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17/mar

Tenho vinte anos e me odeio. Meu cabelo, meu rosto, o formato da minha barriga. A maneira como minha voz soa hesitante e meus poemas soam piegas. (…) Dissimulo esse ódio com um tipo de autoaceitação agressiva.

 

Quem lê essas primeiras linhas do livro Não Sou Uma Dessas – Uma Garota Conta tudo que “Aprendeu”, acha que sua autora, Lena Dunham é, no mínimo, 100% frustrada. Mas ela não é esse tipo de garota. A nova-iorquina – com muito orgulho – é uma das mulheres mais bem-sucedidas dessa geração. A atriz, produtora, escritora, etc., etc.,etc. representou o sexo feminino ao ser a primeira a faturar o prêmio Directors Guild Award, um reconhecimento por Girls, exibida pela HBO. Série que lhe pertence e que também lhe garantiu reconhecimento no Globo de Ouro e no Emmy. Deu para notar que no âmbito profissional Lena nunca teve problemas, né?

 

Mas até chegar no topo, ela brigou muito com sua autoimagem e suas paranoias.

 

Não Sou Uma Dessas foi lançado em 2014, um livro de memórias que resgata determinados pontos da vida de Lena antes da fama estrondosa. Ele é divido em seções: amor e sexo, corpo, amizade, trabalho e um panorama que pontua sua relação com a terapia. A narrativa dá um jeito de sair da mesmice por meio de listas com dicas dos pais (divertidíssimas por sinal), motivos para amar Nova York e emails que embasam certas informações.

 

Assim como Hanna, a personagem que representa em Girls, Lena escreveu suas memórias e tenta firmar sua habilidade de transformá-las em sentenças. Ela sempre teve uma única certeza na vida: sua necessidade de escrever e de contar histórias. Seu meio de comunicação e de compreensão das coisas ao redor. Ela não foi a criança mais tagarela da escola, nem muito menos uma adolescente receptiva. Para quem não sabe (o que acho meio impossível), a atriz “sofreu” por ser egocêntrica. Em um nível nada saudável. Isso, desde a infância, um dos motivos que a fez buscar terapia.

 

O ego acarretou dificuldades em ter relacionamentos, algo que defendeu ser incontrolável, e esse detalhe está esparramado nas páginas da sua obra de estreia.

 

 

Não Sou Uma Dessas não traz a nova Lena Dunham, essa que tenho curiosidade em conhecer, mas o eco do passado. As páginas trazem um amontoado de experiências juvenis, mas poucas são envolventes e relevantes. Fiquei com a impressão de que algumas informações se perderam no meio do caminho, como as experiências desconcertantes até o estrelato (que sei que foram muitas). Não esperava um passo a passo de “como ser famosa em 10 dias”, claro, mas minha sede pelo livro foi por causa da possibilidade de saber como ela chegou até a porta da HBO. Queria saber como ela contornou determinados problemas pessoais, como os de autoimagem, ao mesmo tempo em que buscava reconhecimento na arte que sempre acreditou.

 

Hanna é uma personagem interessante justamente por isso: Lena explora a cada temporada de Girls o trajeto dessa menina – que não deixa de ser ela – que quer ser escritora. Em meio a isso, há os bizarros atritos por causa do ego – algo muito Lena. Não Sou Uma Dessas não trouxe nada disso e terminei a leitura meio chateada. Esperava brilhantismo e o livro parece páginas de um diário que, no fim, não acrescentam em muita coisa. Sei que a intenção dela foi escrever dessa forma, mas esperava desabafos sensacionais de Lena Dunham.

 

Acho Lena uma pessoa muito inteligente e sou grande fã de Girls. Acho que isso justifica minha expectativa de não ver a hora de ter esse livro em mãos. Apesar das polêmicas e do ego maior que o parque da Disney, ela fala abertamente sobre os mais variados assuntos, atitudes que estão intrínsecas em suas memórias. A criatividade e o sucesso dela são atraentes, porém, Não Sou Uma Dessas não foca em nada disso. A obra peca em alguns pontos, mas não deixa de transmitir quem foi, em partes, Lena Dunham na infância e na adolescência. A obra traz estampada um “me ame ou me odeie”, especialmente por ter dado margem para polêmicas.

 

A parte que mais me cativou no livro foi a seção Trabalho. Acompanhei alguns dos principais projetos dela e foi interessante vê-la explicar como tudo aconteceu. Panorama é bem legal também por causa da relação dela com a terapia. Infelizmente, essas seções não são “aprofundadas”. Não em comparação ao foco dado sobre sexo.

 

Para quem acompanha Girls, Não Sou Uma Dessas é uma incógnita, porque é impossível não se perguntar qual dos personagens mencionados no livro saltaram para a série. Parei incontáveis vezes por causa das inevitáveis associações, como o namorado que a fazia correr – que me fez lembrar o Adam –, o trabalho na loja de roupa para crianças – que me fez lembrar da Jessa –, e seu problema com TOC – que Hanna também passou. Nesse quesito, minha diversão foi garantida. Até debati algumas passagens com a minha irmã (nós temos o ritual de assistir a série no Natal, embora passe em janeiro).

 

Esse gostinho da dúvida, especialmente para quem acompanha a série, sobre tais momentos que podem ter inspirado um plot dá um gosto instigante à leitura. Dá vontade de mandar um monte de tweets para Lena.

 

Outro ponto que achei bacana é sobre nudez, algo assim que me dá preguiça toda vez que alguém reclama. Lena justificou isso com base nos comportamentos da mãe, uma artista, que nunca teve problemas em expor o próprio corpo. Ela defende que ficar nua na frente das câmeras não é desafiador. É natural. Palavras mais do que suficientes para qualquer um parar de reclamar que Hanna passa metade do tempo pelada. Um monte de resmungos da crítica com base no que ela afirma: não ser atraente para se expor.

 

Lena começou a escrever este livro com 25 anos, no período que já estava no auge por causa da série. Por mais que tenha ficado um pouco decepcionada, tenho que dizer que ela cumpriu o objetivo de escrever como uma garota comum e não como uma celebridade. Não é um livro biográfico ou um passo a passo da fama. Há toda a zoeira da adolescência, as curiosidades sexuais, a carência afetiva, a relação com a irmã, entre muitas coisas. Mas adoraria que ela tivesse aprofundado a seção Trabalho mais um pouquinho.

 

Vale dizer que uma das coisas que admiro na Lena é a defesa do trabalho criativo. De bater o pé contra a zona de conforto, um ponto sempre abordado em Girls. Hanna tem essa sede de ser escritora, não importa como, e não tem como desvincular essa imagem de Lena. Ambas não querem que suas ideias sejam caladas. Ambas não se conformam com comodismo. Infelizmente, há poucas passagens sobre isso no livro, outra coisa que esperava.

 

Apesar dos pesares, Lena acertou ao escrever um livro sem filtro. Essa figuraça não tem papas na língua e desbravou o que achou conveniente – e meio polêmico – em 297 páginas (excluindo as que não fazem parte da narrativa). A leitura é divertida em alguns momentos e não tem como não achar que metade desse recontar é mentira. Há passagens que prendem, outras que você quer pular desesperadamente. Faltaram experiências relevantes, mas Lena não queria ser a autora que dita como se faz ou como é.

 

Lena se empenhou em um diário e o leitor absorve o que lhe convir. Não Sou Uma Dessas – Uma Garota Conta tudo que “Aprendeu” é aquele livro que você precisa peneirar o que é valioso. Há muitas críticas que afirmam que o título não orna com o conteúdo e concordo, pois há capítulos dispensáveis, que seriam mais divertidos ouvir Lena recontá-los no boteco.

 

Vale um elogio para o design mantido. Ficou muito amor!

 

Acho que meu grande problema foi expectativa demais, pois queria saber mais da trajetória dela. Parte da minha sede não foi saciada e estarei no aguardo da lista com 10 passos para chegar na soleira da HBO.

 

 

Para saberem mais, visitem o hotsite exclusivo feito pela editora Intrínseca e aproveitem para ler um trecho de Não Sou Uma Dessas.

 

 

Na Prateleira

Título: Não Sou Uma Dessas – 
Uma Garota Conta tudo que “Aprendeu”

Autora: Lena Dunham

Páginas: 304

Editora: Intrínseca.

Stefs
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