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21/out

Quando recebi o texto da Jennifer Lawrence no meu e-mail, na newsletter da minha querida Lena Dunham (Lenny Letter), rolou um estampido dentro de mim. As palavras dela, debatendo os motivos de ter se limitado a negociar um salário melhor com uma pitada de indignação de não ser um problema masculino pedir aumento ou reajuste, me fez voltar a um episódio profissional da minha vida.

 

Um episódio completamente diferente da narrativa da atriz, mas que tem seu valor por envolver um homem que me silenciou e não revidei em momentos-chave para não parecer a mulher chata.

 

Conforme lia o texto da Jen, esse episódio ganhava forma até ter todos os pedaços unidos, se tornando uma lembrança vívida. Como se estivesse naquele dia, me vi sentada, dedos no teclado, enfrentando uma pessoa que não merecia meu esforço.

 

O que Jennifer escreveu me inspirou a fazer este post. Por isso o uso da imagem.

 

 

Lembro-me que era uma quinta-feira. Um dos meus dias favoritos no trabalho por ser aquele em que conseguia respirar e organizar o que escreveria para a semana seguinte. Era um dia calmo. Mais calmo que a sexta-feira. Tinha terminado de tomar café com meus colegas e minha colega quando a bomba do dia caiu na minha mesa: uma crise de cliente referente a um produto.

 

Normal. Nada chocante. Bastava todo mundo se organizar e trabalhar o mais rápido possível para a situação não virar uma bola de neve. Mas virou uma bola de neve e não foi por minha causa e nem da minha colega – que também teve que contribuir com parte do problema.

 

Confesso que fiquei bem frustrada em saber dessa crise. Acho que isso acontece com meio mundo, especialmente quando se tem um dia definido na ponta da caneta. Era o meu caso, mas depois passou. Sempre deixei meu trabalho adiantado, justamente para evitar, quando uma bomba caísse, o estresse de dar conta de outras coisas enquanto minha atenção se desviava para a dita mais urgente.

 

Minha agenda estava bem controlada naquele dia. Poderia ter lidado com a tal crise tranquilamente, assim como as outras mulheres envolvidas – sim, amigos, era uma equipe de mulheres –, mas daí esse homem entrou no meio. Como disse, poderia ser normal, mas ele nos atravessou, infiltrou a pressão, especialmente sobre mim, a pessoa que deveria escrever um post de blog.

 

Fui inclusa em uma reunião de briefing para alinhar o que deveria ter no texto. Se dei minha opinião? Não. Porque o cara simplesmente escreveu tudo na lousa e me despachou.

 

Eu deveria ter voltado e apontado o que eu achava. Afinal, eu era a única redatora da sala, a que tomava conta sozinha de vários clientes (isso não me dava chefia). Mas não o fiz. Para que se tudo estava definido?

 

Voltei para a minha mesa e digitei. Conhecia aquele cliente com a palma da mão, porque era o mais complexo e detalhista de todos. Sabia quais botões não apertar para evitar alta taxa de rejeição. Foquei e, depois de uma hora, me vi satisfeita com o que tinha escrito. Poderia enviar direto, mas houve outra intromissão: encaminhar o que tinha feito para o homem, sendo que sempre, sempre, sempre enviei os textos direto para a fonte para discutir alterações e postagem.

 

Ele reprovou, na lata, e o meu erro foi não indagar o por quê.

 

O texto reprovado por ele não me incomodou tanto quanto o fato de não ter tido um motivo. Em nenhum momento esse cidadão disse: “melhora isso aqui”. Ele simplesmente disse não e deixei por isso mesmo. Não me dei a chance de perguntar o por quê, principalmente por estar acostumada a encaminhar direto para o cliente e negociar qualquer alteração. Como ele assumiu tudo, e estava a mil cargos acima de mim, fiquei na minha, sendo que lá no fundo ainda confiava no que tinha escrito.

 

Engoli em seco e segui com a rotina. Não deveria, mas não queria pagar de chata em um momento tão complicado. E deveria ter sido a mais chata porque era o meu trabalho sendo negado.

 

Assim, ele ficou responsável em escrever um texto e mandaria direto para o cliente. Muito correto quando se tinha uma redatora para isso. No caso, eu. Nisso, minha raiva apareceu.

 

Literalmente, ele passou por cima de mim e apenas dei de ombros porque me senti fora do poder em dar algum pitaco. Pensei que ao aumentar a voz perderia o emprego e não podia me dar ao luxo, porque tinha um plano pessoal em mente. Precisava dos próximos meses.

 

Ele encaminhou o texto e houve a decência de me colocar em cópia. Ok. Segui para o almoço.

 

O relógio trabalhava a mil por hora, como sempre acontece em dias assim. Algo dentro de mim começava a crescer, um incômodo de não poder fazer nada. Sou uma pessoa que resolve tudo na hora e me ver barrada começou a me tirar do eixo. Assim que voltei para minha cadeira, não consegui fazer mais nada, pois atualizava sempre a caixa de e-mail.

 

Nesse ínterim, soube que o homem tinha saído do local de trabalho e ninguém sabia se ele voltaria. Ba-ca-na! Todos os envolvidos teriam que esperar o retorno do cidadão para seguirem com os próximos passos. E não. Não foi saidinha de almoço ou de reunião. Foi sacanagem mesmo. Ele tinha essa de “sou muito foda”, então, vazou crente de que o seu texto seria aprovado e que eu só publicaria.

 

Agora, pensem nessa situação em uma sala de cirurgia. Sério, você não larga uma equipe de mão desse jeito, uma situação que aumentou meu aborrecimento. Fiquei enraivecida por causa dessa atitude irresponsável. Mas quem era eu na noite para dizer isso?

 

Remoía a raiva quando o retorno do texto dele chegou. Reprovado e com incontáveis observações.

 

Assim, o que ele fez foi reprovado e o cliente indicou o que estava errado. Por que esse homem não fez isso comigo? Precisava perguntar? Não é questão de buscar por aprovação ou ser validada, mas de aprender com os erros. Líderes ensinam, certo? Não nesse caso.

 

O problema retornara, mas o rei da crise tinha desaparecido. O que fazer?

 

Só havia duas opções: esperar o retorno dele ou mandar meu texto para o cliente. Conversei com a minha chefe e ela me deu aval para defender o que era meu.

 

Muitos pensariam que isso foi um ato de ousadia, de quebrar a hierarquia, de não respeitar o trabalho do outro. Vou-lhes dizer a ousadia desse episódio…

 

 

Deixei-me levar e não indaguei porque o meu texto foi recusado. Fiz a agradável ao ponto de tentar consertar o texto dele antes de enviar o meu, sendo que minha mente berrava que compensaria escrever outro. Paguei de redatora legal enquanto meu trabalho não estava “autorizado” a ser encaminhado.

 

O meu trabalho não foi respeitado em nenhuma parte do processo. Quando recebi o aval, enviei meu texto sem hesitar. Rolou um alívio, mas iniciei uma guerra.

 

Entendam: fui inclusa na crise e incumbida de escrever, mas não podia mostrar o meu só porque o homem assumiu tudo. Se ele tivesse assumido como um bom líder, tudo bem, mas foi mero egocentrismo de mostrar que o que eu fiz era igual a nada.

 

A treta se intensificou quando meu texto retornou com A de aprovado, com algumas alterações de praxe, como imaginava, mas era só fazê-las e publicá-lo. Já eram quase 16hrs, de uma crise que começou às 9hrs, e ainda segurei o meu texto porque saía às 17hrs e o cidadão não tinha voltado.

 

Publiquei. Para mim e para a equipe o problema estava resolvido. Fui embora.

 

Missão cumprida? Não! A insanidade desse homem continuou ao ponto dele me ligar quando estava no ônibus. Foi nesse momento que ele me desequilibrou, porque o que tinha feito começou a soar errado. Imediatamente, voltei ao ciclo da autodúvida – que não deveria ter feito isso, que deveria ter esperado, que deveria… Sendo que em nenhum momento ele foi empático com o meu trabalho.

 

O homem simplesmente ficou puto porque ele queria fazer do jeito dele. Não me incluísse então, certo? Tenso é que o texto dele estava cheio de erros e fora da linguagem do cliente. Posso dizer isso com propriedade, porque a única coisa que ele disse, não diretamente na minha face, do meu texto foi um “problema de crase”. No fundo, ele sabia que fiz melhor, mas jamais assumiria.

 

No dia seguinte, pensei seriamente que, quando visitasse o blog do cliente, o texto teria sido trocado. O efeito da minha aprovação contra a reprovação dele rebateu em todo mundo. Ao menos, foi o que chegou aos meus ouvidos. Deveria me sentir mal? Quase mergulhei na espiral de autodúvida de novo, mas segui meu dia e sorri para o meu trabalho nota A.

 

Pior que isso foram outros funcionários querendo tacar o terror em mim. Do quanto o tinha feito surtar com a minha iniciativa. Pobrezinho…

 

Se tivesse realmente quebrado uma regra, teria sido demitida de imediato. Contudo, não estava errada, mas soei errada porque coloquei o meu na frente de um homem privilegiado, com um cargo acima do meu e que se achou mais conhecedor do cliente que a própria redatora.

 

Mais delicioso que isso foi ter contado com o apoio das mulheres que trabalhavam comigo. Se fosse uma equipe de homens, tenho certeza que estaria sentada até agora no aguardo do texto, só para revisar e postar. Porque mulher tem que respeitar o homem e tem que aceitar que não é não.

 

 

O que aprendi, com mais eficácia, é que há homens que se movem por status e por poder. O cliente tirou o status e eu o poder. Considerando o nível de arrogância, deve ter doído demais.

 

Quando digo que me relacionei com o texto da Jennifer é muito simples: me poupei de uma discussão a partir do momento que meu texto foi reprovado. Deveria ter tentado mais. Deveria ter subido lá na sala e indagado o que tinha de tão ruim. Ter negociado. Ter mostrado que era competente e que não deveria ser excluída de algo que, no fim, eu acabei como responsável pela solução. Mas me calei e explodi de dentro para fora por me sentir incapaz e impotente.

 

Se tivesse falado, tenho certeza que ele não teria escrito outro texto e a crise não teria sido resolvida tão tarde. Não é uma questão de barrá-lo, mas de exercer o trabalho que me foi dado com mais segurança. A crise foi solta na minha mesa e só respondi por ela horas depois porque tive que esperar a minha vez.

 

Minha chefe me deu a oportunidade de mostrar o que tinha escrito. A sorte é que tinha produzido antes do turbilhão de emoções. Se fosse depois, também estaria até agora tentando criar. Estaria no ciclo de querer me provar e isso nunca é bom.

 

Aquele homem me derrubou e me lembro que cheguei em casa, sentei na cadeira e chorei compulsivamente. Tudo que segurei se esvaiu com um misto de raiva, desprazer, lamento, revolta. Não entendi o propósito de uma pessoa querer causar tanto e ser tão injusta no processo.

 

Até hoje queria saber os motivos disso. Por que diabos há homens que agem assim (embora algumas respostas sejam muito claras)?

 

Lá dentro, eu sabia que tinha vencido. Vencido a pressão, os pitacos e tudo mais. Tinha vencido sobre aquele que me minimizou e que tentou fazer chacota diante da minha solução. Não fui a única afetada nesse dia. Minha colega também foi. Quando saí de cena, ele começou a tocar o terror para cima dela – sendo que o texto já estava aprovado e publicado. Pergunto: por quê?

 

Ao ser aprovada, me tornei um perigo e ele fez questão de pesar a atmosfera para mostrar que eu não deveria ter feito nada. Que, na verdade, eu deveria ter esperado até o texto dele ser aprovado de novo. Lutei pelo meu texto e não me dei o mérito porque me senti mal de ter cruzado uma linha que um homem me impediu de chegar perto. Não houve alegria nesse dia mesmo com a nota A.

 

E só fui entender o peso desse acontecimento quando comecei a me desconstruir e o soco veio com este texto da Jennifer. Ela fala de desigualdade salarial, o que não deixa de ser um fato real para a mulher brasileira. Esse meu episódio, que deve ser a realidade de muitas, me lembrou que me deixei passar batida e não me celebrei como merecia. Meu gesto foi pequeno em comparação ao que os outros faziam, mas superei uma crise, um ponto positivo para a empresa.

 

Não foi esse final que vi no dia seguinte.

 

Quando você sente na pele um homem lhe diminuindo profissionalmente, tratando quem você é como uma bobagem, não lhe dando brecha para discussão, só há raiva de si mesma por não reagir em incontáveis momentos. Pensamos que não vale a pena avançar tanto naquilo que acreditamos para não sermos julgadas como um aborrecimento que só dá pitaco toda hora.

 

Mudando as palavras da Jennifer: em nenhuma reunião vi o homem ser minimizado, só as mulheres. Porque aos olhos de alguns, mulheres não pensam. Elas não podem conquistar nada ou ter a vantagem acima do homem.

 

E me senti dessa forma:

 

 

Porque o homem orgulhoso, de ego ferido, fez daquilo um espetáculo para que eu saísse como a fracassada.

 

E não fui creditada. Nem recebi um pedido de desculpas. Não que isso fosse mudar minha vida, mas é questão de caráter e de respeito.

 

Não aumentamos as nossas vozes com medo de perder cargos ou de sermos assunto da roda ou por estarmos “bem” com o espaço que temos. Precisamos parar com isso, porque todas as vezes que damos de ombros e não questionamos, desmerecemos a nossa trajetória profissional e pessoal. Colocamos em cheque quem somos e é um desserviço fazer isso consigo mesma. Cada uma sabe das suas habilidades, sabe qual é seu ponto forte, e ninguém tem direito de retribuir com o silêncio.

 

Adaptando as palavras da Jennifer, tenho certeza que um homem não passaria pelo que passei ao quebrar uma regra. Ele seria aplaudido por ter se desafiado, por ter acreditado em si mesmo, por ser ousado em não esperar pelo colega para assumir a crise. Agora, se é mulher…

 

Desde que entrei na sala para o briefing, deveria ter confrontado e perguntado. Depois da reprovação do texto, deveria ter indagado sobre o que poderia melhorar. Mas não quis soar chata ou chorona. Ou uma criança que bate o pé porque não aceita receber um não. Afinal, se o superior disse que está uma droga, está uma droga.

 

Às vezes, não está e é quando você precisa lutar pelo que lançou na mesa.

 

É por causa dessas pessoas que aprendo e que me torno um ser humano melhor. Uso todas essas situações como exemplo para não repetir o erro. Com elas, aprendi a vigiar a autodúvida, porque sempre haverá alguém para me colocar para baixo, especialmente porque tenho vagina.

 

Semanas depois, percebi que esse episódio só não me deixou pior porque me posicionei e enviei meu texto. Ao ter me posicionado, me dei valor e isso é o que tiro de mais importante. Corri atrás de me defender, dei voz aos meus instintos e mostrei que sim, solucionei o problema, e que o mérito foi todo meu. Isso anula qualquer pedido de desculpa que não me foi dado e as piadinhas que se seguiram.

 

Queria ter me tocado disso naquele exato momento, mas há males que vêm para o bem. Nunca mais me calarei e serei a criança chorona que bate o pé. Porque eu posso ser reconhecida e valorizada quanto um homem. Fim da história!

 

Todas as mulheres podem fazer isso. Em episódios assim é que vemos o quanto nos calamos por sermos ótimas no que fazemos para não confrontar um ou mais homens. Devemos confrontar quantos forem necessários. Ao fazer isso, você é vista e ouvida, independente dos julgamentos, e aquela mulher ao seu lado, que também se cala quando faz algo maravilhoso, se sente encorajada a defender o dela.

 

N/A: o uso de “homem” foi meramente para não citar o nome do cidadão.

 

 

PS: Mais tarde, depois que saí de cena, me contaram que ele ficou indignado porque “um bando de garotas se demitiu por causa de um surto de TPM”. Acho que só com esse comentário dá para perceber o tipo de Alfa que lidei por tempo suficiente para não sentir falta.

Stefs
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