Menu:
17/set

Todo mundo sabe que amo O Apanhador no Campo de Centeio, livro de J.D. Salinger, e sempre que possível dou uma revisitada. Hoje é esse dia, mas focarei em Holden Caulfield, o personagem principal dessa obra – que se você não leu, por favor, compareça.

 

Nas minhas passeadas pela internet, encontrei um artigo com uma abordagem muito interessante: ele repensou certos plots literários tendo em vista o uso de celulares – e o Apanhador estava na lista. Depois de ler a “reescrita”, me senti no direito de comentar, pois Holden não é o personagem mais sociável da literatura. Duvido que ele compraria um iPhone ou aguentaria os coxinhas do Facebook.

 

Eis o trecho traduzido escrito no artigo:

 

“Todos meus amigos no Facebook continuam a compartilhar os vídeos Year in Review e acho isso tão básico. Por uma coisa, nem é Natal ainda. Talvez, esse tempo tão frio me deixou com um péssimo humor, mas tenho certeza que a única coisa divertida que fiz o ano todo foi passear no Natural History Museum com a minha irmãzinha, a pessoa mais divertida que grande parte das pessoas por não ter um smartphone ainda, então, nem sequer usamos o aplicativo do local, apenas conversamos e essas coisas. Não gosto de olhar para trás porque, quando você realmente pensa, a maior parte das memórias é apenas sobre pessoas básicas fazendo coisas básicas em lugares básicos. Às vezes, me preocupo de ser um dos básicos. Inferno, nem tenho as bolas para deletar meu Facebook. Meus professores e meu irmão mais velho disseram que nem sempre foi assim, que a internet arruinou tudo. Espero que minha irmãzinha não ganhe um celular de Natal. Quero protegê-la desse básico do básico. Eu realmente preciso de um detox digital.”

 

Sentiram o humor desse personagem, né? Holden é bastante crítico, embora seja um trollador incontrolável. Porém, sempre encarei isso como uma forma dele chamar a atenção para mostrar sua insatisfação com o jeito básico da vida das pessoas e como elas lidam com várias situações.

 

Holden reflete demais sobre determinadas pautas. Ele questiona e mastiga as respostas, como um adulto injuriado. Isso o deprime, sendo que, em tese, não deveria. O personagem está na idade que tem mais é que viver, curtir ao máximo. Ou, pensando no artigo, fazer memes. Nada disso acontece, pois o adolescente tem medo da transição para a vida adulta. Justamente por não querer ser como essas pessoas que se conformam com o básico do básico.

 

Em Apanhador, o personagem passa os dias perambulando por uma congelante NY, às vésperas do Natal, depois de ter sido expulso da milésima escola. Pelo seu ponto de vista, lemos sua análise pessoal sobre o mundo e os adultos. Ele é aquele narrador que faz o leitor questionar sobre vários quesitos e é possível senti-lo ao seu lado, contando seus desgostos. Por ser tão taciturno, emocional e ter facilidade em ficar deprimido, penso que inseri-lo neste século seria seu fim prematuro.

 

Holden não suportaria o século 21 por ser a época em que as pessoas vivem mais das impressões alheias e isso as deixam com vários complexos em alta, como de inferioridade. Além disso, é um tempo com um “tipo de convívio” mais intolerante, frio e distante. Um “convívio” que um quer falar mais alto que o outro, que todo mundo tem opinião para tudo e que todo mundo se acha dono da verdade.

 

Imagino, sendo muito otimista, que Holden só usaria as redes sociais para desabafar, mas se afastaria por não aguentar os trolls. Apesar de criticar e de pentelhar, acreditem ou não: o personagem é puro. A prova é quando ele está na escola da irmã e se esforça para apagar um palavrão escrito na parede. Ele não é corrompido e carrega dentro de si o desejo de manter a inocência, especialmente quando pensa na sua única pessoa favorita. No caso do artigo, o adolescente não quer que ela seja destruída pela internet, porque anularia a pureza dela.

 

Nisso, entramos em um tópico pertinente da caracterização de Holden: ele acredita que o tempo mata a autenticidade das coisas. No livro, o personagem detesta cinema e penso que esse foi o ponto de partida para o artigo se inspirar ao trocar a 7ª arte pela internet. Ele surtaria nesse mundo virtual.

 

Holden Caulfield acha que você é um falso (ou brega – como consta no meu livro).
No século 21, Holden acharia todo mundo falsiane.

 

Ele não gosta do universo adulto. Acha bagunçado. Ele julga muito por percepção das coisas que não gosta, daquilo que acha brega e se debate com comportamentos fúteis (que são forçados e falsos). Holden poderia até sumir das redes sociais por causa dos trolls, mas retornaria com um texto arisco, inconveniente e irônico como todas as investidas que provoca nos desdobramentos do livro. O adolescente poderia ficar isolado, mas diria o que acredita que todo mundo precisaria ouvir.

 

Não pensem que seria um discurso agressivo, pois, além de ser inocente, ele é alienado do mundo que vive. Holden não se permite viver como todas aquelas pessoas (adolescente ou adulto). De consumir tudo o que consomem. Essa luta de manter a autenticidade é sinalizada com seu chapéu vermelho com abas laterais que aquecem as orelhas. Algo que ninguém usa e que acaba por ser sua principal (e pessoal) marca registrada.

 

Por mais que Apanhador deixe muito nas entrelinhas, é possível captar que Holden lutou até ter um colapso emocional para se manter como é. Sabemos como é difícil ser quem somos, em qualquer época, especialmente na adolescência. A internet o destruiria completamente por sempre ditar como você deve agir, como você deve ser. O personagem lutaria para não obedecer nadinha.

 

Como disse lá em cima, Holden quer preservar a inocência. Na internet, ele não encontraria isso, pois o conteúdo é escrachado. Por mais que seja petulante com cada pessoa que encontra, agindo como se quisesse provar uma tese, ele, na realidade, não consegue ser sacana. O adolescente não consegue se relacionar com uma garota só para fazer sexo, como bem conta o livro. Ele surta, porque dormir com ela seria o mesmo que corrompê-la. E ele não quer isso.

 

O interessante do protagonista é que, independente de estar de mal a pior, ele pensa em melhorias por causa dessa pressão criada dentro de si mesmo com base no conflito expectativa vs. realidade. Isso o tira do eixo e acarreta uma batalha mental que o desgasta ao longo da história. Holden age como um pentelho na maioria dos encontros. Porém, você percebe que ele não é assim porque quer. É uma junção de inconformismo mais traumas da infância.

 

Assim, o adolescente é uma montanha-russa emocional, que quer que tudo fique congelado em um perfeito quadro da infância.

 

Stefs como Holden

“As pessoas sempre aplaudem pelos motivos errados”

 

Holden é um personagem que me representa em vários momentos. Enquanto ele reflete sobre os comportamentos de jovens e de adultos da sua época, às vezes, me pego tentando entender o que aconteceu com a juventude de hoje, considerando minha adolescência nos anos 90.

 

Ter contato com as pessoas, fisicamente ao ponto de levar bolo, era algo automático, comum, que mantinha relacionamentos e conversas mais palpáveis. Não que isso não aconteça hoje em dia, sei que acontece (ainda existe pessoas maravilhosas para isso), mas a internet deixou meio mundo preguiçoso. É mais fácil chamar alguém no WhatsApp que ir tomar café com ela/ele.

 

Diferente de agora, os adolescentes só fazem as coisas com a traseira na cadeira. Holden teria se indignado por ser daqueles que ama gastar a sola do sapato. De sair por aí refletindo – e causando – sobre algo ou alguém. As redes sociais teria sugado seu melhor, como suga várias pessoas que, na maioria dos casos, só se preocupam em mostrar quem realmente não são.

 

E, como diria Holden, isso é cafona! Brega! Falso!

 

A internet se enraizou nas nossas vidas. Não dá para viver sem ela, embora uma moderação seja necessária. Mas, aos meus olhos, viver online só tem criado monstros. Holden seria tratado como tal, especialmente por ser daqueles que não consegue entender certas atitudes e comportamentos, principalmente de adultos. Ele passaria horas no Facebook querendo compreender porque os jovens agem como agem, tendo em vista a irmã que é pura, opinativa e autêntica.

 

A problemática real de Holden é que ele tem medo de crescer. Ele não quer ser como os adultos e Apanhador é carregado de chacota social. O personagem é um insatisfeito.

 

Entre outras coisas, você descobrirá que não é o primeiro a estar confuso, assustado e até enojado com o comportamento humano.

 

Esse quote de Salinger muito me representa também, embora fique confusa, assustada e enojada todos os dias com o comportamento humano. E a internet é o atual palco para tanta imundície. Não consigo passar 5 minutos no Facebook, porque sempre tem um compartilhar de matéria imbecil e um comentário de alguém que só me faz o favor de excluí-la/o da minha “vida online”. Só sei que a Wesbfera tirou muitas máscaras, porém, o anonimato tem protegido muita gente sem noção.

 

Todos os dias me pergunto como vivo neste mundo, dividindo espaço com tanta intolerância, discurso de ódio (que meio mundo fica dodói por achar que é o mesmo que liberdade de expressão, sendo que não é) e preconceito.

 

Concordo que a internet arruinou várias coisas e nem credito esse sentimento ao fato de ser uma criança do século 20. Vivi para ver a ascensão da Websfera, mas, naquela época, o pensamento era bem mais coletivo. As pessoas sentiam mais vontade de criar discussões bacanas, compartilhar, de ir visitar o seu blog e o saudoso fotolog, e de tê-lo no ICQ/MSN. Havia a transferência do nosso comportamento offline no online, e a lembrança que tenho é de uma grande família.

 

Agora, não é bem assim. Todos são inimigos. As pessoas competem de maneiras inexplicáveis por likes e shares, e estão horrorosamente mais egoístas. Muitas se prendem a uma superioridade que funciona como um escudo que lhes dá o suposto direito de humilhar o outro. Vale mencionar o exibicionismo. Quem é bom mesmo, não precisa fazer cena nas redes sociais (e em qualquer lugar).

 

Isso faz parte da evolução. Assim como crescemos, o mundo desenvolve. Assim como mudamos de estilo a cada 10 anos, a cada 10 anos o modo de vender música se altera. A internet beneficia um lado e prejudica o outro, como tudo na vida. Nada é perfeito e só basta aceitar ou fazer a diferença.

 

Não odeio a internet. Amo tudo o que ela me propicia, pois sei usá-la para o bem. A questão é que não consigo entender aonde foi parar o senso de comunidade virtual. De família. Inclusão digital? Talvez, mas essa amplitude de ferramentas deveria ser suficiente para enraizar uma comunhão de informações, de feitos, de conquistas, de criatividade com mais propriedade. Porém, o que a Websfera trouxe foi divisão e, não menos importante, virou ditadora – em suma, de futilidades. Você precisa filtrar muito, muito mesmo, para encontrar conteúdo relevante.

 

Não consigo entender essa coisa de viver do like e do compartilhar e dos corações do Instagram. A resposta aqui é categórica: não dependo disso para ser alguém.

 

A internet também matou o argumento. Certas mídias não ajudam na evolução do senso crítico. Parte de nós buscar conteúdo de qualidade, sendo que os grandes veículos deveriam tomar a frente nesse quesito. Contudo, eles têm sido os matadores do bom texto, da boa discussão, pois preferem narcotizar o público e trabalhar pautas que só visam caçar cliques.

 

Nem todos são bitolados, mas, os que são, replicam tudo sem fomentar uma opinião. Uma opinião que vem lá de dentro, sabem? Inspirada no que você acha/sente.

 

Isso é muito comum entre adolescentes. Muitos não sabem argumentar, não sabem se defender, não sabem se relacionar fora das telas. Isso é muito preocupante.

 

A internet trouxe um “modelo de vida” básico. Eu faço parte desse mundo básico que, felizmente, não me machuca porque sei como viver dentro dele. Agora, e quem não sabe?

 

Holden é um dos personagens que mais amo, com todos os seus defeitos e suas qualidades. Queria que Salinger estivesse vivo para pagar de Harper Lee para continuar Apanhador. Gostaria muito de saber como seria esse personagem no mundo adulto. Com que visão ele sairia da clínica psiquiátrica. Se ele continuaria na luta de defender o mundo dos trolls…

 

Leiam a resenha: O Apanhador no Campo de Centeio

Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3