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12/maio

Esta é aquela resenha atrasada, que deveria ter sido postada em abril, mas com todo o caos feat. falta de internet, vamos dizer que: antes tarde do que nunca.

 

A Volta Ao Mundo Em 80 Dias estava na minha lista de leituras de janeiro. Faz tempo, eu sei, mas hesitei algumas semanas em escrever esta resenha por não estar tão certa disso. Assim, o livro é muito legal, achei que não gostaria nem um pouco. Porém, como sou daquelas que gosta de profundidade e de melodrama, tive que fazer uma pausa dramática até descobrir o que tinha aprendido com a leitura desse clássico assinado por Júlio Verne.

 

Mesmo na corda bamba, fiquei encantada com a história. Por ser uma aventura, achei seriamente que terminaria com um revirar de olhos. Nunca pensei que fosse gostar desse livro e confesso que fiquei com dó de deixá-lo de lado. Nem lembro como esse título foi parar no meu jarro de livros aleatório. Sei que foi no ano passado, época em que coloquei os papéis no vidrinho, mas não recordo o insight que me fez pensar “Meu Deus, preciso lê-lo!”. Independente disso, não foi dispêndio de energia.

 

Então, do que se trata A Volta Ao Mundo Em 80 Dias? Antes de mais nada, saibam que ele foi escrito em uma época de dificuldades na França, país de nascença de Verne, marcada pela guerra franco-prussiana. A ideia veio, ironicamente, durante a leitura de um jornal, uma das razões que norteia o enigmático Phileas Fogg, o protagonista. O enredo transcorre em 1872, Londres, e pouco se sabe sobre o personagem. Como vive? O que come? Como tem dinheiro? Ninguém sabe disso, o que o torna efetivamente o ponto de interesse não só da vizinhança como do narrador – aquele presente, que participa do que conta, expondo opiniões e dúvidas.

 

Descrito como solitário, excêntrico, fechado, etc., etc., etc., Phileas é aquele tipo de pessoa que entra calada e sai muda, o que abre margem para as mais variadas suposições. O personagem não é o mala sem alça da vizinhança, mas é introvertido. Ele é até feliz na sua vida misteriosa e se contenta com pequenas coisas, como jogar uma partida de whist com os colegas no popular Reform Club ou passar horas lendo o jornal.

 

O que chama a atenção é que Fogg é realmente solitário. Não há amigos que o visitam com frequência, nem sinal de algum membro da família, nem muito menos uma esposa. Ninguém sabe o que acontece no interior da casa e nem no interior desse homem que se limita a convivência de um criado – outro que nunca sabe muito do patrão.

 

O dado mais certo sobre o personagem é o amor pela pontualidade. Um detalhe que atrai Passepartout, o novo criado, que logo vê isso como uma bênção, por ser a única coisa que deverá se preocupar no trabalho. O recém-chegado vê no emprego a chance de ter finalmente uma vida pacata, sem grandes emoções. Um sonho que se torna uma pesadelo quando, subitamente, Phileas Fogg se vê diante da aposta irrefutável de dar a volta ao mundo em 80 dias. A inspiração? Uma manchete no jornal e a dúvida sobre a possibilidade de realmente conseguir.

 

 

Cálculos atrás de cálculos, eis que Fogg não hesita em abraçar uma aventura nem um pouco planejada. Uma volta ao mundo em 80 dias é a meta, tendo o tão amado tempo como o maior inimigo. Passepartout, que estava animado com a ideia de vida sem emoções, logo se vê incluso na nova empreitada que pipoca de uma hora para a outra. Sem nenhum preparo. Em poucos minutos, ambos se veem imersos nesses 80 dias de puras emoções incalculáveis. Para um homem que se contentava em viver em seu quadrado, investir em uma viagem sem um plano soa como uma loucura.

 

Ainda mais quando esse personagem preza demais a pontualidade. Um fator tão imprevisível quanto os empecilhos.

 

Saídos de Londres, Fogg e Passepartout se jogam nessa empreitada. A única garantia é uma boa quantidade de dinheiro que se torna muito conveniente em cada parada do navio que pegam, bem como dos obstáculos que surgem no percurso. O protagonista se torna a sensação do momento, algo não bem quisto pelo detetive Fix.

 

Fix é o ponto de atrito. Ele acredita piamente que Fogg fez um furto danado em um banco dias antes dessa viagem. Juntando a súbita decisão de um homem pacato mais a quantidade de grana, o detetive também embarca nessa aventura a fim de provar que Phileas uniu o útil ao agradável para fugir da Inglaterra.

 

Isso traz um pouco de dramática à leitura. Uma ótima quebra, pois a história bem poderia só focar na viagem, o que acho que seria bem chato. Fix traz diversão por não ter limites e você começa a desejar seriamente que ele se dê mal. Ou, na pior das hipóteses, começa a cair na dele sobre Fogg ser o assaltante. Sem dúvidas, esse impasse traz um pouco de paranoia.

 

 

Em meio às trapalhadas de Fogg, Passepartout e Fix, há ricas descrições dos lugares em que os personagens são obrigados a fazerem suas paradas. A narrativa centraliza muito bem como era a vida naquela época e como eram os costumes. Há um cuidado especial na hora de descrever as paisagens, as pessoas e até mesmo os figurinos. Tudo para que o leitor enxergue o que esses personagens estão vendo. Cada break é um momento de sentar e de ouvir uma boa história. E isso foi muito legal porque me senti de volta à escola.

 

Até destaco a parada bem significativa na Índia, em que Fogg e Passepartout resgatam Aouda, personagem que passa a ser essencial nessa viagem. Tudo descrito como uma baita riqueza de detalhes. Só há um ponto negativo nisso tudo: essas passagens tendem a ser cansativas, ainda mais se vocês lerem uma edição bem antiga desse livro (o meu caso). Podem haver muitas palavras que não foram traduzidas para o português. Tive que reler alguns parágrafos duas vezes para entender o que o narrador queria dizer, mas compensou o esforço.

 

A Volta Ao Mundo Em 80 Dias é, literalmente, uma aventura sem eira e nem beira, que tem tudo para dar errado. Por mais que haja Fix, o verdadeiro instigador, é Fogg quem preocupa e quem tem todas as atenções. O personagem não se abala com nenhum atraso e nenhum empecilho. Nem vê problema em parar e prestar ajuda. O único ritual dele é anotar as paradas e os horários, o seu controle da pontualidade que, pouco a pouco, começa a lhe escapar pelos tiques apressados do relógio.

 

O mais engraçado é que o livro consegue fazer com que o leitor embarque nessa viagem. É um grande instigador da imaginação, especialmente na hora de desenhar as paisagens. Somos forçados a fazer o mesmo se quisermos entender o norte dos acontecimentos. Quando há fatos reais e datados, é impossível a mente não fazer um retrocesso: “poxa, vida, meu professor falou isso”. No meu caso, foi o consumo de Ópio, droga que arruinou muitos chineses nessa época e que tem espaço na trama. Foi bem legal reviver essas informações.

 

Mesmo com uma bagagem histórica tremenda, o foco do livro é a aventura. Os únicos pontos de conflito são Fix e o tempo. O provocador é Fogg que abraça o lema de que imprevistos não existem e contorna cada um com extremo sangue frio e elegância.

 

 

Uma das coisas que se capta na leitura é um embate quase invisível sobre felicidade e dinheiro. A viagem moveu Fogg pela aposta e é impossível não se perguntar o que toda essa experiência trará ao protagonista de aprendizado. Esse foi o ponto que me fez hesitar na hora de escrever a resenha, pois não tinha captado certa moral. Ele simplesmente sai da zona de conforto, arrasta o criado e uma bolsa de dinheiro. Para quê? Ao longo da jornada, esse senhor permanece imutável e insondável. Ele não demonstra um sinal de tensão e nem é levado pelo estresse. É como se ele estivesse à deriva, se movendo porque Deus quis.

 

Passepartout é quem esboça muito bem a indignação sobre a passividade do patrão. É ele quem resmunga sobre os horários, a diminuição gradativa do dinheiro, etc., enquanto Fogg só quer manter seu diário de bordo em dia. Por Phileas ser calculista e pontual, era de se esperar um escorregão emocional diante das falhas. Ignorar um ou dois empecilhos, tudo bem, mas esse personagem ignora todos e é impossível não surtar junto com o criado. Para quem mensura tudo na ponta da caneta, é humanamente impossível não sentir um pingo de revolta.

 

Assim, você pensa que nada dessa experiência aquecerá o coração de Fogg e, quando a leitura se aproxima do fim, dá aquele desespero. Afinal, depois de tudo, ele continuará assim? Na poker face? Imutável? Ainda com o coração de gelo?

 

Para mim, a prova maior do livro foi mostrar que Phileas Fogg tem coração e tem necessidades como nós. Ele não é depressivo, mas conformado com a própria realidade. A viagem calhou como uma inspiração, um novo ânimo, um novo sopro de vida que lhe abriu um novo mundo. Mesmo que não seja explícito, o personagem fez o que fez na crença de que não tinha nada a ganhar ou a perder percorrendo o mundo em 80 dias.

 

 

Com uma decisão, Fogg saiu da zona de conforto, ganhou um fiel escudeiro e encontrou pessoas que o desafiaram a mostrar o melhor de si. Quem torna essa empatia possível também é o narrador, que tem controle de todos os pontos de vista, sabe o que acontecerá, não interfere em nada e relata os acontecimentos como se escrevesse em um diário. Como se estivesse no meio deles. O narrador tem um ponto de vista aberto e profundo, com descrições muito vívidas. É ele que descreve os locais. Os personagens são apenas ações.

 

Fogg é um tipo de personagem que mexe muito com a imaginação, pois, realmente, pouco é dado sobre ele. E o que faz A Volta Ao Mundo Em 80 Dias tão incrível é que você termina com um sorriso no rosto ao descobrir que, por detrás de todo aquele distanciamento, há sim um homem valente e que, mesmo consciente da própria solidão, encontra sua felicidade.

 

O livro é mágico! Não tem como não se envolver com o emaranhado dessa viagem que tem uma conclusão digna de Senhor do Tempo. Ainda estou meio passada por ter adorado Phileas Fogg como companhia, fui pega de surpresa. Assim que tiver chance, darei a ele um lugar na minha prateleira.

 

 

Na Prateleira
Nome: A Volta Ao Mundo Em 80 Dias
Autor: Júlio Verne
Editora: no link do nome, vocês encontrarão as mais variadas edições.
Online (PDF):  Universia & EBooks Brasil
Crédito da foto: EBooks Brasil

Stefs
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