpar tudo de ruim de dentro de si mesma. Só que, para isso, há uma longa caminhada pela trilha Pacific Crest Trail, com mais de mil milhas das quais está bem disposta a enfrentar.

 

Depois dessa cena, o longa respeita o tempo cronológico de Cheryl embrenhada em diferentes pontos da trilha. A personagem caminha, dolorosamente, querendo aliviar a perda da mãe e o desprezo que tem sobre si mesma. Dois detalhes realçados na trama por meio dos flashbacks que apresentam recortes da vida dela antes de se esconder em várias florestas. São flashes de uma fase conturbada e desconfortável, que dão apoio à caminhada, dia após dia, faça chuva ou faça sol, de uma pessoa que quer sair da lama. Inclusive, ela não manja nada de como sobreviver na natureza, o que rende momentos engraçados e tensos em meio à reflexão.

 

O passado dela é exposto em relances que vão desde o convívio adorável com a mãe, a adolescência promissora até a vida adulta pós-catástrofe que a tirou do eixo. Entrelaçado a tudo isso, vemos a pior fase de Cheryl, que se rende a um luto permanente que a impulsionou a comportamentos erráticos, como sexo à lá Tiffany de O Lado Bom da Vida, e uso de heroína. Ver essas cenas sinalizam o quanto ela se destruiu e está destruída, tanto sentimentalmente quanto moralmente. A cada passada, ela duela consigo mesma, analisando e pesando os últimos acontecimentos da sua vida, e a possibilidade de desistência.

 

Este é aquele tipo de filme que você precisa ter conexão com o personagem. Reese leva a história, literalmente, nas costas. Você passa a gostar de Cheryl pela leitura dos livros que a mãe amou, das passagens no diário, dos quotes que introduzem cada novo percurso. Isso torna a história mais inspiradora do que aparenta. Há detalhes que cutucam qualquer ponto de identificação, escondido em nós mesmos, que se relaciona com aquela situação. Não é preciso ter vivido o mesmo que ela, pois o desejo de dar a volta por cima é universal e impulsionado quando batemos a testa no fundo do poço.

 

Refleti demais sobre autodepreciação, algo intrínseco a minha juventude. É difícil se restabelecer quando não se tem fé em si mesmo e fé no próprio futuro, tormentos que assomam a mente de Cheryl a todo instante.

 

Livre traz uma jornada que visa uma redescoberta. Cheryl não se rende a uma temporada na floresta para aprender a sobreviver, mas para reaprender a se aceitar. É uma chance de cobrir os vazios no peito, muitos acarretados pela perda da mãe. A personagem busca algo novo para se sustentar e um novo ponto de vista sobre a vida para conseguir ir adiante. Dentre muitos diálogos brilhantes, o que mais chamou minha atenção é quando ela afirma o quanto era boa. O quanto queria as coisas. Pontos que reforçam o quanto ela se perdeu do caminho e que, automaticamente, dão valor à trilha, o meio que encontrou para fazer as pazes consigo mesma.

 

Cada parada de Cheryl, cada vitória e cada empecilho servem para impulsionar sua redenção. Não do mundo, mas como mulher. Como pessoa. Sozinha no meio do nada, sem nenhum domínio de como viver na natureza, ela só tem conhecimento do próprio sofrimento e da própria vergonha. Conforme desbrava a trilha, ela vai se redescobrindo. Literalmente, a protagonista sai de férias carregando a pior versão de si mesma para encontrar aquela que era melhor e otimista. Aos poucos, ela fortalece sua independência e começa a se autodominar. A cada empecilho, a personagem arranca força de onde não tem para continuar.

 

O roteiro aborda um compromisso de si consigo mesmo. Mesmo que os flashbacks apresentem uma mulher “toda errada”, Cheryl é humana e isso rebate na história. Tudo é real, os sentimentos são palpáveis. Os medos e os receios, as inseguranças e as expectativas… Tudo é elevado e tangível conforme os avanços na trilha. O longa pesa no quanto uma mulher sente mais vergonha dos seus atos que um homem, e do quanto ela geralmente recorre a medidas consideradas drásticas para recomeçar. Esses são alguns pontos que a protagonista quer remediar em meio às intempéries que, nem sempre, tem a ver com a natureza que a rodeia.

 

Cheryl agarra uma missão difícil: lidar com os próprios demônios. Não são todas as pessoas que batem no peito, reconhecem os erros e tomam responsabilidade. Não são todas as pessoas que assumem que há algo errado na vida e preferem carregar essa insatisfação até se perder do trajeto. A protagonista de Livre se deu a oportunidade de uma recuperação com base em uma atitude radical. Uma atitude que nem todo mundo toma, justamente por medo de sair da zona de conforto, outro desafio de Cheryl.

 

Foi meio impossível não associar Livre ao filme A Natureza Selvagem, que segue o mesmo caminho, mas que se diferencia no pretexto. Neste caso, Cheryl faz uma trilha para se libertar e se reencontrar. O ponto crucial é o desejo dela em eliminar a autodepreciação. Ela tem nojo de si mesma. Não há orgulho de ser quem é nesta história, pois isso é o que a personagem busca. Não há autoestima, mas força de vontade em mudar. O maior desejo da protagonista é reencontrar a mulher que um dia foi: esperta, talentosa, cheia de expectativa… Cheryl quer se renovar, mas não esconde o temor de não conseguir. Inclusive, ela não esconde o medo de voltar à rotina e se entregar a vida de antes.

 

O filme mexe com o coração e com a mente. Há quotes maravilhosos que remetem a cada capítulo dessa jornada sobre a reconquista de si mesmo. Cada curva do percurso parece fácil, pois os obstáculos não são evidentemente complicados como em A Natureza Selvagem, em que vemos um personagem sem dinheiro, passando fome e frio, até padecer. Porém, não há nada mais desafiador que passar uma temporada consigo mesmo na tentativa de se curar. Não é preciso fazer uma trilha para realinhar o melhor de si. Basta força de vontade. Enquanto muitos se rendem a solidão, Cheryl foi além. Ela se embrenhou em um desafio que exigiu tudo dela.

 

Livre envolve, do começo ao fim, pois o esperado é que a personagem seja sugada pelo trajeto e não encontre o final feliz. Embora fique nas reticências, o foco essencial é aliviar o peso do remorso, da baixa autoestima, da solidão, da perda. O filme é, essencialmente, sobre reencontrar o amor próprio. O que sufoca na trama nem é a jornada ou as paisagens, mas a dificuldade de Cheryl em perdoar a si mesma, o que casa com o medo de nunca se redimir. O que a protagonista intenciona a todo o momento é ser boa de novo. Consigo mesma.

 

Acompanhei diversos trabalhos da Reese e tenho direito de expor meu orgulho ao ver o rumo que a carreira dela tomou. Para quem veio de hits como Segundas Intenções e Legalmente Loira, essa estabilidade profissional lhe rendeu mais um ano consagrado. Não tem como não admirá-la!

 

Sem contestar, é um filme intenso e reflexivo que fica com você por dias.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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  • Não creio que estou com essa resenha salva nos favoritos desde que você postou e só agora eu vim ler. Lembro de assistir o filme porque vi que tinha resenha e nunca li a resenha. Como pude?

    Eu tenho muita vontade de fazer algo parecido com o que ela fez por motivos de que me vi nela em muitos momentos. O filme é tudo isso que você disse e muito mais. É uma caminhada de re-descobrimento, afinal, ela sabe quem ela é, só está perdida.

    Queria mais filmes assim nos catálogos dos cinemas.

    • Cê me deixou com vontade de ver esse filme de novo. Só lhe perdoo porque demorei em responder comentários, porque estou deveras desanimada com a saída do Disqus da minha vida hahahahah

      Por mais filmes assim no cinema sim, com certeza. Cansada de blockbuster ><