Menu:
28/nov

Por ordem do plot da vida, vivi para ver mais um final de saga. Um momento que descobri ter o mesmo modo de operação: finjo que não é comigo para depois quebrar que nem uma criança chorosa porque não ganhou o presente que gostaria. A repetida experiência me fez até voltar aos dias antes da despedida potteriana nos cinemas, em que contemplei o pôster que havia pendurado no meu quarto e o arranquei de lá para não ter que lembrar que a história da minha vida terminaria de vez.

 

Demorei uma semana para escrever este texto, porque não fazia a menor ideia por onde começar. É sempre assim (como vocês bem sabem) e, quando percebo, tenho mais de 4 páginas para revisar (e choro sangue). Este post tem vários momentos, além do meu parecer sobre o final de Jogos Vorazes. Há spoilers para quem não leu o livro e uma nota final de adeus. Não precisam usar colete à prova de balas, ok?

 

Ah! Peço desculpas pelo textão dos textões.

 

Jogos Vorazes: A Esperança – O Final veio com um peso especial por ser o último da franquia que popularizou Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson e Liam Hemsworth. Três atores que, na última parte, já estavam mais do que confortáveis em encarnar os respectivos personagens e fez bem a minha saúde ver o quanto eles amadureceram.

 

A direção se manteve com Francis Lawrence e o roteiro teve olhadelas de Suzanne Collins, a criadora desse universo aterrorizador. Mesmo com a trama bem dividida com base no livro, o real objetivo da parte final foi mostrar como Katniss abraçaria sua missão e a nortearia rumo à liberdade dela e de Panem. O ponto de apoio continuou a ser no que ela tinha que fazer, mas o impacto veio das escolhas. Não só dela, como de Plutarch, Coin, Haymitch, Gale, etc.. Aqui, houve um belo jogo de caráter, tema ideal para A Esperança – O Final.

 

O longa partiu do primeiro golpe de Peeta contra Katniss, deixado lá na Parte 1, um impactante efeito colateral encaminhado com presteza de Snow para o Tordo. Um cutucão crucial que não só quase matou a garota em chamas, mas a fez ponderar pela última vez sobre seu papel na revolução. Para isso, uma última tarefa: conquistar o Distrito 2, a moradia das armas da Capital. Se der tempo, matar o Presidente.

 

Os primeiros instantes nos brinda com falsa esperança. Katniss aceita seu papel, há o casamento de Finnick e o último abraço entre as Everdeen. Pequenos toques de felicidade que deixarão de existir caso Snow continue respirando.A Esperança – O Final é conciso sobre as decisões que norteiam Katniss e clínico em escolher o quanto da guerra mostraria nas telonas. Cada posto ocupado na revolução, do secundário ao antagonista, é mantido pela meta do que deveria ser alcançado. O mesmo vale para a protagonista que, a cada reviravolta, dá de cara com surpresas ainda mais desagradáveis. Ação e reação que a levam ao limite.

 

O que poderia ser uma missão suicida e solitária, inclui muitos no desejo de derrubar o sistema. Alguns nem notam que revelam suas cores verdadeiras no trajeto, clarificadas no rosto dos atores que garantiram uma nova leva de atuações sensacionais. Contudo, o grande segredo da adaptação foi trabalhar os conflitos emocionais de cada personagem. Não tanto quanto está no livro, mas a leve dosagem atinge efetivamente.

 

Simplesmente porque a trama segue fielmente a linha de raciocínio de todo término de saga, destacando Lawrence mais individualmente que acompanhada, transparecendo com deleite a transição da heroína que reconhece o que precisa fazer e que para de se esconder. Isso se reflete nos demais, pois Katniss em si é o grande dano da história.

 

Fazendo um breve retrocesso, lá na Parte 1, Katniss oscilou várias vezes sobre o que deveria fazer com relação ao que Plutarch e Coin lhe contaram sobre a tal revolução. Everdeen tinha popularidade, um fator positivo para o Idealizador dos Jogos e negativo para a Presidente do Distrito 13. Na 2ª, vemos a queridinha da Capital se transformar em uma inimiga completa e um meio para aplicar outro golpe político.Pra mostrar essa complexidade, não só de Katniss como de todos os personagens, seria preciso humanizar a história, algo que não dá para capturar no livro que fica centrado nos anseios da protagonista. Quesito que o longa explorou e fez de carro-chefe. Não teve como não sentir os temores e as dores de cada um deles.

 

O roteiro foi muito digno em dar relevância aos personagens em vez da guerra. Não era o objetivo da adaptação que trocou o show de efeitos especiais pela história. O conflito em campo estava ali, embutido, mas não diminuiu o dilema dos personagens que abraçaram a revolução. Isso era o mais importante e transpareceu em cada cena. A retaliação de Snow, e até de Coin, não deixou de ser um tormento visual, mas o peso veio do grupo e da maneira como respondiam a cada tragédia.

 

Muitos compartilham a mesma dor por terem sido vitimizados pelo sistema. Outros só estavam ali por perceberem que o glamour da Capital não lhes davam liberdade de viver individualmente. Alguns só participam por terem almejado uma guerra por anos. Uma divisão que rendeu os conflitos pertinentes para a adaptação, tudo muito pontual, ressaltando alicerces e ameaças. E, claro, a moral da história.

 

O maior conflito da protagonista na primeira parte foi se sentir confortável no seu papel. Na segunda, encontrar sua própria voz para representar uma revolução fora das amarras de Coin. Vemos a evolução de uma adolescente que foi de Tributo para uma arma controlada por tudo e todos, e depois para um ser individual que queria se libertar do inimigo. Um conflito presente na atuação impecável de Jennifer, que se transportou várias vezes dos momentos de vulnerabilidade para os mais gélidos.

 

Katniss não é uma personagem de pura entrega, o que ficou evidente ao longo dos filmes. Sempre travada para expressar o que sente, mais por medo de ser atingida. Agora, há confiança. Petulância, como Snow diria carinhosamente. Há uma transformação completa da personagem que precisou endurecer para um bem maior. Encontrar a sua força em meio a dor. Contornar conflitos emocionais e traumas para se impor. Para ver que sua decisão é válida. Que suas ideias importam.

 

Vemos aquela menina adorada da Capital chegar ao auge emocional e quebrar as amarras. Não só do sistema, mas das pessoas que a manipulam. Que mentiram e que usaram a guerra como desculpa para cometer uma nova onda de atrocidades. A trajetória de Everdeen é uma onda crescente nessa conclusão e a vemos imparável.

 

Enquanto Katniss tinha dúvidas do que deveria fazer na primeira parte, na segunda ela já tem certeza e a vemos no seu último arco de evolução. Cada calo, ferida, cicatriz que Snow e seu sistema lhe causam, se tornam uma bolha de dor que a motiva. Dor que a cada passada rumo ao coração da Capital é esvaída diante da perspectiva de destruir o inimigo. Lawrence não me decepcionou e seu talento permitiu que sentíssemos os perrengues da sua personagem como se fossem nossas.

 

Dores acarretadas por um universo que não é tão fictício assim. Foi horrorizante enxergar tudo aquilo e saber que, de certa forma, vivemos isso. Não em comparação a outros países, mas existe uma inclinação, especialmente dos ricos sobre os pobres.

 

Ideia que foi muito bem transposta na mídia da Capital. O toque de mestre. O recheio desse bolo que inquietou e angustiou. O artifício poderosíssimo da saga e que estava com a bola toda nessa parte final. Cada tomada era revoltante, como assistir ao noticiário das 21hrs, ciente de que metade do que falam é manipulação. O espetáculo da política Pão e Circo foi um show à parte, brilhou mais que os filmes anteriores, a real trilha sonora da revolução. Com todo respeito ao James que voltou a fazer um trabalho primordial, com acordes mais brutos que intensificaram cada ação do Tordo.

 

Uma das bases de Jogos Vorazes é a mídia. O poderio de Snow. Um maquinar eterno de informação que A Esperança – O Final desenvolveu perfeitamente. Um ruído de notinhas sem fonte confirmada, só com o intuito de narcotizar para não educar. Para mostrar a tragédia, a consequência dela e pisar na esperança. Para impor medo e caos para que ninguém contribua para destruir o sistema. O realismo visto na tela ultrapassa limites ao enfatizar o quanto Katniss é um fantoche. O quanto somos fantoches da cada produto jornalístico. Marionetes inclinadas a seguir o fluxo.

 

Isso mexeu demais comigo, pois foi uma das minhas desilusões quanto a essa profissão. Ela dá ao povo o que acha pertinente e investe no sensacionalismo. Sem contar que quem controla esses meios de comunicação sabe que as pessoas acompanham caos e tragédia sem pestanejar. É o meio de apavorá-las e de mantê-las na bolha. Jornalismo para informar não existe, a não ser que você crie seu espaço. Um lugar em que você use a sua voz e propague uma diferença.

 

E é aí que Katniss entra em cena. O espetáculo. Ela é o objeto da mídia que a exaltou e a difamou, um troca-troca que assistimos todos os dias, até mesmo com subcelebridades. Veículos que deveriam contribuir com a sociedade é uma ferramenta usada para enganar e Everdeen nada mais é que a pauta quente. A suposta rebelde que quer afetar o estilo de vida da Capital, porque não passa de uma adolescente mimada e mal-agradecida. Caesar me deixou passando mal com seus plantões porque é algo real. Senti-me como se visse as notícias do Tordo em casa.

 

Outros pontos efetivos do roteiro foram a importância dada aos estragos dos Jogos e do início da revolução nos personagens. Mentais e físicas. Os ângulos fechados em cada ferida comovem e indignam, e é por meio deles que captamos o peso da guerra. Vemos o pescoço de Katniss machucado pelo ódio programado de Peeta e, logo mais, o efeito do tiro dado por um rebelde no Distrito 2. Atrelado a isso, Mellark confrontando com o real e irreal, pedindo para ser morto. Cenas curtas e essenciais que pontuaram o clima do filme em poucos segundos.

 

De novo, caí na real de que Hutcherson nunca mais sairá da minha cabeça ao representar tão bem o dilema de Peeta. Era uma das coisas que estava ansiosa para ver e foi possível captar no menor gesto o quanto o padeiro se perdeu de si mesmo. Mais tarde, o quanto relutou para não pular de novo no pescoço de Katniss. Uma briga que só tinha uma meta: encontrar o que sentia por ela antes e depois dos Jogos.

 

Embora não pudesse adaptar o livro todo, o filme se apoiou nesses pequenos detalhes traumáticos que agiram como lembretes do que Snow fez, no que Panem tinha se transformado e como os personagens mudaram diante das circunstâncias. A Esperança – O Final engatou esse pensamento e frisou que a história não se trata apenas da guerra, mas de perdas e do como elas transformam. É sobre também mudança pessoal para administrar os arredores. Ou, destruí-lo.

 

Até Snow caiu nessa dança de efeito colateral. Se há uma coisa que acho sensacional, se for feito no tom certo, é humanizar o vilão. A cena dele tombado no escritório foi surreal, mostrando que, apesar das maldades, ele não passa de um velhinho mal da saúde. Gente, amo muito como Rowling escreveu Voldemort e amo tudo o que Ralph Fiennes trouxe para a tela, mas, sorry, o Presidente, aka Donald, foi top demais. Deliciosamente dissimulado, mostrando e comprovando tudo que Finnick disse.

 

Não posso terminar este post sem mencionar as cenas de combate/arena do Presidente Snow. Roubaram meu fôlego! Uma batalha por questões de sobrevivência que ganhou um tom assustador no filme, como ter alguém a sua espreita pronto para atacar. Por mais que você soubesse o que aconteceria, rolava uma tremenda apreensão. Um pânico. O que aconteceu com Boggs, olhem…

 

Acho que nem preciso dizer que meu golpe se chama Finnick. Quando a turma entrou naquele túnel, quis invadir para tirá-lo de cena. Fiquei bem triste pelas poucas cenas do personagem, pois ele foi o maior aliado de Katniss ao longo da vivência no Distrito 13. O tempo de tela de Sam foi ocupado por Liam para “alimentar” o triângulo amoroso, sendo que a saga nem tem esse apelo. Chateada.

 

E quem era Gale nesse filme? O egoísmo dele em só saber da guerra ficou tão esparramado, mas tão esparramado, que quis socá-lo. Não capturei isso com facilidade no livro, mas o filme deu na face. O personagem absurdamente convicto da sua posição, mergulhado nos meios justificam os fins, o que lhe custou mais que o esperado. A última cena dele com Katniss foi meio Roberto Justus anunciando que fulano está demitido. Realmente, só restava abaixar a cabeça e sair chorando.

 

Depois da onda, vem a calmaria. No caso, o Epílogo. O que foi o filhote de cabelo de anjo rindo com Peeta? Me perguntei quem era a criança ali (Josh sempre tão fofinho). Achei que mudariam mais, criaram maior estardalhaço sobre isso, mas foi a mensagem final de que precisamos ter esperança. Que precisamos sempre escolher a vida de vitoriosos, independente de quantas dores nos encontram no percurso.

 

Notinhas finais

 

A última parte arrematou o que Em Chamas pregou incontáveis vezes: enquanto houver esperança, o medo é o de menos. Com esse pensamento, assistimos Katniss e Cia. correndo em uma arena feita especialmente para barrá-los de alcançar o maior prêmio: a liberdade. Uma liberdade em pró do coletivo que pode ser temporária, pois depende muito de quem assume as rédeas do sistema. Isso não soa familiar?

 

Certos passos você tem que dar sozinho, disse Katniss no começo de tudo, e ela segue bravamente e ao mesmo tempo temerosa por trechos estreitos, como se estivesse de volta à arena. Ações e reações de uma ficção muito realista. Só que ninguém conta com o revés, a ironia do texto que o filme não deixou de mostrar: às vezes, abraçamos lutas sem sabermos exatamente do que elas se tratam e corremos o risco de dar aval ao mesmo modelo de controle. Nesse caso, político.

 

Sem Snow, Panem seria a mesma, só que do avesso. Talvez, os Distritos pobres teriam fartura, o Distrito 13 seria a nova Capital (que ironicamente queria o Distrito 2 pelos armamentos) e a Capital seria os Distritos pobres. Tudo não passa de vingança por vingança e Snow é brilhante em incitar o clímax.

 

Do exemplo até a ameaça, Katniss se torna uma líder. A porta-voz que muda a história de Panem. A trama engata aos poucos o novo jogo de manipulação, muito mais intrincado em comparação ao controlado por Snow. Há uma delicadeza ironicamente brutal, sufocante e sutil como o inimigo, para esboçar a confusão, especialmente interna, dos envolvidos perante o que viam. Sacada que honrou o que há no papel, mais contemplação, o que rebateu no longa.

 

O desfecho da saga é impacto puro. Ele uniu os elementos que fazem esse universo perturbador e os lançou com as últimas gotas de sangue do Snow. Todos carregados com a crueldade que só morava no nosso imaginário. É uma conclusão que contou com o elenco fortalecido, muito empoderamento feminino, efeitos visuais que responderam por cada estardalhaço emocional e paranoia que ressaltou que uma revolução nunca fará com que você volte igual ao momento em que ingressou nela.

 

Cada choro é sincero, cada minuto de silêncio é efetivo e o medo é impregnante. É inevitável não ficar agitado com tudo que acontece.Há um ponto negativo que realmente merece destaque: o sério problema de compasso. A passagem temporal deixa qualquer um que não sabe da história perdido, um desnortear que custa alguns segundos para voltar ao filme. Os impactos não conquistam uma justificativa de pronto, algo sentido no ataque na porta da mansão do Snow. O resultado de uma ação logo morre e corta para um momento que, para quem não leu o livro, não faz, no visual, tanto sentido.

 

Só sei que podiam ter mostrado, por exemplo, a prisão do Presidente. Tipo, game over, migo. Ia ser awesome.

 

Fora isso (e outras coisas que nem compensam o comentário), a história foi muito bem fragmentada e sequenciada apesar da diminuta participação de alguns personagens  Finnick  e da falta de estreitamento mais profundo de certas relações – Prim e Katniss (que tiveram ótimos momentos na Parte 1 e precisavam de mais visto o que acontece). Porém, o que foi dado foi o bastante. Escolheram as passagens mais destruidoras do livro, regadas com uma riqueza dolorosa de detalhes.

 

A Esperança – O Final fez jus o quanto pôde do livro, sendo mais criativo e alucinante em comparação ao que está no papel. Pecar até pecou, mas a mensagem foi transmitida com sucesso.

 

Palavras de adeus (ou quase)

 

Minha única Person deste mundo me apresentou Jogos Vorazes (thank u, thank u <3). Acho que foi em 2012, mas só em 2013 o samba começou. Como de praxe, ela jogou os livros no meu colo, todos marcadinhos com post-it, falou, falou, falou e eu apenas no Voight-uhum. Até que o trailer saiu e ela foi lá, como de praxe, e mostrou o tamanho da bagunça. Lembro-me da sensação do impacto daquelas cenas: agonia. E Stefs é atraída por agonia desde 23 de maio de 1986.

 

Parando para pensar, meu caso com Jogos Vorazes é mais profundo em comparação a Harry Potter. E é bizarro falar isso, porque passei mais de 10 anos segurando o bruxo embaixo do braço e ele salvou minha vida várias vezes. Mas, voltando lá atrás, não me identifiquei com nenhuma personagem feminina da saga de Rowling. Só com o dilema dos cabelos de Hermione, não mais que isso.Nunca encontrei uma moça da literatura que falasse comigo, só moços, até Collins inventar Katniss Everdeen. Sou grata por isso e não me sinto mais no bloco do eu sozinho (e tem a Cath de Fangirl, mas isso é outro post, ok?).

 

Sério, era muito chato não ter uma mulher na minha lista, porque tenho inclinação a me identificar com os homens. Vejam bem: minha mana e eu somos os Winchester.

 

Posso não viver em uma Capital. Posso não ter sofrido em uma Panem. Mas tive várias versões do Presidente Snow na minha vida e elas me impulsionaram aonde estou agora. Tenho traumas e feridas que me fariam querer dormir para sempre, um dia desejei isso fervorosamente, porque senti que não aguentaria mais. E aguentei.

 

O grande problema emocional aqui é que minha conexão com Katniss Everdeen extrapola limites e isso me faz lembrar de uma entrevista que o Claflin deu ao longo da divulgação deste filme. Ele disse que queria contar com uma história como essa quando era adolescente. Eu até poderia dizer o mesmo, mas penso que não teria o discernimento e a estrutura para captar todas as nuances, especialmente negativas, do que Suzanne escreveu. Porque não teria vivido a minha vida. Não teria sofrido e obtido cicatrizes para entender com mais autonomia o que acontecia ao meu redor.

 

Depois de tanto tempo, encontrei uma heroína que me representa. Jogos Vorazes é uma história tão completa para mim que pude inserir nela minha irmã mais nova e o tipo de relação que tive com a minha mãe na adolescência. Foi praticamente daquele jeito, salvo que meu pai saiu de casa e nos deixou a ver navios.

 

Grande parte dos trancos e barrancos que Katniss passou eu passei. Não como na ficção, claro, mas deixo de exemplo o fato de ter me tornado o alicerce de uma família de duas mulheres com 16 anos. Minha irmã é carinhosamente chamada de Prim, a única pessoa do mundo que vê minha vulnerabilidade ao extremo, até meu comportamento transformado diante das mais variadas pessoas.

 

Everdeen é uma adolescente que aprendeu a se virar sozinha. Eu também. Que teve que lidar com todas as jogadas baixas sem ter conhecimento do que estava acontecendo. Eu também. Que não confiava em ninguém. Que não demonstrava que gostava das pessoas e é toda torta para se expressar. Até termos uma causa que mudou todo nosso comportamento.

 

E teve que se restabelecer de tudo isso para encontrar sua própria identidade. Sua própria voz. De aprender em meio a dor o que vale a pena manter perto do coração. Acima de tudo, e entre lágrimas, não permitir que um Snow ou uma Coin dite a sua vida. Penso que é mais por isso que o fim de Jogos Vorazes rendeu um freio emocional, que afetou minha facilidade de escrever, pois Katniss enraizou em mim por um dia eu ter sido como ela. Por ter chegado perto da linha tênue que me faria voltar a vários ciclos antigos. Até que me impus e disse chega.

 

Uma das mensagens que ficou em mim depois do filme foi o pedido de Haymitch para que Katniss continue a ser uma vitoriosa (não com essas palavras, mas foi a ideia). Ao longo da sua jornada, Everdeen teve que encontrar dentro de si mesma a coragem para ter a sua vida. Há uma complexidade nessa personagem que vejo em mim, especialmente na hora de afugentar os sentimentos ou explodir por ter segurado o que sente por tempo demais e não saber lidar. Me vi na cena em que ela chora com Buttercup. Porque sou dessas que faz a fingida até não aguentar mais.

 

Apesar de todos os furacões, Katniss escolheu ser uma vitoriosa. Ela encontrou sua voz. Encontrou sua força. Mesmo ciente de que tudo que viveu jamais se desprenderia dela. Tudo que viveu seria um quadro para que relembrasse de ser forte toda vez que sentisse que fosse fraquejar ou, talvez, começasse a duvidar do propósito da sua existência. Everdeen aprendeu a abraçar tudo o que ela é e se tornou uma mulher adulta em um piscar de olhos. Forte, frágil, egoísta, inconsequente, sincera, empática, antipática. Todas precisam desses conflitos internos e não ter vergonha de nenhum deles.

 

Há uma Katniss dentro de cada garota, presa no medo de ser mais do que acha que pode. Qualquer garota pode criar sua própria revolução. É isso que Katniss ensinou preciosamente. Ser um agente de mudança e usar todas as suas cicatrizes e traumas para se fortalecer.

 

Katniss Everdeen vem de uma linha em que se poupava aparecer, que prendia o que sentia, que se lançava no mundo do jeito cascudo. Até ver tudo ruir e ser a responsável pela mudança. Cada menina e mulher carrega isso dentro de si, só é preciso encontrar a faísca.

 

Como Finnick disse, é dez vezes mais demorado se recuperar da crise do que entrar nela. A recuperação é onde mora uma das grandes vitórias e Katniss Everdeen mostrou que apesar de tudo ainda há muito pra viver.

 

Escolha sempre ser uma vitoriosa. É essa mensagem do adeus que deixo pra vocês. 

 

Pra entender mais essa coisa minha com a Katniss, leiam aqui.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3