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30/nov

Mal consigo respirar depois deste baita episódio. Grandioso e deveras pertinente. Perto de mais um final de temporada, o roteiro de Doctor Who resolveu amarrar assuntos de peso que foram deixados no meio de cada aventura do 12º na companhia de Clara nesta season. Mais precisamente, o papo de quem é ou não é híbrido. Inclusive, como se daria essa mistura se pensássemos no Time Lord.

 

O 12º estava longe de uma adaptação emocional para lidar com a perda da sua primeira companheira e, de quebra, não poder fazer nada para revertê-la. Com isso dentro do peito e sem alguém para lhe ouvir, ele, nesse arco que transita em busca do amadurecimento, não passava de uma ameaça a si mesmo.

 

Ele teve que assumir as rédeas da tramoia elaborada por Ashildr, uma tarefa nem um pouco complicada para quem acha que tudo pode, certo? Quase. Ficar nos holofotes sem uma companion não foi tarefa fácil para o 12º, mas foi completamente fácil para Capaldi. O ator assumiu o palco e deu mais um show de atuação ao fazer seu personagem coordenar as mudanças de cenário, nos empurrar para uma reflexão sobre vida e morte em belíssimos monólogos, e nos nortear para um término que deixou as emoções à flor da pele e um gosto agridoce de expectativa.

 

O pontapé do episódio veio com uma bela introdução que assentou a temática da vez. Inclusive, o quanto de peso emocional a trama traria. A morte tem sido pautada desde o começo desta temporada, uma palavrinha que parecia doce na boca do 12º ao ponto dele se adiantar em fazer um testamento – para desespero de Clara. Uma surpresa vinda de um alienígena que, subitamente, estava muito confortável em abraçar o além. Uma autoconfiança que não passava de fachada.

 

Ao longo da sua jornada, o 12º se escondeu na carranca e fez questão de mostrar que seus dois corações são peludos. Jogou com ironia, frisou que os humanos não importam e manteve o cold shoulder. No fundo, ir para além do véu é um dos seus medos mais tenros.

 

Nada como prender o Time Lord para fazê-lo admitir isso e outras coisas. O objetivo da trama foi fazê-lo confessar e não necessariamente a batalha de sair daquela situação claustrofóbica que começava a impregnar na sua pele. A tramoia queria uma resposta, a confissão das confissões: quem diabos seria o híbrido e para que esse ser serviria. Não menos importante, qual seria o plano maior de Ashildr, e do tal de eles que citou na semana passada (que soa como a gangue de Gallifrey), ao ponto de enxotar o 12º para o nada a fim de obter o que queria por meio da incitação do medo.

 

A partir daí, só golpe baixo. Houve muitas cenas maravilhosas e destaco a que o 12º pula da janela e cai no mar. Primorosa como a trilha que o acompanhou. Os crânios no fundo do mar só me fizeram pensar nas pessoas que ele perdeu ao longo da jornada – e estava enganada. A pausa para trocar de roupa foi sutil, mas reforçou o requinte teatral de uma situação que se manteve enigmática até o fim. Capaldi mostrou o quanto é maravilhoso ao segurar a história sozinho, sem entregar o looping quase eterno que seu personagem foi obrigado a viver.

 

O incrível é que em nenhum momento o 12º fraquejou, só perto dos típicos 10 minutos finais em que houve a entrega. A desistência. Antes disso acontecer, o acompanhamos em raciocínio, impressões do ambiente dadas por ele mesmo, muito bem exposto pelo cérebro em forma de TARDIS. Cada frame sem saída acionava seu sistema nervoso que veio com o peso da presença já não mais existente de Clara. Foram os momentos que mais gostei.

 

Se na semana passada não me emocionei com a saideira da companion, não posso dizer o mesmo com os desdobramentos deste episódio. O golpe baixo já começou com a retirada do nome da Jenna na abertura, o instante em que fiquei mexida sem a brincadeira nem ter começado. Amei dolorosamente a maneira como a memória dela foi encaixada na trama, até que ideal para o 12º lidar e sair da negação. O trocadilho da lousa, as indagações, o aperto sobre vencer… Era como se a personagem realmente estivesse presente. Na verdade, até estava, em pensamento, a dosagem emocional de um episódio muito complexo e sensitivo. Contemplativo ao extremo.

 

Vale até dizer que Clara de costas foi muito filme de terror, sinceramente. Muito cabreiro.

 

Nem preciso dizer que o 12º diante de Clara pela última vez me fez lembrar da Amy diante do 11º, e chorei que nem um bebê. Eu disse que choro em qualquer saideira, gente. Só faltava o tom certo, pois continuo a achar que a despedida da menina Oswald ficou muito a desejar.

 

Mesmo com as indagações pertinentes de uma inexistente Clara, o que importou foram as confissões que nos norteou à saudosa Gallifrey. Esse era o foco, mas, até ser revelado, acompanhar a agonia do 12º, preso naquele buraco, agitou a minha TARDIS. O roteiro envolveu, foi arteiro nas migalhas que impulsionavam cada passada do Time Lord e nas indagações que aumentavam a apreensão sobre o que viria em seguida. Uma obra arrepiante, intimista e ao mesmo tempo invasiva por querer demais de um personagem que não estava tão pronto para lidar com os próprios medos.

 

Capaldi transmitiu com maestria algumas das fraquezas que seu personagem esconde. Ele brilhou demais, sem precisar de qualquer artifício extra para apoiar sua interpretação. O ator transitou da amargura pela perda de Clara para a segurança de que sairia dali, depois para o medo e para a revolta, e, por fim, para o desespero. De novo, ele mostrou por quais motivos conquistou esse papel icônico e só tenho a desejar por muitos anos de sua presença. Não tinha um Doctor moderno favorito, apesar de amar bastante o 11º por ser pura entrega, mas o 12º é meu spirit animal.

 

Embora tenha o dark side e nem um pingo de tato em algumas circunstâncias, lá estava ele, tendo suas feridas cutucadas ao ponto de querer simplesmente desistir. Um pensamento que lhe ocorreu por muitos milhões de anos até finalmente encontrar sua liberdade em forma de revelação: ele é o guerreiro da profecia. O cara que tem como missão queimar Gallifrey. O cara que é o híbrido.

 

Um híbrido meio humano, meio Senhor do Tempo? Teorias retrocederam até o filme de Doctor Who estrelado pelo 8º, em que ele conta que é meio humano por parte de mãe. Não acho que tudo sobre essa história será entregue na próxima semana, embora ainda haja o especial de Natal pela frente. Penso que muita coisa pode acontecer, especialmente por contar com Ashildr de novo (o que diabos ela faz em Gallifrey?).

 

Este episódio contou com uma narrativa maravilhosa. Parecia um conto em audiobook. O roteiro foi tão bem escrito que é possível apreciá-lo de olhos fechados. É sinistro. Intrigante. Penetra na pele. A trilha sonora também foi a grande personagem esta semana, movendo o imaginário, fortalecendo o monólogo, enriquecendo o 12º versão cérebro. Gosto tanto de episódios mais reflexivos e esse simplesmente acabou com minha vida. Analisando meu ranking, subiu para o pódio.

 

Só resta mais um episódio e, pela promo, seremos brindados com doses de Who clássico. Um brinde justo, considerando que foi nessa atmosfera que esta temporada se iniciou.

 

PS: Será que o testamento finalmente será lido?

Stefs
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