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01/jun

Tribo: grupo de pessoas que apresentam características e interesses comuns.

 

Tribo se tornou uma das minhas palavras favoritas.

 

Nunca achei que pertencia a uma tribo, embora estivesse inclusa em várias. Sempre tive aquela impressão carregada de que não pertencia a canto algum na adolescência, mesmo presente e entre pessoas maravilhosas, nos lugares mais maravilhosos do mundo. O mesmo vale para a vida adulta, em que ficamos meio paranoicos diante de tanta falsidade.

 

Lembro-me que, nos anos 90, havia o slogan: encontre a sua tribo. O significado de tribo que se pregava era encontrar um grupo de pessoas que se vestia como você e que consumia o mesmo produto cultural. Isso significava que com apenas uma troca de estilo, por exemplo, você, automaticamente, tinha que mudar de tribo por não ter mais a “carinha” daquela que lhe acolhia.

 

Literalmente, encontrar sua tribo era uma questão de rótulo naquela época, e como a adolescência é um período bipolar, lá estavam muitos, inclusive eu, se moldando para se encaixar. No meu caso, foi o meu peso e o bendito cabelo liso. Porque ser magra e ter cabelo liso era glam.

 

Lembro que vivi muito tempo da minha adolescência quicando de tribo em tribo. Não porque mudava de estilo (não tinha dinheiro para tanto), mas porque queria pertencer a universos diferentes. Sempre fui a garota fangirl e só vi as trevas quando o Evanescence surgiu. Quem nunca?

 

Eu era uma nômade. O que não me satisfazia em uma tribo, dava um jeito de encontrar em outra. Das tribos que tinham na escola, mais precisamente em cada ano que estudava, transitei em praticamente todas. O problema é que já pertencia a uma tribo, que já me abraçava pelo que eu era, com todos meus defeitos e minhas qualidades. Essa tribo aceitava até meu nervosismo inconstante. Essa minha tribo era bem compreensiva, pois, quando passava um tempo em outra, era recebida de volta como se nada tivesse mudado. Isso que chamo de grande tolerância, pois eu me baniria.

 

Creio que toda essa dificuldade em me aquietar em uma só tribo foi devido às situações que enfrentava em casa. Não sei o quanto um divórcio abala o jovem de hoje, já que é uma palavrinha tão banalizada quanto eu te amo, mas, nos anos 90, era o mesmo que declarar o fim do mundo. Era uma vergonha para o adolescente ver os pais se separando e isso poderia atingir proporções drásticas. No meu caso, virei rebelde sem causa (ser “góteca” foi depois do ensino médio, ok?).

 

Assim, busquei outras tribos, mas com o singelo diferencial: queria que apenas me enxergassem. Até porque não falaria porcaria nenhuma. Isso me tornou uma boa ouvinte, porque passava mais tempo envolvida na nhaca alheia que na minha (e foi assim que aprendi a ser menos otária).

 

Passei por essa fase infernal de aceitação. Uma fase oscilante, o grande dilema da adolescência, que sempre coloca em cheque quem você é e enaltece a impressão de não pertencer a canto algum.

 

Correr atrás de outras tribos era meu teste (e vício) para ver se outras pessoas me aceitavam, sendo que, olhando agora, eu não precisava disso, pois já tinha amigas que me aceitavam. Que compreendiam o que acontecia na minha casa, embora não falasse muito. Que me davam um abraço acolhedor e um cafofo para dormir nos finais de semana. Uma tribo composta de meninas e de meninos que confortou meu coração, até mesmo quando queria dar soco em todo mundo.

 

Mas essa confortabilidade de ter uma única tribo logo desvaneceu quando fui obrigada a mudar de escola. Foi um baque ter que sair da minha tribo, que me acompanhou desde meados da adolescência, para ingressar em outra. Vi-me entrando em um tenso e solitário ritual de passagem.

 

Quando se passa muito tempo no mesmo lugar, esquecemos como é lidar com o novo. Não queremos coisas novas por estarmos meio que satisfeitos com o que temos. Isso inclui investir em novos relacionamentos, algo sempre difícil, só não pior que uma adaptação em um novo território.

 

No fim, se tratou de um ritual de passagem que revelaria uma nova camada da minha pessoa. Foi um vai ou racha, especialmente porque tinha uma tribo backup, composta por membros que toda mãe chama de péssimas companhias. Naquela época, estava meio que no fundo do poço, não por causa da tribo da escola, mas por causa da tribo do prédio em que morava. Na tribo ruim, só consegui sair quando mudei de prédio, porque sempre alguém me chamava de volta.

 

Quando cheguei nesse novo território que, supostamente, me daria uma nova tribo, encenei mais uma revolta. Não queria ficar porque não sabia como me relacionar. Olhar para todas aquelas pessoas, claramente com suas panelinhas já formadas, me deixou em pânico.

 

Recapitulando: uma tribo nos anos 90 se reconhecia pelas roupas e pelo produto cultural. Em meados dos anos 2000, havia um negócio chamado Harry Potter. Esse foi meu escambo em forma de fichário com Hogwarts desenhada. Foi assim que conquistei uma única amiga nessa transição.

 

Hoje, concluo que essa parte da minha jornada teve como único objetivo moldar o meu caráter. Não só isso, como me preparar para a vida adulta. Aprendi a andar de trem sozinha, a me virar numa cidade que não conhecia, a encontrar novos amigos que não duraram – só uma, a pessoa que reconheceu Hogwarts nas minhas mãos. Olhando para a Stefs de antes e a Stefs de agora, penso que estaria perdida se não tivesse sido obrigada a passar um tempo em outra tribo. Aprendi novas coisas, adotei novos hábitos, consumi outros costumes, assimilei um novo molde de ensino.

 

Essa passagem me afastou completamente das pessoas que cresceram comigo. Essa foi a parte que mais lamentei. Contudo, aproximei-me mais do meu eu na nova tribo. Foi um período de quietude. De reconhecimento. De dedicação. Tudo com apenas uma pessoa, o que nos fez viver em dupla. Foi ali que percebi que não é preciso 10 pessoas em uma tribo. Às vezes, uma é o bastante.

 

Cultivamos um conhecimento mútuo. Criamos nosso universo em que fugíamos dos perrengues similares que tínhamos em casa. Buscávamos uma na outra um escape em meio a tanta coisa ruim.

 

Descobri que quem compõe a tribo nos ama pelo que somos, com todas as qualidades e defeitos.

 

Descobri que nenhum dos membros da tribo pensa exatamente igual (sou teimosa) e, se pensássemos, não evoluiríamos como seres humanos. As diferenças serviram para alterar minha visão de mundo.

 

Descobri que viver na tribo se resume em duas palavras: crescimento e amadurecimento.

 

Tribo tem muito a ver com pertencer. Não é apenas encontrá-la e manter estadia. Ou forçar uma adaptação só para ser aceito. Uma tribo acolhe, ensina, eleva o ser. Uma tribo fala na mesma linguagem, não por similaridades que vêm de gosto, mas por encontrarem nessa comunicação uma forma de acarretar uma diferença. Não aquela que oprime, mas aquela que enriquece. Não apenas um membro, mas todos, porque a vivência agrega algo.

 

Uma tribo nos dá liberdade de sermos vistos. Ouvidos. Acima de tudo, de sermos o que somos.

 

Uma tribo é composta pelas mais belas e diversas personalidades. Pelos mais belos e diversos seres humanos que nos abraçam pelo que somos e não pelo que temos a oferecer.

 

Uma tribo ama e protege. Ela não exige mais do que podemos oferecer.

 

Uma tribo reúne pessoas ao acaso. Elas são atraídas pela nossa energia. Pelo que transmitimos ao mundo. Pelo que pensamos. Pelo que carregamos no coração.

 

Especialmente, pelo que queremos na vida.

 

Uma tribo evolui pelas pessoas, e as pessoas elevam nosso self.

 

Viver em tribo é um constante ritual de passagem.

 

O sentimento de não pertencer abala vários âmbitos da vida, especialmente quando se é tão jovem. Você acredita que todos não gostam de você e isso machuca, porque com 14, 15, 16, 17 anos muitos carregam a impressão amarga de não pertencer, de não ser amado, de não ser importante. Isso gera inseguranças que afetam o convívio social, especialmente quando há o looping daquela experiência anterior de nunca ter feito parte de uma tribo. Ou de ter feito e não ter dado certo.

 

E nós pertencemos, nem que seja a uma tribo formada por uma pessoa, além de você, como aconteceu comigo durante meu ritual de passagem. A boa parte disso é que esses encontros aumentam a tribo e essas pessoas tendem a permanecer para sempre.

 

É fato que há pessoas que encontram nosso trajeto, fazem o que precisam fazer, e vão embora. Elas são apenas o desafio que nos empurra para o novo norte da jornada.

 

E nesse novo norte, a tribo nos dá a chance de escolhermos entre a pessoa de antes e a pessoa que queremos ser dali em diante.

 

Do outro lado da linha tênue, estará a tribo, independente da batalha ter sido ganha ou perdida. Essas pessoas do outro lado são as que permanecem e cabe a você se abrir para essa energia, para esse amor, para esse combo de mentes sábias que nos ajuda a evoluir como seres humanos.

 

Tribo é uma palavra espiritual para mim. Dizem que nossa energia a atrai, e não poderia concordar mais. Minha tribo é composta pelas mais variadas mentes, estilos de vida, saltos na jornada. Mas há medos e alegrias parecidas ou compactuadas. Isso faz a energia entrar em constante manutenção, mas sempre há a faísca que se manifesta em tempos de tormenta.

 

Viver em tribo é uma questão de respeitar a si mesmo e aos outros. É elevar a si mesmo e ao outro. É pertencer e fazer com que o outro também sinta esse pertencimento. Não é sobre roupas, maquiagem, carros, apartamentos, baladas. É sobre pessoas. Pessoas que magnificamente encontram o nosso caminho de formas inesperadas e que nos acolhem para enfrentarmos com mais coragem uma antiga ou nova luta. Cada fragmento de uma tribo compõe o nosso ser, como o nosso trabalho, as nossas conquistas, as nossas perdas.

 

E nenhuma dessas pessoas estão ali em vão.

 

Uma tribo nos aceita pelo que somos e nos faz crescer em todos os sentidos.

 

Uma tribo brilha como um todo por meio de seus membros que agregam coisas inspiradoras em todas as vidas que tocam. Uma tribo dança no mesmo ciclo, com velhos e novos personagens, rumo a uma aventura que visa sempre a magnitude, a passagem para um novo nível.

 

Ame a sua tribo. Não importa quantos membros há nela, desde que seja sua faísca para sempre buscar o melhor de si e dos outros. Porque uma tribo trabalha em conjunto mesmo que as mãos estejam em postos de individualidade. No fim, todas as histórias se conectam e elas envolvem todos na chama do crescimento e do amadurecimento mútuo. E da mudança.

Stefs
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  • Que lindo você abrindo o coração assim e contando da tua adolescência, anja! É uma fase complicadíssima, eu mesma passei por cada coisa, sofri por tantas bobagens e nossa, é engraçado olhar pra trás e lembrar que aquela pessoa existiu. Mãs, faz parte né? A gente sempre gostaria de ter a mentalidade do momento há uns anos atrás mas de qualquer forma foram aquelas experiências que nos moldaram e por pior que tenha sido temos que agradecer porque hoje buscamos ser melhor e ter essa tribo pra se apoiar é uma das grandes dádivas da vida <3