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26/maio

Não é novidade para ninguém que tenho uma certa atração por garotos, digamos, malvados e na minha lista está Hannibal Lecter (que é maluco mesmo). Mas isso, psicologicamente falando, ok (me perguntando porque não fiz psicologia)? Na época em que soube que esse personagem extremamente atraente contaria com uma série, fiquei preocupada. Não adianta: quando cutucam algo consagrado em outra mídia/época, não confio até que me provem o contrário. Ainda mais agora que a indústria do entretenimento está com amnésia criativa.

 

Foi até espantoso o interesse em Hannibal no formato televisivo, pois sou apaixonada pelos filmes. E os filmes consagraram essa história. Só via desastre na nova adaptação, verdade seja dita. Por mais que Mads seja um ator maravilhoso, foi impossível ignorar (ainda é) o que Anthony Hopkins fez, bem como Gaspard Ulliel. Assim como aconteceu com Bates Motel (ninguém mexe com meu gordinho Hitch), tive que desligar o senso crítico, não só por se tratar de um favoritismo meu, mas porque o efeito dessa trama no cinema já é maravilhoso.

 

E a história de Hannibal, como série, ficou maravilhosa também. Porém, prefiro os filmes.

 

Calmaí que não tenho nada do que reclamar! A adaptação televisiva, lançada em 2013 pela NBC, assinada por Bryan Fuller, ficou excelente e tem um cast sensacional. Muitos podem reclamar da lentidão de alguns episódios – vamos combinar que há alguns que pedem socorro –, mas acredito que isso faz parte da magia teatral do personagem principal. Afinal, Hannibal é um ator: tem uma elegância cruel, um sorriso bondoso que esconde sadismo, um olhar afável que esconde o desejo pecaminoso pela carne humana e uma gentileza apaixonante.

 

Mads foi uma escolha perfeita. Ele abraçou a sutileza de um personagem extremamente calculista e reflexivo. Acima de tudo, um nato perfeccionista. Detalhes que pesam no desenrolar da história que se esforça para que o telespectador não apenas assista, mas mergulhe e se renda para ser golpeado com sucesso a cada reviravolta.

 

A trama honra o Hannibal traiçoeiro e persuasivo. Um personagem que joga sem fazer o mínimo de esforço, que sabe quais peças possui no tabuleiro e quando é o melhor momento para movê-las. Tudo isso de um jeito teatral, banhado com muitas aulas de culinária, ao som do tilintar da prataria e de música clássica. Não tem como não se encantar! Mads dança nos episódios, torna tudo mais curioso e envolvente, pilares que resumem a série – que foi tão bem recebida ao pontos dos fãs darem um jeito de salvá-la do cancelamento.

 

Por que Hannibal é awesome?

 

O elenco principal: Mads Mikkelsen como Hannibal, Hugh Dancy como Will Graham e Laurence Fishburne como Jack. Há a participação da menina que fez Meu Primeiro Amor, Anna Chlumsky, um detalhe que me fez capotar por tê-la reconhecido. E, não menos importante, a deusa Gillian Anderson, famosa pelos anos de carreira em Arquivo X. Tá bom ou querem mais?

 

Esses são os primeiros motivos para você reservar, no máximo, dois dias da sua vida para maratonar Hannibal. Até então, há duas temporadas completas, cada uma com 13 episódios. A 3ª temporada tá bem aí, se apressem!

 

Para quem acha que é só mais um thriller de terror, algo que poderia muito bem ser equiparado às adaptações no cinema, há muito mais trabalho psicológico envolvido. Bem carregado. Além disso, o que se vê na série é um Hannibal arrancado dos livros. A trama é tão detalhista quanto o personagem, desde o figurino até o trabalho de edição – que é monstro.

 

Não que os filmes não tenham se apoiado nisso, mas, considerando que é TV com uma tecnologia que nem se compara a do fim dos anos 90 e meados dos anos 2000, a nova adaptação se deu bem. A equipe é dedicada em trazer o melhor de Hannibal. Inclusive, há muito tempo de tela para que algumas coisas sejam destrinchadas com calma. Cada episódio é um convite para jantar com um agente provocador que leva a história nas costas. E, não menos importante, que pode lhe devorar com apenas um piscar de olhos.

 

No quesito visual, a série trabalha minuciosamente os efeitos visuais. As cenas criminais são arrebatadoras e chocantes, bem como os momentos em que Hannibal faz milhões de pausas para cozinhar. Por mais que seja de mentira, é impossível não considerar que todos aqueles pedaços de carne são humanos, prestes a serem adaptados as mais finas receitas. Então, se você sente nojinho com facilidade, não assista enquanto janta.

 

Por mais que a série se inspire nos livros (libera O Silêncio dos Inocentes, MGM!), o foco dos episódios não é a corrida contra o tempo para emboscar Hannibal. Por ser o agente provocador, ele passa bastante tempo na penumbra, fazendo os outros de trouxas. O que achei muito legal é que o personagem é bem desenvolvido, a história dele não corre rapidamente como nos filmes, e quando achamos que ele será pego, lá vai cliffhanger. Ele é quem captura, não quem precisa ser capturado, e sua storyline faz questão de mostrar isso, com várias reviravoltas que alimentam o desejo de saber o que virá em seguida.

 

Esse desenvolvimento dura por causa dos casos policiais, o tempero da trama, que não só servem para dar ânimo e ritmo aos episódios, mas por darem liberdade ao vilão encenar. Hannibal é responsável pelo clima da série, sombrio e arrastado, todo insolente, detalhista e massacrante. Você só desprega da cadeira quando a festinha do dia chega ao fim.

 

Quem fica bastante nos holofotes ao lado dele é Will Graham, personagem dos livros, mais conhecido como o efeito colateral. O objeto de interesse de Hannibal que tenta ao longo dos episódios torná-lo como seu igual. Isso aumenta a sensação de caça e caçador, trazendo à tona um trabalho minucioso e delicado. Há doses de perspicácia de um canibal que, apesar de todos os personagens, também é responsável em conduzir, solitariamente, a atmosfera densa da série.

 

E Mads dá conta do recado, viu? Ele tem charme e honra o brilhantismo necessário para sustentar e convencer ao encarnar um personagem aclamado. Ele mexe com o psicológico e banha a trama de dissuasão que nos leva para o caminho errado – junto com Will, que é uma delícia de acompanhar, literalmente.

 

Balanço das temporadas

 

A 1ª temporada vem com a proposta típica de apresentação dos personagens, mas sem deixar de lado o apelo sombrio e tenebroso que se dá por conta do caso do Estripador de Chesapeake. Um serial killer que deixa os agentes do FBI de cabelos em pé.

 

Nesse ínterim, conhecemos Will Graham, que tem um currículo de agente criminal impecável. Não só isso: uma aptidão espetacular para recriar cenas de crime. O problema é que o personagem foi afastado do trabalho de campo, se mantendo como professor da Academia, pois o envolvimento com o job não lhe fez bem. Contudo, ele é recrutado por Jack, apenas como colaborador, para dissolver o caso sobre o desaparecimento de 8 garotas.

 

Garotas, que se constata, com alguns órgãos em falta.

 

O problema de Will é que ele se envolve por inteiro, então, cenas criminais pesadas tendem a abalá-lo, especialmente por exigir de sua pessoa uma imersão na mente do assassino serial. No caso, Hannibal. A recriação de cada uma delas o suga por completo e lhe deixa instável.

 

Ciente disso, Jack recruta Hannibal, que se revela em posto de importância e de influência entre os federais. Como psiquiatra, o protagonista passa a ser supervisor do estado mental de Will enquanto a investigação sobre as garotas transcorre. Claro que o dever se torna interesse, pois o canibal começa a se empenhar fervorosamente para desviar o norte do caso para não ser descoberto.

 

Nesse antro psicológico, Will também traz personagens que se envolvem na perícia e mais duas psicólogas, Alana, doutrinada por Hannibal, e Bedelia, a psiquiatra de Hannibal. Traduzindo: o colaborador do FBI pisou em uma colmeia de abelhas por ter se tornado, sem ao menos saber, um meio para conseguir fins. Claro, do ponto de vista do nosso querido canibal.

 

Os episódios da 1ª temporada focam bastante no modus operandi de Hannibal, cujos pacientes se tornam vítimas das circunstâncias. Literalmente, o personagem usa os arredores em seu benefício. Não importa a integridade do paciente, ele será um bode expiatório. As coisas ficam sérias quando os discursos dele afetam e confundem Will, o maior efeito rebote de todos, o que traz a reviravolta inesperada. A maneira como o jogo sempre muda, como se precisasse apenas de um giro na roleta, é de uma maestria sem precedentes.

 

Vale um adendo: achei a 1ª temporada um tanto quanto confusa. Se você não prestar atenção, é possível chegar ao próximo episódio com a sensação de que algo se perdeu.

 

Já na 2ª temporada, as coisas são mais intrigantes, pois Will sabe do caráter de Hannibal, mas, por ter sido um efeito colateral, passou a ser testemunha desacreditada. Por estar enjaulado, não há formas para que ele prove o que afirma com tanta convicção. O personagem, focado no desejo de destruir aquele que um dia lhe prestou ajuda – muito na falsidade –, inicia o novo ciclo vicioso com gosto de V de Vingança. Só que Hannibal sai na frente de novo e usa os pontos fracos de Will para torná-lo uma fonte duvidosa para que as acusações não vinguem.

 

O foco desta temporada é derrubar a máscara de Hannibal, um dilema que recai sobre os ombros de Will. Um enlouquecido Will. Muitos personagens tombam ao longo do trajeto, outras revelações acontecem. Quem é bonzinho se prova um duas caras, os mais focados caem antes mesmo de chegarem ao pote de ouro. As reviravoltas ganham um peso extasiante. Sem dúvidas, os episódios da S2 são mais acelerados que os da S1, e mais casados uns com os outros. Não há tanta dispersão como na temporada anterior. É total sangue nos olhos.

 

O peso psicológico é também mais sufocante na S2, pois é o ponto de gatilho para Hannibal sair incontáveis vezes pela tangente de um jeito sagaz e meticuloso. E, claro, de dar a impressão de que uma hora ele falhará, algo que Will se enche de esperança.

 

Enquanto na S1 Hannibal se move sozinho, na S2 há duas forças conflitantes, pois o agente do FBI aprendeu como o canibal atua, dando alertas de que puxará o tapete a qualquer momento. Na outra via, o canibal dá outros sinais para, de novo, tentar emboscar seu paciente.

 

E segura que o cliffhanger desta temporada é destruidor.

 

Mais motivos para assistir Hannibal

 

A série é sombria não só graças ao Hannibal, mas aos casos policiais e as situações que se desenrolam em paralelo. Tudo interligado ao que o personagem principal representa, a fim de sustentar a real faceta dele. Uma verdade que só fica clara no ponto de vista do telespectador. O peso do FBI se torna um empecilho e nessa brincadeira de gato e rato, você espera ansiosamente pela captura desse cidadão.

 

E, literalmente, a verdade é nua e crua. É uma delícia ver os personagens se alimentando na casa do Hannibal – só que ao contrário. De novo, por mais que seja mentira, não tem como poupar uma careta de nojinho e fazer um ugh! quando os convidados mandam bala no rango.

 

Por ser uma série da NBC, é um milagre Hannibal ter dado certo. O canal é impiedoso, raras vezes desfruta de algum hit, e essa série se tornou uma das mais esperadas ao longo dos anos. E olhem que ela foi dolorosamente renegada.

 

As duas temporadas da série ficaram sob medida. Aos poucos, você entende que a trama se arrasta por motivos necessários, envolvendo o telespectador lentamente para render um baque. Inclusive, as reviravoltas honram Hannibal por serem muito inteligentes.

 

Agora, a real: a série é audaciosa, mas vejo perfeitamente o mesmo dilema de Revenge – que amém acabou: segurar a identidade de um personagem por várias temporadas. Emily Thorne pode até ter driblado Victoria por anos, mas, no caso de Hannibal, falo do FBI, gente! Os federais se tornam a cada episódio uma fonte de ajuda incompetente, facilmente dobrada por um serial killer – que anda entre eles. Parece a polícia de Pretty Little Liars.

 

Dá um shame, pois sabemos que o FBI é awesome e blá-blá-blá. Só acho que se prolongarem demais a incógnita sobre quem é Hannibal, a série perderá a graça e se renderá no maior erro de todos: encheção de linguiça. Especialmente porque a S2 teve cara de series finale e a S3 contará com um baita salto no tempo. Por mais genial que sejam os escritores, há uma hora que o cinto aperta e foi fácil sentir isso ao longo da 2ª temporada, que chega a ser um pouco frustrante por causa do mistério ao redor da identidade do mestre do jogo.

 

Não é possível que todo mundo seja burro! O vilão está o tempo todo ali e todo mundo é enganado, até mesmo aqueles que são pintados como os mais inteligentes. WTF? #StefsGrita

 

Por outro lado, a ideia de segurar o suspense em cada episódio faz milagres pela série. Os escritores são sagazes e movem Hannibal perfeitamente. Até mesmo Will tem uma problemática bem desenvolvida. A atmosfera, amarrando as duas temporadas, é a representação da personalidade desses dois personagens que moldam uma história que não é novidade para ninguém, mas que, na televisão, conseguiu receber novos ares.

 

Resumindo: o que você está esperando para jantar com tio Hanni?

 

A 3ª temporada de Hannibal estreia no dia 4 de junho. Que tal maratonar no final de semana, hein?

Stefs
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