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13/jul

A coisa que mais me irrita é que quando eu pergunto ao papai o que ele acha que aconteceu com a mamãe, ele sempre responde: “O mais importante é que você saiba que não é sua culpa”.

 

E lá vai Stefs com mais uma resenha superatrasada! Mas o importante é que tem resenha, yay.

 

Cadê Você, Bernadette? é um livro que não dava nada. Simplesmente porque estou traumatizada com qualquer um que seja minimamente voltado ao público adolescente. Meu termômetro crítico sobe quando carrego um desses embaixo do braço, verdade seja dita (cês sabem que tenho imã para coisas teen, daí sou obrigada a ser a tia chata).

 

Este é aquele exemplo de que comprei pela capa, crente de que seria alguma história que transcorresse na França, e quebrei a cara. Até minha irmã pensou que Bernadette era francesa. No fim das contas, encontrei mais uma história favorita – e que não se ambienta em nenhum canto da Europa e que retrata uma mãe aparentemente louca.

 

Assinado por Maria Semple, o enredo faz um recorte da classe média alta americana de Seattle. O foco é a família Fox: Elgie, o marido talentoso e popular que tem um job dos sonhos na Microsoft; Bee, a filha de ouro, com notas maravilhosas e o desejo de terminar os estudos em um colégio interno; e Bernadette, a mãe sem pinta de dama da high society, que não gosta dessa cidade ensolarada, e que vive prestes a ter um colapso de nervos, especialmente por causa da vizinhança.

 

O momento tenso da história: Bernadette precisa cumprir a promessa feita para Bee sobre uma recompensa em forma de viagem caso apresentasse um boletim impecável. O problema é: a mãe tem horror a ideia de fazer as malas rumo a qualquer lugar, mas se vê na saia justa e se esforça para atender o desejo da filha.

 

O drama: o ponto escolhido por Bee é a Antártida para completo desespero da mãe que até organiza a viagem, mas já tem em vista sabotá-la. A partir daí, os fatos transcorrem rumo ao desaparecimento súbito dessa mulher. Mas por qual motivo?

 

 

Bee é quem nos norteia até o desaparecimento de Bernadette. Boa parte da história é composta por emails, cartas, trocas de mensagens que nos divertem antes da filha tomar a narrativa para si. Todo esse material nos mostra quem é a mãe.

 

Imaginem uma vizinha louca. Bem louca. Que não tem relações com nenhum vizinho, chama as mães da escola da filha de moscas e faz de tudo para proteger o seu quadrado – ao ponto de criar uma placa enorme tingida de vermelho para barrar qualquer entrada na sua propriedade. Sua marca registrada é a echarpe e os óculos escuros, sinalizando que a personagem ama passar despercebida pela vida.

 

A cada virada de página você quer saber qual é a dessa mulher. Se ela é doida ou depressiva ou uma mosquinha enrustida tão arrogante quanto as outras que critica.

 

No começo, a personagem nos dá a impressão de que sofre de depressão por estar claramente infeliz, detalhe que dificulta a realização de tarefas simples, como organizar a viagem. Bernadette é desligada, aparenta não ter senso crítico, mas, até termos algo comprovado dos motivos que a fazem tão fechada e, por vezes, esquentada, só imaginamos o que realmente aconteceu com essa cidadã.

 

A mãe conquista graças às calamidades retratadas pelo material apresentado no livro e é impossível não rir – de indignação. Essa senhora é tão ousada que você se vê em inúmeros momentos em pausa dramática, exclamando: “não pode ser!”. Essa mulher é simplesmente inacreditável.

 

Só há um mistério que rodeia Bernadette: a “Coisa Extraordinariamente Horrorosa”. Um segredo que explica a mudança dela não só para Seattle, mas dentro de si mesma. O que a deixa tão triste?

 

A história se beneficia com os poucos personagens. A única que se destaca é Audrey, vizinha de Bernadette, o exemplo de mulher rica e insolente que combinaria perfeitamente com o cenário de Nova York. Sem dúvidas, ela faria sucesso em uma série como Gossip Girl.

 

A importância dessa personagem vai muito além de infernizar sua arqui-inimiga social. Audrey cria um paralelo, digamos, de loucura, com a mulher que a chama de mosca. Ambas estão em um casamento aparentemente falido e têm problemas com os filhos. A sutil diferença é que Bernadette ainda tenta reconhecer alguns erros, mesmo saindo do controle, enquanto Audrey tem a necessidade de ser perfeita, de viver das aparências. As duas são doidas, parecem que vivem em uma negação da realidade, juram que se odeiam sendo que possuem coisas em comum.

 

É como dizem: você nega/detesta coisas/pessoas que têm algo que não gostamos em nós mesmos.

 

A todo o momento você se pergunta se Bernadette é normal. Se ela tem a sanidade no lugar. Se ela é apenas esquentadinha por ser esquentadinha, coisas que algumas mães realmente são. Ainda mais quando possuem filhas como Bee – exemplar, inteligente, única, e, como ela mesma diz, sem um pingo de influência da cultura pop. É normal esperar alguma catástrofe, mas, ao mesmo tempo, você quer vê-la se dando bem. Você quer realmente conhecê-la para saber o que é que rola.

 

O livro é dividido em 7 partes. A primeira situa a família, com foco total em Bernadette e suas relações com a vizinhança, e grandes eventos que a afetam diretamente. Uma coleção de emails que mais parecem um complô contra a mãe que só quer organizar a viagem – que não quer fazer. A história é muito boa só por causa dela, sem dúvidas.

 

A personagem é maravilhosa, totalmente sem paciência para quem está começando, dona de um horror de convívio social que dá gosto. Mesmo com todos esses supostos pontos negativos, Bernadette é uma mãe dedicada. Não só isso, mas uma artista que um dia foi aclamada.

 

 

Cadê Você, Bernadette? gira em torno dessa mulher que tem uma única insatisfação pessoal, calada com o passar dos anos, despercebida pelo marido e pela filha que sempre pensaram que ela estava bem. A personagem é frustrada, uma frustração que influencia seus comportamentos defensivos.

 

Sumir só foi uma solução um tanto quanto viável.

 

Conforme lia, foi muito fácil ver essa história em formato série de comédia de 30 minutos. Os fatos transcorrem rapidamente até o desaparecimento de Bernadette – que é a personagem principal, mesmo que Bee, a filha, assuma a narrativa.

 

O livro tem um ótimo ritmo até a 5ª parte. Quando Bee entra em cena, ela amorna a narrativa que destrincha o desaparecimento. O clímax meio que morre. Isso não é ruim, muito pelo contrário, pois, no final de tudo, há um aprendizado. Há um certo redescobrimento. É uma aventura que se desmancha em grandes descobertas. Uma história de família, com problemas e preocupações reais. Com desdobramentos acarretados por uma mulher que, aparentemente, não tem os parafusos no lugar.

 

Cadê Você, Bernadette? é um livro muitíssimo divertido. Talvez, vocês se cansem por não haver uma divisão em capítulos, pois os documentos são organizados como se fosse um diário. Mas o riso é garantido e você consegue imaginar perfeitamente uma mulher doida como Bernadette, batendo perna na vizinhança, atropelando as moscas, cantando Beatles e criando placas de aviso.

 

Sobre a adaptação: não aceito menos que Vera Farmiga para ser Bernadette. Quem assiste Bates Motel sabe bem do que digo. A personagem desse livro é nível Norma. Louca igual, gente!

 

Na Prateleira

Título: Cadê Você, Bernadette?

Autor: Maria Semple
Páginas: 376
Editora: Companhia das Letras

Stefs
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