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01/dez

Sim, isto é uma fanfic. Não apenas uma fanfic, mas a primeira que faço com relação a Jogos Vorazes. Quando comecei a viciar na saga, pensei várias vezes sobre o que poderia escrever na época, mas nunca me arrisquei porque os livros são em primeira pessoa. Não sou a cidadã que usa esse POV, tenho sérios problemas com ele, mas resolvi parar de drama e sangrar os dedos no teclado.

 

Tenho o mesmo modo de operação que vem desde Harry Potter: sempre prefiro escrever sobre quem um/a autor/autora não desenvolveu. É meu caminho para quebrar o canon e amo pisar em cima dele. Finnick é meu personagem favorito depois da Katniss e ele é a causa de ter me feito escrever e postar o que vocês lerão aí embaixo. Justamente porque não há mais nada sobre Odair nos livros.

 

O timing dessa one-shot foi tirado de A Esperança, depois dos desdobramentos daquela onda de gel preto, vide o filme, o motivo da minha inspiração. Quando o esquadrão se refugia, vi naquele ambiente um cenário em que menino Odair era “vendido”.

 

A cena tem reflexões do personagem e uma breve conversa com Katniss. Há toque do livro e da adaptação. Por ser a primeira em primeira pessoa também (repetindo primeira porque sim) que escrevo, críticas são bem-vindas.

 

Os personagens de Jogos Vorazes não me pertencem (aff, que saudade de escrever isso).

 

Não há nada bonito em ser golpeado por flashes da minha antiga vida na Capital.

 

Congelo na soleira do apartamento. Minha visão fica turva por alguns segundos. Não pelo peso de Peeta em meus ombros, mas pelas memórias que roubam meus sentidos. Memórias que, até aquele momento, não tinham se desprendido do canto mais profundo do meu cérebro. Basta uma olhadela na fachada daquele lugar para elas emergirem e eu ser arrebatado.

 

Memórias de um passado que demoraram para me atordoar. Annie é quem ocupa todos os meus pensamentos e tem sido assim desde nosso primeiro encontro. Minha esposa é meu foco. O ponto que me norteia. Quando não é ela, foco a atenção em um pedaço de corda, que não deixa de ser um convite para pensamentos suicidas que me atordoam a cada nó. Em nenhum momento me permiti retornar aos antigos episódios da minha escravidão sexual na Capital. Episódios que me levaram a apoiar uma adolescente que claramente estava mais perturbada que eu no meio de mais um jogo ditado por Snow.

 

Com um passo, tudo transborda. Sinto-me engolfado por um clima quente, mormacento, e prestes a ser tragado por uma camada de fumaça ludibriante. Fecho os olhos e revivo momentos. Até consigo sentir mãos trafegando em cada centímetro do meu corpo.

 

Ter falado sobre isso para uma câmera, em nome do resgate daqueles que amamos, pareceu muito fácil. Mas não foi. No fundo, sabia disso, mas fingir é uma artimanha que desenvolvi com o passar dos anos. O meio mais eficaz para isso era me desligar emocionalmente. Também não era fácil, mas, naquela câmera, só vi o rosto de Snow e acabei dominado pelo desejo de retaliação que poderia ter revelado mais camadas de quem fui.

 

Me trancafiei dentro de mim mesmo quando, em tese, me libertei da Capital. Me fortaleci na promessa de que nunca mais retornaria aos velhos hábitos. Silenciei sobre tudo o que aconteceu. Sobre tudo que fiz. Dizer algo por cima não era o mesmo que dar os detalhes. Vivenciar também não era o mesmo que falar superficialmente.

 

Antes que possa voltar a um pensamento seguro, lá estava meu antigo eu. De frente para mim. Sendo apreciado para venda.

 

Um novo debater de Peeta me tira das impressões de uma vida sórdida. Percebo que sinto dificuldades de respirar. Olho para o garoto, quase desfalecido em meus braços, percebendo o quanto vivemos de fachada e o quanto, às vezes, não queremos derrubá-la. Por medo do que pensarão de nós. Por medo do que seria perdido no processo.

 

Me forço a lembrar dos últimos acontecimentos para continuar caminhando. Vencemos uma das milhões de armadilhas pessoalmente organizadas por Snow, mas havia um conflito silenciado que só os mais bravos ousavam declamar em voz alta: o quanto o Presidente e seu sistema nos tinha quebrado por dentro. Parece uma vergonha uníssona. Só não para Peeta que mesmo fora de sintonia é o único dolorosamente honesto sobre suas circunstâncias atuais. O bestante moldado para matar a garota que certamente ama.

 

Percebo que sou o único do lado de fora, segurando a arma da Capital. Estava exposto, dando trela para um Pacificador me acertar nas costas. Peeta pesa mais que meus pulmões sobrecarregados de terror. Isso me força a entrar devagar, não pelo peso, mas como se esperasse alguém me autorizar.

 

Era uma regra esperar ser convidado para entrar nas casas, pois os clientes tinham lá suas surpresas. Alguns já apareciam nus na caruda, outros chegavam com vendas… Era preciso entrar no teatro. A recusa ou a hesitação sempre eram reportadas ao Snow que, claro, tomava providências imediatas.

 

Sinto-me enojado e me contorço. Os vitoriosos nunca são vitoriosos. O rótulo de vitorioso era apenas o aval autorizado para que Snow fizesse o que bem entendesse com cada um deles. Comigo. Com Katniss. Com Peeta. Snow ama deixar qualquer um paranoico e tinha seus espiões para nos intimidar caso fosse preciso. A Aldeia dos Vitoriosos era um isolamento que divertia o Presidente. Ele nos cercava ali, outra arena, e nada passava despercebido.

 

Tento lutar de novo contra minhas memórias cada vez que me aproximo da segurança do apartamento. Elas me inundam. Fico desnorteado por ir e voltar, do passado ao presente, como se estivesse embriagado. Os efeitos do que aconteceu com Boggs se dissipam de dentro de mim, como um leve espanar sobre um móvel. Minhas emoções se direcionam para um ambiente que definiu minha vida. E não tinha coragem de dizer isso em voz alta.

 

Foram em ambientes como aquele que passei a recolher segredos. Segredos que nem chegaram a ser ditos completamente quando assumi o posto de Katniss na hora de gravar minha confissão. Um momento que exigiu muito de mim. O que sinto por Annie se tornou meu maior escudo para não lembrar dos danos da Capital na minha vida, mas vacilei nas câmeras, e vacilo de novo, por ter que admitir que também fui uma marionete daquele sistema que em hipótese alguma me tratou como ser humano.

 

Só como objeto.

 

Aquele local é tão igual quanto os outros que já fui convidado. Impecável. Com muitas cores e uma decoração escalafobética. Salvo o território de Snow, os prédios dos Distritos mais ricos tinham a mesma arquitetura. As surpresas aconteciam quando se cruzava a soleira. Era quando o gosto de cada cidadão era revelado. No nu e no cru.

 

Sinto um frio na espinha e me forço a fechar os olhos de novo. Rebobino os últimos acontecimentos. De novo. Estive focado em proteger Katniss de Peeta, como se tivesse retornado ao Massacre Quaternário. Repito tal pensamento, mas não é o bastante.

 

Penso que cada um ali se recusa a encarar seus próprios medos e tinha chegado minha vez. Aquele era meu medo. Voltei para onde minha história começara e não fazia a menor ideia do quanto aquilo doía. Não mais que a possibilidade de perder Annie.

 

Ajudo Peeta a ficar confortável em um canto da sala. Com apenas um olhar, localizo os quartos, os banheiros. Nem percebo que minha cabeça se move negativamente de indignação quando percebo a escada em espiral. Lugares que costumavam revelar a verdadeira identidade do seu dono mais que a tapeçaria de entrada.

 

Com essa simples varredura, minhas mãos suam. Começo a esfregá-las, com certa força, nas minhas calças de combate. Sinto algo quente na minha nuca. Um olhar. Só a ideia de ter alguém me analisando me leva a buscar refúgio no banheiro.

 

Meus passos são apressados e isso dá aval a mais lembranças que se lançam contra mim como garras. Lembro-me que fiz muito aquele trajeto, correndo para o banheiro quando o tempo da minha companhia chegava ao fim. Me dou conta da famosa paranoia de ser seguido por alguém a mando de Snow, outro risco constante que podia me arruinar.

 

Algo que não aconteceu já que fui sempre o mais charmoso e agradável, com um Q de inocência, detalhes que facilmente me popularizaram nas rodas em que grana alta era o verbo. Só aprendi tempos depois que poderia exigir mais que dinheiro e até mesmo sabotar meus encontros.

 

Naquele meu momento intimista, percebo com angústia o quanto tenho nojo de mim mesmo. Vergonha. Sentimentos que contornei minha vida inteira. O uso do meu corpo se tornou minha fachada. A minha sobrevivência. Não porque queria, mas porque não tive opção. Como vitorioso, tive que fazer minha parte para continuar a abastecer a Capital. Isso foi o suficiente para aprender que precisaria ser igualmente baixo para ter vantagem.

 

Algo muito perigoso quando se tem alguém como Snow no comando. Aquele que lhe cercava e lhe privava, e até coordenava o jeito certo em que cada um deveria respirar.

 

Poderia morrer ou pelos segredos ou pela recusa de um cliente ou pelas minhas próprias mãos. Tornei a questão de sobrevivência minha eterna arena. Aprendi a me esconder na minha doce gentileza, que fazia o mais cascudo dos clientes adormecerem em meus braços. Mostrar-se frágil cativava interesse, pois aparentava fácil manipulação. Essa foi minha cartada fatal.Tento me convencer de que tudo que fiz foi para garantir a vida de Mags. De Annie. E a minha. Mas tal briga interna não chega a nenhuma pontuação positiva.

 

Abro a torneira com ignorância e esfrego minhas mãos. Com muita força. Como se o gel que quase nos consumiu minutos atrás estivesse impregnado na pele. O barulho da água escorrendo também não é o bastante para me fazer fugir dos novos flashes de memória. Não há mais certeza de que tinha dado as costas para aquele pesadelo. Nem certeza se sobreviveria assim que saísse daquele apartamento.

 

Sinto saudade de me afugentar no colo da Mags. A pessoa que afastava meus tormentos. Que me cuidava quando acordava de um sonho ruim, carregados pelos rostos da minha experiência na arena. No meio daquela confusão emocional, caio na minha espiral de negação. A que revela e que indaga se realmente me libertei. Penso e chego a conclusão que não. Simplesmente porque nunca enfrentei o que aconteceu. O passado está enraizado em mim e nem com todo aquele esfrega nas mãos ele iria embora.

 

Dentro dessa espiral de negação está minha insegurança. A Capital fez um ótimo trabalho em me pintar como o garoto ideal. Perfeito. Seguro. Convidativo. Aceitei os rótulos por força maior. Por nunca ter caído em contradição, percebi com o passar dos anos o quanto era bom em fingir. Algo nato, levando em conta que me tornei o vitorioso mais jovem. Só precisava de um chacoalhar.

 

O Finnick exposto na Capital era uma espécie de holograma de mim mesmo. Ele deixava de existir assim que chegava em casa e tirava as roupas provocativas. Na Capital, minha vida era um completo teatro. Em casa, era onde desabava.

 

Tenho pavor de espelhos, o símbolo da vaidade, e ninguém sabe disso. Não consigo me encarar neles, embora tenha sido obrigado incontáveis vezes. Como para treinar meus sorrisos. Uma vez que aprendi, deixei minha aparência por conta e risco de pessoas como Effie. Não conseguia me encarar para não ter que reconhecer o quão rachado eu estava. O quão destruído ficava. Não podia deixar minha dor vencer e essa é a única convicção que me atenho – e é ela que me trouxe até aqui.

 

Continuo a esfregar as mãos ao ponto de deixá-las muito vermelhas. Se continuasse, logo estariam em carne viva. Tento me espiar, mas logo abaixo a cabeça, voltando a sentir vergonha de mim. Inalo o perfume do sabonete, o aroma de rosas, enquanto duelo com a parte de mim calada pelo abuso que sofreu do mesmo sistema que queria engolir Katniss Everdeen. Uma garota que nem sobre meu cadáver sucumbiria.

 

O aroma de rosas logo me atrai. Dica de que o apartamento pertence ou pertenceu a uma mulher. As mulheres da Capital têm um amor inacreditável por Snow. O que chegava a ser tão, mas tão doentio, ao ponto de me indignar, como nos velhos tempos. Uma adoração que me abriu brecha para preencher ainda mais minha coletânea de segredos.

 

Minha mente me norteia para o momento mais suave da minha longa carreira para sobreviver na Capital. Uma mulher com o prazer de me pagar pela companhia. Só. E pagava muito bem. Ela não tinha o gosto atípico aos olhos da sociedade ou assombroso para não dizer um tanto quanto dissimulado. Ela apenas exigia que fosse conquistada a cada encontro. Quem aprofundava cada encontro era eu mesmo. Pelos segredos. Tinha 21 anos naquela época.

 

Ela foi um dos meus elos e descobri como brincar com os sentimentos das pessoas. Descobrir do que elas precisam. Sobre o que são carentes. Pontos fracos para manipulação. Snow teria muito orgulho das minhas artimanhas.

 

Cada investida que dava para cima dela, ganhava um segredo. Cada beijo certeiro, outro segredo. Cada toque delicado que a fizesse se contorcer nas minhas palmas, um ou mais segredos. Com aquela mulher, bastava um sussurro ao pé da orelha, o trilhar dos meus dedos em sua nuca, a realização de alguma fantasia. E ganhava sempre mais quando era deveras dedicado na conquista.

 

Aprendi a ser criativo a cada dinheiro que me era pago. Tornei minha objetificação em ganho mútuo.

 

Com essa mulher, combinávamos um encontro inicial em alguma rua do meu Distrito e viajávamos até o Distrito dela. O tema: duas pessoas que se conhecem do nada. Costumávamos dançar. Costumávamos beber até demais. Ela pertencia a minha categoria de companhias sem toque. Mas quebrei a linha tênue ao saber que ela era influente no gabinete de Snow e passei a ser imprudente ou não sairia no lucro.

 

Ganhando uma, poderia ganhar qualquer pessoa. Acreditei nisso. Apliquei isso. Até mesmo no Massacre Quaternário. Ser gentil, carismático, bonito… Minhas armas, por vezes mais eficazes que meu tridente. Por causa dessa mulher, aprendi a usar descaradamente minha fama de preferido da Capital. Tudo em nome dos segredos que fiquei obcecado em colecionar. Já não ligava de ser vendido por ter entrado no piloto automático. Só visava os segredos. Tendo a certeza que os teria, era mais fácil tolerar meu papel de capacho.

 

O reverso acontecia quando eu era mera exposição. Era quando a realidade batia na minha face. A porquice da Capital vinha à tona em festas fechadas organizadas por Snow. O agrupamento dos desejados eram colocados lado a lado, e ficavam ali até serem adquiridos. Caso ninguém quisesse, a pessoa era obrigada a se manter aonde estava. O momento da vergonha alheia que também alimentava o entretenimento daquelas pessoas. Não ser escolhido nas festas da mansão presidencial era o mesmo que pedir para morrer.

 

Eu era o primeiro, mas a escolha imediata não vinha de graça como rolava na minha agenda de clientes particulares. Eu era analisado ali, sendo que nem havia o que analisar. Era tocado na frente de todos e tinha que me manter irredutível. Era um objeto, não podia me mover. Homens, mulheres, os dois… Segurar a ânsia de vômito era sempre complicado, especialmente quando a insanidade chegava aos meus ouvidos. O mais lamentável de tudo isso é que não estava sozinho. Vi outros vitoriosos de arena expostos e tão igualmente usados.

 

Nada era mais chocante que ver o tratamento descortês para cima das mulheres, obviamente mais humilhadas que os homens. Eram em momentos como aquele que minha imobilidade era testada. Quando as coisas ficavam quentes, não havia outro jeito a não ser me meter. Perdi as contas do quanto fui enxotado aos pontapés por ter me metido no que não era chamado. Algumas até conseguiam me agradecer no dia seguinte. Outras tive a plena sensação de que desapareceram aos moldes de Snow.

 

Chegou um momento que ansiava ser o primeiro para não ter que ver o abuso desenfreado contra aquelas mulheres. Elas podiam ser minha mãe. Minha irmã. Minha esposa. Pagar de bom moço deixou de ser um desafio para mim. A raiva começou a crescer, como um parasita, só se acalmando quando reencontrava Annie. Era quando realmente tudo mudava e me via não querendo mais aquela vida.

 

Mas não tive opção. Tive que continuar, embora meu envolvimento com Annie se mantivesse.

 

Paro o que faço e me inclino na pia. Respiro fundo enquanto lembro do quanto esperei que alguém se tornasse mais popular que eu para ocupar meu lugar. Cheguei a esse ponto, torcendo para um novo Finnick me libertar. Ele nunca apareceu.

 

O mais próximo de um novo Finnick que vi foi Cato, do Distrito 2. Soa insensível em minha mente, mas agradeço por ele ter morrido na arena. Ninguém merece o que passei.

 

Minha garganta fica seca. Pigarreio várias vezes e não adianta. Flashes e mais flashes do meu passado me açoitam. Revivo a minha vida sórdida sem ter tempo de dizer não. Passeios na calada da noite, suspiros na madrugada, mãos, suor, gritos, pedidos…

 

Eu era um mero adolescente quando tudo aquilo começou. Acreditei, na flor da minha ingenuidade, que vencer os Jogos seria o bastante para viver em paz. Não foi assim, e foi então que vi que os Jogos nunca libertam as pessoas. Eles terminam de trancafiá-las dentro de uma seleta lista inspirada em certos talentos que cada um tem. Talentos que nada tinham a ver com arte, música ou literatura, mas com dotes.

 

Meu dote era a beleza.

 

Snow administra o mesmo modo de operação para controlar as pessoas, especialmente as que conseguem agradar o público. Ele só não sabia que, automaticamente, as tornava ameaças, algo que vi e vejo em Katniss. Quanto mais visado uma pessoa era, mais a vida dela corria risco. O Presidente garantia isso. Uma vez saído do ciclo ditador, uma vez se abrir para as ameaças.

 

Ameaças que sempre têm o mesmo propósito: atingir o coração. Cada pessoa que protegi do escambo humano da Capital era um tiro programado contra alguém que amava.

 

Tento me fitar no espelho de novo. Minha aparência tinha me feito sobreviver, mas se tornara um fardo para mim e o cartão verde que mantinha as pessoas que amo vivas. Ninguém nunca perguntou como me sentia. As pessoas se aproximavam de mim só pela pele dourada, pelos cabelos cor de bronze, pelo sorriso carregado de malícia e pela voz de seda que lançava palavras que nem eu acreditava que era capaz de dizer.

 

Entrei no jogo até ficar em inércia.

 

Pulo ao reconhecer uma sombra pela pouca claridade que vinha da janela. Era Katniss escorada ali, com as sobrancelhas em pé, com ar de julgamento que tanto Haymitch criticava. Não há nada na expressão dela. Só no corpo. A tensão nos ombros. Os lábios frisados. O olhar esbugalhado de quem ainda revivia os últimos instantes. Eu também era ótimo em fazer leitura corporal. Outro benefício da vida passada.

 

Pondero enquanto a analiso. Ela foi manipulada e continua a ser. Tinha recebido o tiro certeiro de Snow em forma de Peeta, que quase a matou de novo. Ela é um joguete, como todos naquele apartamento. Inclusive eu.

 

Nos contemplamos em silêncio. Nada mais irônico que estar diante de uma garota que poderia me trucidar a qualquer momento. Ainda a vejo como minha aliada, mas começo a sentir que só estou de pé porque sou o único que ainda se preocupa em cuidar de Peeta. Como na arena, só que a diferença agora é que faço isso por conta própria.

 

Ofereço meu sorriso cheio de malícia. Gingo até ela e inclino um pouco a cabeça para conquistar sua atenção. O meu piloto automático, como o episódio dos torrões de açúcar. Repito a curta distância do Centro de Treinamento e vejo os músculos dela retesando. Rio baixo ao vê-la assumir a posição defensiva.

 

– Você não se cansa?

 

Sabia que aquela pergunta era uma crítica direta ao meu comportamento. Enquanto alguns apreciavam meus dotes, outros tinham horror. Ou repudiavam, como Katniss.

 

– Já passamos dessa fase.

 

Katniss me empurra para longe. Aproveito e ocupo o batente da porta no lugar dela. Observo-a. Noto que suas mãos tremem muito.

 

– Posso lhe fazer uma pergunta?

 

Ela anui depois de estalar o próprio pescoço.

 

– Se Peeta fosse como eu… – Silencio ao receber o olhar gélido de Katniss.

 

– Foi aqui?

 

– Não, mas em lugares parecidos.

 

– Sinto muito, Finnick.

 

– Não sinta.

 

Katniss e eu construímos uma amizade além da aliança imposta na arena. O Distrito 13 estranhamente nos uniu ao ponto de compartilharmos nossos medos. Não com frases longas, mas curtas e efetivas, sempre no meio da noite, sem ninguém por perto. Compartilhamos também nossos pesadelos. Vezes ou outra, um de nós ficava de vigília pelo outro.

 

– Quando eu o ouvi, não quis acreditar, se quer saber – diz ela, se referindo a minha gravação-confissão. – Afinal, você me transmitiu a sensação de ser só mais um riquinho mimado. Só mais suave que Cato.

 

Katniss silencia por alguns segundos. Pelo olhar distante dela, foi fácil captar que escolhia as palavras. Aproveito para tentar entender que pergunta foi aquela que lancei na cara dela. Era minha insegurança vindo à tona.

 

– Você me disse no bunker que não tinha acreditado que eu sentia algo pelo Peeta. Não entenda isso como uma confirmação. Apenas – O olhar dela paira no teto e depois no meu rosto. -… Snow também é muito bom em criar neura entre as pessoas. A desconfiança é alimentada como aperitivo para os Jogos. É normal nos julgarmos o tempo inteiro. Você me julgou. Eu o julguei. E cá estamos.

 

Mais um silêncio.

 

– Nada interfere se Peeta fosse como você. – Ela responde. – E não posso julgá-lo agora, nem nunca, especialmente por estar em uma zona que não lhe rende a melhor das memórias. Se conseguirmos ter um plano, sairemos daqui em breve.

 

– Esse não é o grande problema, Katniss – digo enquanto coço meu queixo. Suspiro, cansado. – Já lhe ocorreu que ninguém nunca a tratou como ser humano?

 

– Só Cinna por acreditar na revolução. Haymitch me despreza e Effie precisa de dinheiro.

 

Não consigo segurar o riso.

 

– Você está sendo ingrata.

 

– Tenho que honrar meu papel de mal-agradecida.

 

Ela chacoalha as mãos e senta na tampa da privada.

 

– Mags e Annie foram as únicas que me respeitaram e me viram como sou.

 

– Finnick, as pessoas o viram no Massacre. Tudo bem que devem estar odiando sua pessoa agora por ter me ajudado. Por ter ajudado e salvado Peeta. Pra quem disse que não se importava com ninguém, você foi quem mais se importou.

 

Arrasto meus pés no chão. Como se limpasse a sola no tapete.

 

– Não sou boa com palavras, mas, apesar do que aconteceu, você é muito nobre. Mais heroico que eu, se quer saber. Não acho que teria estrutura para continuar vivendo ou para querer uma família e assim por diante. Nunca tive essa meta de vida também, então…

 

– Você quer mesmo competir para ver quem é mais estragado nisso tudo? O que passei não se compara em nada ao que você carrega nos ombros. E não me refiro ao jogo de flechas.

 

– Em nenhum momento me vi dentro de uma revolução, no meio de pessoas que nunca vi na vida. Porque não é a minha zona. A Capital tornou minha vida em um teatro e é difícil se soltar disso vez ou outra.

 

Aquilo pareceu surpreendê-la.

 

– Fui moldado a ser simpático, dócil, amigável e bem quisto o tempo inteiro a partir do momento que Snow me definiu como um produto valioso. Só mostrei o que realmente havia dentro de mim para quem confiava. Mas tudo que sou externamente deve ter contribuído com a bolsa de valores da Capital no quesito entretenimento e não me orgulho disso. Katniss, queria eu fazer a sua diferença.

 

– Não me force a chamar o Peeta para apertar o seu pescoço. – Ela soa muito como Haymitch. – Já se perguntou o que faz aqui? Você acredita nisso e não ficou na zona de conforto, sendo que deveria porque você se casou. Não há cota de casais felizes em Panem e você deveria dar o exemplo.

 

Aquela afirmação me faz reconhecer meu ponto de aflição.

 

– Fico pensando se em algum momento voltarei a fazer isso caso…

 

– Não vencermos?

 

Confirmo com a cabeça e digo apressadamente:

 

– Eu acredito em você, Katniss, ou não teria topado ser seu aliado. Mas não sei se os medos anteriores de cada um são os que os movimentaram até aqui. Posso querer quebrar o sistema, especialmente por temer em retornar a ser um produto para sustentar Annie. Ela nunca mais será a mesma depois do que Snow fez e tratamentos custam absurdos.

 

O meu medo nítido na voz a faz me encarar com firmeza. Nunca a tinha visto com a postura de líder até aquele momento. Algo que falei a acerta em cheio.

 

Apuro que Katniss não tinha pensado naquele quesito. De voltar à antiga vida que tinha ou não ter vida alguma. Claramente, ela matuta sobre seu maior medo. Prim? A mãe? Peeta? Gale? Um Distrito 12 sem eira e nem beira? Sei que ela está espremida entre Coin e Plutarch, e o domínio da situação rumo ao coração do Presidente Snow parece que a faz refletir sobre o ponto que se encontra.

 

A garota odiada da Capital era de fácil leitura, bastava não estar diante dos holofotes ou diante daqueles que sabia que dependiam dela. Eu era até que sortudo por penetrar o escudo da soldado Everdeen. Claro que o maior medo dela é o que aconteceria com Prim, mas ela nunca me entregaria isso com ricos detalhes.

 

– Sempre tirei de letra a miséria do meu Distrito. – Ela diz, assoprando uma mecha de cabelo para longe dos olhos. – Finnick, meu pensamento não é tão diferente do seu. Meu medo é igual. Voltar a ser uma peça dos Jogos. Ver vidas usadas para entretenimento. Ser o entretenimento. Por essas e outras que preciso matar Snow e sentir o sangue dele entre meus dedos.

 

De novo com aquilo, penso enquanto poupo um sorriso. Não que não acredite na ousadia dela. Ela estourou o campo de força do Massacre Quaternário, então, limites já não era com a garota em chamas. Mas era surreal a convicção de que ela o faria. De que realmente o mataria. Um dia, cogitei aquela ideia, mas fui covarde demais para ir adiante. Snow sempre me pareceu imune a qualquer ataque. Até Katniss ser o Tordo.

 

– Além de criar essa desconfiança, Snow conseguiu nos desvalorizar como pessoas. – A expressão de Katniss fica mais sombria. – Em um dos anúncios, ele disse que o sistema é o de baixo para suprir o de cima. Quem você supria, Finnick?

 

– Não a mim mesmo.

 

– Como em todos os Distritos. – Katniss se levanta e para na minha frente. – Você está indo contra tudo o que me falou no bunker. É dez vezes mais demorado se recuperar da crise do que entrar nela. E você saiu da sua crise, Finnick. Mas isso não significa que ela não estará enraizada em você. Depois do que aconteceu com Peeta, eu…

 

Vejo ela esfregar a nuca com força. Como se pudesse sentir as mãos de Peeta ali.

 

– Eu notei que o que interessa não é como sairemos, mas como suportaremos. Como lidaremos com tudo que Snow nos provocou. Se houver um depois, claro. – Ela respira fundo, como se sentisse a crise de pânico assomá-la. – Finnick, devemos lembrar quem é o inimigo, certo? Ou enlouqueceremos. E você, de todos, não merece passar por isso.

 

Minha aproximação a faz erguer as duas mãos.

 

– Não ouse me dar um abraço. Faça isso quando eu derrubar Snow.

 

Ela parte em retirada e volto a tomar a frente do espelho. Me encaro. Sim, o que vivi nunca sairia de mim, estava enraizado, pior que ervas daninhas. O que realmente importa era sair daquela crise, que não só seria 10 vezes, mas um milhão de vezes mais difícil. Estamos isolados. Snow tem todas as armas. Noto que preciso encontrar a esperança.

 

Isso nunca sairia de mim. O que fiz foi sair do ciclo. E decidi que ninguém me diria a maneira como seguiria dali por diante.

 

Katniss tinha que acertar o coração de Snow. E eu precisava estar lá para aplaudi-la.

 

N/A: e daí Finnick morreu, né, gente? Espero que tenham gostado. <3
Stefs
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