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08/out

Depois de muitos meses, consigo postar capítulo novo de Oblivion. Parecia uma coisa: toda vez que programava para revisar, alguma coisa dava errado. Só porque hoje The Vampire Diaries retorna as coisas deram certo e até fiquei meio emo, pois o que escrevi faz um aceno ao Piloto da série.

 

Observações importantes: usei cenas e alguns diálogos do Piloto de TVD. Houve umas editadas básicas porque esta fanfic gira em torno de uma Elena e de um Stefan 100% humanos.

 

Então vamos sofrer com a nostalgia.

 

PS: se você chegou neste post e não sabe do que se trata, basta visitar a tag Oblivion.

 

Capítulo 3

 

Querido diário,

 

Hoje é o dia…

 

Elena não teve tempo de preencher o restante da sentença. A luz da manhã penetrava em seu quarto pela fresta da cortina, sinalizando, melhor que qualquer despertador, que mais um dia da sua vida começava. E não era qualquer dia. Era o dia de volta às aulas.

 

Último ano. Quem diria.

 

A caneta girou entre os seus dedos, enquanto a mão desocupada alisava a nova página meio em branco do seu diário. Lá estava ele, o bloqueio. Ainda sentia um pouco de dificuldade em esboçar seus sentimentos. Eles não se esvaíam dela com a facilidade de antes. Parecia que agora vivia entalada com algo na garganta e era complicado traduzir a comichão que se seguia dentro do peito.

 

Seus sentimentos passavam um por cima do outro. Nenhum se atrevia a ficar claro para que pudesse transcrevê-lo no diário. Sentia muito, e todo tipo de coisa. Estava emocionalmente carregada, como no momento em que sentara lá no café para retomar a rotina de escrita. Só conseguira escrever algo quando uma página voara e parara aos pés de um estranho.

 

Um estranho que vira e mexe cortava seus pensamentos conturbados.

 

Elena respirou fundo e ajeitou as costas entre os travesseiros. Sentiu suas costelas afundarem, confortavelmente, como se recebesse um abraço. Soltou um suspiro enquanto esfregava os olhos, pesados de sono. Tivera uma noite tumultuada e poderia acreditar facilmente que todo aquele desconforto dentro de si se devia a sequência de sonhos ruins.

 

Não que acreditasse neles. Só odiava ter pesadelos.

 

Era uma pessoa otimista, mas, ultimamente, oscilava entre a positividade e a negatividade. Tudo porque a rotina da sua família mudara bruscamente e assumira em questão de dias o posto de cruzeiro dos Gilbert. De um lado, estava seu irmão problemático. Do outro, seu pai emudecido.

 

Todos ainda mastigando o luto da perda da Sra. Gilbert.

 

Sabia que assim que pisasse na escola o clima não seria dos mais fáceis. As notícias corriam rápido em Mystic Falls. Muito rápido. Não tinha como controlar. Sua vida virara de ponta cabeça com um acidente que rebatera em todo seu convívio. A única pessoa que parecia compreensiva com o que passava era Bonnie, mas, mesmo assim, a amiga não podia competir com o conforto de uma página de diário. Escrever sempre fora sua melhor saída, mas nem isso estava conseguindo fazer.

 

Imagina ter que falar com Bonnie!

 

E ainda tinha Matt. O dócil Matt. Teria que olhá-lo depois do término tão brusco quanto o que ocorrera com sua mãe. Não estava pronta para perder tanto assim, mas perdera muitas coisas de uma só vez. O bom, e o ruim, é que não era a única afetada com os últimos acontecimentos.

 

Assim, não se sentia sozinha ruminando a própria dor.

 

A diferença é que tinha que se manter sob controle. Era o cruzeiro e tinha que dar o exemplo. O que era muito difícil, pois estava carregada de emoções que não conseguia sequer compartilhar com uma página que não a julgaria, não a criticaria e não colocaria o dedo em riste no meio da sua testa.

 

De tanto prender o que sentia, só conseguia imaginar o momento que explodiria. Não seria bonito. De forma alguma. As vezes em que deixou as emoções se acumularem, quase terminou em coma alcoólico – e até hoje não sabia como isso acontecera.

 

O papel era um meio de desabafar e de tentar encontrar a paz da mente. Era o que sua mãe sempre lhe dissera, alimentando o hábito dos diários. Mas até esse servicinho estava complicado de concluir. E complicado nunca foi sua palavra favorita.

 

Respirando fundo, tentou de novo – depois de rabiscar a sentença anterior:

 

Querido diário,
Hoje é o dia…

Querido diário, 

 

Hoje vai ser diferente. Tem que ser. Vou sorrir e será um sorriso convincente. Um sorriso que vai dizer: eu estou bem, obrigada. Sim, estou bem melhor… 

 

Ela fez uma pausa, nem notando que mastigava o interior da bochecha. Se pudesse se ver, perceberia as linhas de tensão profundas em sua testa.

 

Atreveu-se a erguer o olhar até o criado-mudo. Vira ali a foto da família. Sua mãe, seu pai, Jeremy e ela. Espremidos em uma selfie, sorridentes, como se nada pudesse separá-los.

 

Estalando o pescoço, continuou:

 

Não serei mais a garotinha triste que perdeu a mãe. Vou recomeçar, ser uma pessoa nova. É o único jeito de conseguir seguir em frente…

 

Elena percebeu que não havia mais nada que pudesse acrescentar. Ao menos, não até que o dia escolar chegasse ao fim para ter uma conclusão do quanto estaria realmente bem. Havia um vácuo dentro do seu peito, que doía quando respirava fundo. Não sabia descrever o que era aquilo, pois tinha absoluta certeza que já contornara o luto pela mãe. Mas havia algo empacado dentro dela, estagnado. Era parte da sua negação e estava claramente sendo covarde em não querer enfrentá-la.

 

Lembrou-se de novo que era o cruzeiro. Não podia se dar ao luxo de perder as estribeiras quando duas pessoas, que deveriam estar prestes a explodirem aquela casa, precisavam de um ponto fixo para se apoiarem.

 

Era esse ponto fixo e era nesse pensamento que se agarrava.

 

No fundo, sabia que estava completamente trincada. Contornava a dor, pois, enfrentá-la, era o mesmo que torná-la real. Era o mesmo que permitir que algo dentro de você se espatifasse. Era o mesmo que sangrar até a entorpecência.

 

Elena não queria nada disso. Não queria permitir que isso acontecesse, mesmo que cada aspirar abrisse um corte interno. Como se estourasse os pontos de uma ferida. Seus pedaços trincados estalavam dentro dela, o ruído sempre dispersando-a, mas não podia se desmantelar.

 

Cansou do diário e saltou da cama. Espreguiçou-se e contorceu-se ao sentir o piso frio fazer cócegas em seus pés, mesmo estando de meia. Abriu um pouco mais a cortina e o clarão do céu rebateu com tudo em seus olhos. Piscou várias vezes até se acostumar com a total claridade. Escancarou o vidro, respirando o cheiro de grama molhada, aroma característico de Mystic Falls. Era temporada de outono, a névoa estava mais densa, e a garoa era algo sem fim.

 

Um belo clima que refletia como se sentia. Nublada.

 

Elena foi atraída pelo celular e conseguiu sorrir ao ler a mensagem de Bonnie. Era óbvio que a melhor amiga não a deixaria enfrentar o primeiro dia de aula sozinha. Na verdade, ambas tinham um trato desde o ensino fundamental: todo 1º dia de aula, ambas iam juntas. Sempre havia mudanças de sala e de horários, e lidar com isso, e mais um pouco, exigia que uma desse força para a outra.Transições nunca eram fáceis.

 

Seus dedos correram rápido pelo teclado, respondendo a mensagem. Logo, Elena partiu para o banho, saindo minutos depois – que na verdade era o toque dos dedos do seu pai na porta. Vestiu-se do jeito mais básico possível, obedecendo sua mente que exigia que não chamasse atenção. Optara por uma blusa vermelha e teve que rir da maneira como automaticamente se colocara como alvo.

 

Revirou os olhos para o próprio reflexo ao cair em si que chamaria a atenção de qualquer maneira. Afinal, era uma das garotas mais populares da escola. Ser invisível por um dia era uma doce ilusão.

 

Aquele status foi conquistado por osmose. Matt era o cara popular por fazer parte do time de futebol. Ok que Elena era líder de torcida, mas sempre contornava a popularidade. Quando assumiram o relacionamento, ambos formaram o tal casal popular. Só que um tal casal popular meio atípico. Ambos ficaram conhecidos por serem boa pinta, já que retribuíam com gentileza – algo que Caroline Forbes e Tyler Lockwood não faziam e aplicavam o bullying sem dó.

 

Pelo menos, tinha boa reputação. Não tinha tanto o que temer.

 

Primeiros dias eram um saco, pensou enquanto penteava o cabelo. Vinham carregados de expectativa e de uma dose significativa de medo. Você ficava ansioso no dia anterior, imaginando várias coisas, mas, no fim, nenhuma delas se tornava real. Por isso mesmo, Elena nem fizera planos. Poderia até ter tentado, mas com seu luto intermitente simplesmente resolvera deixar as coisas rolarem. Já foi o tempo em que fazia planinhos do que vestir, do que fazer, das notas e tudo mais.

 

Não tinha feito nenhuma meta e assim seria. Mesmo que a voz da sua tia Jenna berrasse em sua mente em negação. De acordo com ela, tinha que ter um manual de como sobreviver ao último ano do ensino médio. Só que Elena estava bem a fim de dar a cara para bater.

 

Alinhou as mangas da blusa vermelha e deu uma nova espiada no espelho. Os cabelos lisos e negros caíam perfeitamente pelas suas costas. A roupa estava confortável. A maquiagem fraca disfarçava o rosto inchado de sono. Só faltava os brincos. Um belo par de brincos. Optou por argolas que, literalmente, deram um pouco mais de vida para suas feições que continuavam meio apáticas.

 

Sorriu, como se treinasse o que acabara de escrever no diário. Gesto que morreu ao pensar que ninguém acreditaria que de fato estava bem. Ela teria que acreditar por si mesma se quisesse sobreviver aquele dia. Teria que contornar desde as olhadelas até as mais absurdas perguntas.

 

Perguntas. A ideia a fez bufar de impaciência.

 

Calou os pensamentos e apurou o que acontecia ao seu redor. A casa parecia vazia.

 

Saiu e notou que cada cômodo estava tão iluminado quanto seu quarto. Espiou o quarto do seu irmão e apurou o barulho do chuveiro. Saltou até o próximo quarto e o tilintar de talheres do andar de baixo denunciou que seu pai já estava na cozinha. Desceu, sem o mínimo de pressa, e partiu diretamente até a cafeteira. Encheu sua xícara com a mais modesta quantidade – que era até a borda – e se escorou no batente da pia vendo a confusão que seu pai se encontrava.

 

Ser pai solteiro, depois de quase 17 anos, considerando sua idade, não deveria ser fácil.

 

A mesa da cozinha estava uma completa bagunça.

 

– Torrada. Posso fazer torradas – sugeriu ele, empurrando a porta da geladeira com o ombro.

 

– É só café, pai.

 

– Tem café?

 

Jeremy surgiu como um furacão na cozinha. Por mais que negasse, ele parecia pior que ela no quesito lidar com o luto. Ele parecia até mais magro. Havia marcas arroxeadas e profundas embaixo dos olhos dele, como se não dormisse há séculos.

 

Mas sabia o problema dele. Só esperava a chance para dar seu show.

 

Havia algo de positivo na negação: ela deixava a pessoa mais atenta. Simplesmente porque se parava de pensar no que lhe afligia para dar mais atenção ao que acontecia ao redor.

 

Saiu do devaneio quando Jeremy lhe tomara a xícara que tinha pego para si mesma.

 

– É o primeiro dia de aula e estou completamente despreparado. – o Sr. Gilbert parou diante dos filhos. – Dinheiro para o lanche?

 

– Eu tenho – afirmou Elena, vendo o irmão passar a mão no dinheiro que deveria ser dos dois.

 

– Mais alguma coisa? Lápis número dois?

 

– Pai, – Elena se aproximou, apoiando as mãos na maleta de médico dele. – não precisa se preocupar com os mínimos detalhes, ok? Já somos bem grandinhos para nos virar. Apenas, faça o seu trabalho que tentaremos fazer o nosso.

 

O Sr. Gilbert lançou um sorriso afável para a filha. Ela se empertigou, como uma gata, ao sentir os dedos dele fazer um breve cafuné no cocuruto da sua cabeça.

 

– Inclusive, hoje não tem um seminário de medicina em Whitmore?

 

Elena sorriu, meio tímida, ao ver o pai dar um tapa na própria testa. Sinal de completo esquecimento. Sinal de que todo mundo estava enlouquecendo naquela casa.

 

– Vá, a gente se ajeita. – Elena deu duas palmadinhas no ombro do pai. Ficou parada até ele sumir pela porta da frente. Aproveitou o súbito silêncio para cutucar Jeremy. – Você está bem?

 

Claro que ele contrairia os ombros na defensiva. Claro que ele lançaria o típico olhar de censura que vinha lançando desde o ocorrido com a mãe deles.

 

– Não começa – Ele resmungou, meneando a cabeça negativamente.

 

Essa era Elena. Buscando o bem-estar de todos ao invés de buscar o próprio.

 

O barulho da buzina a fez dar um sobressalto. Inclinou-se no parapeito da janela e reconheceu o carro azul de Bonnie. Visão mais que suficiente para fazê-la sorrir com a sinceridade que lhe faltava para encarar o diário.

 

– Então, planos para o primeiro dia de aula? – perguntou Bonnie, engatando a marcha. – Pretendo fazer mais aulas extracurriculares para ter um bom currículo para a faculdade.

 

Elena abriu um pouco o vidro. Seu tempo para pensar em uma resposta adequada.

 

– Não fiz planos – respondeu Elena depois de um pigarro. – Você não acha que está muito adiantada para pensar na faculdade?

 

– Elena, você sabe como o ano depois do Natal passa voando, certo? Ok que você não tem muito com que se preocupar, é líder de torcida e tudo mais, mas não pensou seriamente em fazer um trabalho mais bacana este ano?

 

– Você está me chamando de fútil ou estou ficando doida?

 

Bonnie sorriu, timidamente.

 

– Você sabe que não, embora considere seus esforços no time de torcida inúteis.

 

– E o que me propõe caríssima Bonnie?

 

O olhar de Elena era completamente taciturno.

 

– Desculpa – se apressou a dizer Bonnie. – É que estou tão empolgada e totalmente empenhada em não fazê-la pensar nos últimos acontecimentos. Quero que foque no futuro, Elena. O futuro está na soleira das nossas portas.

 

Elena sabia que Bonnie não estava lhe dizendo aquelas coisas por maldade. Ela tinha razão sobre o futuro. Sobre pensar no que fazer agora para iniciar um novo capítulo em alguma universidade, talvez, bem longe de Mystic Falls. Não tinha planos de sair da cidade, amava aquele lugar, mas, ouvindo a amiga, sumir dali parecia sedutor.

 

Claro que não queria, pois se sentia muito confortável ali. Tinha tudo que precisava, pensou, mordendo o lábio inferior. Pensamento que a deixou subitamente tensa.

 

Tinha mesmo tudo que precisava?, uma vozinha maligna sussurrou, sendo despachada quando sua atenção ficou presa na paisagem do cemitério de Mystic Falls.

 

– Elena – a voz energética de Bonnie a tirou do devaneio. -, de volta ao carro.

 

Elena coçou a cabeça e disse:

 

– Sei o que quer dizer, mas não pensei muito sobre isso. Não depois do verão infernal que tive. Pelo menos, nesse primeiro momento, deixarei as circunstâncias me guiarem. Quem sabe, me candidato a presidente do grêmio e largo a torcida. Quem sabe participe até do clube dos quadrinhos. Sou grande fã de X-Men, embora não tenha lido um HQ sequer.

 

– Você é um fraude – zombou Bonnie se permitindo a gargalhar. – DC é melhor que a Marvel.

 

– Não faço a menor ideia do que você está falando, sinceramente.

 

– Batman ou Wolverine?

 

– Prefiro Wolverine.

 

– Não sei como ainda somos amigas.

 

– Não é que faço essa mesma pergunta todos os dias?

 

Bonnie deu uma cutucada na amiga e focou na direção.

 

– Estou com um bom pressentimento para este ano. – Bonnie atraiu a atenção de Elena, freando diante de um farol vermelho. – Prevejo que este ano será demais. Que a tristeza e a escuridão acabaram. E você vai ser mais do que feliz.

 

A amiga a olhava atentamente. Absorveu aquelas palavras, anuindo a cabeça positivamente. Queria acreditar na previsão de Bonnie. Tinha que acreditar. Tinha que resgatar a Elena otimista antes que desvendasse a versão sombria de si mesma.

 

Elas trocaram um sorriso cúmplice. Sinal de que uma estaria segurando a mão da outra em todo o percurso. Como faziam desde que eram crianças.

 

A música era o único som do carro. Nenhuma nova palavra foi trocada entre elas até chegarem ao estacionamento da escola. Elena espiou os arredores, como sempre fazia em todo começo de ano letivo. Como se começasse em uma escola nova e estivesse apavorada de cruzar os corredores sem uma mão amiga. Por isso sempre combinava com Bonnie para enfrentar o primeiro dia de aula. Era um pacto, o que sempre enlouquecera suas respectivas responsáveis.

 

Suspirou, a menor lembrança da mãe. As mãos começaram a suar com o súbito nervosismo. Voltou a dar atenção aos arredores para se distrair, absorvendo todo o clima de boas-vindas instalado no prédio e no gramado. Pessoas se abraçando. Grupos berrando. Cumprimentos significativos de cada panelinha. Todo ano, a mesma coisa, mas não deixava de ser um pouco saudosista.

 

– Estamos em falta de garotos – falou Bonnie, enquanto rumavam para os respectivos armários. – Arrumar um namorado, inventar uma gíria. Vai ser um ano cheio.

 

– É aquele ano em que devemos fazer um tipo de diferença, certo? – indagou Elena se escorando no seu armário.

 

– Depende do que você quer como diferença, Elena. Este ano, desencalharei.

 

Elena riu e espiou por cima do seu ombro. Viu Matt, que a encarou instantaneamente. Acenou, mais para testar o quanto estava tudo bem entre eles e não se chocou quando ele simplesmente a ignorara.

 

Parte disso era culpa sua, sabia.

 

– Ele me odeia.

 

– Não é todo mundo que aceita bem terminar com a Rainha Gilbert.

 

– Elena!

 

Elena fechou os olhos ao reconhecer aquele timbre de voz. Era Caroline. Mais conhecida por ser sua amiga-inimiga, mesmo não tratando-a daquele jeito.

 

Elas formavam um trio interessante, mas só havia irmandade forte entre Bonnie e Elena. Caroline sempre foi a parte mais competitiva e era muito difícil discernir quando ela era realmente sincera.

 

A começar pelo abraço que recebeu da menina loira de supetão. Foi impossível não olhar para Bonnie de esguelha com um ponto de interrogação na testa. Aquele gesto era sim clara falsidade.

 

– Como você está? Ah! É tão bom te ver. – Caroline se afastou, alisando as madeixas escuras de Elena. – Está mais coradinha ou é efeito do blush? Se ele é tão poderoso assim, me passe a marca porque é muito difícil esconder a minha palidez. Veja – as mãos dela repousaram nas próprias bochechas. – nem todo rosa contribui para as minhas maçãs.

 

Afoita, Caroline se virou para Bonnie:

 

– Como ela está? Ela está bem?

 

– Caroline, estou bem aqui.

 

A loira se virou lhe lançando um sorriso contido.

 

Estava ali a chance de começar seu ciclo de mentiras.

 

– Estou bem, obrigada.

 

– Mesmo?

 

Elena anuiu.

 

– Ah! Tadinha de você.

 

Outro sinal de falsidade. De novo, seguido de abraço.

 

Elena sabia que de alguma forma Caroline amava quando ela estava mal, quando perdia ou algo do tipo. Era algo péssimo a se pensar de alguém que ainda considerava uma boa amiga, mas as coisas mudaram quando garotos entraram nas suas vidas. Alguns sempre se interessavam por ela e não pela garota que insistia em tocar seus cabelos de um jeito possessivo. Isso acontecera com Matt.

 

E isso era um saco porque sabia que Caroline era muito bacana. O problema é que ela não gostava de perder. A partir daí, a amizade virou uma competição imaginária.

 

Ao menos, da parte de Elena, que não se esforçava para não contrariar ainda mais Caroline, conhecida como furacão Forbes.

 

– Sem comentários – afirmou Elena quando Caroline se afastou. Passou a caminhar e nem sabia exatamente para onde ia.

 

– Caroline será um grande desafio para o último ano. Certeza que o nível control freak dela estará no ápice. Ainda mais com a meta de derrubar Elena Gilbert.

 

– Não vamos pensar por esse lado, está bem?

 

– Contra fatos não há argumentos… – Bonnie deu de ombros. Subitamente, empacou, diante da porta da secretaria, segurando Elena pelo cotovelo. – Espera, quem é aquele?

 

Elena esticou o pescoço e seus olhos se contraíram em sinal de familiaridade. Como se já tivesse visto aquele garoto em algum canto da vizinhança.

 

– Só vejo as costas – respondeu, inclinando a cabeça para o lado. – Por que você sempre me faz perguntas difíceis?

 

– Você é Elena Gilbert. Tem todo mundo de Mystic Falls na agenda. Diga-me que conhece mais que as costas desse cidadão.

 

Algo dentro de Elena sabia que conhecia mais que as costas daquele cidadão. O cabelo castanho-claro, meio cor de mel, era o seu sinal de familiaridade. O figurino não lhe dizia muito, o batido jeans com jaqueta de couro, mas havia algo de inquietante naquele garoto que estava evidentemente discutindo a papelada com a recepcionista.

 

– Aluno novo.

 

– Com umas costas maravilhosas. Veja aqueles ombros.

 

Sim, as duas estavam paradas na porta da secretaria, observando as costas do aluno novo. Na verdade, flertando com as costas dele. Vergonhoso, mas divertido.

 

– Deve ser um roqueiro de Seattle. Toca guitarra. Deve ser daqueles rebeldes que você não consegue resistir.

 

– Como o Jeremy?

 

Bonnie fez uma careta.

 

– Falando em Jeremy – Elena foi atraída pelo irmão cruzando o corredor, do jeito suspeito com que ele cruzava os cômodos da casa. – Volto já!

 

Elena rumou decidida e nem pensou ao entrar no banheiro masculino. Não se importou nem um pouco com o que veria, pois já estava com a mão prensando as bochechas de Jeremy, buscando vestígios no olhar dele que denunciassem o que tentava inutilmente negar.

 

– Primeiro dia de aula e você está chapado – censurou, segurando a vontade enorme de arremessar a cabeça do irmão dentro da privada. – Você não acha que já temos problemas mais do que suficientes? E não adianta negar, pois sei bem o que você anda fazendo. Só cansei de fazer a cega.

 

As mãos de Elena começaram a explorar os bolsos de Jeremy. Estava irritada. Muito irritada. A irritação que segurara desde que saíra da cama começava a pinicar sua pele.

 

– Hei, tire as mãos de mim. Você precisa ficar de boa.

 

– Ficar de boa? Papo de drogado? – Elena ergueu a mão em sinal de inconformismo. – Cara, você é tão maneiro que tenho vontade de lhe acertar uns tapas.

 

– Pare Elena, você está fora do controle.

 

– Você ainda não me viu fora do controle. Você ainda não viu nada e espero que não insista, pois você verá o quão enlouquecida posso ser quando sou passada pra trás. Entendeu?

 

Elena o empurrou contra a pia. A forma como falava era tão raivosa que seus dentes rangiam uns nos outros.

 

– Dei-lhe uma folga no verão, mas agora cansei de viver nessa negação. Não vou mais espiá-lo, se autodestruindo. Tomarei medidas se você não se orientar. Papai não merece essa dor de cabeça, ok? Ele já está passando por coisas demais.

 

Jeremy não teve nem tempo de falar. Elena passou por cima dele de novo:

 

– Você pode continuar com isso, mas saiba que estarei em todos os lugares cortando seu barato, ok? – os olhos de Elena buscavam insistentemente os de Jeremy. Claro que ele desviava, pois estava ali a prova do quanto estava chapado antes do primeiro período. – E se eu tiver que chamar a polícia, ah!, eu irei. Então, fique esperto!

 

O barulho da descarga interrompeu a discussão. Nem isso aliviou os ânimos.

 

Elena respirou fundo, se afastando do irmão:

 

– Eu sei quem você é e você não é essa pessoa. Então, não seja essa pessoa.

 

– Eu não preciso dessa tagarelice. – Jeremy ajeitou a alça da mochila no ombro. – Afinal, você não é minha mãe.

 

Contra aquele argumento não havia uma réplica. Jeremy acertou em cheio na afirmativa, como se pegasse o coração de Elena e o arrancasse de seu peito.

 

A porta do banheiro bateu e ela passou um bom tempo olhando para os azulejos encardidos. Tinha que dar um jeito em Jeremy antes que ele começasse a fazer uso de outras drogas. Aquilo era só o começo do que poderia ser uma ruína sem remendos.

 

Irritada, marchou decidida mirando o reencontro com Bonnie, mas estava tão cega de raiva que não poupou o xingamento ao dar um encontrão em alguém que demorou a ter o rosto revelado por causa da sua mente anuviada. Tombou para trás, sentindo mãos equilibrá-la. Forçou-se a se concentrar, olhando para os lados, como se ainda procurasse Jeremy.

 

O que viu diante dela parecia um déjà vu.

 

– Desculpe. Esse é o banheiro masculino?

 

A voz dele soou tão gentil quanto na primeira vez. E com a mesma pitada de sarcasmo.

 

Ele estava claramente tirando sarro da sua cara. Exatamente como na primeira vez que se viram.

 

Elena demorou muito para se recompor. Juntou as peças: cabelo, jaqueta, sorriso sacana. Era o estranho de semanas atrás. O estranho chamado Stefan.

 

– Acho que a placa diz muito não é? – respondeu, com certo azedume.

 

– Começo a perceber que você tem gostos estranhos. Página de diário esvoaçante, uso do banheiro masculino…

 

– Era para ser engraçado?

 

Elena não queria ser grossa. Forçou-se a encontrar algum tipo de balanço interior, soltando a respiração pelas narinas.

 

– Desculpe. O dia começou cheio. É uma longa história.

 

– Deu para perceber.

 

Os dois emudeceram instantaneamente. Elena percebeu que algo em Stefan estava diferente em comparação a primeira vez que o viu. Deveria ser a roupa, não sabia. Ele estava todo de preto, e se pegou pensando que azul-escuro lhe caía melhor. Parecia que a roupa influenciara na cor dos olhos dele, tão verdes como da última vez que se vira refletida neles. Se viu até buscando as dobrinhas que surgiam ao mesmo tempo que sorria, e ficou um pouco besta ao ver isso acontecer.

 

Bonnie poderia ter adorado as costas do cidadão, mas os olhos dele eram mais incríveis. E o sorriso. O sorriso dava um jeito de iluminar aquele par de olhos cristalinos.

 

– Mundo pequeno, não é?

 

Elena olhou para a porta do banheiro. Agora, se sentindo constrangida.

 

– Achei que você fosse veterano de alguma universidade. Não um aluno do ensino médio – respondeu, um pouco mais calma.

 

– Pareço tão mais velho assim?

 

– Não, – Elena riu, fracamente. – não sei, na verdade. Poderia até pensar que você era algum agente imobiliário e não um aluno. Conheço todo mundo que tem minha idade aqui em Mystic Falls, mesmo que de vista, e você não está na minha lista. Ao menos, não que me lembre.

 

– Devo dizer o mesmo de você – rebateu Stefan, educadamente. – Mas acho que se estamos em mais um encontro inusitado é porque deve haver algo de misterioso entre nós, não?

 

– Acha mesmo que nunca nos encontramos antes do episódio do diário?

 

– Teremos o ano inteiro para descobrir, não?

 

– Isso é outra das suas cantadas?

 

– Foi você que mencionou que não estou na sua lista.

 

Elena riu junto com ele, colocando as mãos nos bolsos da calça.

 

– Como disse, teremos o ano inteiro para descobrir.

 

Elena anuiu. Começou a se sentir nervosa de novo, mas era um nervosismo que beirava ao constrangimento. Tentou passar por ele, e ele por ela, mas começaram uma dança esquisita no meio do corredor. Um ia de encontro ao outro, mas não indo a canto algum.

 

Ele abriu espaço para que passasse. Com o sorriso que iluminava os olhos.

 

E ela voltou a sentir aquela relutância de se afastar. Como aconteceu quando as suas mãos, e as dele, seguraram ao mesmo tempo a página esvoaçante do seu diário.

 

 

N/A: tenho que dizer que foi engraçadíssimo escrever Caroline falando do blush. Queria que ela tivesse continuado como uma megera indomada na série. Era divertido.

Stefs
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