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29/out

Enquanto o episódio anterior trabalhou mais um capítulo da jornada do 12º, a continuação abordou um novo salto na vida imortal de Ashildr. Uma aventura muito, muito distante do tempo Viking e que chegou perto de ser um grande efeito colateral que, com certeza, pertenceria à pilha de fracassos do Senhor do Tempo. Uma figura que, muitas vezes, acha que ajuda, mas, no fim, vê que seu compromisso com os seres humanos pode ser tão falho quanto seu caráter.

 

O episódio foi divertido e teatral, sem profundidade. A jornada de Ashildr foi o ponto-chave da trama, o explorar de uma vida que compareceu a 800 anos, tempo mais que suficiente para trincá-la. Logo na primeira cena, que marca o reencontro com o 12º, temos o agridoce do que a imortalidade fez com uma jovem outrora espirituosa e contadora de histórias. Uma das coisas que não se alterara nesse processo de longevidade foi a imaginação aguçada, o que lhe rendeu dois pseudônimos: Knightmare e Lady Me.

 

Uma persona que segurou a fachada do quanto ainda sentia pelo próximo, atitude mais do que suficiente para o Doctor questionar várias vezes o que diabos tinha acontecido com a menina que salvou. Uma dúvida que caiu por terra, pois o foco do episódio foi debater o perrengue de ser imortal.

 

A busca pelo olho de Hades serviu apenas para colocar o caráter de Ashildr em cheque. Um leve conflito que me fez revisitar os momentos em que Clara tentou entender como o Doctor, seu melhor amigo de aventuras, tinha se tornado tão frio e tão distante com relação aos seres humanos depois de uma nova regeneração. Tão nem aí em comparação a versão anterior que fizera questão de se enturmar e que pagou vários micos como um adulto que havia perdido a infância.

 

Cada olhadela do 12º para cima de Lady Me, uma garota que se distanciou de tudo que lhe fazia humana, me fez rever o estado estupefato de Clara para cima daquele que regenerou com um suposto caráter nada desejável. Nada condizente com a pose de um herói.

 

Lady Me suprimiu Ashildr, um dos preços de ver tudo e um pouco mais por ser imortal. A versão que o Doctor reencontrou era mais decidida, pé no chão e um tanto quanto egocêntrica. Traços que rebateram no que o 12º representou ao longo da S8, um homem que nem recordava do seu propósito, detalhe resgatado no episódio anterior.

 

O mesmo vale para a personagem que também não viu problema em ter que sacrificar algo ou alguém para um bem maior que poderia ou não beneficiar o mundo do qual vive ou do qual visitou. A experiência de 800 anos a endureceu. Ao menos, era o que queria que todo mundo acreditasse. Em alguns momentos, imaginei que Lady Me se tornaria uma grande vilã, pois ela realmente intrigou, irritou e foi ousada ao fazer o Doctor de otário. Um revés fraco, mas que queria frisar o quanto a garotinha borbulhava de desprazer por estar empacada na própria vida.

 

Um belo de um tabefe no Time Lord e é bem capaz que ele pense sobre esse estorvo em cada freada entre o tempo e o espaço. A habilidade de regenerar o mantém vivo pelo tempo que for preciso e mudar o rosto é uma praxe que resulta em um frescor. Contudo, nada disso impede que uma jornada eterna se torne tediosa e insustentável. Lady Me estava claramente exausta em meio ao seu plot de mudar o que o 12º lhe impôs de bom grado e descobriu que imortalidade é um martírio.

 

Aprender a odiar a vida por empilhar perdas foi um processo natural. O que não a tornou pior foi o benefício da imaginação, uma das coisas que a diferencia do 12º que tem uma companion para se distrair enquanto Lady Me se tornou a própria companhia. Duas formas diferentes de lidar com a imortalidade. A menina se reinventou ao centralizar tudo no “eu”, um esquema de sobrevivência. Querer embarcar na jornada do Time Lord foi um eco desesperado, rapidamente silenciado ao obter o que queria para mudar a própria sorte.

 

E ela não fraquejou até a trama revelar a mensagem desse reencontro nada combinado. No episódio anterior, o Doctor teve que recordar qual era o seu propósito, algo estampado em sua face e que o fez acordar para a própria jornada. O mesmo aconteceu com Lady Me que terminou Ashildr ao perceber que atos egoístas não levam ninguém a canto algum. O quanto ela suportaria ter sangue nas mãos?, um questionamento que também atormenta o Time Lord, mas ele simplesmente segue com a TARDIS.

 

Lady Me precisava voltar a ser a compassiva Ashildr, aquela que protegeu sua vila. O resultado não foi satisfatório, pois a menina abraçou todas as facetas que criou para si mesma, com a diferença de que agora há o sentimentalismo esclarecido. Ela precisava reacreditar que nenhuma vida era em vão e foi egoísta até ser sacudida pelas circunstâncias que não a beneficiariam. Nem as pessoas ao redor.

 

A resolução da saga de Ashildr foi meio fraca se compararmos o poder da atuação de Maisie ao longo do episódio. O enfraquecer da personagem foi simplório, mas não deixou de ser interessante. Ela encerrou esse capítulo como uma aparente ameaça ao 12º e retornará nesta temporada. Aparecer na selfie da Clara foi assustador e achei que a menina parecia com a Missy.

 

O que pesou neste episódio foi a necessidade de colocar o 12º e Ashildr em posto de igualdade para que o confronto tenha certa lógica e intensidade no futuro. O Doctor saiu de cena em paz consigo mesmo, mas ficou claro que a teme. E ela sabe disso e prometeu acompanhá-lo, uma péssima ideia porque a menina não passa de um reflexo dessa versão ao longo da S8. Por mais que jure que agora se importa com a vida alheia, aquele relampejo no olhar dela denunciou perigo iminente.

 

Além disso, a mensagem resgatou o quanto vidas importam. Lady Me aprendeu que as pessoas não são supérfluas enquanto o 12º redescobriu no episódio anterior que elas importam sim e muito. Um conflito de sentimentos que sinalizou a importância de ter um propósito na vida.

 

Quando não temos propósito, ou não nos importamos, tudo tende a ser mais amargo, como o 12º mostrou em sua trajetória na S8 e Lady Me neste episódio. Só há motivo para fazer o que deve ser feito, sem olhar para trás. Quando não se acredita e se luta por algo, se fechar é um processo automático, pois criamos uma armadura que pode nos desligar de quem somos de modo permanente. Parafraseando o Doctor, quando nos distanciamos da razão de estarmos aqui, esquecemos da nossa missão.

 

E o episódio duplo foi justamente sobre isso: missão. Ashildr e o 12º precisavam reconhecer os motivos dos quais existem e usá-los ao longo da imortalidade.

 

A situação me fez lembrar do pequeno Davros que, no final do dia, aprendeu sobre compaixão. Duas crianças que cruzaram o caminho de um homem que as mudaram totalmente, bem como as respectivas trajetórias. Por mais que cada pessoa seja mestre do próprio destino, o Time Lord tem senso de dever, o que sempre resulta em uma dose de culpa por ter ajudado, independente do resultado – que nem sempre é o esperado.

 

Ashildr tem tudo para ser dona de uma trajetória interessante, mas fico pensando o quanto teria sido bacana sua inserção desde o começo da versão moderna de Doctor Who. Algo meio River.

 

A continuação da saga da garota que viveu cumpriu o seu propósito, e até criou vínculos com a garota que esperou pelo amigo imaginário. Uma história linda que fez os personagens envolvidos reencontrarem a si mesmos e as respectivas missões quando se há o benefício (e a maldição) da imortalidade.

Stefs
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