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08/maio

Bem sei que devem haver milhões de posts sobre o que é fandom, mas me senti no direito de escrever um porque não há nada parecido aqui no Random Girl. O que seria de uma fangirl sem explicar o mais breve possível o que essa palavrinha mágica, e por vezes não tão mágica, significa?

 

Mesmo que haja muita informação por aí, sempre há alguém que não sabe a fundo sobre esse tema. Relendo meu TCC, resolvi investir neste texto e respaldar algumas passagens para que vocês saiam um pouco da definição rasa sobre o assunto deste post.

 

É fato que fandom é um termo em inglês que significa comunidade de fãs. Um conceito imutável que poderia me fazer encerrar o texto neste parágrafo. Contudo, essa definição é somente o rótulo. Há sim uma amplitude de coisas por detrás dessa palavra que não se refere apenas a união de pessoas que amam o mesmo produto cultural. Trata-se de uma subcultura.

 

Descobri isso enquanto fazia meu TCC. Antes disso, também entendia fandom como uma comunidade, e esse ponto de vista mudou quando me aprofundei na pesquisa. No livro The Communication of Fan Culture (que serviu de consulta para minha monografia), há uma passagem que define fandom como subcultura melhor que eu:

 

“A comunidade de fãs como subcultura é responsável em criar identidades culturais atreladas aos textos de mídia. Sendo assim, o fandom cria aspectos culturais e atividades onde somente os fãs de determinado assunto são capazes de participar, de forma que a cultura de fãs gera a comunicação na comunidade onde cada um interage e relata suas práticas de um para o outro, de maneira a criar um conteúdo diversificado de caráter íntimo.”

 

Resumindo: o fandom é uma subcultura, cuja cultura é determinada pelos fãs. Fanfics, fanarts, cosplays, etc., são apenas fatias do que compõe essa palavrinha, dando mais significado a ela.

 

Como subcultura, o fandom sobrevive dos meios de comunicação, pois é por eles que ocorre sua expansão. Por mais que você desenhe um personagem de Tolkien, por exemplo, a comunidade de fãs pede o compartilhamento, o alimento para manter a chama acessa.

 

Não só isso. O fandom é um lugar que sobrevive da base de troca de informação. Justamente por não ser apenas um “espaço” para organizar um fã-clube, seja presencial ou online. É preciso participar.

 

Fandom é uma palavra que aparenta ser atual, mas não é. Ela existe há muito tempo, antes mesmo da minha nobre existência. Há artigos que afirmam que sua origem vem do século 19, sendo usada em demasia no universo esportivo. A atenção veio nos anos 20 e 30 por causa dos fãs de ficção científica que começaram a se dividirem em grupos. Uma turma considerada os avós daqueles que se envolvem com o fandom atualmente.

 

Até eu me sinto uma vovó, porque minhas experiências vêm do molde do fandom dos anos 90. Isso justifica minha completa infelicidade com algumas coisas que vejo hoje em dia.

 

No mesmo livro que citei acima, há uma passagem que explica que o fandom é dividido em três gerações: a parte histórica (1950 a 1980), a ascensão dos fãs com o auxílio da tecnologia (1990 a 1999) e o advento do cyber-fandom (fandom concentrado na internet) – (2000 até o presente). Um ponto de vista coerente, pois, considerando minha vivência, as comunidades de fãs têm sim se alterado com o passar dos anos. A Websfera permitiu que isso acontecesse com absurda facilidade.

 

Nos anos 2000, o cyber-fandom se tornou muito forte e muito presente em comparação ao dos anos 90, porque não havia uma internet eficaz como agora. Havia a sensação de estar ali e ao mesmo tempo de não estar. Porém, havia, normalmente, as atividades comuns do fandom. Inclusive, muitos tinham blogs e discutiam em fóruns de discussão. Não era nada instantâneo como hoje em dia e eu adorava isso por aumentar a angústia, como download de música em internet discada.

 

E havia os encontros presenciais que também alimentava o fandom dos anos 90. Fã-clube tinha até carteirinha, gente, e honrava as caravanas que se organizavam para ir aos programas televisivos para ver o ídolo, comportamento dos anos 50/60. Era gold!

 

Outro livro muito bacana – Hamlet no Holodeck – define como uma pessoa possivelmente se sente ao ingressar em um fandom:

 

“Quando entramos em um mundo ficcional, nós não meramente “suspendemos” uma faculdade crítica, mas também exercemos uma faculdade criativa. Nós não suspendemos a descrença tanto quanto nós criamos ativamente a crença. Por causa do nosso desejo de experimentar a imersão, focamos nossa atenção no mundo que nos envolve e usamos nossa inteligência para reforçar ao invés de questionar a realidade da experiência.”

 

Janet Murray, autora desse livro, pontua perfeitamente o sentimento que aborda um fã assim que mergulha em um fandom. Resumidamente, as atividades são muito importantes, mas acarretam um desligamento dos arredores. O que pode afetar até o senso crítico. Em contrapartida, elas são a troca de informação e de compartilhamento. Você não atinge fãs que gostam das mesmas coisas que você apenas com uma página ou um site dedicado. É preciso se relacionar, uma imersão necessária.

 

Sendo assim: fandom não é apenas sobre pertencer, mas também sobre participar e criar.

 

Outra “explicação” para imersão é que muitos ingressam no fandom e se afundam por terem problemas em casa. Um amor que acaba por se tornar uma válvula de escape. Desde que seja saudável, isso é ótimo. Até eu passei por isso e encontrei nas fanfics minha segurança emocional.

 

Hoje, o ninho do fandom é o Tumblr. A nova válvula de escape e de criação. Nos anos 90, esse lugar se chamava LiveJournal – capaz que muitos adolescentes nunca tenham ouvido falar, fatos reais. No fim, a internet foi o meio que impulsionou e expandiu as comunidades de fãs, e facilitou o encontro de pessoas com mesmos gostos. Vivi para ver o advento da internet e as melhorias das ferramentas. Sou história!

 

A diferença crucial entre os anos 90 e hoje são as redes sociais. Felizmente (felizmente mesmo!), não contei com Twitter e nem Facebook. Sem ofender ninguém, a turma se esforçava para ser criativa. Hoje, devido a amplitude e o fácil acesso da Websfera, há muito consumo por osmose. Antes, as pessoas buscavam mais ao contrário do que acontece agora, uma época de mais desinformação que informação.

 

O máximo que as crianças dos anos 90 tiveram de diversão com internet boa foi em 2004, com o saudoso Orkut, que matou os fóruns de discussão que existiam aos baldes. A festinha de Harry Potter migrou pra lá, morrendo junto com a saga e com a popularização do Facebook que acabou com toda a graça. Culpo também o Twitter. Não odeio as redes sociais, se acalmem, só tenho a impressão negativa de que elas têm aniquilado a parte divertida de fazer parte de um fandom.

 

Outra diferença do fandom do passado para o de agora, e que nem deve ser chamada de diferença ou de novidade, é nomear a comunidade. Fãs das antigas que amam Harry Potter não eram potterheads, mas pottermaníacos. Potterhead ganhou mais força no meio da trajetória até o fim, tendo uma sobrevida agora por causa dos fãs novatos. Esse ato de batizar os admiradores de algo em comum veio com mais peso nos tempos atuais. Antes se viam categorias, como fandom de anime, fandom de banda, fandom de HQs, fandom de ficção científica, etc.. Hoje, temos os apelidinhos: whovians, oncers, selenators, etc..

 

No Brasil, o fandom cresceu junto com a ascensão da internet, em meados dos anos 2000. Considerando minha experiência com Harry Potter, existiam muitos portais no final dos anos 90 sobre a saga, mas eles só ganharam poder com a massiva inclusão dos fãs na Websfera na virada para o século 21. Potterish é um dos mais antigos. Nessa mesma década, a propaganda da “fama” era de boca a boca ou de comentário a comentário por causa da participação em fóruns, ou porque fulana escreveu uma fic top, ou porque ciclano era barraqueiro, etc..

 

Posso fazer parte de mais de um fandom?

 

Para isso, existe o termo multifandom. Uma pessoa que pertence/participa de inúmeras comunidades de fã. Eu sou uma pessoa multifandom. Porém, me dedico a uma cultura mais que a outra. Para você se sentir confortável e feliz, temos o Tumblr, um habitat colorido com vários blogs maravilhosos, e o Twitter, que tem vários FCs (fã-clubes) de um usuário para vários ídolos.

 

Quero sair do fandom. Isso existe?

 

Muitas pessoas acham que a frase “sair do fandom” não existe, mas existe sim. Não é um convite para se retirar – um block que costumava acontecer nos fóruns de discussão e achava um máximo –, mas quando a sua atividade na comunidade de fã se apazigua.

 

Às vezes, acho que saí do fandom de Harry Potter, pois não tenho participado como antes, embora a admiração seja a mesma. Isso é natural… Esse “desligamento”. Isso não quer dizer que você nunca participará de uma comunidade aos 30, nada disso. Há adultos sensacionais que amam tudo isso e não sentem vergonha. Hoje tenho uma dedicação com resenhas de algumas séries/livros, uma atividade que me faz ter conexão com os produtos culturais que amo. Mas se me perguntarem: não tenho mais paciência para conviver em um fandom. Sou daquelas que aprecia a distância.

 

Sair do fandom não anula o amor, a não ser que tenha muita mágoa envolvida (tipo TVD). Hoje faço minhas coisas isoladamente, tenho meu Twitter aberto para qualquer discussão, mando bala em fanfics e faço edits no Tumblr. Essa é minha participação máxima e já acho muito.

 

Fandom: uma reflexão

 

Como vejo o fandom de hoje? Estressante! Antes, você discutia com outro fã com argumentos plausíveis (Hermione e Rony vs. Hermione e Harry geraram as mais absurdas teorias). Não que isso não aconteça agora, mas chegamos a um ponto que você é xingado pela sua aparência caso não concorde com a maioria. Oi?

 

Isso nunca aconteceu comigo, amém, mas já vi. E vi o quanto a pessoa ficou magoada e perdeu todo o encanto com a comunidade da qual pertencia.

 

Se briga por shipper se tornou um absurdo atualmente, o mesmo vale para quem faz isso por popularidade. Algumas atingem a falta de respeito, não só com as pessoas próximas, mas com os artistas também. Essa praticidade e o fácil acesso a praticamente tudo ofereceram essa impressão de que todo mundo pode falar tudo. Até pode, mas desde que não ofenda ou minorize alguém. Afinal, tudo que vai volta, não é?

 

Humildade. É isso que tem faltado em muitos fandoms hoje em dia. Tolerância também.

 

Uma coisa que não está na definição de fandom e é a artéria dessa palavra: fazer amizades. Atualmente, só vejo hate espalhado por aí e isso me mata, pois me lembro da diversão que eu tinha como membra de uma comunidade de fãs. Hoje, é preciso filtrar muito (e tudo) para encontrar um grupo – ou até mesmo formá-lo – de pessoas bacanas, que falam abertamente e que sejam críticas. E isso é saudável, traz amizades interessantes. Inclusive, aquele fã de 15 anos pode amadurecer ao mesmo tempo em que se dedica àquilo que gosta. Muitas amizades podem ser feitas no cyber-fandom e levadas para a vida real. Digo isso por experiência própria.

 

E não menos importante: você pode descobrir o que gosta de fazer por meio das atividades de um fandom. Rowling me fez notar que amo escrever – só se esqueceu de me avisar para não fazer jornalismo, porque gostar de escrever é uma coisa e ser jornalista é outra. Não cometam essa burrada a não ser que tenham nascido para isso, obrigada.

 

Hoje, o que falta é a prática saudável e a boa convivência. Há muita intolerância. Muita taxação. Muita ofensa. Como tia do fandom, isso me preocupa, porque mensagens negativas online afetam sim a autoestima do adolescente que só está ali porque gosta da série ou do livro. Uma patada sobre uma opinião referente ao que ele ou ela pensa, pode sim causar estragos. Ainda mais quando essa pessoa não sabe lidar com a pressão do momento.

 

Os que começam agora acham que é só marcar presença e, quando a treta acontece, não conseguem se defender. Ela ou ele pode levar isso para a vida, travando o faro crítico e argumentativo.

 

Acreditem: chacota pode não fazer efeito agora, mas no futuro sim.

 

O mesmo vale se o fã bitolar demais online. Os relacionamentos sociais dele também serão afetados.

 

Nunca fui vitimizada por um fandom, mas, considerando o tanto de reviews negativas que um dia recebi nas minhas primeiras fanfics, lá em 2005, chegou um momento que passei a usar isso em meu benefício. De certa forma, o leitor tem um olhar diferente ao do escritor. Ficava enfurecida? Opa! Queria xingar e crucificar o amiguinho, mas depois aderi o que parecia ser uma dor de cabeça como aprendizado.

 

Conselho da tia: se você ama, muito, invista nos seus talentos e não deixe o senso crítico de lado na hora de ingressar em um fandom. Muitas das pessoas que me encontraram ou que encontrei são aquelas que se sentem confortáveis em debater os lados positivos e negativos de uma série ou de um livro naturalmente, sem ninguém se xingar. Isso é saudável. Isso é bacana. Isso é amor.

 

Atualmente, é muito fácil sentir que a palavra fandom em si possui um peso e uma medida diferente, especialmente quando colocamos o dilema da participação e da popularidade em cheque. Mas fandom é amor! Não adianta entrar nesse território querendo ser popular ou chamar a atenção. Encontre e valorize pessoas legais. Seja uma pessoa legal e se valorize também.

 

Espero que tenham gostado do post. Penso em fazer uma série. Vamos ver…!

Stefs
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