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07/ago

Para contribuir com a campanha We Project Pelado, começarei a compartilhar algumas coisas que escrevo, não necessariamente o que está nas 3 versões até então já prontas desse projeto.

 

Tenho o hábito de gastar certos minutos com free writing antes da escrita propriamente dita. Há muita coisa que escrevo como se fosse um spin-off, só para engatar as emoções certas das quais preciso para iniciar um capítulo ou para entender o que aconteceu no passado da Amy ou porque só preciso escrever uma passagem que pode vingar de ser usada na história.

 

Lembram que dona Amy está sofrendo com uma amnésia? Isso me faz escrever muitas cenas separadas da vida dela antes desse incidente. Ou memórias distorcidas que acarretam dissociação. Seja com a família, com as amigas, com o melhor amigo, com os inimigos, assim por diante. Geralmente são textos curtos, sem muitas informações, pois Amy está com a mente afetada.

 

E ela não é a única personagem que me leva a fazer isso. Na história há um salto de 7 anos.

 

Então, esse tópico se chamará Fragmentos: Reconstruindo Amy. O nome se explica porque esse trabalho extra me faz entender quem a personagem era dos 15 aos 22 anos (que é o tempo do WP). Isso significa um monte de memórias resgatadas que podem ser tanto em 1ª ou em 3ª pessoa. Pensem em um diário com passagens aleatórias, porque é bem isso o que faço.

 

Explicando o que mais ou menos acontece: o melhor amigo é essencial para o WP. A vida dele é totalmente atrelada a da Amy, quase em todos os sentidos, no quesito trama. O mesmo vale para a amiga citada no texto aí abaixo, Giulia.

 

Assim, esse projeto de livro tem muito de amizade, tanto de menina para menina quanto de menina para menino. Romances e crushes são meras consequências (porque eu gosto sim, adels!).

 

Para dar um tom certo, compartilharei essas memórias junto com músicas que escuto quando escrevo tal passagem/capítulo. Não é sempre que há uma canção na minha orelha, isso tende a me atrapalhar horrores, mas seria bom quem lê captar o clima.

 

Vamos com um fragmento de memória ao som de Eyes Shut do Years & Years (Cliquem aqui para ouvi-la).

 

 

Foi o último verão que passaram juntos.

 

Uma das muitas lembranças que ainda eram muito vívidas em sua mente.

 

Uma mente já muito danificada.

 

Aquele dia não era uma criação. Sabia pela riqueza dos detalhes. Era real. Sólido. Palpável. Era uma lembrança profunda, enraizada, que se esforçava, sempre, para distanciá-la de qualquer captura. Havia uma parte do seu cérebro que tratava inconscientemente como uma cidade isolada, jogando lá tudo que lhe era pertinente tanto física quanto emocionalmente.

 

Mas pareciam que tinham descoberto a região dos seus maiores segredos. Já não conseguia permanecer mergulhada em uma mesma lembrança por muito tempo.

 

Lembrara daquele dia, em meio ao barulho das grades, como um dia feliz. Só com uma gota leve, e nada bem-vinda, de tristeza. Não captara um clima de atrito, como uma briga ou uma discussão, com sua companhia. Ambos apenas contemplavam uma despedida silenciosa.

 

Era engraçado como sentia a perda, agitando seu peito, como se ocorresse naquele exato momento. Um final de dia que não terminara necessariamente como imaginara.

 

Não perdera o melhor amigo. O melhor amigo a perdera.

 

Uma informação que vez ou outra perdia o valor quando tinha certeza de que era irreal.

 

Muitas coisas eram irreais na sua mente. Era cada vez mais difícil discernir as memórias verdadeiras das falsas. Mas ainda não haviam lhe tomado aquele dia de verão.

 

De olhos fechados, conseguiu capturar o cenário, os aromas, os contornos de um momento bonito. Voltou a sentir os raios de sol contra sua pele, tão quentes que incomodavam um pouco suas pestanas. Reconheceu o mar. A quebra das ondas. Pássaros. O arrastar dos pés. A fricção das mãos.

 

Sua respiração se esvaía em pausas. Seu corpo se movera preguiçosamente no moletom que protegia suas costas da areia. Aprofundou-se na lembrança, direcionando a atenção para aquele que ainda conseguia desenhar sem precisar de uma espiada.

 

Seu insuportável melhor amigo que estava prestes a ir embora da cidade.

 

Ele era aquele tipo certo de pessoa que conseguia, ainda, desenhar mentalmente, sem nenhuma dificuldade. Os outros já não tinham contornos tão vívidos. Tornaram-se fantasmas. Ele não. Ele ainda era tão vívido que parecia que estava ao seu lado naquele exato momento. Teve até a impressão de que seus dedos pressionavam os deles, em sinal de que precisava de ajuda.

 

A parte que mais gostava de imaginar eram os cachos que sempre perdiam o controle em dias como aquele, quente e ventoso. De um castanho que ficava muito vermelho contra o sol. Achava a cor bonita. Não era um ruivo, mas era como se fosse.

 

Era possível sentir a presença dele mesmo estirada a alguns centímetros de distância. Podia apurar e reconhecer o perfume daquela pessoa que lhe era muito querida. Um irmão mais velho.

 

De olhos fechados também podia desenhar a silhueta dele brilhando contra o sol. Um corpo adolescente, mas forte o bastante para comprar briga quando não era pertinente.

 

Ela simplesmente conseguia ver muito mais dele com os olhos fechados. Era um estudar frequente e silencioso, que valia por muitas palavras. Ele era sempre tão insondável e tão intraduzível, só para esconder sua insegurança – que sempre capturara e traduzira como seu traço de beleza mais genuíno. Por detrás da insegurança, sabia que havia algo imbatível dentro dele. Só era necessário um cutucão certeiro.

 

Costumava ser esse cutucão. Trazia tudo dele à tona com apenas um olhar. Um olhar que sempre transbordava tudo que ele sentia, e mais um pouco, como resposta.

 

Sabia que ele estava sentado com as pernas dobradas, os braços ao redor das panturrilhas, o olhar fixo no horizonte. Ele tinha dessas de refletir demais. Podia até desenhar uma sobrancelha arqueada lançada em sua direção, espiando-a como sempre fazia quando se entregava ao seu silêncio particular.

 

Ouvira a risada fraca dele, confirmando realmente o que acabara de imaginar.

 

Ambos sabiam que funcionavam em momentos de silêncio. Especialmente naquele momento em que estavam em mais uma passada crucial.

 

Simplesmente, eram complementares.

 

Sentia a presença dele mais próxima.

 

O braço dele roçara no da sua versão adolescente, denunciando que se deitara ao seu lado. Isso a fez dar uma espiada com apenas um olho. Ele sorrira, insolente, meneando a cabeça negativamente. Indiretamente a chamava de espaçosa.

 

Os raios de sol perdiam a força pouco a pouco. Seus dedos apertaram as pálpebras como se algo incomodasse. Havia algo na perda de luz que a deixava à beira do pânico.

 

Algo naquela lembrança já não era mais confortável. Conforme ficava escuro, perdia as formas, os contornos… Parecia que perdia um dos sentidos de cada vez. Mesmo assim, não se atreveu a abrir os olhos. Convenceu-se de que não deveria se preocupar, pois aquela lembrança estava a salvo.

 

Vislumbrando a cena, recordara que o tom de despedida era culpa dele. Ele estava em seu último ano do ensino médio. Logo partiria rumo a um dos maiores sonhos da sua vida. Ao menos, era o que afirmara e não discutira. Acreditava nele, sem pestanejar.

 

Afinal, qualquer intenção de sumir daquele lugar era válida.

 

– No que diabos você está pensando dessa vez? – Ele perguntara quase em um sussurro.

 

– Estou com a sensação de que alguma coisa dará errado e nem é sobre o fato de você estar fardado em breve. – Ela respondera, ainda coçando os olhos. – Estou preocupada com meu vestido.

 

A risada dele ecoara fraca, recortada pelo barulho do mar.

 

– Você sabe que nada de errado acontecerá. No máximo, chegarei meio bêbado por ser um péssimo dançarino.

 

– Chegue bêbado na minha festa e você verá o tamanho da minha fúria. – Ela retrucara. Atrevera-se a beliscar o braço dele. – Você tem noção dos passos. Meu único problema é a falta de compasso do seu melhor amigo que está deixando Giulia com os cabelos mais vermelhos aos que ela já tem.

 

– Acho que ele está a fim dela.

 

– Ainda bem, porque fiquei com a sensação de que ele travou no amor por minha causa. Amy: a louca desvairada, que não mastigou o luto, saindo e usando o corpo alheio para se sentir melhor. E ele já é todo humano e perdido… Que seja Giulia a salvá-lo. Não quero assumir a culpa de tê-lo estragado, sendo que o poupei do vexame de me ver nua.

 

Ele continuava a rir das suas bobagens.

 

Ela rolara o corpo para ficar de bruços. Contemplara o rosto dele por alguns
segundos.

 

– Depois de tudo que aconteceu, você é a pessoa que mais posso contar junto com a Giulia. Mas, por nos conhecermos a mais tempo, você tem a preferência, mas não conte isso a ela, ok?

 

– Amy, não me venha com tom de despedida. Até porque, sua festa é só daqui 1 semana. Isso quer dizer que ainda há 7 dias para você me engolir.

 

Ela se calara por alguns segundos ao sentir a temperatura caindo.

 

De repente, o vento estava mais gelado e o céu conquistava um tom de cinza, como se anunciasse uma tempestade surpresa.

 

A escuridão começou a deixá-la extremamente infeliz. Subitamente, tateou a procura da mão dele e enroscou os dedos. Seu coração se acalmou por alguns segundos por se sentir segura de novo.

 

– Ainda não consigo entender como ainda nos damos bem apesar de tudo. Jamais acreditaria se alguém me falasse que continuaríamos amigos depois do que aconteceu.

 

– Eu nunca a julgaria pelo que aconteceu.

 

– Mas eu o julguei quando estava fora do controle. Odiei-o por semanas.

 

– Estava no seu direito. Tenho o dom de ser mais autodestrutivo que você.

 

De novo, o silêncio se tornara significativo. Olharam-se enquanto refletiam particularmente.

 

– Há certas coisas que ainda não consigo entender….

 

– Tipo?

 

– Sempre pensei que você tinha vergonha de mim.

 

Era sempre muito difícil traduzi-lo. Quando conseguia era um milagre. Isso só acontecia quando as emoções dele estavam à flor da pele.

 

Aquele era o caso. Tristeza escurecia seus olhos sempre tão brilhantes.

 

– Você acha que todo mundo tem vergonha de você. Eu só queria que voltasse ao seu juízo normal e foi isso que aconteceu. Você estava se perdendo e resolvi ser um pouco egoísta. Não sou uma ótima perdedora.

 

Ele sentara, afastando a areia dos joelhos.

 

Ele a espiara por cima do ombro, claramente segurando muitos sentimentos.

 

Não havia muito mais a ser dito.

 

Eles tinham um jeito pessoal de se compreenderem. Às vezes, ficavam horas sem dizer absolutamente nada, cada um cuidando do que deveria ser feito.

 

Perto dos minutos finais da despedida, sempre se contemplavam e diziam apenas uma sentença que compensava o tempo calado:

 

– Sentirei sua falta.

 

Suas palavras o afetaram. Só não soubera resgatar o quanto.

 

Eles conseguiam se traduzir de um jeito particular, no timing certo. Compartilhavam uma energia congruente. Gravemente afetada se sofria alguma interferência. O poder que tinham nas respectivas mãos era uma linha inquebrável que os tornava mais fortes.

 

Uma vez quebrada essa linha, uma vez quebrado o poder.

 

Um poder quebrado….

 

Seus sentidos começaram a traí-la.

 

Manter-se de olhos fechados era uma de suas maiores defesas. Podia se fechar em uma particularidade de momentos que se esgotavam todas as vezes que a luminosidade alaranjada do sol era substituída pela esbranquiçada e agressiva que a cegava. Aos poucos, aquela sua única defesa deixava de ser funcional para se tornar parte do seu pesadelo não pronunciado.

 

Não estava vivendo aquele dia. Tentava recriá-lo. Como tantos outros que lhe escapavam.

 

Havia um terror dentro dela só de pensar em abrir os olhos. Era um terror que sentia quando era forçada a se manter em alerta. Porque só via medo. Só via dias cinzas. O que via afetava os seus demais sentidos, aumentando o pânico que suprimia todas as coisas boas que um dia vivera.

 

Não conseguia lembrar o efeito daquelas palavras ditas ao seu… Melhor amigo?

 

Mantivera os olhos fechados por tanto tempo que suas lembranças começaram a ficar desconexas.

 

Precisava encarar sua realidade.

 

Abriu os olhos.

 

Não havia sol. Só escuridão.

 

A semelhança é que estava estirada na areia, mas só havia frio.

 

Não havia ninguém ali.

 

Só no seu imaginário.

 

N/A: não escrevo lá essas coisas, mas o que vale é a humildade. Espero que gostem, porque fiquei bem emo (sempre fico emo com qualquer coisa relacionada a essa moça chamada Amy, pfvr!).

Stefs
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