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03/set
Às vezes, ela queria imaginar que estava vivendo um sonho.
Às vezes, ela queria que determinadas coisas voltassem a ser como um dia foram.
Na realidade, ela acreditava piamente que já tinha feito tudo que podia.
Porque, aparentemente, não havia mais energia. Mais vontade. Mais bravura.

 

É sempre mais fácil ignorar o que acontece ao redor. É ainda mais fácil ignorar o que acontece dentro de si mesma.

 

Nos dias ruins, abrimos mão do bom tratamento com quem somos e com o que temos. Queremos ser radicais. Anulamos o tratamento cheio de cuidado, de bondade e de presteza, substituindo por depreciação e desistência. Pode ser por apenas 24 horas, mas lá está você, se olhando no espelho ou evitando se olhar, porque há a sombra do fracasso em seus olhos.

 

Ou a sombra de qualquer sentimento que a impulsiona a não ser mais bondosa consigo mesma.

 

E, acreditem, são nesses momentos que precisamos ser mais atenciosas com quem somos.

 

Mais tolerantes. Mais fortes. Mais pacientes.

 

Porque é sempre mais fácil se fechar para dentro. Ignorar as oportunidades de uma nova aventura. Ficar mal, na bad, na escuridão são opções seguras, mais eficazes, mas dessa forma não enfrentamos os nossos monstros. A nossa tormenta. E nos mutilamos, seja verbal ou física, por não nos acharmos boas o bastante em diversos âmbitos de nossas vidas.

 

É sempre mais fácil dobrar o corpo, tensionar os músculos, formar uma concha, para se esconder de tudo. Curvar-se para dentro e se esconder de si mesma.

 

Para não sentir nada.

 

Para não enfrentar a si mesma.

 

Às vezes, nos maltratarmos se torna uma maneira de viver a vida. De suportar a ida sem pensar na volta. Por que voltar no final de contas, certo?

 

Raramente pensamos em sermos boas com quem somos, com o que fazemos dentro do nosso alcance. Entoar que é errado e que é injusto é melhor que dizer que tentou ou ainda tenta.

 

Há certo sadismo em ficarmos mal, especialmente quando somos brutais ao desmerecermos nossa existência. Ao fazermos isso, pisamos em nós mesmas. Pisamos nas nossas conquistas até então. Pisamos em tudo que construímos e nas coisas que ainda queremos construir.

 

Pisamos nas pessoas que amamos.

 

Há momentos na vida que não reconhecemos a arena que somos lançadas. Há algumas com um cenário evidente, com uma solução aparentemente muito clara. Um espaço que você reconhece e sabe o que deve ser resolvido dentro de uma determinada circunstância.

 

Porém, há outras intraduzíveis. Confusas. Conflituosas. Arenas que nos arrebatam de surpresa.

 

São nessas arenas que ocorrem um grande duelo: você contra você mesmo.

 

Não é uma luta tátil. É reflexiva.

 

É uma luta invisível.

 

Ao se debater, asfixiar, dar tapas para driblar os golpes, sinalizamos que ainda há força dentro de nós. Mas, antes disso, precisamos lidar com a pressão do momento que nos norteia a enfrentarmos o que nos aflige. E é quando percebemos que há algo quebrado dentro de nós.

 

Na luta contra quem somos, só precisamos nos desligar por alguns minutos do que sentimos para descobrirmos o que está errado. E é nesse embate que nos contorcemos até atingirmos a mudez.

 

É quando vemos o que está errado e como remediá-lo. Como duas mãos invisíveis pressionando o pescoço e, no limite, você luta pelo oxigênio.

 

Às vezes, precisamos sentir a respiração saindo com força pelos pulmões, rasgando a garganta e sendo empurrada pelos lábios. É apenas um teste do quanto de vida ainda resta dentro de você.

 

O que está rachado nem sempre é a vida que vivemos. Mas algo dentro de nós. Esse pedaço que está trincado que nos faz mergulhar em dias nublados, sem brisa. Meramente secos e vazios.

 

Aquelas mãos invisíveis tendem a nos roubar o fôlego por alguns segundos. Segundos mais do que suficientes para nos fazer ver e reconhecer que ainda há uma guerreira dentro de nós. Mas até descobrirmos que ainda há muito que lutar, muito para se ver, muito para se descobrir, passamos o tempo nos maltratando, fazendo pouco caso de quem somos. Do que fazemos e fizemos.

 

Há dias que somos duras com quem somos. Com o que fazemos. É normal. Só não é normal sermos injustas. É sempre bom nos olharmos no espelho, até nos dias ruins, para relembrarmos a nossa história, como foi escrita e talhada em várias arenas, e como saímos vitoriosas.

 

Há dias que estamos insatisfeitas com quem somos. Com o que fazemos. Isso também é normal. Ninguém é obrigado a estar feliz o tempo todo. Há sempre algo que queremos um pouco mais e é bem frustrante quando não conseguimos. E é aonde entra mais um episódio de luta.

 

Mesmo que não tenhamos desistido, vivemos também em capítulos de outras vidas que, de certa forma, nos mantêm em movimento. A pequena prova de que não estamos sozinhas, mesmos quando estamos afundadas embaixo da coberta tentando descobrir o que há de errado.

 

E é importante tratar a nós mesmas com a mesma bondade de quando estamos felizes. Com paciência. Com gentileza. Usar desses momentos para refletir e voltar a enumerar as conquistas. Enumerar o que há de bom em ser essa pessoa.

 

Não há nada mais cruel que machucarmos quem somos. Uma ofensa alheia nunca terá o mesmo peso quando nos ofendemos. Quando fazemos pouco caso de quem somos. Ninguém é obrigado a vencer todo dia, pois as perdas também nos amadurecem. É importante não se desvalorizar pelas falhas, mas se elevar ainda mais por causa delas.

 

No fim, nem é a vitória que conta, mas o esforço para obtê-la.

 

Não há nada mais cruel que cuspir em todos os capítulos da sua vida que nada mais são fragmentos da pessoa que você é. Pode haver ainda muito a melhorar, muito a aprender, muito a descobrir, mas não se trate com olhar de desdém e sarcasmo.

 

Cada um de nós possui algo real que vale a pena lutar.

 

E ser cruel consigo mesma não faz parte dos planos.

 

Sendo assim, não se abandone. Lembre-se que há sempre muito mais para se lutar.

 

Muito mais para se viver.

Stefs
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