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20/fev

Selma: Uma Luta Pela Igualdade (Selma) é um filme que merecia todos os prêmios e ver as esnobadas nas premiações foi meio revoltante. Este é aquele tipo de obra-prima cinematográfica que não economiza em nada na dramatização e faz quem assiste se sentir desconfortável na própria pele. É aquele tipo de longa que impregna, que sufoca, que atiça dentro de nós um parasita adormecido em querer acarretar mudanças ao nosso redor. Em querer fazer o bem. Sendo bem honesta, ainda não consigo entender o descaso, pois, junto com A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação, a história é profunda, pesada e transmite muitas mensagens maravilhosas.

 

O consolo de indicação a Melhor Filme e a Melhor Ator não me fez feliz.

 

Dirigido por Ava Duvernay, a grande questão do filme é: como você gostaria de ser lembrado? Para dar essa resposta, o roteiro de Paul Webb fez um recorte de um dos momentos mais icônicos do ativismo de Martin Luther King. No caso, a campanha e a batalha pelo direito igualitário de voto aos negros em uma marcha que partiu de Selma até a capital Montgomery.

 

A primeira cena de Selma é decisória para o que acontece em 2 horas de filme. Martin recebe o prêmio Nobel da Paz ao mesmo tempo em que garotinhas negras perdem a vida em uma explosão dentro de uma igreja em Selma, Alabama. Logo em seguida, saltamos para a sala do presidente Lyndon, onde King insiste em uma legislação que permita a população afro-americana votar. Não apenas como medida igualitária, mas como uma tentativa de expurgar a intolerância acarretada pelo racismo intrínseco nos anos 60.

 

A divergência de opiniões e de prioridades na agenda do presidente conflita com o desespero de King que quer um posicionamento imediato. Contrariado, ele se prepara para criar uma agitação em Selma, a fim de chamar a atenção à causa que intenciona abolir todas as burocracias que impedem a população negra de participar das eleições. A princípio, o local parece aconchegante, mas logo se revela um point onde há uma concentração significativa e esclarecida de brancos racistas.Não demora muito para o personagem se tornar um porta-voz estridente, incômodo, não só para o governador George Wallace, o racista-mor da cidadezinha, mas para a Casa Branca que tenta barrá-lo com auxílio do FBI.

 

Mesmo com todos os pedidos para que pare e com os ataques contra membros do grupo, King não deixa esmorecer o desejo por direitos iguais. O objetivo dele é chamar a atenção, até mesmo da mídia, para a necessidade da população negra em fazer parte da democracia. Reunião após reunião, marchas são feitas em locais específicos da cidade que terminam sempre em truculência. São nesses conflitos que o filme mostra o agridoce dessa história, em que o racismo era praticamente uma religião, e os brancos que se associassem à causa eram tratados efetivamente como escória. Com a mesma brutalidade. Com a mesma crueldade.

 

Não tem como não concordar com o presidente sobre o oportunismo de King em criar essas agitações, ainda mais quando sua participação se resume apenas à oratória e não a ação. Juro que fiquei indignada em alguns momentos. Afinal, como você é ativista e não sente o drama na própria pele? As cenas em que ele fica parado, observando o caos, me tiraram do sério.

 

Sem dúvidas, o que torna Selma visceral é o trabalho de câmera feito por DuVernay. Ela dá ênfase a cada golpe brutal, cada grito, cada passada desesperada das marchas. Ela deu destaque justamente para as cenas que incomodam. Que mexem com as nossas emoções. Que nos faz refletir sobre a crueldade do ser humano. Cada tomada mais fechada em cima de uma mulher que cai ou um adolescente golpeado reforça o pavor, o medo, o desespero de cada ato, acompanhado de um zunido agudo que dá arrepios. Créditos a mais ao jornalista que narra os acontecimentos e que torna tudo mais agonizante de assistir.

 

As melhores tomadas do filme são as duas marchas na histórica ponte Edmund Pettus. Na primeira, DuVernay captura a violência impiedosa, sem filtro, contra homens e mulheres. Cavalos, tiros, cassetetes e até chicotes são o bastante para qualquer músculo se contrair de receio. Você sente cada pancada, como se fosse contra o seu corpo. Na segunda, a tomada vem de cima, dando grandiosidade a marcha que contou com a presença de King. Um diferencial gritante da primeira manifestação absurdamente chocante.

 

A atuação de David Oyelowo é estridente. Impecável. Forte. Ressonante. Cada palavra atinge o coração. Cada palavra de inconformismo nos traga. Cada gesto de inconformismo nos envolve, acarretando o desejo de fazer parte daquilo. O ator toma a história de um homem icônico para si, cheio de energia, confortável no papel que sempre almejou. Oyelowo rasga você de dentro para fora. Isso e os embates faz com que Selma invada completamente a nossa pele. Torna a história pulsante.

 

Selma não é uma biografia. Não é um documentário. O filme se apoia em um processo político, uma luta que uniu pessoas contra tudo e todos por um direito democrático. Há morais, valores, julgamentos que arrematam a pergunta que apresentei no começo desta resenha: como você gostaria de ser lembrado? Em algumas cenas, nem é preciso que os personagens falem, pois a decisão misturada com o medo está no olhar e nos traços tensos.

 

A vitória maior não é nem o direito a voto, mas a definição de muitos caracteres. Como King diz: você quer ser lembrado por “não posso” ou “deixa para depois”? Indagações que pesam na trama. Além dessa pergunta significativa, Selma atiça algo dentro de nós, o desejo de querer fazer alguma coisa para melhorar algo nesta vida. De disseminar algo importante. De tirar a traseira da cadeira.

 

Esse sentimento de querer fazer algo foi o que mais me atraiu. Sempre admirei o ativismo dos outros e cheguei a um momento da vida que cansei de apenas assistir. E isso mexe com você, especialmente quando se tem o desejo enrustido de fazer a diferença. Basta acreditar e isso será o bastante para visualizar o percurso. O longa tem uma trama decisória em diferentes âmbitos, porém, pesa mais no conflito de moralidade.

 

King nos cutuca e nos faz pensar no que queremos como pessoas e seres humanos. É complicado demais travar uma batalha e se manter fiel a ela, e esse filme explora isso de diferentes pontos de vista.

 

Selma: Uma Luta Pela Igualdade é um filme que altera até o seu DNA. Claro, se você permitir.

 


Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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