Menu:
14/jul

Daqui por diante farei uma série bem light sobre meus mentores literários (e outros mentores, por que não?). Falarei sobre as pessoas que realmente me inspiram a escrever (ou a ser uma pessoa melhor), aquelas totalmente culpadas pela minha tendinite (ou por eu criar demais).

 

Nada mais justo, ainda mais neste mês potteriano, começar com J.K. Rowling. Ela foi e ainda é a razão que me faz sentar de frente para o computador e escrever o We Project (ou só escrever).

 

Rowling é mais que uma mentora literária para mim. Ela é minha salvadora. Isso não se aplica apenas a realidade dela ter escrito uma saga que foi minha companheira de cabeceira por anos, mas por ter um background pessoal do qual só fui compreender, e me identificar, ao chegar nesse respectivo arco da minha vida – e o dela seria o início da jornada com Harry Potter (25 anos, salvo engano).

 

Jamais, tão nova, entenderia tão bem como agora um dos maiores dilemas do passado dela: a depressão.

 

Complete a sentença: se eu não fosse uma escritora, seria…

Rowling: Depressiva

 

Há muitas celebridades/escritores/musicistas dos quais nos identificamos. Meu ponto de atração é a história anterior. O background. Como era essa pessoa antes da fama.

 

Rowling foi uma pessoa insegura (ela ainda pensa assim), se viu por muito tempo na missão de agradar o pai dela e a única coisa da qual acreditou com todo seu coração foi na magia de Harry Potter. Ela escreve desde que se entende por gente, sabia que seguiria essa carreira por reconhecer sua habilidade em contar histórias. Ela escreveu, compulsivamente, na adolescência até os 20 e poucos anos, período que marca o casamento falido, que lhe deu a filha Jessica, e a perda da mãe.

 

Saída do casamento falido, Rowling voltou para sua terrinha e passou a ser sustentada pelo governo britânico, que é o mais próximo de ser um morador de rua lá. Naquela época, ela ainda lidava com os resquícios de uma relação fracassada atrelada a preocupação de manter o bem-estar da filha – que era uma bebê. O soco veio com a perda da mãe, o gatilho para a depressão.

 

Harry a encontrou nesse período de trevas.

 

Quando completei 25 anos, estava à procura de algo original para escrever, mas não sabia exatamente o quê. Nesse ínterim, foquei nas fanfics que se tornaram um meio de suprir essa ausência de um insight que me arrebatasse o bastante para rascunhar algo meu. Nessa idade, estava finalizando a faculdade, empenhada na monografia, e não fazia a menor ideia do que aconteceria em seguida na minha vida. Só sei que me sentia completamente perdida.

 

O ato de escrever disfarçava meu desespero de não saber o que faria assim que me formasse. Não sabia se exerceria a profissão porque havia dentro de mim (e ainda há) uma grande resistência a essa área. Estava prestes a ser jogada no mercado, algo que me atormentou, uma sensação que só piorou quando vi esse campo totalmente diferente do imaginado. Eu vinha do último suspiro da linha do tempo focada em jornalismo impresso. O marketing digital já mordia muitos na traseira.

 

Isso me deixou na derrota, porque se não exercesse minha profissão, por mais que a detestasse em grande parte do tempo, o que faria com meu diploma? Com aqueles 4 anos? Aonde arranjaria grana para mudar de área, sendo que nem tinha um emprego fixo, registrado bonitinho em carteira?

 

Rowling foi arremessada para a pobreza depois do casamento – como ela mesma descreve – e eu fui para o mesmo dilema. Não foi uma crise financeira tremenda – não em comparação a que vivo agora –, mas foi o suficiente para eu prever meu futuro com o título “Stefs: sem eira e nem beira”.

 

Essa mulher rendeu meus insights por muitos anos. Afinal, eu pegava os personagens dela e desenvolvia histórias novas, fosse em Hogwarts ou não. Quando digo histórias novas seria o background, coisas das quais gostaria que acontecesse. Isso calha muito em um dos quotes mais clichês da vida de um escritor: escreva aquilo que quer ler.

 

Sem saber, eu era dessas de escrever o que queria ler e Harry Potter foi o meio que me confortava. Uma vozinha na minha mente sempre me dizia para investir em algo original, tendo em vista confortar quem me alcançar. Foi quando alguém próximo a mim ficou doente e escrevi para aliviar a dor. Dentre os comentários, muitos foram de agradecimento por ter ajudado de certa forma.

 

Com Rowling, aprendi a escrever sobre meus sentimentos e com mais sentimento. Foi um processo automático e ao mesmo tempo difícil. Nem me dei conta de que fazia isso até receber feedback positivo. Por essas e outras que não consigo ser “resumida”, pois acho absurdamente importante para quem gosta de escrever apresentar tudo o que sente. Todos os seus pontos de vista. Amaria a não existência de editores ranzinzas que pedem para resumir sentimentos em 1 linha.

 

Quando ela teve o insight do que viria a ser a melhor saga do universo (é a melhor do universo sim, shiu!), e começou a escrevê-la em várias, várias folhas, Rowling não queria apenas algo sobre um menino que deixa de ser banal por ser bruxo. Ela queria explorar vários pontos específicos que, de certa forma, coincidiam com os que a afligiam na época: a morte da mãe, a importância do amor e a depressão. Escrever remendou não só seu coração, mas ela como pessoa.

 

Escrever foi uma terapia para driblar o que a afligia.

 

Na época que Harry pipocou na sua mente, Jo recebeu o diagnóstico de depressão clínica. Ela buscou tratamento em nome da filha, mas também ganhou na escrita um motivo para seguir em frente. A escritora sempre afirma que a saga foi a única coisa que acreditou genuinamente em toda sua vida e, no fim, sua luta e sua persistência lhe renderam ótimos frutos.

 

A saga a recompôs.

 

Não precisamos de magia para mudar o mundo, já carregamos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: temos o poder de imaginar o melhor…

 

Em um discurso feito em Harvard, Rowling afirmou que reconstruiu sua vida ao atingir o fundo do poço. Um fundo do poço que tem a ver com fracasso.

 

Isso é extremamente familiar para mim. Já atingi o fundo do poço tantas vezes. Só volto à tona quando escuto o baque surdo da queda, um despertador de que não posso me render assim. De que preciso fincar as unhas nas paredes para atingir a superfície de novo.

 

Não tive depressão, embora perceba uma tendência. Algo que Rowling reconhecia dentro dela até a perda da mãe ser o gatilho para fazê-la mergulhar nos dias nublados. Dias cinzas que não são apenas dias cinzas.

 

Meus momentos de tristeza são mais que momentos de tristeza (e tristeza não é depressão). Uma vez que me entrego, é muito difícil retornar. Demora muito. Quando estou assim, raspo as paredes antes de tomar o impulso para me reerguer. É terrível! Ainda mais quando atinge um nível em que não sinto absolutamente nada – a curva estreita para ser abraçado pela doença.

 

Rowling lutou por ela mesma enquanto se empenhava em um livro que foi negado várias vezes, que a obrigou a usar um nome masculino para publicá-lo e que foi julgado do começo ao fim. Ela não fez isso visando uma grande mansão na Escócia.

 

Ela fez porque precisava.

 

Eu escrevo porque preciso escrever. É onde mora minha sanidade. É onde tenho mais consciência dos arredores, especialmente sobre as coisas que sinto em dado momento. Admiro muito a Rowling por ter encontrado força naquilo que sempre acreditou ser capaz desde criança.

 

Em entrevista a Oprah, lá em 2010, Rowling afirmou que parou de fingir ser qualquer outra coisa a não ser ela mesma e direcionou toda sua energia para terminar o único trabalho que lhe importava. E isso a libertou. A autora viu um desejo se tornar realidade. E estava viva depois da tempestade. Bastou uma antiga máquina de escrever e uma grande ideia. Não foi preciso muito para driblar os demônios pessoais.

 

Rowling atingiu o fundo do poço e se reconstruiu ao acreditar em Harry Potter. Como ela mesma diz: é preciso ter nervo, coragem, para tudo se tornar possível. E ela não desistiu.

 

Aproveito e friso uma parte do discurso dela: é impossível viver sem falhar em alguma coisa, a menos que você viva tão cautelosamente que chegue a não ter vivido nada.

 

Sou uma pessoa que gasta muita energia nas coisas que acredito. Tenho faniquitos constantes com ideias que, às vezes, não saem do papel. Não porque me acho genial, mas porque busco apoios que me impeçam de atingir o fundo do poço. Quanto mais crio, mais próxima fico de mim mesma e mais distante fico da minha versão sabotadora.

 

Com 25 anos, no 1º semestre de 2012, estava lá brincando de Samara até tornar esses 6 meses totalmente focados em Harry Potter por causa da minha monografia. Fui mais a fundo na história de Rowling para embasar minha tese e me vi em muitos momentos da vida dela. A tristeza, o desespero de agradar meu pai, dinheiro para nada e o conforto na escrita como fonte de expressão.

 

Rowling é uma inspiração não só pela sua capacidade de escrever e transcrever o que sente na voz de muitos personagens. Ela é uma força. Quando rola a paquera com o fundo do poço, me forço a pensar na sua trajetória. No desejo de se reabilitar, de se curar e de dar voz ao que acredito.

 

Nunca fui a pessoa mais segura do mundo também, ainda não sou, mas aprendi, duramente, que quando fazemos algo por amor há o sentimento de realização e de missão cumprida. Sentimentos que ninguém, ninguém mesmo, pode me roubar. Foi assim que ela se sentiu ao terminar Harry Potter.

 

E foi assim que me senti quando terminei de escrever o We Project. Querer escrever é uma coisa. Ir até o fim, ao mesmo tempo que dribla o fundo do poço, é outra.

 

Posso não estar no mesmo patamar dela, mas é minha trajetória de 2012 até aqui, uma longa transição ao que sou agora. Um momento em que vejo mais possibilidades que antes.

 

Não menos importante: uma transição que me fez ter mais vontade de vencer e de lutar por mim. Simplesmente porque cansa duelar comigo mesma o tempo todo. Uma discussão ou outra, tudo bem, mas um desconforto prolongado rende castigo no fundo do poço.

 

Há um inimigo maior que qualquer ser humano: nós mesmos. Não há ninguém no mundo que possa nos derrubar melhor que nós mesmos. Bem como duvidar, desacreditar, xingar e mutilar. Qualquer um pode lhe ofender de todos os nomes, mas nada dói mais quando você se desmerece ao ponto de se sentir um zero à esquerda. Como se você fosse um nada. Isso é cuspir nos seus esforços e na sua jornada, e aprendi a recusar esse ciclo vicioso, embora me pegue muito perto de ceder.

 

Ao desistir, pode não haver caminho de retorno. Rowling chegou perto, mas resistiu, e se revelou uma mulher incrível, dona de uma força que tenho certeza que ela não acreditava que tinha.

 

Há sempre espaço para uma história que pode transportar pessoas a outro lugar

 

Falando do processo de escrita, o que gosto da Rowling é que, de alguma forma, ela não se limita. Gosto da riqueza das descrições da ambientação e do minimalismo para descrever um personagem. Harry foi o menino magricela, de cabelos pretos rebeldes, olhos verdes vívidos e uma cicatriz em forma de raio. O bastante para visualizá-lo. O mesmo vale para os outros personagens.

 

Amo também o fato dela escrever em 3ª pessoa. Sou fã desse POV, livros em 1ª costumam me dar preguiça. Sou curiosa, preciso saber o que está acontecendo além dos olhos do protagonista.

 

Gosto muito dos outlines da Rowling. Todos rabiscados, detonados, com encaixes. Acho awesome!

 

A escrita de Rowling é muito madura. Por isso há quem não goste de Harry Potter, porque ela aprofunda o pensamento. A escrita dela é muito inteligente, e eu gosto do difícil, do intrincado. Não que palavras impronunciáveis seja sinônimo de inteligência, mas é genial as suas sacadas com nomes, grande parte com um significado que arrematou a história (Voldemort aka Voo da Morte).

 

Mesmo retratando uma criança de 11 anos, ela não minimizou sua escrita para agradar. Ela não chamou, nas entrelinhas, o leitor de burro. Acho isso muito, muito, muito magnífico, um traço marcante da personalidade dela, ainda mais em uma época em que foi obrigada a usar nome de homem para ter público.

 

Um fato: você consegue saber que um texto foi escrito por Rowling, algo muito batata com Neil Gaiman e Stephen King, porque ela é peculiar. Hoje em dia, grande parte dos autores é eco do outro. Escrita muito parecida. Não sei se é por causa do gênero, enfim, é um ponto que muito me incomoda, especialmente em YA.

 

Gosto da certeza que ela tem sobre escrever não o que gostaria de ler, mas o que quiser. Há outro quote clichê desse universo que diz: escreva sobre as coisas que você sabe. Se for assim, tenho que parar, porque o que tenho escrito me rendeu muita pesquisa por não manjar nada. Rowling nem manjava de metade das coisas que compôs a trama de Harry Potter. Isso se chama dedicação.

 

E, não menos importante, Rowling escreve sobre emoções. Sobre medos, inseguranças. Todos seus personagens possuem qualidades e falhas, o que os tornam palpáveis. Mesmo em um universo de fantasia, é fácil captar os traços humanizados, até mesmo do próprio Voldemort que um dia foi um menino que poderia ter sido melhor, mas que preferiu amargurar o abandono e sugar poder alheio.

 

Aprecio demais a capacidade de um escritor transparecer tudo isso em seu texto. Não focar apenas no desenrolar da história. Por isso muitos personagens de HP são identificáveis. Você consegue se relacionar com eles, ao ponto de encontrar novos exemplos de vida.

 

Se eu continuar falando dessa mulher maravilhosa, não terminarei, então aqui vai mais um ponto essencial que faz de Rowling minha mentora número 1: ela quer ser lembrada como a pessoa que fez o melhor que pôde com o seu talento. E eu me relaciono com isso, totalmente.

 

A única coisa que quero e acredito – considerando o tempo atual – é que a escrita me faz atingir as mais variadas altitudes, boas e ruins. Esse é o talento que me tira do fundo do poço e que direciono para me conectar com outras pessoas. Rowling é meu lembrete recorrente de que preciso continuar o que faço, pois há sim uma genuína sensação de missão cumprida. Independente do sucesso.

 

J. K. Rowling é minha mentora, não só literária, mas pra vida toda! <3

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3