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19/out

Dando sequência à jornada do Roland em busca da Torre, A Escolha Dos Três (The Drawing of the Three) foi publicado em 1987 e chegou ao Brasil em 2004. Indo contra o que eu disse na última resenha, este volume não traz uma citação na abertura; começamos direto com o pistoleiro acordando na praia, meio grogue, enfrentando lagostas do tamanho de cachorros.

 

Nada daquilo era real, não passava de um delírio extraordinariamente nítido. Portanto, o melhor a fazer era ir devagar e seguir o fluxo.

 

O segundo volume da Torre inicia o que eu gosto de chamar de a narração verdadeira. Não que o primeiro livro não conte, mas, comparado ao restante da série, ele tem um estilo e um ritmo bem diferentes, provavelmente pelo King ter começado a escrever a história tão cedo. Inclusive, geralmente quem gosta muito do primeiro não gosta dos outros seis, e vice-versa.É muito interessante observar a evolução do escritor de um livro para o outro. Apesar de gostar bastante d’O Pistoleiro (em grande parte por causa do Jake), eu prefiro o estilo e a narrativa que se seguem. Contudo, e eu quero deixar bem claro desde já, porque vai afetar a minha resenha, não gosto d’A Escolha.

 

Agora é a hora em que eu mordo a língua por defender a prolixidade do King em outros casos, de qualquer maneira, acho que este é o volume mais fraco e enrolado de todos, apesar de sermos apresentados a duas novas personagens principais e a uma noção melhor do quão forte é a influência da Torre. Considerando as quatrocentas e poucas páginas como uma obra separada, não há do que reclamar; tem ação o tempo todo, existe uma dinâmica legal e os capítulos são divididos de uma maneira que faz sentido.

 

Porém, pensando no livro como parte de uma coisa maior, ele é decepcionante, apesar de a história que ele conta ser essencial para a continuação. Durante a releitura, eu pensei que, talvez, tenha achado tão chato agora porque eu conheço o restante da série (que dá de dez a zero, sem dúvidas). Mas da primeira vez que eu li, eu também não me empolguei muito.

 

A questão é que, além de tudo o que eu já falei, tem alguns detalhes que me incomodam demais neste livro.

 

Tentei dar o menor número de spoilers possível no texto a seguir, mas tive que entregar uma coisa ou outra em favor da discussão. Como sempre, leia com cuidado e sabedoria.

 

Ponha a asmina nas coisas com carne. Depois segure tudo em suas mãos.

 

Depois de deixar o deserto, as montanhas, Jake e o Homem de Preto para trás, Roland segue para a praia, onde o sol se põe, e começa a subir o litoral, sentido norte. E aí está uma das pedras no meu sapato; pela descrição que eu acabei de fazer, ele vai para a esquerda ou para a direita? O lógico seria a direita, certo? Pois é. Mas ele vai para a esquerda (sul). Durante o livro inteiro, sempre que ele fala de algum ponto cardinal, ele fala a direção errada.Agora, eu não sei se essa inversão foi proposital (se é mais uma das diferenças entre o mundo do Roland e o nosso), porque em nenhum momento é falado ou dado a entender isso, ou se foi um erro absurdo de tradução.

 

Isto me incomoda desde a primeira leitura, e eu já pesquisei sobre em fóruns e afins, mas nunca achei uma explicação. Também nunca tive a oportunidade de pegar o original em inglês para tirar a dúvida, mas eu espero com toda sinceridade que o erro seja meu.

 

Mesmo assim, Eddie gostava de Roland. Tinha medo dele… mas também gostava dele.

 

Seguindo ao norte, Roland encontra uma porta no meio da praia. Uma porta grande, presa ao nada, sustentada por nada, com duas palavras gravadas na madeira: O Prisioneiro. E então nós conhecemos Eddie Dean, um viciado de Nova York, que está tentando trazer drogas para os Estados Unidos dentro de um avião e precisa passar pela alfândega. Não vou dar spoiler de como as coisas acontecem, mas Eddie e Roland se conhecem, se estranham, se ajudam e acabam a gostar um pouco um do outro.

 

Depois de resolvidos os problemas de Eddie no nosso mundo, ele volta para a praia com o pistoleiro. O relacionamento entre os dois é sensacional. A dinâmica entre eles é muito gostosa, porque eles são pessoas totalmente diferentes. Eles se odeiam e se gostam ao mesmo tempo, é muito gostoso ver o laço surgindo e crescendo, mesmo contra a vontade. Mas este é outro ponto que me incomoda: tudo isso acontece na primeira parte do livro.

 

De qualquer maneira, se sentindo culpado pelo que aconteceu com Jake, Roland avança com Eddie como quem pisa em ovos, tentando se envolver o mínimo possível, mas falhando logo de cara. Eddie lembra muito Cuthbert, outro pistoleiro e amigo de infância já falecido de Roland. Então, o nosso amigo durão não consegue não sentir nenhum afeto pelo outro. Até porque, mesmo morrendo de raiva de Roland e em crise de abstinência pela falta da droga, Eddie cuida dele quando ele está doente.

 

 

Seguindo na praia e entrando na segunda parte do livro, Roland e Eddie encontram uma segunda porta na areia. Esta é idêntica à anterior, exceto pelas palavras gravadas: A Dama Das Sombras.

 

Somos apresentados à Odetta Holmes e Detta Walker, duas personalidades opostas vivendo dentro da mesma mulher. E agora eu não serei totalmente imparcial na minha resenha: eu não gosto de nenhuma das duas. Pronto, desabafei. Apesar do meu desgosto, admito que a história delas é bem interessante, e que o King trabalhou a doença de um jeito bem legal. Além de esquizofrênica, Odetta (que é a original) é deficiente física. Em alguns flashbacks, ficamos sabendo de dois acidentes que ela sofreu ao longo da vida, um deles dando origem à Detta, o outro amputando suas pernas. E, numa sequência bem bacana, o Roland atravessa a porta e volta com Odetta, Detta e a cadeira de rodas.

 

Aqui está outro pronto para morrer por você, Roland. O que um dia você fez de tão errado para inspirar tão terrível lealdade em tantos homens?

 

Logo que a segunda porta se fecha, Eddie, Roland e nós leitores descobrimos que Detta não é apenas o lado sombrio de Odetta, mas um monstro de pessoa. Os dois homens amarram a mulher na cadeira de rodas e começam se revezando para empurrá-la pelo caminho em frente. Porém, Roland ainda está muito doente, e Eddie se vê responsável por levar os dois até a porta número três: O Empurrador.

 

Moribundo, Roland atravessa a porta e conhece Jack Mort, o responsável por empurrar Jake para a morte em Nova York. Louco de raiva e sem pensar duas vezes, Roland atrapalha Mort, que perde a oportunidade de matar o menino. Em seguida, descobrimos que o sujeito também foi o responsável pelos acidentes que Odetta sofreu, entre outras tantas mortes. Sozinho em Nova York, o pistoleiro arruma um pouco de confusão e mata o Jack, não sem antes ter certeza de que as duas mulheres que ele deixou na praia estão vendo o que ele está fazendo. Assistindo a tudo, elas são obrigadas a se reconhecerem e a se confrontarem, gerando uma terceira: Susannah, que é a combinação das anteriores.

 

 

Recuperados da jornada pela praia, Roland e seus novos companheiros (seu novo ka-tet) começam agora o caminho para leste (direita!), onde há vegetação e floresta. Eddie e Susannah seguem como parceiros, ele completamente apaixonado por ela, ela nem tanto por ele. Roland segue como o líder. Os dois do nosso mundo não entendem muito bem o que é a Torre e por que o pistoleiro precisa chegar nela, mas se dispõem a ajudar. E assim termina A Escolha dos Três.

 

A maioria das pessoas não concorda comigo quando eu digo que é um livro fraco, mas a minha opinião vai ficar mais clara quando eu falar sobre os próximos livros. A Escolha tem muita ação, realmente, mas é uma ação fraca. Apesar disto, é um dos volumes com as melhores citações de toda a série.

 

Uma criatura sem coração é uma criatura sem amor e uma criatura sem amor é um animal. Ser animal é talvez suportável, embora o homem que se tornou um certamente acabe, no final, pagando o preço do próprio inferno, mas e daí se você alcançar o seu objetivo? E daí se você, implacável, conseguir realmente assaltar a Torre Negra e conquistá-la? Se nada houver em seu coração além do escuro, o que você poderia fazer a não ser degenerar de animal a monstro? Atingir seu objetivo como animal seria sem dúvida amargamente cômico – como dar uma lente de aumento a um elefante. Mas atingir o objetivo como monstro…

 

Pagar o preço do inferno é uma coisa. Mas será que ele iria querer possuí-lo definitivamente?

 

 

Na Prateleira
Título: A Torre Negra Vol 2: A Escolha Dos Três
Autor: Stephen King
Páginas: 416
Editora: Objetiva

Mônica
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