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02/fev

Histórias de amor precisam ser absurdamente intensas para tirarem meu coração do lugar. Histórias de amor precisam transitar entre a inocência e o sacrifício para criar uma marca profunda dentro de mim. Histórias de amor precisam me consumir por inteiro para eu mergulhar dentro delas. A Teoria de Tudo provocou tudo isso e mais um pouco, tornando meu pretexto de escrever sobre ele um tanto quanto difícil. Amei-o, nas duas vezes em que o assisti, e estou pronta para amá-lo mais algumas vezes. Quem sabe, para sempre.

 

Fazia tempo que um filme que conta uma história de amor não me deixava baqueada. Não no sentido negativo. É um baquear entorpecente. Que te leva para longe. Minha mente emudeceu várias vezes quando sentei para escrever esta resenha, pois, muito provavelmente, minhas palavras não farão justiça aos elogios que tenho à adaptação. Esse longa se tornou, sem pestanejar, um dos meus queridos desta temporada de premiações, na companhia de O Jogo da Imitação, Whiplash, Selma e Livre.

 

A Teoria de Tudo (The Theory of Everything) é uma cinebiografia dirigida por James Marsh, inspirada no livro de memórias Travelling to Infinity: My Life with Stephen, assinado por Jane Wilde (Hawking), ex-esposa do personagem central dessa história: o astrofísico Stephen Hawking.

 

O filme começa em 1963, em Cambridge, na Inglaterra, onde vemos o jovem Stephen, animado e saudável, prestes a conhecer Jane. O primeiro encontro dos personagens realça as diferenças, ditas como influentes na separação, de gostos e de interesses logo de cara, detalhes que poderiam ser o bastante para o amor recíproco não nascer. Ele, ateu, estudante de cosmologia, prestes a ter o doutorado em física. Ela, católica, estudante de literatura, sem o mínimo de conhecimento de cosmologia – a área de interesse de Stephen.

 

Um encontro que tinha tudo para ser o último vira uma bela história de amor e de superação.

 

Depois das apresentações dos personagens, a dramática de A Teoria de Tudo é centralizada: o diagnóstico de Stephen com a doença do neurônio motor, o que lhe dá 2 anos de vida. Isso abala as estruturas dele, dos amigos, dos professores e da família. E, claro, de Jane, que se vê na corda bamba entre pular do barco ou permanecer ao lado do homem que está apaixonada. Ao ficar, ambos correm contra o relógio para viverem e se amarem intensamente, em um curto espaço de tempo que logo se revela maior que o esperado.

 

Tempo. Essa é a palavra-chave literal do filme que percorre o avanço da doença e a vida amorosa de Stephen e de Jane. Tudo com uma leve pincelada. O roteiro explora, levemente, o estado dele, que se fortalece nas mudanças físicas de Eddie Redmayne e na passagem de tempo acarretadas com cenas tipo registro, como filmagem caseira. O foco real é o relacionamento dos protagonistas no decorrer da turbulência. A doença em si serve de respaldo para mostrar as mudanças no comportamento do casal, que se veem em momentos de frustração e de desespero, onde a única solução aparentemente viável é desistir.

 

Assim, a pergunta primordial do filme é: até onde amor deles resistirá?

 

Stephen e Jane se meteram em um duelo já cientes de que sairiam como perdedores. Como virar cada página da história? Como ter uma rotina normal? Como cuidar dos filhos? Como se manter fiel ao que sente? Como se manter fiel a si mesmo? O amor vencerá pelos dois?

 

Ao mesmo tempo em que a doença e o relacionamento com Jane engrenam, a genialidade de Stephen não é deixada de lado. Antes mesmo de se casar, o filme faz um recorte do interesse do personagem sobre a singularidade do tempo, tema do seu projeto de pesquisa. Da mesma forma que o romance cresce, o mesmo cabe para as ideias de Hawking, o ponto que mostra que, apesar de tudo, ele não se perdeu de si mesmo. Porém, é uma abordagem bem econômica.

 

Os insights do personagem não são a razão do filme, mas dão força a palavra superação. Mesmo inábil e, por vezes, frustrado e infeliz, especialmente por não ser mais o homem que Jane se casou, os estudos simbolizam seu gosto e sua necessidade de fazer a diferença. De mostrar que a doença não corroeu seus pensamentos. “Não importa o quanto a vida pareça ruim, há sempre algo que se pode fazer e ser bem-sucedido”, diz o filme, o que crava o desejo de mudanças. Uma frase que é a essência de Stephen. O que cativou Jane e que nos cativa.

 

Por mais que seja uma cinebiografia sobre Stephen Hawking é importante que vocês saibam que se trata de um romance. O foco não é cosmologia e física geral, mas o amor. O filme realmente começa quando Jane escolhe ficar com ele, no tempo de 2 anos que se tornaram mais de 10. A decisão dela também engrandece o potencial dramático da trama, causando rompantes no peito por causa dessa briga contra um inimigo que, até hoje, é imbatível. A fragilidade e a vida de Stephen são consumidas, pouco a pouco, ao mesmo tempo em que a alegria e o otimismo dela são substituídos pelo cansaço, por gestos minimalistas e por um coração endurecido.

 

Há um cuidado em mostrar o avanço da doença graças às cenas fechadas que realçam as mudanças das mãos, das pernas e dos pés de Stephen. Friso o que muitas resenhas afirmam: Eddie Redmayne leva o filme nas costas. Da mesma forma que fiquei espantada com as transformações de Jared Leto e de Matthew McConaughey, em Clube de Compras Dallas, o mesmo vale para esse maravilhoso ator que dificilmente me decepciona. Eddie agarrou o personagem, foi minucioso, bateu o pezinho ao ponto de até exigir mudanças na fala.

 

Eddie abocanhou muitos prêmios não apenas por ter atuado com excelência, mas por ter se entregado de corpo e alma a um papel dificílimo. Seu desafio maior nem foi mudar a voz, mas os trejeitos para atender o tempo de gravação. Redmayne teve que assumir as transformações em curto espaço de tempo. Como ele mesmo frisou em algumas entrevistas, a qualidade da sua performance afetaria todo o resto. E afetou, duramente, e me debulhei em lágrimas nas duas vezes que assisti A Teoria de Tudo.

 

Não tem como não se apaixonar pelo Stephen do Eddie, que fala com o olhar, as sobrancelhas e o sorriso sapeca que simboliza um tremendo senso de humor. O ator conseguiu fazer com que seu personagem se expressasse perfeitamente com o toque dos dedos, com o encolher dos ombros e com cada ruga de tensão no rosto. Acima de tudo, ele não se esqueceu do mojo principal: transmitir o quanto aquele homem ainda reconhecia sua genialidade apesar de tudo. E toda vez que a expressão de pesar dele surgia na telona, meu Deus!

 

É bem provável que muitos tenham achado Jane odiosa. Eu a compreendi, e isso foi fundamental. A doença de Stephen colocou o amor à prova, e só quem viveu uma situação parecida sabe o quanto é difícil. O quanto a impotência é capaz de destruir a fé mais implacável. Quando ela decide ficar e cuidar dele, e repete isso na frente do Sr. Hawking, me vi nessa garota, assumindo uma responsabilidade desgastante e degradante. Algo transparente no rosto endurecido de Felicity Jones com o passar do tempo.

 

Jane passou anos da sua vida dedicada ao Stephen, mais como enfermeira que como parceira. Não é todo mundo que bate no peito e assume uma responsabilidade dessas. Ela me representou. Ela foi valente, forte e inspiradora. Acima de tudo, humana, com todas as falhas.

 

Marsh nunca escondeu que a essência de A Teoria de Tudo é a história de amor e como duas pessoas lidam com complicações que a vida insiste em colocar no caminho. O trailer mostrou isso. O livro do qual o roteiro foi adaptado gira em torno de tudo que foi visto na telona, um recontar sobre o relacionamento de Jane e Stephen, o diagnóstico da doença, a vivência, a separação e o sucesso dele na física. O longa cumpriu o prometido e mostrou o quanto o amor inocente, cheio de possibilidades, se torna complexo, substituído pelo agridoce da impotência.

 

O filme pode não agradar todo mundo por ter como sustento um romance absurdamente intimista. É como espiar Jane e Stephen pela fresta da porta. Portanto, é bom diminuir as expectativas se o seu interesse é ver quem é Stephen Hawking e o que ele conquistou, pois esse não é o plot. É uma história apaixonante que, no final das contas, ensina que a trajetória é o que importa.

 

Menções honrosas para David Thewlis, o eterno Remus Lupin, inspirador como o professor Dennis, e para a linda da Emily Watson, que fez uma pontinha mais que suficiente para doer meu coração como a mãe de Jane. Os cenários e a trilha sonora embalam esse amor jovem que se vê obrigado a amadurecer muito rápido por causa das circunstâncias. A Teoria de Tudo é uma lição sobre não desistir, não só de quem se ama, mas de quem você é.

 

Informação útil: acho que nem preciso comentar o quanto gritei com todas as referências de Doctor Who, né? Queria aquele Dalek-Redmayne para mim!

 

PS: o final do filme me deu arrepios!

 

“While there’s life, there is hope”

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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