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03/fev

Este é um daqueles filmes que pede muita reflexão depois do término. Não por motivos críticos, mas por mexer com uma palavra que pertence ao meu potinho de preciosidades: sonhos. Desde o ano passado, tenho comentado bastante aqui no blog sobre a importância de ir atrás do que deseja, custe o que custar, independente das possibilidades de ser bem-sucedido ou não. Independente da vitória ou da perda. Por mais que não tenha voltado nesse assunto, meus sonhos estão mais vívidos do que nunca, e este longa serviu de lembrete ao me dizer simbolicamente que ainda é muito cedo para desistir.

 

Whiplash Em Busca da Perfeição (Whiplash) mexe com os sonhos de Andrew, um jovem de 19 anos, baterista que se empenha, todos os dias, até não haver mais água no corpo, a tocar o melhor possível para entrar na classe do famoso Terence Fletcher. Em meio a um ensaio no conservatório de música do qual estuda, ele recebe a visita desse homem impetuoso, que demonstra um singelo interesse na sua maneira de tocar. Em 24 horas, a vida do personagem de Miles Teller sofre uma tremenda reviravolta. O desejo dele se realiza, mas não daquele jeito lindo que nos faz invejá-lo por ter se dado bem. Há muita luta até lá.

 

O filme une dois personagens um tanto quanto arrogantes em um embate de orgulhos. Ambos se acham meio que donos da razão sobre a arte que amam/dominam. Um investe em desbancar o outro, e vice-versa, criando um clima carregado de nuances escuras que devora, pouco a pouco, o otimismo e a autoconfiança de Andrew. Enquanto ele se mata para tocar perfeitamente cada trecho da partitura da classe de Fletcher para se provar, o mentor faz o possível para que o novo aluno (e todo mundo) seja rebaixado por erros humanos até chorar. Assim, logo se revela que cada dia de aula é motivo de medo, de receio e de olhares turvos.

 

O gostinho de ter sido escolhido por Fletcher esmorece quando a real faceta dele é revelada: um homem que gosta de caçar talentos para esmagá-los. Ele dá a impressão de que cada escolhido é especial e o filme se torna estridente quando essa ilusão é destruída sem dó e nem piedade. Whiplash nos norteia ao som de jazz, que ritma um sonho que virou um pesadelo. O que definirá o resultado desse embate é a maneira como a pessoa envolvida se comportará e agirá. Desistir? Dar na cara do professor? Queimar o conservatório? Andrew pena, muito, até empacar diante de duas resoluções: provar que é bom e não desistir do sonho. Esse é o grande desafio da história. Um desafio de muito suor e sangue.

 

J. K. Simmons está imbatível neste longa, verdade seja dita. A atuação dele é de arrepiar! Dá raiva. Dá vontade de entrar naquele conservatório e simplesmente queimá-lo. Não considero Fletcher um vilão, como muitos o tem pontuado, mas uma incógnita. Não dá para defini-lo. Não há um background. O professor apenas é um obstáculo tangível que Andrew precisa transpor, um ponto persistente a ser combatido. O que se debate é a crueldade de suas atitudes contra cada aluno… Se há um motivo real para isso ou se é por bel prazer.

 

Não sabemos se Fletcher age de má fé. Se a “tortura”, psico e fisicamente, é para elevar cada estudante à perfeição ou não. A verdade só aparece quando o mundo de Andrew desmorona e, até lá, os pensamentos conflitam sobre o caráter do mentor – se ele ajuda ou atrapalha, se é amargurado e frustrado ou dedicado demais. O único ponto muito claro é que o personagem é tirano. Daqueles ferrenhos. De fazer qualquer um abandonar o curso.

 

Os olhos de Simmons brilham de uma malícia desconcertante toda vez que desafia o personagem de Teller. Cada berro de Fletcher dói nos tímpanos. Cada instrumento jogado contra Andrew machuca o peito. Não dá para não se perguntar sobre as razões do adolescente permanecer dentro daquela tortura psicológica, mas a resposta vem clara como água: tudo por um sonho que se torna sua maior prova.

 

Este é o primeiro filme que assisto com o Teller e o menino me surpreendeu. Houve uma entrega imensa do ator para o personagem, algo necessário para se equiparar ao empenho impecável de Simmons. O ator transmite a decepção, a dor, o cansaço, a raiva e o rancor em cada batuque forte na bateria. Você perdoa Andrew por alguns atos arrogantes, pois o mentor é a principal causa, o que o impulsiona a erros. Você se preocupa com os absurdos que ele começa a cometer para atingir a perfeição e se pergunta onde está o pai desse adolescente que não barra essa loucura. O filme é extremamente emocional e, quando atinge o auge, só restam os cacos de vidro para recolher e decidir o que fazer com eles.

 

Whiplash é excelente justamente por explorar várias nuances dos dois personagens e elevá-las para que haja um confronto. Não há um só momento em que ambos estejam bem e é isso que torna o filme tão envolvente. Você espera a próxima humilhação, o próximo berro e a próxima interrupção abrupta de Fletcher no decorrer de cada ensaio. É impossível não esperar por algo ruim. Este é um longa que gruda na pele e não tem como se desprender dele até os créditos subirem. Simmons faz a bile parar na garganta a cada aparição estrondosa e acarreta, sem dificuldade, a sensação incômoda de não querer estar no lugar de Andrew.

 

Literalmente, o roteiro e direção de Damien Chazelle atingiu a perfeição, com o presente de uma conclusão autoexplicativa. Um grande avanço para quem foi responsável por Toque de Mestre (outra empreitada musical, cuja trama começa bem, depois amorna e o fim é lastimável). Whiplash mereceu o espaço nos grandes festivais em 2014 (levou prêmio de audiência e de júri no Sundance). Ele é intenso e poderoso do começo ao fim. Corrói como ácido. É ressonante. Explora os limites que uma pessoa está disposta a ir para vencer. O longa tem muito a dizer sobre sonhar, sobre ver algo desejado se tornar realidade, e do quanto alguns “se matam” para isso acontecer.

 

Especialmente, quando se chega a um ponto específico da jornada, já completamente perdido e exausto, em que não há mais a noção de qual era o propósito daquela luta. Pior que isso, chegar a esse ponto específico crente de que não há chance de conquistar o que almeja.

 

Whiplash: filme para sonhadores

 

Whiplash bate em uma tecla que nunca cansarei de apertar: as pessoas confundem sonhos materialistas com sonhos pessoais. O filme retrata o sonho que nos preenche. Que nos dá razão. Que nos dá identidade. Que faz a nossa existência fazer mais sentido. Andrew tem um sonho maior que si mesmo: ser baterista. Não só baterista, mas estar entre os maiores que existem no mundo. Esse é o seu talento nato e foi ele que quase o guiou à ruína.

 

É muito bom quando assisto a um filme e me deparo com um personagem de alta identificação, algo que aconteceu com Whiplash, e tantos outros que concorrem ao Oscar 2015. É horrível ver o seu sonho ser minimizado por uma pessoa qualquer, diariamente, e notar a disposição dela em arrancar essa crença de você. É difícil engolir os outros zombando dos seus desejos, ainda mais quando são membros da família. Isso me fez voltar à época em que fazia estágio, experiência que achei que definiria meus próximos passos, pois já estava bem desencantada com jornalismo. Em meio às decepções, ela até que definiu.

 

Escrever é minha razão. Toda vez que o personagem de Simmons dizia “not quite my tempo” para Andrew, eu ouvia “not quite those words”. A diferença é que eu desisti, convicta de que jamais colocaria uma palavra em um pedaço de papel ou no Word. Ao menos, pensei que desisti, pois ainda estou aqui, preenchendo espaços em branco com textos.

 

É excelente ter essa conexão, e ao mesmo tempo ruim, pois machuca reviver certos momentos. Machuca relembrar que uma pessoa quase venceu sobre você e seu sonho. Fletcher aniquila facilmente as faíscas de otimismo de Andrew que se vê perdido em conflitos internos e externos. Afinal, para o mentor, não basta segurar as baquetas, tem que tocar no timing dele. O adolescente viu que não era tão bom – sendo que ele era bom, mas o teacher queria mais que isso. E ele desmorona. Chega a desistir.

 

Por isso, repito: é em conflitos como esse que sua atitude fará a diferença.

 

Fletcher é apenas a ponta do iceberg, pois a maior luta de Andrew é interna. Nada mais desesperador que você acreditar no próprio talento e, do nada, alguém simplesmente pisar em cima. Como o protagonista, passei um bom tempo duvidando de mim mesma. Não sabia se um dia voltaria a escrever. Não há sensação pior que acreditar tanto em algo para, do nada, uma pessoa, ainda mais desconhecida, pontuar que você não é boa o bastante. Que você nem chega perto de ser aquilo que pensa sobre si mesmo.

 

Nada pior também que abraçar essas cobranças e impressões externas, e torná-las pessoais. Um balde de tormento a ser digerido, dia após dia, até chegar o momento do declínio. Aquele momento que ninguém deseja depois de tanto tempo de luta: virar a mesa. Abandonar aquilo que se acredita e passar a viver como se nada tivesse acontecido.

 

Isso pode soar patético para alguns. Justamente porque há uma bela de uma diferença entre sonhadores materiais e sonhadores pessoais. Sonhadores pessoais, como Andrew, querem ser bons em algo. Querem fazer a diferença e perseguem o que querem praticamente durante toda a vida. É a razão que os mantêm vivos, prósperos e completos. Vi-me nele muitas vezes, especialmente porque tenho/tive meus surtos. Mas, ao contrário do personagem, acredito que não teria tanta coragem em desafiar Fletcher. Simplesmente sairia da sala. Ao menos, é o que fiz da última vez. Não faço ideia como reagiria se vivesse isso agora.

 

O filme pontuou algo muito interessante com relação ao tipo de pessoas que costuma cruzar nossos caminhos no meio da jornada por um sonho: as que motivam, as que desistem e as que persistem. As pessoas de motivação nem sempre são aquelas que dizem que você é excelente, mas a concorrência. Elas sinalizam o quanto de trabalho se tem pela frente. No auge da raiva e da frustração, nem sempre vemos o quadro dessa forma. Concorrência é o mesmo que inimigos e, brilhantemente, Fletcher esclarece isso. Essa concorrência apenas é o empurrão para focarmos mais naquilo que desejamos. De nos aperfeiçoar.

 

As pessoas que desistem simplesmente desacreditam. Essa é a fase crítica. Alguns largam porque não aguentam. Outros largam por descobrirem, no meio do caminho, que não era bem isso que queriam. Normal, pois só sabemos o que realmente queremos, ou se algo é realmente para nós, quando arriscamos. Não é fácil retroceder, pois envolve orgulho e vergonha.

 

Andrew se revela um personagem persistente. Ele faz a própria diferença. Ele prova que não é só bom, mas maravilhoso. A trajetória dele mostra o quão exaustivo é correr atrás do que se deseja. E acreditem: é extremamente exaustivo. É um caminho intenso de dúvidas e de tentações, especialmente de querer voltar para a zona de conforto.

 

Este filme pondera o quanto você se disporia a correr atrás do que acredita. Do quanto se está disposto a absorver as tensões que nos rasgam de dentro para fora. É um longa sobre sonhos. Uma história inspiradora para grandes sonhadores. Whiplash ensina e muito sobre força de vontade. O quanto é frustrante querer algo, desesperadamente, e ver esse algo escapar por entre os dedos. É um filme que aflige o emocional. Que deixa o corpo tenso. Que deixa a mente do sonhador que o assiste a mil por hora por se identificar nem que seja 50% com o que acontece.

 

Whiplash – Em Busca da Perfeição é profundo, toca na alma, transita por sombras, até atingir a glória para nos dizer que sonhos são possíveis sim! É um filme que inspira.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
Postado por:       

       
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Escreva seu comentário antes de ir <3
  • Já assisti uns 9, ainda tem uns 5 e aproveitei e tô assistindo os documentários cabulosos.

  • heyrandomgirl

    ASSISTA TUDO JÁ, TÔ MANDANDO! HAHAHAAHAH

  • Ain você é muito rápida. Ainda tenho uns 15 filmes no mínimo no computador esperando para serem assistidos (e estou fazendo isso) + os que eu não consegui baixar e terei que assistir online + os que estão favoritados no computador + toda a minha curiosidade/desejo de assistir o Netflix todo + não posso deixar de ler suas resenhas.

  • heyrandomgirl

    Eu já assisti todos os filmes indicados, queridinho! hahahahaha Só estou resenhando aqueles que gostei MESMO, aqueles que sei que comprarei o DVD nem que seja a última coisa que eu faça.

    Mas, óh, de Melhor Filme temos:

    "The Grand Budapest Hotel" >>>>>> A+
    "Selma" >>>>>>>>> A+
    "American Sniper"
    "The Imitation Game" <3333
    "Boyhood" :S não vi tudo isso que falam.
    "Birdman" :S não vi tudo isso que falam.
    "The Theory of Everything" <333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333
    "Whiplash" FODA!

    Sobre Whiplash, há muitas mensagens maravilhosas nele, se ignorarmos bastante a atuação sensacional do J.K. Simmons [o cara rouba o filme ahahahahah]. A luta mesmo é do Andrew, uma luta que qualquer pessoa deve ter passado ou passa em dado momento da vida. Há mentores e mentores, e até esqueci de compartilhar algo poderoso nesta resenha:

    Na faculdade, tive um professor de rádio @$$¨¨$%@@#@#@#@#@. Só não berrava que nem o professor desse filme, mas era tirano e sarcástico, tinha um prazer de ver os alunos rodar em círculos, sabe? Muitos tiravam notas TERRÍVEIS com ele, e eu estava inclusa, e pensei em desistir. Cheguei na mesinha dele e disse: I'M DONE!

    Idealiza a cara do cara.

    Idealiza minha cara chorando like Andrew.

    TOMEI NA CARA!

    Daí, ele esfregou na minha cara o que eu gostava de fazer sobre Jornalismo – que foi blog -, me deu a chance de fazer um trabalho pra recuperar a nota, mas NÃO DEIXOU DE ME TORTURAR PSICOLOGICAMENTE pra que eu fosse até o final.

    Foi impulso e minha prova era mostrar que eu podia cumprir tudo.

    E EU CUMPRI GRRRRRRRRRRRRRRRRRR HAHAHAHAAHAHAHAH

    Por isso mesmo não vi o Fletcher como vilão. Ele é um mentor, com segredos que não foram pontuados no filme, mas que eleva essa necessidade de fazer melhor e chegar ao ponto de perfeição desejado.

    Foda!

  • Queridinha, eu assisti o filme só por causa da sua resenha (assisti antes de ler) e ainda vou assistir 'A Teoria de Tudo' e 'O Jogo da Imitação'. Faça uma lista de filmes indicados ao Oscar e vamos assistir, você e os seus leitores (acho que estou entrando nessa categoria). Ai assistimos uns 3 filmes por semana em um mês (Dá?! Também não importa, o importante é assistirmos todos os filmes.).

    Ain amei o filme, é tudo isso que você falou e mais um pouco. Aquela cena dele em casa brigando com a família pela sua capacidade é tudo de bom, super me identifiquei. As vezes temos realmente que deixar coisas e pessoas pra trás e passar por alguns perrengues pra podermos alcançar nossos objetivos – exemplo disso é quando ele termina com a namorada por prever um futuro que, pela reação dela, era só coisa de filme e que não iria acontecer com eles mas que para se poupar do sofrimento, ele preveniu se prevenir. E no final, tipo: 'Tentou me ferrar, mas vamos ver quem pode mais. Acho que o aluno aprendeu a lição.'

    É um mix de sentimentos, expectativas, realidade, apreensão, empatia, raiva, ódio, boas vibrações e feeling TVD (tem tudo pra ser uma coisa, ai vai lá e te tomba). Realmente muito bom e esclarecedor, uma bíblia pra quem tem dúvidas sobre seguir seus sonhos.

    Assim como você, concordo com o fato de que o Fletcher está longe de ser um vilão, mas está longe de ser um bonzinho (dúvidas que foram cessadas com a revenge dele no final com o Andrew). Eu creio que por mais que o método dele seja cruel demais não deixa de ser eficaz, caso contrário, Andrew não teria conseguido o que conseguiu. Porém, creio que o Fletcher se perde no meio de suas próprias intenções e acaba causando depressão e ansiedade nas pessoas (como no caso do ex-aluno dele que morreu).

    Uma ótima indicação, muito obrigado! Nos vemos depois que eu assistir os dois outros filmes e ler a resenha pra poder comentar.