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01/abr

Se você tem ideia do que quer fazer, do que veio fazer, então simplesmente faça.

– Neil Gaiman

 

Às vezes, ideias vêm aos rompantes. Um insight. Tão rápido que nem dá tempo de capturá-lo. Em segundos, ele pode desvanecer.

 

A Garota que Nunca Cresceu contou com diários para não deixar essas ideias escaparem. De preferência com páginas únicas para cada data, sem repartições. Nada como os modelos atuais que espremem dois dias na mesma folha.

 

A Garota que Nunca Cresceu sempre precisou de muitas linhas – muitas mesmo, ao ponto de usar até o outro dia das agendas para finalizar seus relatos – para dar forma e detalhes a pessoas, momentos e cenários. Imaginários ou não, ela precisava registrar tudo.

 

Enquanto alguns escapavam por meio dos livros, A Garota que Nunca Cresceu fugia por meio das palavras. Palavras que traduziam suas ideias mirabolantes. Seus sentimentos. Suas inseguranças. Seu olhar além do jardim que a separava do vizinho. Um hall de memórias desenvolvidas com o tempo. Algumas esquecidas. Outras (re)vividas até hoje.

 

Na infância, a Garota que Nunca Cresceu passava as férias de julho na casa dos tios. Escondido no fundo da mochila estava seu primeiro diário: um caderno de desenho. Aquele que todo professor de educação artística coloca na lista de material obrigatório e que nem todas as páginas são usadas no decorrer do ano letivo.

 

Ela o usara de trás para frente e o carregara como se fosse um pote de ouro. Naquelas folhas brancas e sem linhas, ela vira possibilidades. Assim, a Garota que Nunca Cresceu criara seus primeiros universos.

 

E ela não tinha a menor ideia do que fazia. Simplesmente criava um diálogo para cada travessão, imitando os livros que cruzaram seu caminho. Foram poucos, mas sempre achara interessante o jogo de falas e os parágrafos. Passara a imitá-los.

 

Ao lado de cada linha, desenhara bonequinhos de palitinhos, com vestidos e bermudas, e cabelos pintados de amarelo. Desenhar nunca fora seu forte, mas era boa a sensação de tentar dar um tipo de forma aos personagens que cuidava com tanto rigor.

 

Os anos se passaram. Adolescente, a Garota Que Nunca Cresceu abandonara o caderno de desenho para ter um diário propriamente dito. E ela tivera vários. Com cadeados, florzinhas e até perfume. Mas as agendas foram as preferidas por terem mais páginas.

 

A diferença da sua escrita logo fora captada. As tramas sonhadoras foram substituídas por versões perigosas, que oscilavam entre passagens felizes e tristes. Foi o período em que começara a explorar a si mesma e a seus sentimentos. Um período em que os papéis abrigaram o pior do seu ser, dos outros e do mundo.

 

O ambiente do qual vivera não lhe ajudou muito. Reflexos de pessimismo, estresse e azedume impregnaram folhas e folhas. Desabafos a partir de um ponto de vista totalmente diferente daquele que a inspirara por anos na companhia de um caderno de desenho.

 

A adolescência lhe dera muito que debater. Muito que pensar. Muito que sentir. As palavras ingênuas da infância não tinham mais vez. Elas se tornaram mais pesadas, mais sombrias. Reflexos da versão dela que gritava por dentro e vivia de fachada por fora.

 

Seus sentimentos eram mais pesados. Um peso que forçava sua mão afundar a ponta da caneta no papel. Mais força que o normal. Não havia leveza. Não havia sutileza. Ela exprimira sentimentos que a rasgavam de dentro para fora.

 

Nesse período, os diários se tornaram a válvula de escape com fragmentos mais pessoais. Tornaram-se pequenos livros de angústia e de tristeza. Salvo alguns contentamentos.

 

Mesmo com tanta negatividade brigando por uma dose de positividade, a Garota que Nunca Cresceu percebera que escrever mantinha sua sanidade. Mantinha-a no lugar. Percebera que escrever era uma necessidade. Uma forma de combater a sede. Uma forma de combater a fome. Uma forma de combater o vazio dentro do peito.

 

Embora continuasse a não ter a menor ideia dos motivos de fazer aquilo, só achava que era melhor vomitar no papel a pedir arrego para uma das suas amigas.

 

Com o tempo, aprendera a tornar as palavras suaves e divertidas. Às vezes, tristes, mas de um jeito que não a fizesse se sentir péssima. Mas de forma que a fizesse se sentir mais leve.

 

Era um sinal de amadurecimento. A transição da adolescência para a vida adulta.

 

Uma transição em que cultivara ainda mais amor pelas palavras.

 

Pelo formato delas.

 

Pelas curvas.

 

A Garota que Nunca Cresceu as recriara ao seu modo.

 

Desenvolvera, sem perceber, sua arte.

 

Longe da versão adolescente, a Garota que Nunca Cresceu aprendeu a criar uma dança de palavras íntimas, o ritmo que preza em suas histórias.

 

As palavras se tornaram sua arte sem ser chamada de arte.

 

A arte que acreditara, acreditou, acredita sem ao menos crer de fato.

 

Jamais, em mil anos, a Garota que Nunca Cresceu reconheceria tão cedo que palavras seriam sua válvula de escape para continuar sobrevivendo. Ela percebera isso anos mais tarde, com mais convicção, ao se recuperar de um momento complicado. Por meio da escrita. Talvez, se não tivesse passado pelo aperto, não teria reconhecido que escrever era uma arte.

 

Sua arte.

 

Que todos os diários e o caderno de desenho foram o escopo, o improviso, do que um dia veria como a razão da sua existência.

 

Ela percebera que escrever também era um processo de cura.

 

Aprendeu. Rascunhou. Rasgou muitas folhas. Rotina de quem faz arte.

 

Adulta, a Garota que Nunca Cresceu continuou a se apoiar em páginas em branco. Não necessariamente um diário. Um caderno já era de bom tamanho.

 

Mas nem tudo foi/é perfeição. Como toda boa história, um plot não é um plot sem um vilão. A Garota que Nunca Cresceu batera de frente com muitos deles. Os ladrões de palavras.

 

Uma vez, eles roubaram as palavras dela.

 

Emudeceram a Garota que Nunca Cresceu. Por meses.

 

Provocaram a falta de fé na sua arte.

 

A Garota que Nunca Cresceu não escrevera por meses. Vira o sol nascer quadrado, sem coragem de colocar um pingo no i. Sentara, várias noites, dedos coçando sobre o teclado ou sobre uma folha. Recusara-se. Registrara que não era boa. E assim se mantivera…

 

Os ladrões de palavras empacaram seus improvisos.

 

Forçara-se a escrever, mas não havia o mesmo prazer. A mesma confiança.

 

Não tão tarde, percebera que esse era o objetivo dos ladrões. Tirar o que se tem de mais valor.

 

Fugira. Contornara. Fingira que não era seu problema. Mas já era uma realidade intrínseca do seu ser. As palavras e os bloquinhos sempre encontravam o caminho de volta.

 

Desistir das palavras faz parte do capítulo de desistências quase desistidas.

 

Mente quem diz que na vida não há vocação. Ou propósito. A Garota que Nunca Cresceu acredita no chamado. Acredita que aquilo que você faz na maior parte do tempo é o que deve ser feito pelo resto da vida. Não por dinheiro, mas por prazer. Por amor.

 

E aqui está o aprendizado da Garota que Nunca Cresceu: aquilo que fazemos e amamos faz parte do que somos. Há muitos ladrões de sonhos e de arte. Há muitos sanguessugas da felicidade. Há muitos descrentes. Mas nenhum deles deve influenciar negativamente seus desejos. Sua arte.

 

No fim, o que realmente importa é aquilo que você acredita.

 

Aquilo que você quer para sua vida e como você se sente com isso.

 

Sua arte é e será um complemento. A função é lhe preencher por inteiro.

 

A Garota que Nunca Cresceu faz arte até provocar uma autocombustão.

 

Ela vive com suas oscilações. Duela para continuar a crer na própria arte.

 

E que se dane os ladrões, porque sua arte é sua verdade.

 

Sua arte lhe sustenta, lhe dá propósito e lhe salva.

 

Sem pestanejar, faça a sua arte. Faça a sua viagem. Faça o que for.

 

A sua jornada depende de você.

Stefs
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  • Isis Renata

    assessoria da mina turnê. adels♥♥ hahaha!

  • heyrandomgirl

    Obviamente que este texto é meu, ué! Hahahahahahahah Eu só tento disfarçar, mas minha pessoa se esparrama em todas as minhas palavras.

    Antes tarde do que nunca escrever de um jeito que me deixe à vontade. Antes isso era um parto, mas estou aprendendo. Vamos ver até onde isso vai.

    E vc continue a dançar e a cantar, porque quero fazer assessoria da sua turnê. Beijos e abraços! hahahaahha <3

  • Isis Renata

    ok esse lindo texto é do Neil ou seu? ou um resumo de você mesma? hehehe porque te vi no texto aí acima :B
    como viver sem suas palavras para encantar esse mundão? grazadeus que você libertou seu medo e suas dúvidas (não por completo, que fique claro) para compartilhar do seu melhor com todos que visitam essa casinha 😀
    eu estou tão feliz em ver onde você chegou e que você está com essa faísca que rasga seu peito e essa luz interior pronta para alcançar muto mais!
    no aguardo de mais coisas lindas – de nada ♥

  • Sua linda! Adorei esse texto e me vi em muitas partes dele. Que "A Garota que nunca Cresceu." nunca deixe de partilhar com o mundo a sua arte e suas palavras. <3