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06/maio

Não, isso não é uma miragem. Cheguei mais cedo que o esperado para manter as atualizações sobre o We Project. Não tinha planos de começar tão rapidamente, tinha como meta lidar com o pseudo-livro só em maio, mas prestes a abril terminar resolvi enfrentar meu filho prodígio.

 

A reescrita me consumiu dois anos. Agora, reler e editar é o ciclo que entro pela primeira vez.

 

Para quem chegou agora: We Project é uma coluna da qual falo da minha experiência com o meu pseudo-livro. Dê uma chegada na tag para saber mais!

 

Breve resumo do que rolou desde 2012

 

2012: sentei e vomitei no computador. Comportamento de ficwriter mode on. Escrevi sem limites, desvairada. Parei na borda da 3ª parte e entrei em recesso para reavaliar o que tinha escrito.

 

2013: escrevi tudo do zero. Deixei o trabalho feito em 2012 devidamente arquivado. Graças ao período de escrita do ano anterior, tive mais noção do que queria. E não foi um rascunho para as 3 partes. Foram vários!

 

Basicamente: recomecei do jeito que achei melhor. Foi o ano em que minhas ideias começaram a realmente amadurecerem, que realmente comecei a me atentar aos outlines, que comecei a exigir das amigas caderninhos de anotação e post-its de presente.Muita escrita, insegurança, tendinite e estresse, porque chega um momento que você não confia no processo.

 

2014: Stefs chutou o emprego e se dedicou a um retiro com o We Project. Esse foi o ano do: escreva de novo o que fez em 2013. Sabe aquele negócio: tá bom, mas dá para melhorar? Entrei nessa vibe e escrevi no mesmo ano todas as partes, inclusive, a terceira, a real meta, já que em 2013 finalizei totalmente a parte 1, fiz várias versões da parte 2 e continuei na borda da parte 3.

 

O que acontecerá em 2015: Stefs decidiu reler e editar. No ano anterior, notei que as mudanças começaram a ser mínimas e que passei um bom tempo encaixando capítulo/diálogos/cenas do que tinha feito em 2013 – o que foi muito bom, pois não perdi nenhuma ideia. Ainda não é o período de revisão, pois ainda há o “tá bom, mas dá para melhorar”. Só que dessa vez não sinto a pressão de reescrita (e do tempo). Estou confortável com o que escrevi em quase 3 anos. A ideia é analisar os encaixes e os personagens, pois tive revelações enquanto escrevia a 3ª parte. Será uma faxina.

 

We Project em: a faxina

 

Comecei a faxina no dia 16 de abril. Pensei em fazer como no ano passado: um cronograma para cada parte. Saltei esse compromisso, pois a atenção agora é um pouco mais redobrada. Passei da fase de vomitar palavras e de deixar para ver depois. Agora, preciso realmente encarar o filho, entendê-lo, notar as qualidades e os defeitos, e reformulá-lo.

 

Se tivesse feito um cronograma para esse novo ciclo do WP, já estaria em fase de piração. Até a publicação deste post, mexi em 4 capítulos. Pouco, talvez, do ponto de vista de vocês, mas muito para mim. Afinar o que se tem não é lá muito fácil e agora sim sinto aquele dilema de inspiração.

 

Explico: antes, conseguia driblar o drama inspiração/bloqueio com coisas que remetiam à história (ainda faço isso). Como ler livros ou ver algum filme/série do mesmo gênero. Isso me ajudou em todo o percurso, mas percebi que meus bloqueios eram “meramente emocionais”. Como assim? Se não sinto que o capítulo transmite o que quero, tanto em informação quanto em sentimento, fico dias me remoendo. Inspirar-me nunca foi um problema, ainda mais quando encontro meios que me encorajam a sentar e a fazer o que devo fazer.

 

Porém, esse “dilema” é mais real agora, porque preciso realmente estar a fim de entrar na pele da minha protagonista. Ela é uma personagem com várias oscilações de humor e, se não estou na vibe, não adianta eu sentar e me forçar a escrever, porque voltarei ao “deletando o capítulo e começando de novo”. Um perrengue que aprendi a evitar quando escrevi enlouquecidamente em 2012/2013.

 

Esclarecimentos dados, agora vamos ao que realmente interessa: o início do We Project pelado.

 

O clichê vs. clichezão

 

Aqui começo a tirar a primeira vestimenta do WP: o clichê. Sim, sei que você revirou os olhos. Espero mesmo que você não seja uma das pessoas que resmunga só ao som dessa palavra, mas sinto dizer: sua vida é um clichê. O cinema, a literatura, a televisão… Tudo clichê!

 

Orphan Black, conhecem? Partiu do clichê de clonagem. Deixou de ser genial? Não.

 

Tudo bem que isso é variante, porque há pessoas que acham Orphan Black um monte de bleh! Mas, se você parar para pensar, tudo que você faz é um clichê ou vem de uma ideia existente.

 

Exemplos:

 

Divergente não tem nada de Jogos Vorazes, mas há as mesmas impressões por serem distopias, com divisão política e uma chefia tirana. Veronica Roth pegou toda a atmosfera de Suzanne Collins, o aspecto do “novo modelo” e criou o seu universo. Ela não partiu de algo necessariamente novo, mas desenvolveu uma história com um viés um tanto quanto inédito.

 

A verdade sobre clichês, segundo Stefs: não importa qual clichê, apenas não o torne um clichezão. A partir do momento que um escritor pensa em uma distopia, ele pode aderir o que já foi feito, não é pecado. O que será relevante é a criatividade na hora de desenvolver o clichê ou a ideia “pronta”/original. Amém que não somos todos iguais, não é?

 

O clichê do We Project se chama amnésia. Sei que você revirou os olhos – de novo – e sei também que você pensou no fulano sofrendo um acidente e perdendo as memórias com uma pancada na cabeça. Sim, é esse clichê mesmo que uso (não foi acidente de carro), mas, a minha curva é: esse impasse não é o cerne da minha história. É apenas o empurrão, porque há coisas piores ao redor da minha protagonista (sim, piores!).

 

O empurrão do We Project veio de um clichê e não me sinto mal com isso. Talvez, me sentiria desconfortável e insegura se esse tema fosse o coração do enredo. Não é o caso. Esse dilema é apenas uma peça influente e não chega a ser a real problemática da minha protagonista. É como Harry Potter: você sabe que Hogwarts está ali, peça importante para a saga de Rowling, mas o determinante são as dores de cabeça do menino Potter.

 

A verdade é que, atualmente, há muitos clichês na literatura. Ou inspirações que vêm de outros produtos culturais que não são muito bem trabalhadas. Isso incomoda muitos leitores/criadores e entendo perfeitamente, pois me gasta ver o clichê virando clichezão. Sou adoradora de amor à primeira vista, por exemplo, e amarei a história completamente tendo em mente o desenvolvimento desse clichê.

 

Esbarrar na porta do supermercado? Corta que dá tempo!

 

A perda do poder do clichê, segundo Stefs: comecei com a amnésia, certo? Certo! O clichezão desse clichê seria fazer minha protagonista recuperar as memórias com outro baque na cabeça. Oops.

 

Voltando à Roth, ela pegou uma receita bem-sucedida e trouxe um novo recheio. O universo dela não é necessariamente o cerne da história. É o background. As divisões estão lá para impulsionarem os atos da Tris, como a Capital está para a Katniss. Por mais que haja esse cenário em Divergente, muito a cara dos Distritos de Jogos Vorazes ou de Hogwarts, a autora foi lá e fez o seu diferencial. Ela partiu do que já é clichê na literatura e deu um jeito de não ser só mais uma.

 

O clichê também vale para protagonistas. Katniss não tem nada a ver com a Tris, e os relacionamentos amorosos delas também são diferentes. Bem como o resultado final de ambas. Mas isso é assunto para outro post.

 

Por mais que não tenha terminado de ler a trilogia Divergente (mesmo dando de exemplo, não curto por falta de afinidade com a Tris), Roth ganhou meu respeito ao ter peito de escrever o que ninguém quer ler em tramas assim por causa do happy ending. Aplaudi, porque sou bem dessas assassinas de personagem.

 

Eu acredito muito no poder do clichê, desde que ele seja trabalhado de um jeito que não caia no clichezão, o que será fatal. Há muitas histórias, especialmente para adolescentes, com sinopses parecidas, mas se diferenciam no miolo. O mesmo vale para todos os livros do mundo.

 

Escritores têm medo do clichê com base no que todo mundo pensa. Meio mundo fala “ah! Mas isso é tão clichê”, mas todo mundo dá de cara com um clichê. Mas é aquela questão: quando você sabe que o escritor pode mais que o clichê, automaticamente há essa cobrança de originalidade. Xingo muito no Twitter quando testemunho reciclagens ou histórias que me levam a pensar que aquele ótimo roteirista enlouqueceu. Normal.

 

Eu, particularmente, não vejo nada de errado em partir de algo “óbvio”. Claro que o assunto é outro quando vejo autores e  roteiristas renomados pisando na jaca, porque grande parte delas/deles são meus exemplos, ué. E muitos deles sempre vendem essa impressão de “sou original”. É aquela velha coisa de ter a  expectativa abalada uma vez ou outra. Normal também. Optei por amnésia por motivos que não posso esclarecer agora, mas sei que a protagonista não recuperará suas lembranças com uma nova pancada ou por meio de um beijo do crush. E isso é minha meta de vida porque amo o clichê, mas não o clichezão.

 

O que digo é: sinta-se confortável com seu clichê e evite ao máximo o clichezão. O clichezão é a real preocupação. Muitas coisas se criam com base em outras. A diferença está no que você quer escrever, desenhar, enfim… Divergente, Harry Potter e Jogos Vorazes possuem um background tremendo que serve para empurrar a heroína ou o herói, ou os dois. No caso, destruir um sistema político ditador e o Voldemort.

 

O problema do protagonista, como amnésia ou a paranoia da Katniss, sempre dá um jeito de ofuscar o clichê por ser o apelo emocional. É o que tira a história do cru e do frio, e desvia a atenção do clichê. Os leitores querem um envolvimento com os personagens – o ponto que você precisa dar uma atenção dobrada, mas isso é assunto para outro post.

 

Mas se você é aquela pessoa awesome que cria coisas inéditas, sem se inspirar em ninguém, pega meu like. Algo meio Tolkien, Rowling, Austen, e assim por diante. Caso contrário, aposte no clichê e evite o clichezão. Seja clonagem, amnésia, amor à primeira vista…. Muitas pessoas amam esses pontos de partida. Elas só não gostam de mais do mesmo – mesma finalização, mesmo tipo de personagem, etc., etc., etc. O clichê é apenas uma das variantes que não acho tão relevante na história. O que importa é como ele será trabalhado.

 

Como diz Austin Kleon: somos atraídos por certos tipos de trabalho porque as pessoas que fazem esses trabalhos nos inspiram. Toda ficção é, na verdade, fanfiction.

 

E como ficwriter, que passou anos usando o universo da Rowling para moldar minhas próprias histórias e para “aprender” a escrever mais, só afirmo que essa é a mais pura verdade.

Stefs
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