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15/jul

Ontem cortei a fitinha para a série de mentores que farei aqui no blog e hoje é a vez de uma coluna sobre personagens que me identifico, seja de série, de livro ou de filme, aka spirit animals. Com o buzz da Comic-Con, e com a realidade de que mais um fim de saga vem aí, nada mais justo que começar com Katniss Everdeen, protagonista da trilogia assinada por Suzanne Collins, Jogos Vorazes.

 

Sempre tive duas dificuldades com relação a livros: ter um crush literário (#Levi) e uma personagem da qual eu pudesse dizer “esse autor espiou minha vida para escrever” (#Cath). Katniss não pertence ao caso em que me senti espionada, mas diria que ela é um eco do meu passado, a forma do meu presente e, talvez, a afirmação do meu futuro.

 

Embora Katniss seja uma personagem que, em tese, não deveria me identificar por causa da minha idade, eu consigo encaixar a história dela em 3 fases da minha vida: Jogos Vorazes – 15 aos 20 anos; Em Chamas – 20 aos 25 anos; A Esperança – 25 anos até agora.

 

Suzanne, acho bom você escrever o quarto livro para representar os 30 até a morte.

 

Jogos Vorazes – 15 aos 20 anos

 

Quando meus pais estavam juntos, “vivi” na Capital. Era uma época de fartura. Não, não era rica, só não passava dificuldades. Não, não ganhava tudo que queria, o que me ensinou a esperar o momento de ter algo. Não, não era ostentação, até porque meus pais me ensinaram a economizar. Aprendi o valor do dinheiro, mas não me preocupava em não tê-lo.

 

Aprendi a me virar com R$10 por semana e, se gastasse, sabia que teria que me virar para comer no intervalo da escola, por exemplo. Claro que nos anos 90 era mil vezes mais fácil poupar essa quantidade de dinheiro. Hoje em dia, uma pessoa gasta esses reais por dia.

 

Por nunca ter faltado nada na minha casa, especialmente dinheiro, me acostumei a viver bem. Absolutamente segura. Ok que era uma criança/adolescente, não tinha muito com o que me preocupar a não ser estudar, mas nunca vi meus pais sofrerem com apertos financeiros. Se sofriam, nunca saberei, mas ambos estavam ao meu redor suprindo minhas necessidades básicas. Desde alimento, segurança até uma boa escola particular.

 

Minha irmã não se lembra muito desse período, mas ela viveu muito bem também. Nossa “ruína” mútua foi quando nossos pais se separaram. E é aí que minha identificação com Katniss começa.

 

Em um dia, Katniss deu adeus ao pai dela, que faleceu em uma explosão. Em um dia, meu pai estava em casa e, horas depois, ele tinha feito as malas e vazado. Lembro-me até hoje do choque e da raiva que senti da minha mãe, sentada, em inércia, dizendo apenas que ele tinha ido embora.

 

Tipo: WTF? Ele foi embora?

 

Foi o início do meu azedume e dos meus comportamentos arredios. O mesmo abalou Katniss que, ao contrário de mim, encontrou na floresta um meio de não ter que voltar para casa – e eu ficava muito tempo na rua, ao ponto de ser forçada a voltar para o cafofo. A segurança financeira começou a se quebrar, pouco a pouco, e me vi perdendo as coisas de forma abrupta, não tendo tempo de parar e refletir sobre o que acontecia.A incompreensão me fez reagir com rebeldia incontáveis vezes. Hoje, sei que há males que vão para o bem. O caos lá da minha adolescência serviu para me amadurecer. O mesmo vale para Katniss que aprendeu a ser a dona da casa.

 

Com meus 15 anos, tive que abraçar todas as responsabilidades com relação a minha irmã. Desde trocar as fraldas, a fazer comida até ir aos eventos escolares. Não era algo que me deixava contente no começo, pois sentia como se todos esses afazeres interrompessem minha adolescência. E, de fato, ter uma irmã muito pequena me forçava a ficar mais em casa, sendo que não queria.

 

Ela virou minha responsabilidade, como Prim foi para Katniss, e, com o passar dos anos, nos tornamos um pilar. Quando uma não consegue caminhar, a outra empurra, e vice-versa. No meio, está nossa mãe, a que precisa do empurrão das duas de vez em quando, como as filhas Everdeen com relação a mama delas. A cumplicidade Katniss/Prim é total a minha irmã e eu.

 

Prim sempre sabia o que Katniss sentia em dado momento, sabia aonde a raiva dela morava, e aprendeu a ser uma parede que contrabalanceava as tretas dela com a mãe. Quando Katniss estava pronta para atacar, e vice-versa, Prim estava ali, sendo o airbag para evitar que o conflito se intensificasse. Minha irmã é exatamente assim: ela se tornou o ponto que diminui a força do impacto. Quando estou prestes a explodir, ela se torna minha porta-voz.

 

Nisso, calho na minha realidade de viver com 3 mulheres que tentam sobreviver, o mesmo plot das mulheres Everdeen. Com a separação dos meus pais, a situação financeira se tornou um ponto da nossa vida oscilante. Houve períodos que vivíamos bem, seguras, mas havia outros em que nada havia nos bolsos. Não fui criada em um ambiente da Capital, mas sempre tive o suficiente para não me preocupar com dinheiro. Quando consegui minha sequências de empregos, parte da minha grana ia para alguma dívida de casa, e assim continua. O mesmo as caças da Katniss.

 

Com a vida na corda bamba, aprendi a ter horror a ausência de independência, especialmente financeira. Como diria Rowling, dinheiro é liberdade e, quando não há, você se torna uma desesperada, buscando meios para tornar algo melhor – e nem sempre consegue.

 

Assim como Katniss se tornou a chefe da casa, agindo pela mãe e pela irmã, exerço esse papel, o que abriu brecha para minha inclinação de explodir tudo de uma vez. Justamente por causa da pressão de carregar mais dois pesos junto com o peso que sou e, às vezes, é insustentável.

 

A partir do momento que meu pai saiu da história, comecei a endurecer, como Katniss, sem muita paciência para nada, sempre correndo atrás das coisas para oferecer um mínimo de conforto em casa. O tempo que sobrava dedicava a fazer as coisas que gostava – no caso dela, era caçar.

 

Katniss é uma personagem que não tem elo com meninas a não ser Prim, sua real melhor amiga, algo que me relaciono demais. Sempre me dei melhor com garotos, sempre tive mais amizades com eles, que sempre bancavam de guarda-costas. Divertia-me muito mais por me sentir segura para ser eu mesma. Não havia pressão de ser diferente. Poderia ser barraqueira e tinha apoio deles, vejam.

 

Todos os meninos que convivi são minhas versões do Gale – era bizarro porque uns acabavam gostando de mim e nunca consegui entender, como Katniss jamais entendeu o por quê diabos Peeta e o melhor amigo gostavam dela. Simplesmente porque somos tão focadas no problema, na questão de sobreviver, na questão de deixar tudo seguro e confortável, que olhar aos arredores não faz/fazia parte da nossa rotina. Companhias masculinas eliminaram a competição feminina dessa idade, embora tenha começado a competir comigo mesma – e isso quase não terminou bem.

 

Lembro-me de um antigo amigo, infelizmente não nos falamos mais, que era praticamente meu vizinho. Estudávamos na mesma turma, só aloprávamos e tudo mais. Ele tinha o jeito de entender, por exemplo, minha responsabilidade de buscar minha irmã na escola.

 

Algo que tinha vergonha por causa de um pensamento muito idiota: achava que as pessoas pensariam que minha irmã era minha filha. Mal de assistir muita TV/filme em que menina com 15 anos ficava grávida.

 

Ele fazia até questão de me deixar na porta de casa, sendo que poderia seguir reto. Ele não se importava com meus deveres, porque sabia que esses deveres eram necessários.Se um dia ele me julgou? Não sei, mas quando convivíamos juntos esse cidadão sempre foi o melhor de todos.

 

O drama começou no ápice da adolescência – 16-17 anos. Saí dos comportamentos arredios porque minha rotina mudou completamente. Por falta de grana, saí do colégio que estudei por anos e fui transferida para o fim do mundo – considerando onde moro. Uma transição que odiei no começo, mas se revelou muito divertida no fim das contas.

 

Contudo, comecei a temer o futuro. Vi-me na pressão de descobrir quem eu queria ser, o que deveria fazer. Um medo que quase rendeu minha ruína, porque comecei a me atropelar, sempre terminando frustradíssima.

 

É o que chamaria de transição para um novo Jogos Vorazes: o Massacre de ter que ser adulto.

 

Em Chamas – 20 aos 25 anos

 

Neste livro, Katniss aprende a lidar melhor com as pessoas devido às experiências da sua estreia na arena. Ela não tem horror de convívio social, mas, se possível, prefere ficar sozinha. Ela viu tudo de ruim na vida de uma vez e todas as suas concepções de mundo, além do seu Distrito, mudaram. Justamente porque a personagem saiu da zona de conforto – da floresta para casa e vice-versa.

 

A separação dos meus pais foi a saída da minha zona de conforto, especialmente por causa das coisas que passei a ver e a carretar quando tinha 15 anos – que pontuo como minha experiência na arena. Vi-me na linha tênue entre escolher a menina arredia, que odiava todo mundo e que não falava com ninguém, ou a menina que se dá o benefício da dúvida e quer continuar tentando.Basicamente, foi o momento das amoras: matar ou não matar a sombra da Stefs que arruinaria tudo?

 

Mandei ver na amora e cá estou, a menina do benefício da dúvida (mas a sombra, às vezes, quer tomar conta. Bem como o fundo do poço, como escrevi no texto sobre a Rowling).

 

Meus 16 e 17 anos foram um novo readaptar. Não foi uma trajetória fácil, porque fui jogada na arena do Massacre: a faculdade. Mas demorou um pouco, aconteceu com 23 anos, mas, até lá, tive que encarar o peso de ter que ser adulta – primeiro emprego, contas, etc., etc., etc..

 

Na faculdade, de novo, sabia o que queria e ao mesmo tempo não sabia. Tive que lidar por 4 anos com pessoas novas, algumas arrogantes, outras pertinentes, outras inesquecíveis. Tive mentores, até um momento Haymitch vs. Katniss com meu professor de rádio, quando cheguei na mesa dele e disse: I’m so done with this shit! Ele olhou para minha cara, bancou de terapeuta, perguntando o que eu queria. Disse várias coisas – entre lágrimas – e que amaria ter um blog.

 

E aqui está o Random Girl, amigos, depois de dezenas de tentativas anteriores.

 

Katniss quis desistir várias vezes de brincar de vida. Ou de amante do Peeta. Tudo mudou quando ela percebeu sua importância muito além de sobreviver na arena. Um momento de luz que só fui ter nos dois últimos semestres da faculdade. Até chegar lá, me tornei adaptável, uma nova rebelde que faltava horrores e que conseguia tirar nota boa – como Katniss prestes a morrer e se safando para ódio do presidente Snow. No meu caso, para ódio daqueles que estavam lá fielmente babando ovo.

 

Meu protesto não se compara em nada ao que acontece nos livros, óbvio, já que foi minha monografia. Dentre vários assuntos, dos mais simples aos mais complexos, lá fui eu meter Harry Potter na noite. Lembro até hoje das expressões da oposição. Tipo, oi? Essa menina está louca?

 

Minha nota máxima foi como destruir a barreira da arena do Massacre. Sim, eu estava muito done with that shit, mas de ser quem eu não queria. Não queria, e ainda não quero, usar meu diploma que me custou 4 anos para conquistá-lo para difamação, para exibir arrogância, para me sentir parte do 4º poder, para ser estrelinha.

 

Sou muito mais que isso. E Katniss também notou isso ao acabar com a bagunça (que na verdade, ela iniciou).

 

A Esperança – 25 anos até agora

 

Ignorando tudo de estranho, lento, flop que acontece nesse livro, aqui temos Katniss sendo convencida de que é o tal Tordo da revolução. Como uma menina chata, traumatizada, que não fala, não tem paciência pra quem tá começando será o Tordo, meu Deus?

 

Os gestos de Katniss sempre falaram mais por ela. Algo que também me relaciono, pois não somos pessoas de falar, somos pessoas de ação. O maior desafio da Srta. Everdeen foi falar. Falar o quanto certas coisas estavam erradas. Tenho certeza de que se ela tivesse um blog, o estrago seria ainda maior ao fato dela ser o passarinho que precisava ser silenciado.

 

Katniss é gesto, ação e impulso. Eu sou gesto, ação e impulso. Falar não é meu ponto forte. Ao menos, acreditava que não. O que faltava era uma causa para ser falada. Uma causa que valesse a pena ser ouvida. Katniss viu do pior jeito que deveria se posicionar contra a Capital. Eu vi do pior jeito que precisava me posicionar com mais afinco em inspirar quem precisa, criar conteúdo com sentimento, mostrar que eu tenho um problema para outras pessoas dizerem “eu também”.

 

Ao ser o Tordo, Katniss abraça seu ativismo. Ninguém vê dessa forma, mas é a verdade. Sendo bem sincera, não senti essa força tanto no livro, mas no filme. Nem foi pela atuação da J.Law, mas por terem explorado muito bem esse salto da garota vítima de um sistema opressor, um Tributo, para uma líder que quer derrubar geral. Não é sobre Peeta, é sobre todos que vivem em Panem.

 

Quando assisti Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 no começo deste ano (sim, demorei demais, porque sou burrana por ter achado que releria o livro, algo que não aconteceu porque o acho uó) estava em um período de uma nova transição da minha vida. Dizem que certas coisas acontecem no momento certo, acredito nisso, e ver o longa foi tudo que precisei nesse respectivo momento.

 

Vi a garota que tentava sobreviver em nome de duas mulheres ser uma líder. O conflito veio do eco do meu passado, do que andei fazendo no presente, que me deu a visualização de um possível futuro. Uma visão que inclui alguns desdobramentos da vida da minha irmã. Tantas vezes me voluntariei para tirar satisfação de quem a infernizava que não está escrito no gibi…

 

Assim como Katniss, não tinha voz até ter um sistema que apoiasse minhas costas. E um sistema faz toda a diferença. Everdeen teve o Distrito 13. Eu tive e tenho o I Am That Girl.

 

Minha palavra de ordem é inspiração, porque poucos me inspiraram quando era mais nova e sei o quanto é ruim achar que não se é ouvida. Uma impressão que acarreta no silêncio. Para que falar se ninguém ouvirá? A adolescência foi um período ótimo, teve marcas negras, e poderia ter sido melhor se contasse com mais apoio – algo que também é culpa minha, pois bloqueei quem amava.

 

Nessa fase, fiz muitas coisas sozinha. Sentia-me muito sozinha também. Vivi coberta pela barreira que salvaguardava a arena de Em Chamas. Partiu de mim destruí-la.

 

Cheguei em um momento da vida que estou mais ciente do poder daquilo que escrevo e daquilo que digo. Algo que Katniss conseguiu desenvolver pouco a pouco ao encarar o cenário do qual se encontrava depois do Massacre Quaternário. Ela nasceu para fazer o que fez, mesmo sendo tão jovem, e acredito que parte de mim está inclinada a fazer isso também. A acarretar uma diferença.

 

E não me venham com essa de que uma adolescente não pode fazer a diferença. Filmem a Malala. Leiam sobre Joana d’Arc. Quem dera alguém dizer isso a toda menina, de que ela pode ser awesome e dona da própria jornada. Mas estou aqui e todas são heroínas a seu estilo e a seu modo. Fim!

 

É nesse livro também que Katniss está mais vulnerável, algo que ela se recusava a mostrar em público. Até isso acontecer, ela engoliu em seco várias vezes, agarrou onde tinha que agarrar, segurou firme para não esboçar nada do que sentia. Justamente por acreditar que mostrar o que sente é sinal de fraqueza. Um reflexo da mãe, que se perdeu depois da perda do marido. Incontáveis vezes, a personagem sinaliza que não quer ser como a Sra. Everdeen. Porque é ser fraca.

 

Por osmose, ela viu que esse é o tipo de comportamento que não queria para si, algo que aconteceu comigo, porque nunca quis a fragilidade da minha mãe. Mas, conforme a vida acontece, Katniss começa a rachar, como eu rachei, e passamos a ver que há mais para lutar e isso não precisa afetar o que nos faz mais humanas. No caso, se esgoelar de tanto chorar!

 

Na adolescência é permitido mergulhar nas emoções, mas Katniss não quis. Eu não quis. Não estávamos preparadas porque não sabíamos controlar o que sentíamos. Não é à toa que quando a personagem quebra, levam-se dias para ela se recompor. No meu caso, só vendo pra crer…

 

Jamais me identificaria com a Katniss nos meus 15/16/17 anos. Acho que a odiaria. Quando parei para pensar na trajetória dela, percebi que ela pertence a minha lista de spirit animals, mesmo sendo uma senhora. Agradeço a Suzanne Collins por tê-la escrito, embora ache, apenas ache, que Jogos Vorazes deveria ter sido narrado em 3ª pessoa. Tenho certeza que as pessoas a compreenderiam mil vezes melhor.Afinal, tenho que concordar: ela fica bem chata em A Esperança – tipo eu chata quando estou com o emocional abatido. Sou bem insuportável!

 

É por essas e outras que Katniss Everdeen me representa!

Stefs
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