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24/set

Tentei evitar este momento o máximo que pude, mas não consigo mais suportar o livro separado na minha pilha de coisas a fazer, julgando minha natureza procrastinadora cada vez que eu passo por ele. A verdade é que eu sabia que escrever sobre a Torre do jeito que eu quero seria um trabalho imenso, que exigiria de mim toda a atenção e cuidado do mundo. Por isso, dizia para mim mesma que estava apenas esperando o momento certo para começar.

 

Vejam, eu sei que não existe essa coisa de momento certo, mas, de alguma maneira, devo acreditar que ainda tenho 19 anos e todo o tempo do mundo.

 

Lembro como se fosse ontem de como me senti quando terminei de ler a série pela primeira – e única – vez. Todas as peças se encaixaram perfeitamente, não só nos livros, mas na minha vida também. Tudo, de repente, fez sentido. Nunca consegui terminar os sete livros de novo, apesar de ter lido O Pistoleiro pelo menos quatro vezes. Mas, agora, estou me desafiando a não só reler toda a Torre, mas a ler (e reler) toda a obra do King que eu tenho na minha estante.Resenhando e compartilhando todas as minhas angústias e alegrias nesse projeto lindo que é o Fear in a Handful of Dust. Bem modesta, eu.

 

Considerando que eu estou escrevendo isso no dia 29 de março (domingo, nublado e chovendo) e vocês estão lendo em setembro, tomo liberdade para encarar essas resenhas como o meu diário de leitura, algo que será trabalhado com muita dedicação e que possivelmente trará mais toques pessoais que as minhas resenhas “normais” costumam apresentar. Peço paciência e compreensão, afinal, a Torre é quase a minha bíblia.

 

Vocês já leram sobre Saco de Ossos, agora irão conviver com o Roland e seu ka-tet pelas próximas resenhas. Tentarei ao máximo não dar nenhum spoiler dos livros, ou pelo menos colocar um aviso bem visível antes. Espero de gostem, do fundo do meu coração.

 

Tinha 19 anos e arrogância.

 

The Gunslinger foi publicado em 1982, mas O Pistoleiro só chegou ao Brasil em 2003, quando o Tio Rei finalizou o último volume da Torre e sentiu a necessidade de revisar, cortar, alterar algumas partes do começo da história. Junto disso, ele escreveu uma nota introdutória à série composta de dois textos: Sobre Ter 19 Anos (e algumas outras coisas) e um Prefácio.

 

Nessas páginas iniciais, ele fala muito sobre como a ideia da Torre nasceu e se desenvolveu. Talvez, o ponto mais importante que nós podemos tirar daí é o modo como ele escreve. O Stevie não prepara ou planeja nada, ele começa a digitar e deixa as ideias fluírem. Foi por isso que ele demorou mais de 30 anos para finalizar a obra mais importante de sua carreira.

 

Eu sempre digo que uma pessoa que vai encarar a Torre precisa ter isso em mente o tempo todo. Não porque esse método justifique eventuais erros nos livros (não deve justificar, afinal, a edição existe por uma razão), mas porque os acontecimentos e o desenvolvimento das personagens são afetados diretamente por ele.

 

Então, é preciso entender o autor e o processo antes de querer jogar o livro pela janela.

 

Mais que qualquer outra coisa, eu quis contar uma história de espanto. Se você se descobrir caindo sob o feitiço da Torre Negra, mesmo que só um pouco, vou considerar cumprido meu trabalho, que começou em 1970 e, no geral, acabou em 2003.

 

Como todos os livros do King, O Pistoleiro começa com uma citação. Vemos algumas linhas de Look Homeward, Angel do Thomas Wolfe, e lá está a frase que, em minha opinião, melhor descreve o Roland: algum de nós não é para sempre um estranho sozinho?

 

Quem é Roland? O que come? De onde veio?

 

Roland é o pistoleiro. O livro começa com ele seguindo o Homem de Preto por um deserto, e eu deixo para vocês pesquisarem qual é a frase de abertura.

 

Ao longo das 221 páginas (é gritante o quanto ele é pequeno), nós descobrimos que o nosso protagonista é descrito como um cowboy do velho oeste, que ele carrega dois revólveres impressionantes, com cabos de sândalo, que ele não tem um pingo de senso de humor e que seu objetivo de vida é chegar à Torre Negra. Alcançar o Homem de Preto é só o começo da jornada.

 

No meio do deserto, Roland encontra Jake, um menino que não é do mundo do pistoleiro e que simplesmente acordou ali depois de ser empurrado na frente de um carro em Nova York. Juntos, eles saem do deserto e começam a subir uma montanha, cada dia mais perto do Homem.

 

Ao longo do caminho, cada um compartilha um pouco de sua vida e experiência, e nós descobrimos como o pistoleiro se tornou quem é, e que o seu mundo é muito diferente, mas ao mesmo tempo muito semelhante ao nosso. O Roland fala bastante sobre seus pais e amigos, mas nós só vamos ter uma ideia melhor do seu passado no quarto livro.

 

Do começo ao fim do volume, nós vemos alguns elementos (uns bem evidentes, outros nem tanto) de que o mundo de Roland é o nosso mundo, mas séculos depois do nosso fim: grandes máquinas que não funcionam mais, bombas de gasolina que ninguém sabe para que servem, etc.. Essa é uma constante até o final da série, e acho que é um dos aspectos da história que foram melhor trabalhados pelo King, mesmo porque essas dicas nunca são totalmente explicadas.

 

O cenário pós-apocalíptico não fica evidente em momento algum, mas é apresentado em pinceladas para ajudar a ambientar a história.

 

Jake

 

O Jake é, de longe, meu personagem favorito de toda a série. Apesar de ser apenas um menino, ele é extremamente maduro. Muito provavelmente porque é criado pela babá, já que os pais não lhe dão o mínimo de atenção. Ele tem aquela sinceridade que só as crianças têm e sempre diz o que precisa ser dito, mas com uma linguagem e uma atitude adulta. É por isso, e também por lembrar um de seus velhos amigos, que Roland se descobre apegado a ele.

 

A relação entre os dois é muito forte, mas ao mesmo tempo é tratada de uma maneira sutil. Para mim, é a coisa mais bonita em todo o livro.

 

Agora, se você quer apenas ler O Pistoleiro para ver o que acha e depois decidir se vai encarar o resto da série, eu aconselho parar por aqui. Para quem já tem certeza que vai ler os sete livros e não se incomoda com um pouco de spoilers, ou para quem já leu e está só acompanhando a resenha, por favor, continuem. A linha de spoilers está logo aí, cruze-a com sabedoria.

 

SPOILER – SPOILER – SPOILER – SPOILER – SPOILER – SPOILER – SPOILER – SPOILER – SPOILER

 

Como um teste do Homem de Preto, o pistoleiro se vê obrigado a escolher entre alcançá-lo e chegar mais perto da Torre, ou ficar com Jake e salvá-lo da morte. Para o desespero do leitor, ele escolhe a Torre, e o menino se despede com uma das falas mais tristes de toda a saga:

 

Vá então. Há outros mundos além deste.

 

O Homem de Preto e a Torre Negra

 

Então Roland alcança o Homem, que se apresenta como Walter das Sombras (e que aparece em vários outros livros do King, sempre com um nome diferente), e nós chegamos às últimas páginas deste primeiro episódio. O último capítulo é tão metafísico que você fica pensando “espera, foi isso mesmo que eu li?”. É nele que nós entendemos melhor – se possível – o que é exatamente a Torre Negra.

 

O Walter das Sombras deixa bem claro que ele não é o chefão, é apenas um lacaio do homem que realmente está no poder. Os dois conversam por muito tempo do outro lado da montanha, e eu juntei todas as citações que marquei neste capítulo para tentar mostrar o tamanho da viagem:

 

O universo é o Grande Todo e oferece um paradoxo grande demais para ser apreendido pela mente finita. Assim como o cérebro vivo não pode conceber um cérebro não-vivo, a mente finita não pode apreender o infinito.

 

Talvez seja por isso que tantas pessoas enlouquecem em busca da Torre.

 

O maior mistério que o universo propõe não é a vida, mas o tamanho. O tamanho contém a vida e a Torre contém o tamanho.

 

Mas, então, será que existe realmente uma Torre física?

 

Suponha que todos os mundos, todos os universos se reúnam num único eixo, um mesmo portal, uma Torre. E que dentro dela haja uma escada, levando, talvez, à própria Divindade. (…) Não é possível que em algum lugar sobre toda essa infinita realidade exista uma sala?

 

A essa altura, se você está acompanhando com atenção, sua cabeça já deve estar doendo.

 

Além dessa conversa toda, o Homem de Preto lê o futuro do Roland com cartas de tarô, já dando uma dica do que acontece no próximo livro: O Enforcado, O Marinheiro, O Prisioneiro, A Dama das Sombras, Morte (mas não para você), A Torre e Vida (mas não para você). O pistoleiro dorme e acorda dez anos depois ao lado de um esqueleto sorridente, que supostamente é o Homem (ou mais provavelmente uma brincadeira dele). Ele logo pensa na Torre e se põe em partida em direção à praia, não sem antes dizer em voz alta que amava Jake.

 

E nós ficamos assim, com muito mais dúvidas do que estávamos no começo do livro. Apesar deste começo ser muito bom, acho que vale apenas quatro, de cinco rosas. Explico melhor meus motivos na próxima resenha.

 

(…) a Torre sempre existiu.

 

 

 

Na Prateleira

Título: A Torre Negra Vol 1: O Pistoleiro
Autor: Stephen King
Páginas: 221
Editora: Objetiva

Mônica
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