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31/jul

Querida Rowling,

 

Não sei bem por onde começar esta carta, pois muitas coisas se passam na minha cabeça neste exato momento. Primeiramente: obrigada! Obrigada por escrever a história que mudou e que salvou minha vida incontáveis vezes. Uma jornada que começou toda errada com Harry Potter e a Câmara Secreta, um caminho reverso que tive que fazer por não saber que se tratava de uma sequência (ninguém me avisou, ué, tive que descobrir). Mas minha vida é assim, tudo ao contrário.

 

Por mais que você tenha escrito a história da minha vida, e a de muitas outras pessoas, foi por meio da sua pessoa que descobri um dos meus dons: escrever (que novidade!). Antes de Harry Potter, nunca permiti que meus dedos tamborilassem no teclado para desenvolver uma história. Nunca pensei sobre isso, na verdade. O interesse nunca foi alimentado – até a saga dar na minha cara.

 

O máximo que cheguei a fazer – e até penso ter sido meio inconsciente –, antes das fanfics, foi escrever em um caderno de desenho, quando era pequena, com direito a desenhos escabrosos. Era o que me fazia feliz, mas não sabia o quanto isso me fazia feliz.

 

Não só feliz, como completa.

 

Você escreveu por acreditar em uma história que acabou salvando a sua vida. A partir disso, aprendi a acreditar que qualquer uma que caísse no colo de alguém, em dado momento, faria o mesmo. Aleatoriamente. Porque, literalmente, estava escrito. Predestinado. Talvez, era para ser.

 

E essa mágica pode salvar qualquer pessoa, em qualquer lugar. Penso que, nem sempre, o que precisamos ouvir ou debater está na voz do outro, mas em uma simples folha de papel. Ou em um filme. Ou em uma série. Ou em um texto encontrado aleatoriamente na internet.

 

Muito da minha perspectiva sobre escrever mudou conforme fui escrevendo. Isso aconteceu quando mergulhei nas fanfics. Comecei a tratar o ato não apenas como um meio para contar histórias, mas para atingir pessoas – algo que rolou na minha fic de mil capítulos. Chorei com alguns comentários.

 

Isso criou um embate dentro de mim sobre a falta de tato das pessoas com as palavras.

 

As palavras se tornaram um buzz, não um meio. Isso me ofende. Essa foi a minha principal decepção acadêmica – que veio depois das fanfics. Essa é minha principal decepção atual. Me mata dar de cara com textos que não dizem nada com nada, ou escritas por uma pessoa tão arrogante ao ponto de se achar a mais certa do mundo.

 

Percebi que não queria ser assim, e nem escrever por escrever.

 

Sempre tive algo escondido dentro de mim que exigia explorar mais a fundo qualquer tema. Não apenas começá-lo com um “oi” e encerrá-lo com um “tchau”. Por isso sempre amei redação.

 

Pior que isso foi saber que, estando empregada, não escreveria sob meu ponto de vista. Quando digo isso, me refiro a escrever de forma que meu caráter não fosse afetado. Se eu colocasse como objetivo de vida um grande veículo de comunicação, teria que me anular e abraçar a ideologia dos chefes. Ser limitada por caracteres e por laudas não é um problema. Mas ser limitada ao ponto de vista do outro sim.

 

Não estava disposta, e não estou, a ser diminuída por ser quem sou, por pensar o que penso. No mercado, o que importa é o que faço. É a moeda de troca. Não deveria ser assim, pois quem somos é tão importante quanto o que fazemos. Na verdade, é mais relevante. Mais precioso.

 

Jamais toparia falar mal ou criticar para ter um salário exorbitante. Não conseguiria dormir a noite. Deve ser por isso que não subi na vida (#risos). Muita dignidade, embora me considere 100% da Sonserina. É aí que minha divergência com a Corvinal entra em cena. Tem como mudar isso?

 

Não maltrato as palavras por achá-las essenciais. Para minha sobrevivência e por achá-las um motor para mudar o mundo. Para fazer alguém ser ouvido. Jamais quis que uma história fosse uma história. Um post apenas um post. Quero, sempre, que tenha significado.

 

Queria que o jornalismo geral pensasse assim. Mas ele se limita cada vez mais a palavras vazias. Palavras que alienam. Palavras que degrinem o outro. E, claro, palavras caça clique.

 

Significar. É isso que senti na companhia de Hary Potter. Você deu significado para cada palavra. Cada sentença. Senti a aflição dos personagens, capturei descrições honestas, sem meias palavras. Li uma história que me mostrou o quanto é difícil ser você mesmo em um universo com preconceitos, que separa o puro-sangue do sangue-ruim, que separa o anão do gigante.

 

Em um mundo de fantasia, você trabalhou pautas que deveriam importar para todos os seres humanos, desde derrubar preconceitos até lutar pelas pessoas que se ama.

 

As palavras são poderosas. Acredito que elas transmitem muito mais que uma hora de conversa se usadas com sinceridade. Foi isso que absorvi, pois, lá na sala da faculdade, comecei a me debater por não querer uma escrita superficial, mas sim profunda, nem que me custasse mais de 3 páginas. Desde que agregasse algo, tudo bem. Como sua saga agregou/agrega na minha vida.

 

Daí, você me ensinou sobre a intenção daquilo que escrevemos. Você escreveu intencionada a se curar ao mesmo tempo em que botava um sonho para fora. Com a mesma intenção, a saga curou muitas pessoas, e continua a curar com um prato cheio de valores.

 

Você é minha mentora em todos os âmbitos da vida. Desde tentar, todos os dias, fazer o melhor com o talento que tenho, desde se solidarizar, seja em dias bons ou ruins. Seja evitar o fundo do poço quando o dementador está muito perto de me empurrar.

 

Você saiu do buraco negro da sua depressão e se escorou na única coisa que lhe importava: Harry Potter. Isso é uma mensagem do quanto precisamos nos agarrar ao que amamos para continuarmos a jornada. Para continuarmos a sobreviver. Penso que se não fosse todos os projetos que engato um em cima do outro estaria perdida. E acredito em cada um deles, com todo meu coração, mesmo ciente de possíveis fracassos.O importante é tentar, no final das contas. Não se entregar…

 

Obrigada por ser uma inspiração diária para mim. Por sempre ser tão honesta e nunca se calar diante de injustiças. Por ser um exemplo. De ir atrás do que acredita por si mesma, embora você deva parar de usar nome masculino para “se provar”. Gata, você não precisa disso! Você sabe o que faz.

 

Você sabe do seu talento e do seu limite. Continue assim e me mate de orgulho.

 

Obrigada por ter escrito Harry Potter. Obrigada por ter me animado, me feito chorar e por continuar a ser uma das melhores conselheiras que poderia ter na vida.

 

Atenciosamente,

A pessoa que um dia publicará um livro e terá um review seu na capa.

Stefs
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