Menu:
02/mar

Abra os seus olhos…

 

Era uma vez uma garotinha que tinha o hábito de se esconder debaixo da cama. Não para se proteger dos monstros que sua mente criava com tamanha precisão, mas da vida.

 

A vida a assustava mais que qualquer assassino mascarado de filme de terror.

 

Ao se tornar mulher, aquele buraco apertado do seu quarto se tornou uma redoma erguida com 4 paredes. Seu palácio contra a vida.

 

Tudo porque ela queria ser inacessível. Invisível.

 

Não queria ser tocada. Machucada. Humilhada.

 

Era uma redoma que a protegeria dos altos e baixos daquele grande inimigo que, no seu ponto de vista, só sabia provocar sofrimento. E ela não queria sofrer. Não mais do que acreditava já ter sofrido.

 

O vício da fuga era inconsciente.

 

Ela só queria se esconder.

 

Com o passar dos anos, ela foi se fechando. Aceitando a escuridão como uma segunda pele. Era confortável. Aconchegante.

 

Mas uma canção virou a sua neura.

 

Ela sentia vergonha de ser tão covarde, mas ninguém estava ali para tirá-la da fuga constante. Ninguém estava ali para julgá-la por passar mais tempo dentro da redoma que na vida. Ninguém estava ali para impulsioná-la a enfrentar aquele inimigo chamado vida.

 

Nada como se deixar levar por um sofrimento que começou debaixo da cama, quando ainda era miúda, ao som dos fantasmas que afirmavam que aquele lugar seria o único que alcançaria.

 

Aqueles ecos infestaram a redoma. Como pragas.

 

Cantarolavam que ela não era o bastante. Que ela não era o suficiente. Que jamais iria longe e moldaria um futuro por conta própria. Que os sonhos dela não importavam.

 

Os ecos ganharam força.

 

Em vez de combatê-los, ela começou a contorná-los.

 

Para os fantasmas, essa atitude era uma vitória. Quanto mais cantarolavam, mais a afastavam das suas crenças. Das suas esperanças. Das suas ideias. Afinal, eles representavam suas indagações e suas inseguranças.

 

E passaram a infernizá-la.

 

Havia outro tormento: não entender como as pessoas tendiam a ser desencorajadoras e cruéis, ao ponto de destruírem sonhos alheios.

 

E ela não queria conviver ou bater de frente com essas pessoas. Já lhe bastava a vida.

 

Então, aceitou os fantasmas que calaram seus sonhos que se tornaram meros frutos da sua imaginação.

 

Conforme crescia, a garotinha se viu desesperada para sair da redoma. Seus punhos começaram a bater com força contra o concreto, criando rachaduras. Ela gritava por dentro, tentando espantar os fantasmas da sua mente. Fantasmas que não cansavam de sussurrar ao seu pé de ouvido e que poderiam tê-la guiado à loucura.

 

Desesperadamente, se viu querendo se desvencilhar daquela escuridão que não era mais uma zona de conforto. Era um pesadelo.

 

Queria sentir o sol quente em seu rosto, os pingos da chuva entre os dedos e apreciar o céu tingido de um azul bem forte.

 

Chegou um momento em que ela realmente abriu os olhos e se pegou querendo enfrentar a vida.Querendo vivê-la.

 

Concluiu que os inimigos que temia realmente moravam dentro dela.

 

E ela decidiu provar o quão estavam errados.

 

Saúde o novo dia…

 

Os fantasmas não se calaram, mas ganharam um timbre diferente. Uma mudança acarretada pelo desejo súbito de lutar por si mesma. Agora, eles eram mais amigáveis. Não a julgavam. Não a desdenhavam. Tinham certa doçura e empolgação.

 

Os risos ecoantes daqueles novos fantasmas faziam cócegas no seu coração.

 

Ela os chamou de amigos.

 

Captara aqueles sons, traduzindo as mensagens que eram particulares a ela.

 

Aquelas novas vozes queriam que ela saudasse o novo dia. Queriam ver o seu sorriso. Queriam vê-la ser linda tanto quanto aqueles raios de sol que invadiam, pouco a pouco, todos os dias, o seu quarto pela cortina entreaberta.

 

Foi a primeira vez que viu o quanto a vida tinha certa mágica.Seus dedos até dançaram nas espirais de poeira.

 

Olhe ao redor…

 

Seu primeiro dia fora da escuridão.

 

Parada diante do espelho.

 

Nunca tinha se olhado. Não daquele jeito.

 

Ela se reconheceu apesar de tanto tempo dormente na redoma.

 

Percebeu, com apenas uma espiada, que o problema real que a manteve escondida por tanto tempo estava ali, diante dela.

 

Por anos, acreditara, piamente, que, além da redoma, não haveria nada para ela. Nada para lutar.

 

Por anos, carregara o agridoce de que a vida nunca lhe daria nada a não ser espinhos.

 

Espinhos que provariam que ela não era boa o bastante para lidar com nada. Ou ser inteligente. Charmosa. Bonita. Bem-sucedida.

 

Por ter acreditado tão cegamente nas próprias inseguranças, o medo a arrematou.

 

E a arrematou com certo horror.

 

Correu, de volta para a redoma.

 

Escutou os fantasmas.

 

Escutou os amigos.

 

Duas músicas que retumbavam freneticamente no seu cérebro.

 

Um grupo de vozes que sussurrava que não iria em frente contra aquele que afirmava o contrário.

 

Tinha que escolher. Ou enlouqueceria.

 

Fechou os olhos. Como sempre fazia quando não queria observar os arredores em busca de algum tipo de solução.

 

Apertou as pálpebras com as pontas dos dedos.

 

Respirou fundo.

 

Lembrou-se da menina no espelho.

 

Criou cenas mentais que só reforçavam sua suposta certeza sobre a falta de necessidade em enfrentar a vida. As pessoas. As circunstâncias.

 

E a si mesma.

 

Crise de pânico. 

 

Não queria sentir medo.
Não queria mais ter pavor.
Queria ser mais.
Mais do que aquilo tudo que os fantasmas lhe sussurravam…

 

Não queria mais ser a garota que sempre se esconde. Era exaustivo e angustiante.

 

Então, por que você não abre os olhos?

 

Pensou. Esfregando os dedos nervosos uns nos outros. Sentiu a textura. Uma textura macia que a distanciou dos fantasmas.

 

Queria ser mais que a garota que sempre se privou de mostrar quem realmente era.

 

Uma garota brilhante que precisava, apenas, confiar em si mesma. Ouvir a si mesma. E não os fantasmas que só sabiam enumerar certas qualidades que, no fundo, sabia que não eram reais.Quando se está fraca demais para tomar partido por si mesma, só resta, na maioria dos casos, ser guiada pelas próprias inseguranças e pelos próprios medos.

 

Respirou fundo de novo.

 

Abriu os olhos.

 

Olhou ao redor.

 

Reconheceu que os próximos passos estavam em suas mãos.

 

Reconheceu que ela era única pessoa a quem devia satisfação.

 

A única pessoa a quem deveria tratar com bondade e respeito. A única pessoa que seria capaz de colher todos os sonhos, que eram lindos em sua mente, e torná-los realidade.

 

Ela só precisava abraçar o melhor de si mesma. Pular a linha tênue que a separava da vida.

 

E vivê-la com plenitude.

 

Deixe-me ver o seu sorriso…

 

Parada diante do espelho. De novo.

 

Levou os dedos até o rosto. Tocou o queixo, as maçãs da bochecha, a ponta do nariz, os olhos, as orelhas e os cabelos… Esfregou as mãos, com força, as mais variadas texturas acarretando novas cócegas que a fizeram sorrir.

 

Ao olhar para as palmas, notou uma fagulha entre elas.

 

A sua fagulha.

 

Olhou para baixo.

 

Sentiu o frio dos azulejos nas solas dos pés, trilhando caminho até seu último fio de cabelo.

 

Estava viva.

 

Olhou-se no espelho.

 

Ela era o combo perfeito de ser humano para enfrentar qualquer batalha.

 

Aquela garota que a olhava de volta era quem precisava ser honrada. Quem deveria orgulhar.

 

Aquele reflexo sonolento de olhos inchados, de cabelo desgrenhado, e com aquele mau humor matinal, era quem estaria na primeira fila torcendo por ela. Que, mesmo em uma experiência boa ou ruim, jamais a abandonaria.

 

Aquela garota, que a olhava de volta, com tamanha curiosidade, esperava que ela enfrentasse a vida e retornasse com glórias conquistadas por si mesma.

 

E ela sorriu. Sentindo cócegas no coração.

 

Você é parte de tudo…

 

Saiu para enfrentar a vida.

 

Espantou-se ao perceber que nada era preto e branco. Era colorido. Demais. Espantou-se com a quantidade de pessoas que andavam de um lado para o outro, com suas roupas combinando, e as falas apressadas.

 

Achou mágico como os carros empacavam um atrás do outro diante do sinal vermelho. Dos ônibus que carregavam grandes propagandas coladas no vidro traseiro. Das lojas com seus manequins bem vestidos.

 

 

Mas nada a encantou mais que a música. A sonoridade confusa e arrepiante da vida.

 

Ela fazia parte daquilo tudo. Bastava apenas encarar cada dia e fazer a diferença.

 

Porque ela sabia, naquele instante, que era boa o bastante para dançar conforme aquela música. Fosse num dia feliz ou triste, continuaria a dançar, pois a batalha que começava a traçar dependia dela mesma.

 

Ela era a protagonista da própria história e era hora de fazer parte daquela imensidão de coisas. De pessoas. De experiências. De circunstâncias.

 

Cada dia seria um capítulo. Bom ou ruim.

 

No final de cada um, saberia que fez o que pôde. Saberia que tentou. Saberia que lutou.

 

Que não deixou nada nas reticências.

 

Acima de tudo, reconheceria que era o bastante para provocar as diferenças que queria.

 

Porque ela era ela por um motivo. Por um propósito. Se a vida a obrigava a viver, não havia nada que pudesse fazer a não ser ser parte daquele espetáculo.

 

E o faria. Porque queria voltar todos os dias para casa, reencontrar aquele reflexo no espelho, e dizer: você é o bastante, fez o bastante, e estou orgulhosa.

 

Você não vai sair para brincar?

 

A garotinha se chama Prudence.

 

Ela vivia escondida. Ela não sentia vontade de saudar o novo dia, nem de ver o sol nascer, nem muito menos apreciar o céu tingido de azul. Até notar que era parte daquilo tudo. Que era tão linda quanto o sol que cortava o horizonte, quanto a chuva que criava poças que a permitia apreciar o próprio reflexo, quanto o radiante céu límpido.

 

Ela só precisava abrir os olhos e olhar ao redor.

 

E quando ela o fez, reconheceu que era o bastante para seguir em frente.
Todos nós temos os nossos dias cinzas e isso é normal. O problema é levar os fantasmas a sério. Deixá-los fazê-la crer, Querida Prudence, que você não é boa o bastante.

 

Porque você é.

 

Vivemos em saltos, ignorando as coisas ao redor. Ignorando nossos desejos por acharmos que eles não são dignos. Que nós não somos o bastante. Que é loucura sair da cama para enfrentar o dia, por imaginar que nada de bom nos reserva.

 

A verdade é: sem nós mesmos a vida não irá para canto algum. Nós somos a bússola da nossa própria jornada.

 

Há uma Prudence que precisa da sua visita todos os dias diante do espelho. A pessoa a ser honrada e apreciada todos os dias.

 

Ou seja, você mesma. 

 

Afinal, você é o bastante para fazer o que quiser.

 

Não sinta vergonha da sua vulnerabilidade, Prudence, porque ela a tornará mais forte.

 

O resultado final sempre estará nas suas mãos.

 

Você é o combo perfeito para fazer o que quiser, Querida Prudence.

 

Nós somos o que somos por algum motivo, Querida Prudence

 

Só leva um tempo para cada um reconhecer o seu motivo. O seu propósito.

 

Leva tempo para cada um reconhecer que é parte de tudo.

 

Querida Prudence, você é o bastante.

 

Então, você não sairá para brincar?

 

 

Esse é mais um capítulo do Manifesto Aleatório, cuja inspiração vem da música Dear Prudence, dos Beatles. Uma das músicas que mais escuto quando enfrento meus dias cinzas. E a dedico pra vocês.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3
  • heyrandomgirl

    Prudence <3

  • Mônica Oliveira

    História da minha vida. Lindo, marida, lindo demais!! <3333