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28/dez

Estava muito ansiosa para conferir este especial de Natal por motivos de River Song. Uma personagem que morria de saudade. Sem contar que aguardava cheia de expectativa o momento em que ela estaria frente a frente com o Doctor de Capaldi, e só posso dizer que houve uma explosão de tanta química entre ambos. Muito mais em comparação ao 11º.

 

O episódio começou com uma pitada taciturna, típica do 12º, que parecia muito bem, obrigada, em meio a uma colônia humana. Enquanto se esquivava de qualquer coral, o Time Lord não esperava reencontrar a Doutora River Song dentro de um disco voador. E que reencontro bizarro, não? Como assim essa mulher não reconhecia seu marido oficial?

 

O reencontro entre Doctor e River foi o norte de uma história fraca, que só estava ali para ser base da reunião de ambos. Inclusive, para gerar debates sobre o amor da filha dos Pond por um alienígena que estava muito à vontade com os desdobramentos de Hydroflax – e sem fazer uso dos cartões de bons modos da Clara, que orgulho! Empreitada que deu oportunidade para uma bela troca de sapatos ao longo deste episódio, pois o Doctor virou companion e rendeu momentos impagáveis.

 

A expectativa dele em ver alguma versão de si mesmo como marido de River, e cair na decepção, foi demais para minha saúde. Os resmungos para cima dos “rivais” me fizeram rolar de rir, e o mesmo valeu pelo terror dele de corais e a pausa dramática em que se deu o direito de falsamente se deslumbrar com a TARDIS. Quando penso que essa versão não poderia ser mais eu, lá vai ela provar que sou eu mesma. Capaldi trouxe mais um show de atuação, transitando do humor negro até uma resoluta tristeza. É impossível de todas as formas detestar o Time Lord que ele representa.

 

River é uma mulher maravilhosa! Ri como se não houvesse amanhã da quantidade de maridos, do casamento só com o diamante e que homens inteligentes são esquisitos. A personagem sempre traz uma dose de energia quando participa da série, investida que esmoreceu assim que se revelou a missão dela de ser o peso dramático da história. Um Q a mais que me deixou temerosa sobre uma possível ausência no meio de tanta palhaçada, pois todos os especiais rendem um tapa na cara e arrasam na lição de valores, independente da trama. Amém que não foi diferente.

 

Desaguei quando River desabafa todos os motivos para o Doctor tê-la deixado de mão, de não amá-la e de simplesmente não ligar em ajudá-la. O diário contribuiu bastante com esse peso dramático ao mesmo tempo em que relembrava a Era Eleventh. Inserções que reforçaram o objetivo real do episódio: o reencontro de Doctor-River. Hydroflax só estava ali para enganar sobre um tal conflito que a trama não engatou, pois o roteiro fez questão de situar a Doutora nessa nova Era de DW e de esclarecer em qual ponto a personagem se perdeu do Time Lord.

 

Fez completo sentido River não reconhecer o cirurgião que não tinha nada de cirurgião. O que veio daí foi uma dose de vulnerabilidade vinda de uma mulher que sempre manteve a compostura para fazer jus ao posto de Doutora de si mesma e de “esposa” do Doctor. Um descarregamento da energia que a personagem dissolveu na trama e que culminou em uma onda de lágrimas.

 

Mesmo cheia de ousadia, a personagem emocionou ao revelar sua impressão de abandono, algo que também abate companions, e não a julgo por ter declarado a ínfima dor pelo descaso aparente. Um buraco no peito corroído com uma pitada azeda de ter poucas páginas no diário. Uma insegurança que me fez recordar dos últimos dias do 11º, que não contava com uma regeneração e ficou em Trenzalore para proteger as pessoas que lá viviam. Se esse foi o último Natal de River, nada mais justo que passar a festividade ao lado de um ser complexo que ama com honestidade.

 

Nisso, entramos na assertividade do especial em discutir o amor entre esses dois personagens que, do meu ponto de vista, não tem nada de carnal. O intuito da trama foi colocar em cheque os sentimentos do 12º com relação a uma pessoa que deve ter se esquecido de prestar uma visita depois da nova regeneração. Considerando que essa versão despertou completamente atordoada, é bem capaz que River tenha sido a última pessoa a perpassar em sua mente e ela deve ter voltado com força total por ele ter regressado a timeline dos Pond.Supostamente, as lembranças de Clara não existem, o que o faz recordar com vividez de Amy e de Rory e, automaticamente, de River. Por causa disso, o reencontro ganhou mais força, porque pareceu que ambos se perderam um do outro depois de uma baita guerra.

 

O 12º tem o rótulo de não se importar com absolutamente nada, comportamento que mudou ao longo da S8. A maior lição da S9 foi essa de ser superior, de ser irredutível quanto salvar quem quiser mesmo que isso altere todas as timelines do universo – como salvar Clara. O personagem vem de uma sequência de ímpetos de tudo posso e aconteço, atitude que rebateu em uma River que já sente o medo da sua história acabar. Ela voltou a pontuar aquilo que esse Doctor parece que desviará daqui por diante: ser aquele que tudo corrige.

 

Nessa época do ano, o Time Lord costuma apresentar uma evolução de comportamento, o resultado de 10 episódios de cada temporada que é ruminado nas festas natalinas. Atrelado a isso, há o jeito estranho do Doctor em mostrar que se importa, como o 10º na companhia de Wilfred e o 11º que se fingiu de morto e depois surgiu na soleira dos Pond. Agora, o 12º deixou a entender que nem tudo pode ser salvo, mas que é possível dar uma última canção a quem for.

 

O amor entre River e Doctor representa aquelas pessoas que cruzam o nosso caminho, deixam suas marcas, e que nos faz passar dias, ou anos, se perguntando o que teria acontecido com elas quando rola o súbito afastamento. O Time Lord desapareceu da vida de Song e deixou para a Doutora um rastro de questionamentos. A personagem nem cogitou um novo rosto, revelando que ainda estava empacada nos traços do 11º. Assim, o episódio não passou de uma busca às cegas que sinalizou que, às vezes, o que precisamos está embaixo do nosso nariz.

 

Apesar de sempre ser tão segura e tão divertida, de ter sido uma arma para destruir o Doctor e depois se tornar um de seus maiores alicerces, River tem o Time Lord como seu ponto fraco e forte. Esse alienígena libera o melhor e o pior dela, e é assim que bons relacionamentos se fortalecem. Ela só tinha a expectativa de reencontrá-lo e acreditou firme no descaso. Quem nunca se sentiu dessa maneira ao pensar que alguém está nem aí?

 

O Time Lord, não importa o rosto, é o destino dessa mulher e ele sempre encontrará o caminho de retorno para ela. Neste especial de Natal, essa relação mostrou que não importa quantos anos passem, quantas páginas de diário ainda precisam ser preenchidas, quantos anos duas ou mais pessoas ficam sem se falar. Ao menor reencontro, a sensação é que nada saiu do lugar.

 

E o episódio foi sobre isso. Acima de tudo, sobre respeito e admiração entre dois personagens que há muito tempo não se viam e que se adoram de um jeito particular e muito, mas muito bagunçado por causa das respectivas timelines.

 

“”Felizes para sempre” não significa “para sempre”. Tem a ver com tempo. Um pouco de tempo.”

 

 

River brilhantemente contestou o Doctor sobre felizes para sempre. Há algo que acredito e que só consegui aderir depois de muitos anos de rasteiras: a alegria é um estado de espírito. A alegria é instante e o Doctor compreende esse sentimento a partir desse ponto de vista, embora River tenha jurado que não. O Time Lord se apega a essa emoção até vê-la esmorecer diante da perda. Quando rola a perda, há o azedume com a mesma ladainha de que o tempo não pode ser reescrito, que nada pode ser evitado e que não há esperança.

 

Um amadurecimento que rende o reinício da sua história, que vem sob a expectativa do novo, algo que o 12º passará quando sua/seu inédito/a companheira/o entrar na TARDIS. Daí, a esperança voltará a ocupar o lugar do vazio e no medo haverá alegria.

 

A lição sobre últimas músicas aqueceu meu coração, pois me fez recordar dos especiais de Natal anteriores. Sim, sempre haverá uma canção para acompanhar nossa história que pode ser reescrita diante da aparente falta de solução. E é essa mesma canção que acalenta nossos corações com tudo que o 12º tenta pagar de irredutível: alegria e esperança.

 

“Ninguém entende ao certo de onde vem a música. Tudo o que vão nos dizer é que quando o vento continua e a noite é perfeita, quando você menos espera, mas sempre quando você mais precisa, há uma música.”

 

 

Uma das coisas que sentia falta nos especiais de Natal era algum tipo de referência com os anteriores. Este foi bem completo nesse quesito e honrou um pouco mais o pretexto da S9 em usar mais do passado para modelar o presente.Resgatar as memórias do 11º foi primordial, deu sentido de continuidade embora esteja nas reticências se Clara foi realmente esquecida. Uma amnésia nada confiável considerando que River sempre ressurge na vida do Time Lord pelo avesso. Sem contar que a sonic screwdriver foi referência do season finale com relação ao futuro, mas lá estavam os óculos sônicos.

 

Achei este especial parecido com o Voyage of the Damned ao se ambientar em uma nave especial, ter um jantar com um Doctor todo chique de terno e uma companheira temporária que finalmente teve seu desejo íntimo realizado, como Astrid que visitou o planeta Terra. De novo, foi uma trama de pedidos e o de River foi atendido.

 

O engraçado é que em nenhum momento o episódio se agarrou ao Natal, mas sim ao reencontro de River e do 12º. Parecia uma trama de temporada. Porém, o especial trouxe algumas das artimanhas daqueles que o 10º foi o centro, como a falta de companion, a noite regada em neve, a TARDIS estacionada em um canto inusitado.Song foi a magnífica convidada em um período que poderia muito bem ter ocorrido a inserção da nova companheira do Doctor – detalhe que aconteceu na troca dos Pond. Agradeço e muito por não terem feito isso, é algo que pode esperar, e Capaldi precisava brilhar sozinho em DW  (algo que rolou várias vezes na S9 e sinto saudade só de relembrar).

 

Havia algo muito certo com relação a este episódio: a capacidade de fazer quem assiste dar umas boas gargalhadas. A diversão foi garantida, a trama teve uma pegada bem light que golpeou no derradeiro final com mais uma bela lição natalina.Foi um especial muito gostoso de assistir, sem tanto aparato e conversas científicas, e muito suave em comparação ao primeiro Natal do Capaldi. A trama foi descompromissada e um tanto quanto intimista, e fugiu da ideia de praxe de salvar a humanidade. Foi aprendizado e vale muitas estrelas por River não ter competido atenção com alguma companion.

 

Obrigada a todos que leram as resenhas desta temporada de Doctor Who. Nos vemos no próximo ano!

Stefs
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