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09/set

Fiquei na dúvida se deveria falar sobre a 3ª temporada – como fiz com as anteriores –, mas acho que esse ano de Bates Motel apenas firmou o que sempre foi óbvio: a transição de Norman para Norma.

 

Não é segredo para ninguém que sou fã assídua do filme Psicose. Quando anunciaram Bates Motel, fiquei com os pés atrás. Afinal, sou contra remakes até que me provem o contrário. Porém, a minha ferida dói mais quando cutucam os clássicos. Com satisfação, a série tem me conquistado a cada temporada, sem pestanejar a S3 foi superior a S2, e só tenho a agradecer os envolvidos por terem escalado dois atores competentes para assumirem Norman e Norma Bates.

 

Impossível não babar pela Vera e pelo Freddie, algo que acontece desde a S2. Não que ambos não estivessem impecáveis na S1, mas os desafios para ambos começaram a partir do 2º ano.

 

Bates Motel merece todos os prêmios por respeitar e aprofundar a cada temporada quem é Norman Bates. Tanto socialmente quanto psicologicamente. A 3ª temporada foi o estopim de tudo, desconstruindo e reconstruindo esse personagem com base nos conflitos pessoais e sexuais, e no tormento de ouvir a mãe em sua cabeça – agora com mais frequência. A intenção de BM em explorar as facetas dele, algo que não acontece em Psicose, me faz muito feliz. Por isso respeito tanto o ritmo da série, pois ela ainda se mantém dentro do propósito.

 

Freddie sempre será o que chamarei de achado por nortear a storyline do seu personagem com tamanha excelência. É incrível ver a caracterização de menino franzino, de boca aberta, de sorriso tímido e fechadão se dissolver para dar espaço a pior versão dele mesmo. O herói e o vilão.

 

Esta temporada foi muito grata quanto a trama dele, esmorecendo a linha tênue que separava Norman psicologicamente da mãe. Não acho que foi cedo, mas, considerando a renovação, é importante que os escritores tenham noção do quanto mais a fragmentação da storyline desse personagem será pertinente. Não sei se a meta é explorá-lo também como adulto até encontrar Marion (vide Psicose), mas é uma curva que tiraria um pouco da magia da série e do adolescente perturbado que se corrompeu por culpa de Norma e de impressões irreais.

 

Sem dúvidas, o auge da temporada foi o 3×06, em que Norman surge trajado de Norma. A quebra da personalidade. A rachadura. E é essa a real história de Bates Motel, a transição desse personagem do garoto pacato até ser uma ameaça para todos e para ele mesmo. Não é apenas sobre apagões e surtos, mas de um problema mental. Dos macabros, claro. Esse desenvolvimento tem sido lento e acho ótimo. Ninguém amanhece com um problema psicológico e os demais aceitam numa boa.

 

A dualidade de Norman marcou a S3 e a transformação de Freddie compensa tudo, até os subplots fraquíssimos e a lentidão. É incrível assisti-lo, ver o quanto o ator amadureceu. Isso só me fez amar os desdobramentos que impulsionam o personagem a perder mais alguns parafusos ao mesmo tempo em que comanda a situação com seus trejeitos desequilibrados. E a falta de emoção rebate até os olhos.

 

Norman voltou mais sombrio desde que soube dos apagões, e o que provocam, e quero saber quando ele notará esse impasse e irá usá-lo a seu favor. No caso, usar de desculpinhas para justificar, por exemplo, seu desejo pelas mulheres que encontra (vide Psicose e a treta de Norman com a “mãe”). Há angústia no personagem, cada vez mais sufocadora por causa de Norma, e acho bárbaro como os escritores conseguem atrelar isso ao cunho sexual.

 

E, claro, ao convívio dele – vide namorico sem futuro com a Emma. Tudo está contra o personagem, mas a série ainda está no clima de “tudo bem, Norman”. Com a morte de Bradley, quer só ver o drama!A repressão sexual de Norman também estava mais fincada nesta temporada, como bem mostra o filme de Hitchcock. Qualquer aproximação com uma mulher, ele muda do quente para o frio, e é quando os assassinatos acontecem. A temporada ressaltou algumas assinaturas do personagem, como ouvir a mãe em sua cabeça, se livrar da vítima afundando o carro (com a mulher no porta-malas) e comandar o hotel. A taxidermia também estava fora do controle e tive altos surtos com isso.

 

Vocês não fazem ideia do quanto berrei nos minutos finais – e tão cruciais – da temporada, pois reconheci um dos personagens que mais me intriga desde que me entendo por gente. Sério! A S3 poderia ter ficado com o 3×06 e com o finale. Tudo o que você precisa saber sobre Norman foi entregue nesses dois episódios. Agora, está nas mãos de Norma, sendo que agora temos “duas” gerando conflito na mente dessa criança descontrolada.A série tem explorado Norman muito bem, aproveitando a atmosfera pesada e sombria de uma terra de ninguém para armar o mais belo teatro de mentes conflitantes. Tenho uma inclinação por personagens com problemas psicológicos, juro que sou normal, e esse conflito de personalidade do menino Bates (que em Psicose é um adulto) sempre chamou minha atenção. Freddie sambou muito!

 

A história de Norman conquistou uma profundidade tão sombria, tão tenebrosa, que só ficou o gosto das tretas que esse menino provocará da S4 em diante. Tem meu Emmy!

 

As delícias de ser Norma Bates… Ou quase!

 

Vera Farmiga, que mulher! Acho bárbaro como a sua personagem também indica um problema psicológico que a une mentalmente ao Norman – como o asco sexual, embora tenha cedido para alguns companheiros. Norma tem marcas profundas do abuso causado pelo ex-marido, e praticamente gritei quando ela dá a louca quando o cara quer um boquete.

 

Tenho que fazer um adendo para os diálogos de Norma nesta season. Sensacionais! Me identifiquei com vários – se não todos –, especialmente o que ela afirma que uma mulher não pode sumir porque o mundo vira um caos. Melhor que esse foi a afronta para cima de Romero, sobre ser tratada diferente caso fosse homem. Como lidar com esse OTP que nem é real? Sério, não aguento essa personagem. Ainda não me conformo com duas esnobadas seguidas do Emmy na cara da Vera.

 

Norma voltou mais forte na S3 e mais decidida em ajudar Norman. O clima tempestuoso elevou a atuação de Vera, dando aval para a fragilidade de sua personagem entrar em cena. Não como uma fraqueza, mas como força. Não houve um episódio que essa mulher não chorou, o que firmou seu desequilíbrio emocional e o quanto sua vulnerabilidade a torna mais confiante.

 

O lindo é que Norma cresce junto com Norman. Ambos precisam dessa equiparidade emocional para conflitarem como dois loucos. Se ela fosse passiva demais, bem provável que o menino Bates não seria tão interessante em meio aos seus surtos. Ok que essa senhora é facilmente ludibriada, essa temporada reforçou essa característica, mas a personagem também precisa sair do eixo para conseguir debater com o filho liberando a mesma carga sentimental. É incrível!

 

Concluindo

 

Sempre me deparo com algum comentário-resmungo que afirma que “mais uma temporada de Bates foi ruim”. De novo, é falta de perspectiva. Às vezes, preguiça de saber o que é a artéria da série. A S3 ensinou que não adianta focar nas bordas, porque elas dificilmente servirão de algo. O negócio é o recheio: Norman dependente de Norma para atingir o pico psicológico que o fará crer que se vinga dos seus atos ditos errôneos – isso, sexualmente falando – porque a mãe quis.

 

Embora haja subplots, não é isso que dá vida para Bates Motel. Literalmente, eles são mera encheção de linguiça para não deixar tudo nas costas de Norma e de Norman (sendo que já fica) – o que seria desgastante. É fato que, se você não conhece Psicose, fica um pouco difícil ignorar a olhadela além dos personagens principais. Só sei que os atritos externos ao hotel não interessam tanto para cerne da trama. Eles funcionam como lavas que só indicam uma nova sequência de erupções.

 

Os subplots foram bem convenientes lá na S1. Eles tiveram um ótimo desenvolvimento porque fizeram parte da introdução dos personagens. Além disso, ativaram os comportamentos psicóticos de Norman e Norma. As pessoas ao redor são meros fantasmas, apenas empurrões que fazem os protagonistas seguirem adiante para mergulharem na loucura de suas mentes.

 

Vejam bem: a pressão e o estresse vive no hotel, não além dele, e isso faz de Bates uma série não tão preocupada em criar um mistério. O foco é enaltecer um drama psicológico, carregado de paranoia.

 

Bates Motel é uma série que não está interessada em criar um viés investigativo. Até porque, se olharmos bem, não há nada de interessante nessa cidade. Não há o que criar caso e isso me faz lamentar pelo Dylan que depende muito das problemáticas fora do hotel. Na S3, ficou claro que os escritores aprenderam com a S2 ao, por exemplo, inserir o filho renegado na problemática de Norman – e achei uma bola dentro o menino Bates se revelar como Norma na frente dele.

 

A 3ª temporada também aprendeu que poucos personagens em cena é melhor. Funciona e cria química. Emma e Dylan representam o acerto além da loucura dos Bates. Meu Deus, como torci por esses dois!

 

Acho que a série realmente precisa de um bom vilão que provoque, especialmente, Norma. Encaixá-lo seria um grande desafio, pois necessitaria relações anteriores com os Bates para ter sentido. Há um vácuo na trama e explorar cada novo personagem não tem dado certo. Qualquer secundário, a não ser Emma, Dylan e Romero, logo são esquecidos quando o drama mãe e filho entra em cena. Ambos consomem tudo e os demais ficam com as migalhas. Como Dylan, que estava meio irreconhecível nesta temporada. Mesmo presente, ele estava sem brilho.

 

O que pesa mesmo com a renovação é o novo salto na storyline de Norman, algo que espero que seja mais do que incrível. Ele terminou de uma maneira fantástica e agora o rumo é a transformação total na mãe. Essa temporada foi crucial para moldar o modo de operação desse personagem, como ele muda, as circunstâncias para que isso aconteça, a dependência pela mãe, a dificuldade de se entrosar sexualmente e a dissociação que culmina em assassinato. Não tenho do que reclamar sobre a evolução gradativa dessa criança, pois tem representado tudo que queria ver – até então.

 

Acima de tudo, quero ver quando Norman notará que a mãe é uma ameaça, algo que ele sentiu com mais frequência na S3. Ele só quebrou emocionalmente quando ela deu no pé, mas isso fortaleceu a outra faceta e os afastou. A poker face de Norma tem tudo para piorar essa situação.

 

De certa forma, os escritores têm respeitado o que Hitchcock explorou visualmente e tem feito jus a quem Norman Bates se transformará. A série quer preencher essas lacunas, como o adolescente virou um adulto enigmático (e perigoso), que ficam na imaginação depois de assistir Psicose. A maior prova disso foi justamente o finale e isso me deixou ansiosa para saber o que acontecerá na S4.

 

Foi um ano muito bom, envolvente, mostrou o melhor de Vera e Freddie. Só peço que continuem.

Stefs
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