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26/set

No último Help, Escritor! falei um pouco da elaboração de plots e de subplots, itens que dão movimento ao enredo. Como combinado, hoje trago um pouco da construção de universo, o palco aonde os personagens viverão/lutarão. Não me aprofundarei tanto neste quesito, pois penso que esse tópico é particular de cada um. Porém, alguns exemplos podem ajudá-los na hora de criar essa parte tão importante, como qualquer outra, na hora de escrever um livro.

 

É fato que consumimos mais literatura gringa em comparação a nacional, e é normal ser um pouco contaminado por ela. Não é feio querer criar algo próximo a Hogwarts ou aos universos distópicos de Jogos Vorazes e de Divergente. Ou então escrever um romance adolescente tão lindo quanto A Culpa é das Estrelas. Parece que não há bons escritores brasileiros para fazermos o dever de casa e a falta de exposição – que deveria ser tão forte quanto a do John Green – recaí nos ombros de várias editoras que não estimulam a nossa literatura (algumas apenas fingem).

 

Mas há gente boa aqui. Basta sentar e pesquisar – uma tarefa tão primordial quanto ler livros de diferentes gêneros.

 

Digo isso porque a primeira pessoa, antes de Nora Roberts e de J.K. Rowling, que criou uma história que chamou minha atenção foi Pedro Bandeira. Ele assina a série Os Karas, sobre um grupo de estudantes que combate crimes.

 

Quando li, soube que queria escrever daquele jeito, mas nunca me senti inteligente o bastante (o autor criou umas charadas que me enlouquecem até hoje). Mesmo assim, queria que meus personagens trabalhassem juntos, se apaixonassem, lutassem contra o mal. E é um livro de autor nacional, que transcorre aqui e que me representa.

 

Quando você resolve sentar para escrever o seu primeiro livro, as coisas tendem a ser complicadas. Para alguns isso flui com facilidade, mas para quem precisa controlar tudo como eu, há um sofrimento embutido. É aí que há vulnerabilidade para se deixar levar pelas inspirações.

 

Há casos em que copiamos o que lemos e nem nos damos conta. Pode ter até nossa personalidade, mas, quando voltamos e relemos, o cérebro avisa que aquilo já foi usado/escrito em outro lugar. Senti isso nos primeiros capítulos do We Project, algumas similaridades iniciais com Os Instrumentos Mortais – livro que lia na época. Minha metade que me deu um toque (por isso é ótimo ter alguém de confiança para ler seu manuscrito e que seja sincero).

 

O mais engraçado é que Instrumentos não tem nada a ver com o We Project.

 

Gosto muito de mitologias e da ideia de grupos contra o mal. Rowling me mostrou que uma história em torno de bruxaria pode ter um norte além da época da Santa Inquisição. O mesmo Cassandra – que assina TMI – que pegou o sobrenatural e o angelical e criou sua, digamos, facção. Como li sagas por muito tempo, não fugi de tentar criar uma. Elas me influenciaram e ainda me influenciam de várias formas. Por isso, no começo, foi imperceptível ser guiada por títulos desse gênero.

 

Séries de TV me salvaram e têm me influenciado, ultimamente, mais que livros por causa da narrativa. Gosto do tipo de storytelling e uso para organizar os capítulos como se fossem um episódio (começo + resolução + possível cliffhanger). Sempre consigo agregar várias coisas nos meus livros e escolher nortes diferentes. É minha aula prática que, muitas vezes, substitui a necessidade de ler.

 

Muitas coisas doeram na hora de escrever a primeira parte do WP pela primeira vez, desde os nomes dos personagens até o que queria com eles. Porém, o que pegou foi o universo feat. locais pertinentes para a história. Não seria distópico, mas também não seria tão contemporâneo. Apocalíptico? Também não. Futurístico? É, esse é legal.

 

Ainda estou na saia justa com relação a este tópico, pois há muitas regras seguidas com afinco de quem já escreveu/produziu essa fatia de ficção científica da qual me meti a escrever por quase 3 anos. Daí fica a dúvida se devo quebrar as amarras – já quebrei algumas – ou replicar o que já tem.

 

Necessitei criar um universo em que enxergasse os personagens em movimento. Eles se movimentam demais, se querem saber. Tinha que ser algo mais amplo que eles. Que os engolisse. Calhei na Avenida Paulista, mas com algumas mudanças por não ser século 21 no We Project.

 

Algumas pessoas têm receio de se inspirar no que existe, sendo que não há problema. Como digo, basta dar uma floreada para ter a personalidade do escritor. A Avenida Paulista é meu lugar favorito em São Paulo. Quando passo lá, me sinto em casa. E esse sentimento é transferido para a história.

 

Outro lugar que me inspira é a Zona Leste de São Paulo. Outro lugar que conheço, não com a palma da mão, mas sei como as pessoas se comportam e como os bairros tendem a funcionar. Algumas regiões são perigosas e eu precisava adotar esse perigo que me é familiar.

 

Somando, temos o universo do We Project. A sociedade também é inspirada em muitos pontos históricos que ocorreram no Brasil, só dei um tapa por ser tempos diferentes. Não uso os nomes dos bairros, pois batizei minha cidade e tornei tudo uma coisa só. Uma tentativa de soar novo, mas não passa de uma união de lugares favoritos/conhecidos/repugnantes da minha realidade.

 

Para quem começa, a dica é procurar lugares conhecidos. Tendo o escopo, você consegue inserir contornos pessoais. Sei que meio mundo quer uma história em Londres morando no Brasil, isso é possível, mas é possível também pegar, por exemplo, o seu bairro preferido, explorá-lo e rebatizá-lo.

 

Divergente usa Chicago. Veronica viveu (acho que ainda vive) lá, então, ela sabia para onde levava Tris. Ela só modernizou e criou algumas coisas para ficar a cara de uma distopia.

 

Suzanne Collins dividiu o mapa, trocou o mundo por Panem, e os distritos seriam mais ou menos os continentes. Vejam: universos criados em coisas que existem, mas repaginadas.

 

No caso de Rowling, ela nunca negou suas inspirações em Tolkien e em C.S. Lewis para criar o universo de Harry Potter, especialmente no quesito mágico. Mas ela também usou de coisas comuns e as tornou especiais. Nada mais inesquecível que andar de trem, algo da cultura britânica. O mesmo vale para o chá, o Quadribol e os seres mágicos. A autora só fez pesquisa e tornou o comum atraente. Gente, os Dementadores foram inspirados na fase em que sofria com a depressão.

 

Às vezes, pensamos tanto em coisas mirabolantes quando podemos simplificar.

 

Pesquisa é uma palavra que nunca cansarei de repetir porque é um mal necessário, especialmente na hora de criar o seu universo do zero ou para criar os plots e subplots em cima de assuntos que você quer abordar e não domina. Algo necessário se deseja que sua história se passe em outro país mesmo morando no Brasil. Não há problema, mas é preciso pesquisar. Saber dos costumes, da cultura, do clima, dos comportamentos… Elementos que compõem o seu mundo literário.

 

Rainbow Rowell é uma das minhas escritoras mais amadas e ela escreve sobre coisas cotidianas. Não, não entendam isso como algo negativo. Ela escreve sobre uma menina universitária que escreve fanfics, sobre uma mulher que faz resenhas para um grande jornal, sobre um adolescente que ama quadrinhos e música dos anos 80, sobre um cara que lê emails e se apaixona por uma pessoa que nunca viu na vida. Pessoas que podem ser nossas vizinhas.

 

Pessoas que estão próximas da nossa realidade. Nesse caso, não é preciso criar um baita universo. Essa autora usa muito os lugares que viveu e vive como fonte de inspiração para desenvolver suas histórias.

 

Vale até mencionar Stephen King que usa a mesma cidade fictícia em vários livros e acho um máximo. Não acho que seja preguiça ou falta de criatividade. Sabe as chances de fazer o personagem do livro 1 se encontrar com o do livro 5? Cara, isso me dá arrepios. Amo crossovers, fatos reais!

 

A dor de cabeça só acontece se você quer algo próximo ao de George R. R. Martin, um dos maiores escritores da atualidade. Aí, crianças, a pesquisa é intensa, independente se você criar uma nova terra média diferente de tudo que foi lido. Você não pode fugir dos costumes e da cultura de determinada época, pois há certas coisas que não dá para inventar. Justamente por já ter acontecido.

 

Esse é um drama de escrever em uma época passada. Não adianta querer uma história nos anos 90 se você nem sabe como as pessoas se comportavam nessa década. O mesmo vale para o mundo medieval.

 

Por outro lado, há certas coisas que dá para inventar, o que calha na originalidade, mas nem tudo dá para brincar de Doctor Who. Então, cuidado! São livros com contextos delicados e um leitor mais assíduo encontrará os furos (eles sempre encontram, ok?).

 

Mesmo que você respeite a cultura e os costumes, penso que nada impede a quebra de algumas regras para contar a sua história. É onde mora o diferencial. Por mais que Game of Thrones tenha um pouco de O Senhor dos Anéis por causa da linha de raciocínio de seus autores, ambos criaram pontos de conflito que não tornam o que acontecia em tal época tão pertinente. É o poder da fantasia.

 

E, claro, penso que o universo não deve ofuscar os personagens. É um atrativo, pois os plots e os subplots pesam mais. Porém, há aqueles que são importantes para a trama, não necessariamente o universo como um todo, mas locais específicos desse cenário. Como Hogwarts para Harry Potter. Foi ali que Voldemort escondeu suas últimas horcruxes.

 

Darei alguns insights para vocês, ao menos, começarem um rascunho.

 

Há quem crie um universo, como em Jogos Vorazes, e há quem precise de apenas um local, como Hogwarts. De qualquer forma, pense: como esse universo/sociedade/lugar influenciará os personagens? O que há de importante? Há segredos? É apenas uma casa que engatará o romance?

 

Panem tem um sistema político corrupto e ditador que eleva os ricos e subjuga os pobres. Faz da desgraça alheia um espetáculo para servir de exemplo. Os Jogos Vorazes não passam de um tratado de pacificação para todos os Distritos. Uma vez quebrado, há rebelião. A sociedade rica age com desdém, se orgulha dos filhos que se matam na arena e vomitam para comerem mais.

 

O que há de bom e ruim no seu universo? Pensar nisso também dá aval para plots e subplots. O que o herói ou a heroína quer mudar? O que os vilões querem que seja mantido?

 

Por mais que você bole o universo, é preciso pensar também quais partes serão relevantes. Uma ponte pode nunca ser só uma ponte. Um espelho pode não ser apenas um espelho. Pensem assim.

 

No meu caso, escolhi partes que me são relevantes da Av. Paulista e acrescentei outras para que atendesse a época do livro. O mesmo vale para as partes da Zona Leste. Quando se cria um universo, não quer dizer que você usará tudo. É preciso criar espaço, como as 4 Casas de Hogwarts, que sejam constantes e ao mesmo tempo relevantes para a história.

 

Outros pontos relevantes a serem pensados: economia, segurança, política e a filosofia que influencia os personagens. Se for uma distopia, esse esquema é essencial. Inclusive, o sistema opressor/ditador. Se for sobrenatural, pesquise locais mal-assombrados, busque lendas e superstições.

 

Para mim, não é preciso de muito para criar um universo, mas é uma particularidade pessoal. Game of Thrones está aí para acabar com meu argumento, rico em detalhes, cheio de personagens e de lugares.

 

Com meu tempo de escrita, aprendi que o universo é apenas o background e que a sociedade o destrói. Pode ser algo básico e simples, mas descobri na prática que isso calha no desenvolvimento da história. O mundo de Katniss deixou de ser o mesmo quando ela se rebelou em seu primeiro jogo. Ela começou a destruir a Capital com uma simples atitude que alvoroçou a população.

 

O universo está ali para apoiar a história, mas nem sempre ele se amarra nela.

 

Além de mexer com o imaginário do leitor, de fazê-lo querer fazer parte dele, o principal objetivo é orientar e situar os acontecimentos. É o plano de fundo em que os personagens estarão inseridos e que, muitas vezes, fará o leitor entender o que transcorre no enredo.

 

Elizabeth Bennet não queria um casamento arranjado, porque na sua época as mulheres precisavam trocar alianças para ter renda e dar uma renda a mais aos pais. A partir do momento que os leitores captam esse background, como funciona a sociedade, eles compreendem melhor os motivos dessa personagem ser tão relutante quanto a esse assunto.

 

Independente do gênero que você escreve, é importante pensar no básico desse universo, se há algum background histórico que pode influenciar na história – ano, século e afins. Quem sabe o clima, alimentação e forma de trabalho. Em histórias mais cotidianas, nem é preciso florear muito, porque é possível saber o que um jornalista faz, por exemplo. Já em fantasia/distopia, ter uma regra é importante, ainda mais se o intuito do protagonista é acarretar uma mudança na sociedade.

 

Por estar consciente dos locais que me inspirariam, não cheguei a fazer um outline sobre o universo. Foi algo que foi crescendo conforme escrevia. Minha história não foge tanto da minha realidade, então, foi muito fácil enxergar a minha ambientação. Aonde os personagens sambariam.

 

O que precisei mesmo foi inventar uma política e um sistema policial que fosse mais enxuto para diminuir a possibilidade de dispersão ou de muitos personagens na trama. Também precisei pesquisar assuntos científicos que é o coração da minha cidade fictícia. Com isso em mão, consigo desenvolver tranquilamente os plots e os subplots (que para mim são mais difíceis).

 

Espero ter ajudado com alguns insights. Qualquer coisa, só me gritar nos comentários!

Stefs
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