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22/maio

Sim, demorei muito para retomar esta coluna, mas, como sempre digo: antes tarde do que nunca. Relembrando: como ficou combinado, eis o post sobre desenvolvimento de personagem. Essa é uma pauta bem longa, não sei o quanto será benéfico aprofundá-la (acho que ficará repetitivo), mas seguirei o fluxo da inspiração, ok?

 

Lembrando que essa coluna tem como base o que aprendi (ainda aprendo) ao escrever o We Project. Gosto mesmo de compartilhar minhas experiências bizarras.

 

Acredito que consegui afinar bastante esse quesito de desenvolver personagens por causa da minha experiência com fanfiction. Não que vocês precisem disso, mas foi assim que aprendi a ser mais observadora, mais preocupada em definir quem é o meu “elenco”.

 

Dando um breve resumo, minha vida de ficwriter começou em 2005 e agradeço a Harry Potter por ter me lançado nesse meio. Com essa experiência, entendi o ditado de que escrever se aprende escrevendo, e foi muito bizarro quando reli a primeira fanfic que escrevi e a comparei com a última. A diferença é, assim, berrante! Foi chocante!

 

Escrever ficção de fã não é apenas pegar os personagens e dar a eles uma nova história. Ao menos, não para mim. Acredito que, a partir do momento que você se inspira em algo já criado, é preciso haver uma compreensão completa, como se tudo fosse seu. É normal, por exemplo, criar novas nuances para a/o protagonista, algo que acho muito divertido e corajoso, pois o autor se liberta dos moldes ditados por outros ficwriters.

 

Claro que há aqueles que querem fidelidade extrema no mundo das fics, sei bem disso porque passei parte da minha vida escrevendo sobre a Era dos Marotos (Harry Potter) e dei um jeito de burlar as “regras”. Isso contribuiu com meu amadurecimento como escritora de fanfics, algo que passei a aplicar no WP (ou em qualquer outra história que esteja dedicada).

 

Rowling nunca deu uma descrição aprofundada de cada personagem da Era dos Marotos, a não ser descrições de aparência, mas não de personalidade. Nunca com exatidão. Com o tempo, aprendi a me preocupar com o quanto tal personagem é convincente da maneira X (basicamente a que todo mundo escreve) e o quanto poderia dar um tapinha para sair dos moldes “regrados”.

 

Um exemplo: Lily Evans e James Potter brigam um com o outro em todas as histórias. Muitos ficwriters investem nisso em todo santo capítulo. Sempre vi essa relação conflituosa trabalhada em cima do de sempre (Te odeio, Potter!). Assim, descobri que dá para investir em algo diferente.

 

Por esse viés me incomodar, tive que encontrar um meio para desviar dessa “regra”, por ser algo que não gosto em excesso. Eles discutiam, mas, para mim, a vida deles não foi só isso.

 

Outra coisa: não sou tão fã de personagens femininas perfeitas e Lily era descrita como donzela em muitas fanfics. Tive que buscar outro meio para fugir dessa outra “regra” por não ser fã dela. Afinal, a personagem de Rowling tinha defeitos, ué. Bastava ser um pouco criativo.

 

Automaticamente, comecei a refletir sobre esses personagens que não eram meus: como Lily Evans poderia ser mais que uma garota comum e banal que odiava James Potter? Como James Potter poderia ser mais que um garoto rico e arrogante que amava Lily Evans? Essa facilidade veio justamente porque Rowling nunca explorou esse lado da saga, o que me deu a tarefa, toda vez que pensava em alguma fanfic, de desenvolvê-los longe da mesmice. Nem sabia que fazia isso na época. Não passa de prática, como tudo na escrita.

 

No caso do We Project, foi mais difícil criar personagens. Afinal, eles são meus. Dar-lhes forma foi mais complicado que desenvolvê-los, na verdade. Aprofundá-los aconteceu conforme escrevia. Só conhecia a protagonista, que queria com tal personalidade, um caminho para a indagação: como trabalharei isso? É onde começa a entrar o fator pesquisa.

 

Quero que minha personagem tenha dupla personalidade. Pesquisa. Quero que minha personagem tenha problemas de ansiedade. Pesquisa. Quero que minha personagem tenha uma tatuagem. Pesquisa para saber o significado do desenho. Para desenvolver e aprofundar personagem e universo, tenha em mente que será preciso muita pesquisa.

 

No meu caso, grande parte dos meus personagens tem uma fatia de mim e isso me ajudou. Tanto as mulheres quanto os homens. Seja um traço de personalidade ou um trauma. Há também influência de pessoas que conheço (sim, você pode estar no WP), uma fonte válida e que ajuda demais.

 

Outra dica: acredito na regra de desenvolver os personagens com base no universo do qual serão introduzidos. Não é preciso ter o universo 100% lapidado, pois até isso pode sofrer alteração em uma segunda leitura. O que quero dizer tem muito mais a ver com a época. Se seu romance se desenrolará no século 19, como era a vida lá? As roupas? A música? Se sua aventura se desenrola nos anos 90, a mesma coisa.

 

De novo: pesquisa!

 

E, o que acho importantíssimo, independente da época ou do gênero: o que acontecia naquela época? Houve guerra? Crise econômica? Saber disso também ajuda e muito na elaboração das motivações e das consequências que cercarão os personagens e que, automaticamente, rebaterão no desenvolvimento de cada um deles e da história.

 

Lembram que comentei que descrições imensas sobre um personagem não adiantam de nada, tendo Harry Potter e Katniss Everdeen como exemplos? Digo que não adianta de nada porque o editor mandará você cortar tudo. Isso também se aplica a descrição do universo. O escritor, nos dois casos, precisa focar em características marcantes, como a cicatriz e o Tordo, e pontos-chave do background, como Hogwarts e o tipo de governo.

 

Há escritores que não são tão fãs do background dos personagens. Aquelas descrições longas sobre o que aconteceu mil anos antes dos dinossauros não são tão bem-vindas, a não ser que você seja a reencarnação de Tolkien. Histórias medievais, por exemplo, ficam mais ricas com descrições mais aprofundadas de paisagens e afins. Só acho que não precisa ser muito carregado, pois cansa a leitura. Sem contar que esse tipo de escrita atrairá um público em específico, não todos.

 

É impossível resistir àquelas descrições imensas: onde ele morava, com quem, como perdeu o dente, etc., etc., etc.. Porém, nada mais mágico que você descobrir sobre o protagonista pouco a pouco. Conforme os conflitos transcorrem. Isso aconteceu com Harry Potter, o que encaixa na regra “mostre, não conte”. Em cada livro, Rowling deu um pedaço da vida do seu personagem principal. Ela só se deu ao trabalho de relatar como o menino foi parar na casa dos Dursley e a transição para Hogwarts. O que instigou foi a relação entre Voldemort e ele.

 

Porém, isso pode ser muito diferente em um romance. Às vezes, é necessário mostrar porque o personagem começa o 1º capítulo de mal a pior, mas isso não quer dizer que você precisa escancarar tudo de uma vez. Há mistério em um romance também, ué.

 

A Culpa é das Estrelas é uma história fluida, que não se apoia em grandes mistérios, só na insegurança de saber quem viverá no final, Hazel ou Gus. Essa pegada já faz parte do gênero Sick-Lit, uma angústia que nem precisa de um background. Que não precisa do A, B, C da doença.

 

Agora, romances mais maduros, talvez, precisem desse suporte. Se a mulher está mal, qual é o motivo? Divórcio? Essa é a causa, o que pode ser explorado é o como ela se recuperará.

 

A outra forma de apresentar/desenvolver um personagem é pelo que fazem, meio comum para os escritores mostrarem o potencial dele/dela. Em um simples diálogo dá para captar se o personagem é perspicaz, irritante, metido, ignorante. Em Harry Potter, Hermione se mostrou brilhante (e irritante) ao corrigir Rony na aula do profº Flitwick. Katniss mostrou sua nobreza ao se colocar no lugar da irmã na Colheita. Não foi preciso de mais nada para sabermos que tipo de protagonistas elas eram.

 

Para desenvolver personagens (e a trama), a regra é única: mostre, mas não conte. Mostre quem eles são com base no que fazem. No que pensam. Alinhe no outline o ponto de atrito e o destrinche, de maneira que ele/ela seja desenvolvido conforme o plot principal se desenrola.

 

Como um policial, você precisará colocar todos os personagens no tapetinho da disciplina e interrogá-los. Isso também compõe o desenvolvimento de cada um deles, muito mais importante que um parágrafo descrevendo a aparência.

 

Motivação: o que esse cidadão que você criou quer? Harry quer encontrar as Horcruxes para vencer Voldemort. Katniss, em cada jogo, ganha motivação para ser o Tordo da revolução. Gus, de A Culpa é das Estrelas, se empenha em criar bons momentos com Hazel.

 

Empecilhos: o que afeta o final feliz. Harry sendo perseguido e desacreditado. Katniss barrada da Capital e caçada. Gus e Hazel detentores de diferentes tipos de câncer. Esses são os atritos que servem de motivação para o personagem perder, continuar, até ganhar.

 

Nessa bagunça, pergunte: por que eles fazem isso? Por que eles precisam correr atrás se poderiam ficar em casa tomando chá? É preciso de uma explicação convincente, mais conhecido como plot central. O que faz o personagem ir de A até Z?

 

Em outros gêneros: se o adolescente é arredio, justifique. Trauma de infância? Matou alguém? Usa drogas? Tem atrito em casa? Por que ele/ela age assim? Crie um mistério. Não dedure, porque os leitores gostam de se debater por não saberem logo de cara o que acontece.

 

Literalmente, você precisa entrar na cabeça da sua turma.

 

Encontrei este texto de Andrew Miller, que fala um pouco da importância do desenvolvimento de personagens fortes e que resume qualquer coisa a mais que poderia pontuar neste post:

 


“Primeiro, uma nota de cautela. Para fatiar a ficção em categorias, como plot, voz, ponto de vista ou personagem, é preciso arriscar apresentá-la de uma maneira que nem o escritor, nem o leitor, normalmente, tenha experimentado. A sugestão pode parecer que a escrita de uma história ou de um romance é um segmento forte ou uma atividade em camadas, algo ordenado, seco e técnico. Mas histórias, quando elas vêm, vêm em gotas orgânicas, como se fossem arrancadas do tecido vivo do mundo – personagem se emaranha no plot, plot com a ambientação, ambientação com as palavras, e assim por diante.

 

Mas, deixando isso de lado, esse grande improviso, há algumas observações que podem ser úteis na hora de afinar o personagem.

 

Em primeiro lugar (e com o risco de ser socado no rosto por algum seguidor da escola romana nouveau), é altamente confirmado que personagens, personagens fortes, são o coração de toda grande literatura e sempre será. Enredo, mesmo em uma ficção policial, é um assunto muito secundário. Não são muitos leitores que conseguem fazer um outline do plot de The Sign of the Four, mas ninguém tem qualquer dificuldade em trazer Holmes e Watson à mente.

 

 

Um escritor que não cria personagens convincentes falhará. Um escritor que cria personagens emocionantes, problemáticos, sedutores e insistentes não precisa se preocupar muito sobre qualquer outro aspecto da escrita. Você não precisa saber como soletra. Você não precisa saber muito sobre gramática. Você não precisa nem de qualquer enorme sensibilidade para a linguagem, embora esta seja outra qualidade que importa muito na escrita; é, também, talvez, a mais resistente de qualquer tipo de aprendizado formal.

 

Assim, tendo insistido tão imoderadamente na importância central do personagem, como isso em nome de Deus é feito? Felizmente, a matéria-prima está próxima da mão. Para cada escritor, é o seu próprio ser enigmático que constitui o foco da sua pesquisa. Ano após ano, ele senta num tipo de cadeira de arbítrio, assistindo a excentricidade do seu corpo, escutando o borbulhar dos seus pensamentos, peneirando o material dos seus sonhos. E quando quer mais – outros corpos, outros pensamentos –, ele simplesmente olha para aqueles que o rodeiam.

 

Pense, por um momento, na sua própria família. Quase todo mundo tem uma. Você pode nunca precisar ir até eles. Você pode mantê-los em uma espécie de aquário mental, rascunhando-os para dentro de histórias de toda a sua vida escrita. Mude os nomes deles, claro, a cor do cabelo, as tatuagens; mova-os para aquela pequena cidade no sul que você cresceu para uma pequena cidade no norte que você um dia dirigiu até lá e se maravilhou.

 

Mas um escritor não se limita a essa tática. Pode até ser que tal tática não seja particularmente comum. No meu trabalho, muito raramente me proponho a apresentar um personagem que está conscientemente baseado em alguém familiar para mim, alguém cujo nome eu poderia encontrar em meu livro de endereços.

 

A grande maioria dos meus personagens – e acho que isso é verdade para a maioria dos escritores de ficção – é “invenção”. Eles surgem, de forma rápida ou lentamente, timidamente ou ruidosamente, na escrita. Eles são membros daquela população, um deslocamento de homens, mulheres e crianças (para não falar de gatos, cavalos, etc.) que habitam nossos mundos internos.

 

De onde eles vêm, se são versões curiosas de nós mesmos, descobertas do inconsciente coletivo, uma reconfiguração daqueles que, de fato, uma vez que sabe, mas agora esquecido, ou uma mistura de todas estas coisas, ninguém, que eu saiba, jamais de forma convincente respondidas.

 

Não importa. Ninguém escreve por muito tempo sem entender que eles entram no mistério e nunca irão deixá-lo. O que importa é que podemos, por meio de inomináveis processos, segregar essas figuras que irão tear e dialogar nas nossas ficções. Não é, penso eu, como dizer que é um processo muito “natural”, o que somos, todos nós, engrenados para isso, e que sem essa propensão a escrita poderia ser impossivelmente complexa. Não poderíamos fazê-lo.

 

Há, claro, outro grande reservatório de personagens: aqueles que já estão prontos para nós nos livros. Não é que temos a intenção de roubar o Sr. Tulkinghorn do Dickens ou Ursula Brangwen do Lawrence, mas esses personagens nos mostram as dimensões do possível. Um pintor que quer pintar uma árvore precisa fazer duas coisas: olhar para a árvore e olhar para as pinturas de árvores. A primeira tarefa mostra como são as árvores, a segunda as possibilidades de pintá-las.

 

Da mesma forma, como escritor, é pela leitura que você aprende como, na linguagem, o personagem pode ser apresentado – por meio de diálogo, ação, atribuições físicas, monólogo interior, etc. –, um processo que continua até que você absorva esses métodos, e eles se transformem em um reflexo tão incorporado em sua apreensão do mundo que você nunca notará nada sobre ninguém sem secretamente avaliar o potencial para a ficção escrita. E é isso de fato que podemos chamar de “técnica”, embora não devemos confundir método com a tarefa.

 

Na sua forma simples, nua, caracterização é sobre a compreensão do escritor do que é o ser humano. Quando sentamos para escrever, não o fazemos para sairmos do senso de certeza, mas de um tipo radical de incerteza. Não sentamos dizendo: “O mundo é assim”. Mas perguntando: “Como é o mundo”? Na criação de personagens, nos expomos para grandes e honestas perguntas sobre a nossa natureza e a natureza daqueles que nos rodeiam.

 

Nossas respostas são os próprios personagens, aqueles espíritos falantes que conjuramos por um tipo de sonho organizado. E, quando terminamos, estamos imediatamente insatisfeitos com eles, essas “respostas”, e nos acomodamos de novo, confusos, frustrados, animados. Uma utilização ímpar de tempo! Mas há uma coragem para isso. Mesmo, talvez, um tipo de beleza.”

 

Achei esse artigo tremendamente essencial por focar, especialmente, na leitura. Há muitos escritores que afirmam o quanto é importante uma leitura crítica – prestar atenção no enredo, como ele se desenrola, e na apresentação dos personagens. Detalhes que são aprimorados no exercício mais primordial de todos: escrever.

 

Por isso, fique de olho nos arredores. Pesquise. Use até aquele ator ou atriz para ter uma noção de altura, cor do cabelo e de gestos. Rainbow Rowell se inspirou no Tom Felton para escrever o Levi de Fangirl, vejam só! Sabe as séries que você assiste? Está aí uma bela lição de casa.

 

Trace uma ou duas características que serão difíceis de passarem despercebidas – e dê importância a elas. Pense no background e o desenvolva aos poucos, não em mil parágrafos. Mostre, mas não conte todos os segredos dos seus personagens, pois é disso que você precisará para transformar a história em capítulos.Espero que tenha dado uma luz. Qualquer dúvida, postem no comentários. Tentarei ao máximo ajudá-los! :)

Stefs
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