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06/jan

Hoje tem Chicago P.D. e meu pagamento é com capítulo da fic. Dessa vez, o POV é da Erin. Não diria que está pesado, pois deixei muita coisa à mercê da imaginação de cada um. No fim, foi nesse nível que visualizei a personagem nos dias escuros e prometo que a luz logo aparecerá para ela.

 

 

Capítulo 2

 

Ela a viu ficar. Longe dela.

 

Uma morte é capaz de mudar as pessoas e Erin Lindsay era uma prova viva. Ela se afastara de tudo o que importava e se afundara completamente na dor que recusava a enfrentar. Uma dor que tinha o nome de Nadia, seu constante fantasma. A pessoa que a fazia pisar no acelerador quando a ínfima culpa se insinuava dentro dela. A pessoa que a fizera decidir que tipo de dor deveria sentir a partir do momento em que abandonara o distintivo: a autossabotagem.

 

Não estava no Rocklahoma, mas o festival tinha o mesmo estilo e propósito. Qualquer um que queria fugir da realidade encontraria tudo o que precisava ali, desde bebidas até drogas mais pesadas. No fundo, Erin sabia que marcar presença em um lugar como aquele era o mesmo que pisar em tudo o que conquistara nos últimos anos, mas topara o convite – insistente – de Landon sem pensar duas vezes. Não estava no dito juízo normal. Não estava em condições de julgar as ciladas que se metia.

 

Com o passar dos dias, desde que se demitira, ela parecia um fantoche, indo de um lado para o outro, sem expectativa de nada para o presente tão pouco para o futuro. Era comum vê-la andando em círculos, mas, às vezes, o excesso de álcool e de medicamentos lhe rendiam uma baita insônia. Era o momento em que via o rosto de Nadia com clareza.

 

Para não receber a visita mental da amiga, aumentara a dosagem de pílulas para dormir, mas nem isso estava funcionando mais. Seu corpo estava no limite, já faminto por coisas mais fortes, e estar naquele festival era mais uma abertura para continuar perdida de si mesma. Não era mais uma opção. Era outro meio para fugir da culpa.

 

Quando não estava tão mentalmente nublada e emocionalmente perdida, Erin se pegava debatendo consigo mesma dentro da pauta do quanto ainda poderia estragar a sua vida. Não tinha mais freio, essa era a verdade. Porém, um lado dela minimamente consciente, uma parte que ainda se importava com algumas coisas, a fazia empacar quando chegava sempre na beira do precipício. Era o lado que brigava internamente e que suprimia quando estava prestes a abandonar seu novo estilo de vida.

 

Simplesmente porque se tratava de um lado que agia como uma corrente no seu tornozelo, sempre a impedindo de se jogar. Sem chance de pular, o que sempre acabava por ver era o reflexo de uma pessoa irreconhecível que não sabia se ainda encontrava certo prazer na dor. Que não sabia o caminho de retorno.

 

Os efeitos colaterais da sua escolha se ondulavam diante dela, em picos, clareando feições acabadas, de olhos fundos, com olheiras, e com uma magreza evidente. Um reflexo que lhe era familiar, claro, e que até Voight reconheceria com apenas um vislumbre. Era o reflexo da sua versão adolescente.

 

Erin tinha trocado os dias pelas noites e parecia um zumbi. Consumia entorpecentes como se fossem balas de goma. Dia após dia, abraçara a negação da morte de Nadia, sem revidar. Se manter na superfície não era uma possibilidade, pois queria mergulhar, por completo, sem ter nenhum dos pés em terra firme. Queria desaparecer, algo que o tempo tomara conta de fazer. Sete dias foram o bastante para que, literalmente, sumisse. Ela tinha se tornado invisível.

 

Nadia… Vira e mexe Erin sussurrava o nome da pessoa que jurara que tinha assassinado. Era quando se odiava um pouco mais e o que vinha em seguida era uma sequência de comportamentos arredios. O nome da antiga companheira de apartamento deveria motivá-la, mais que de qualquer outra pessoa, mas usava aquela negação como sua arma particular de autodestruição. Em vez de lidar, ela retrocedia. Quanto mais se lembrava de Nadia, mais se afundava em vários estágios de torpor para ficar em inércia.

 

Uma inércia que também começava a fugir do seu alcance, o que justificava a decisão de ir ao festival. Ela simplesmente jogara tudo que podia em uma mochila, deixara um bilhete na geladeira, e entrara em um ônibus. Como nos velhos tempos. Intimamente, achava que vivia dentro da gaiola de Voight, só esperando a próxima bordoada na orelha.

 

Landon quem pagara as entradas e a estadia no hotel. Ela só precisou levar a si mesma para longe do coração de Chicago e de memórias que não mais lhe pertenciam. Sabia que sua maior pisada na jaca seria o resultado do que faria naquele espaço sem limitações. Poderia dormir de cara na lama e todo mundo acharia a coisa mais linda do mundo.

 

Seriam três dias fora do alcance e Bunny nem se esforçara em mantê-la em casa, como era de se esperar. Eram em momentos como aquele que se lembrava os motivos que a fizeram escolher a falcatrua de mãe que tinha em vez do distintivo. Com ela, havia liberação total. Se tivesse uma overdose, capaz que seria aplaudida.

 

Sua presença ali também intencionava uma fuga de outro tormento em forma de gente que Erin também carregava para todos os lados. Jay Halstead, outra fração de consciência que sempre a visitava na tentativa de trazê-la de volta. Ele era um caminho para fazê-la se reencontrar, outro percurso que fazia vez ou outra mentalmente. O seu antigo parceiro na Unidade de Inteligência não passava agora de uma lembrança de quem era antes, ainda muito vívida para seu próprio desprazer.

 

Quem era antes daquilo?, pensou, observando as botas afundarem na grama. Só tinha certeza de quem era agora: um belo lixo humano. Recordar que um dia salvara vidas não ornava em nada com quem teoricamente se tornara. Com quem via diante do espelho, uma versão que nada remetia a anterior que pagava de defensora da lei. Matara Nadia e agora estava se matando. Falhara em protegê-la e agora sofria, diariamente, em uma espiral de emoções que era silenciada assim que se drogava.

 

Erin caminhava tão, mas tão devagar, como se tivesse acabado de acordar. Era escoltada pelo seu novo brinquedo – e sabia que se tornara brinquedo dele também – emudecida. Vivia em um ganho a ganho em que só uma das partes se beneficiava. No caso, Landon, só mais um cara que a tratava e a via da mesma maneira: uma fonte para saciar desejo.

 

Sua mente já empilhava momentos nublados das noites anteriores na companhia de Landon, o que era ótimo. Sua mente falhava mais que o normal, denunciando que seu não tão novo estilo de vida já afetava seu sistema nervoso. Até seus reflexos estavam péssimos. Para uma pessoa normal, isso deveria ser inquietante… Não se lembrar com quem dormira e o que fizera… Ou não ter habilidade de se proteger caso algo desse errado. Para Erin, isso começava a incomodá-la silenciosamente. Sempre soubera se defender, mas agora só queria saber de punição. De se punir arduamente.

 

Para isso, Erin fez daqueles últimos dias uma busca incessante pela adrenalina e pelo desafio que não existiam mais desde que entregara o distintivo. Um festival de rock com duração de três dias, em que tudo era permitido, era o que precisava. Era um ambiente de risco, especialmente para quem não tinha mais controle de si mesma.

 

Tudo por causa do luto crescente que a corroía de dentro para fora. Sentimento que parecia tirar todos os seus órgãos do lugar, criando os mais variados espasmos que a faziam se contorcer vez ou outra. Escolhera não sentir e não lembrar, mas já se via sentindo e lembrando demais, um norte para outro pensamento de que ninguém era capaz de salvar outra pessoa. Tudo terminava em tragédia. Como acontecera com Jules. Como acontecera com Nadia.

 

Agora, ela era uma tragédia ambulante, esperando dia após dia o tiro certeiro.

 

Uma impressão similar da época adolescente. Voight fora a única pessoa a enxergá-la. Não apenas como uma garota que estava presa à ruína da mãe, mas uma jovem que tinha tamanho potencial e que poderia ser salva. E foi salva, embora tenha cuspido na face daquele homem que lutara junto com ela para que se tornasse alguém na vida. Outro efeito colateral da sua decisão que aumentara o fardo que era carregar a si mesma.

 

Olhou ao redor, preguiçosamente, a fim de desviar da outra culpa que envolvia o fato de ter decepcionado Voight. Por mais que ele parecesse não se importar, Erin tinha a sensação constante de que alguém da Inteligência a vigiava. Achava que era neurose pós-efeito das coisas que consumia, mas era possível, claro, principalmente se pensasse no instinto de perseguição de Halstead. Uma ideia que sumia com a mesma rapidez que surgia quando se dava conta de que seu antigo responsável não ligara uma só vez depois que tentara resgatá-la de Bunny. E não o julgava.

 

Fizera questão de cuspir na face de Voight e de chutar um distintivo que lhe custara anos para conquistar. Tinha tirado de si mesma todas as razões que a motivaram a sair daquele estilo de vida que havia retornado com tamanha prontidão.

 

Seu belo toque de mestre. Ser sua própria inimiga.

 

Duvidava muito que Halstead e Voight teriam formado uma parceria para rodeá-la. Era impossível, porque cada um lidava com situações que exigiam demais do emocional de formas diferentes. Voight largava a pessoa de mão, na confiança de que essa mesma pessoa uma hora retornaria. Halstead era naturalmente preocupado, sentimento que deveria estar no auge porque ela não avisara sobre sua demissão e nem dissera adeus. Era muita presunção da sua parte achar que o antigo parceiro estava desesperado em encontrá-la, mas ele lhe dera sinais mais do que suficientes para crer nisso.

 

Por um breve momento, imaginou como Halstead teria recebido a notícia da sua saída, pois, quando seu mundo desmoronava, ele fora o único a oferecer ajuda enquanto Voight focara em tachá-la de nova Bunny – que foi o estopim para muitas outras coisas. Somara 20 ligações não atendidas do seu ex-parceiro. Só naquele dia. Uma há 30 minutos. Das 20, cinco com mensagem de voz. Somando tudo, deveria haver mais de 50 recados dele.

 

Recados que não ousara ouvir por saber que a voz dele a faria retornar à realidade. A faria perceber que estava se massacrando por algo que foi inevitável.

 

Halstead era a conexão que assentava a memória de Nadia de um jeito que ficasse em paz. Sem saber, o ex-parceiro a ajudava a rebobinar sua mente para se lembrar dos momentos bons com a amiga e sempre batia em um muro de desmerecimento. Era quando chegava à conclusão que não a tinha merecido desde que se cruzaram pela primeira vez. Não a tinha merecido desde que resolvera brincar de Voight para salvá-la. Quando dava de cara com aquele muro, era quando voltava a sua espiral emocionalmente negativa e corria pelos cantos da casa em desespero. Quando cair na real era insustentável, cortava caminho usando Landon como guia.

 

O bizarro é que Erin não temia Voight, mas temia Halstead, o sincero. Sabia lidar com seu ex-chefe-pai-cuidador-que-seja desde que era moleca e ele só trabalhava com cutucão de feridas. Já o ex-parceiro era todo do discurso e, somado a isso, havia a realidade do quanto ele se tornara mais do que especial – e nem sabia exatamente o que sentia para concluir isso. Sentimentos indecifráveis que também não se dera o direito de compreender, já imaginando que estragaria tudo.

 

As coisas mudaram com o passar dos meses em que trabalharam juntos, mas mais pelo peso da amizade. Halstead se tornara uma pessoa que poderia contar a qualquer momento do dia. Só não naquele seu momento atual. O detetive era incisivo, de explicar o que pensava com uma breve frase, curta o bastante para fazer estrago. Fora assim que ele se colocara diante dela e dissera que a protegeria, não importando o que estivesse fazendo.

 

Queria ver a cara dele naquele instante. Não era mais Erin Lindsay, a detetive, a boa samaritana, a investigadora heroica, mas sim a Erin Lindsay versão sarjeta, que deixava se guiar por outro cara que só queria usá-la. Duvidava que Halstead cumpriria a afirmação de que não importava com o que estivesse fazendo… Duvidava mesmo.Os passos cessaram e Erin notou a mão de Landon passeando intrusiva no seu corpo, gesto que há dias embrulhava seu estômago. Mas deixava porque merecia. Merecia voltar à estaca zero por ter assassinado sua amiga. Para isso que ele servia, para auxiliar no esquecimento. Se o perdesse teria que arranjar outro. Não que fosse difícil, mas estava exausta.

 

Tinha em mente que precisava de Landon para esquecer o caso Yates por completo, um rosto difícil de esquecer e que também cortava seus pensamentos. A última vez que isso aconteceu, se viu inclinada na privada botando as tripas para fora, duelando com os instantes que antecederam o encontro do corpo inerte de Nadia. Outro combo de memórias que o tal amiguinho de infância afugentava e se recusava a dispensá-lo até estar satisfeita. Algo que não vinha acontecendo mais, como a bebedeira e as drogas.

 

Lindsay parecia aceitar sua nova realidade. Os resultados de suas últimas decisões lhe deixaram com Bunny, o reflexo do que seria dali por diante de acordo com Voight. Ser como a mãe. Escolhê-la em meio a sua espiral emocional foi outro caminho fácil por saber que não seria barrada, mas estimulada a afugentar aquilo que não queria enfrentar.

 

Estava sendo covarde e abafava isso com punição. Landon era punição. As bebidas eram uma punição. As drogas eram uma punição. Estar ali era uma punição.

 

Seus pensamentos foram abafados pelo som pesado de guitarras. Pensou que algo incharia dentro dela e implodiria de excitação, mas os sentimentos que sempre a abordavam diante daquele gênero musical não vieram à tona. Ao contrário do esperado, veio a raiva. Raiva ao se ver onde estava. Raiva por saber o quão irreconhecível estava.

 

O agrupamento de pessoas, a música e o coro só realçavam seu incômodo interno. O vocal do cara fizera cócegas insuportáveis em seus tímpanos. As luzes a deixaram com a visão embaçada e turva. Tudo naquele lugar realçou a sua falta de descanso e a sensação de resfriado constante. Forçou-se a se convencer – de novo – de que estava ali para curtir. Não servia mais a lei e poderia ser presa se quisesse.

 

Um roçar de roupa denunciou que Landon ainda estava plantado atrás dela. Revirou os olhos enquanto os dedos dele passeavam pela sua cintura, insistentes. Sentiu um beijo molhado na nuca. Percebeu que o que consumira no ônibus ainda fazia efeito no seu organismo. Só daquele jeito para fingir que nada daquilo estava acontecendo com ela. Só assim para suportar.

 

Cada investida de Landon era igual a vários nada. O prazer que não mais sentia – se é que algum dia sentiu – era camuflado pela exaustão. Uma hora, seu corpo pararia de funcionar e Erin começou a prever isso naquele instante. Não tinha força para reagir.

 

Sem desviar das mãos insistentes de Landon, Erin tentou encontrar pela milésima vez o que sentia ao som do que sabia ser AC/DC. Era uma banda cover, percebeu tempos depois, e aquilo só a fez se lembrar de Nadia.

 

A amiga amava a banda e vivia trocando opiniões com Halstead. Havia até a hamburgueria favorita dela, que tocava rock clássico, e que recusara a ir quando Jay soltara o convite. O primeiro passo de uma fuga aparentemente sem fim.

 

Seus olhos acompanharam as luzes do palco enquanto seu coração retumbava a cada rasgar da guitarra e a cada falsete que cortava seus tímpanos. A banda tocava Baby Please Don’t Go, uma regravação do AC/DC. Uma letra de um amor perdido.

 

I wanna suffer for you, ela balbuciou junto com a música sem ao menos se mexer.

 

Don’t go and leave me, please don’t go…, ela se lembrou do momento em que vira Nadia pela primeira vez e o resultado desse encontro. Erin a havia deixado a alguns metros de uma clínica de reabilitação para saber depois de dias que sua iniciativa não tinha dado certo. Semanas depois, encontrara Nadia em outro muquifo, rodeada por homens enquanto tentava recobrar a consciência em uma briga interna com as drogas.

 

Why must you leave me lying on my back…, ela não abandonara Nadia durante a reabilitação. Fizera de tudo para protegê-la e para garantir uma recuperação segura. Convidou-a para morar em seu apartamento. Arranjara-lhe um emprego na Inteligência. Vira-a batalhar em querer ser uma policial. A conclusão? Dera-lhe as costas no momento crucial.

 

A música era sobre um homem desesperado por sua mulher e tudo que Erin fez foi associar os trechos da letra aos últimos acontecimentos que mudaram sua vida.

 

Oh please, please don’t leave me. I don’t want to be left alone…

 

– Aonde podemos ficar mais à vontade? – Erin se virou abruptamente para Landon e o segurou pela gola da jaqueta. Tinha uma sobrancelha alteada que falava mais que suas palavras. – Muito barulho, muita gente, e estou seriamente entediada com esse cara que não manja nada de AC/DC.

 

Ela o viu lhe oferecer um sorriso malicioso, como sempre. Pensou o quanto era ridículo de simples manipular homens quando a oferta era sexo. Era ganho fácil. Não demorou muito para os dois se embrenharem, recostados em uma parede, não tão invisíveis do olhar público, e se atracarem. Quem os visse dali, saberia bem o que estava acontecendo.

 

Como sempre, só ele ganhava a satisfação completa enquanto o corpo de Erin não respondia ao menor toque mais íntimo. Cada investida era um grito entalado na garganta. Um pedido de socorro que ela não ousava pronunciar porque sabia o que fazia. Não precisava de ajuda. Merecia toda aquela dor. Merecia ser tratada daquele jeito.

 

Assassina…, sua mente sussurrou enquanto suas unhas cravavam nas costas de Landon. Uma simples palavra que a fazia sentir repúdio de si mesma e ceder de vez. Era uma palavra constante que pairava na sua mente toda vez que fazia sexo ou bebia demais ou usava calmantes ou simplesmente olhava para Bunny.

 

I can tell by the look in your eye. I can tell by the way you sigh. That you know I’ve been thinking of you. And you know what I want to do…

 

A batida da nova música ao longe fez Erin voltar no tempo. Nos últimos instantes com Halstead. Foram muitos até, algo que só foi possível quando tivera uma experiência breve na força-tarefa. Ficara dias sendo comandada por um cara que, a menor insinuação, com certeza também a usaria. Como Landon. Como os outros caras da época da escola. Como os outros que encontrara antes de morar com Voight.

 

Como outros antes de Halstead.

 

Tinha um imã para péssimos caras quando não estava de bem com a vida. Eles suprimiam o melhor de si mesma. O melhor que já não conseguia ver.

 

When you smile I see sunrise, a mente de Erin a norteou ao dia em que finalmente fora beijada por Halstead. Naquele instante, conseguiu sentir a ponta dos dedos dele na sua pele, o hálito quente fazendo-a perder as estribeiras. A firmeza do abraço. O despertar daquela primeira noite e o quanto foi um dos melhores da sua vida. Recordou como apreciara o filete de luz vindo da janela do apartamento dele enquanto rebobinava o que ocorrera. E como sorrira, como se tivesse ganhado na loteria.

 

Dias bons que pareciam que não tinham existido. Pareciam uma criação da sua mente.

 

Dissociava enquanto estava ligada na música e nas lembranças que se misturavam com o seu atualmente. Sentia-se vazia. Frágil. Duas palavras que a fizeram endurecer.

 

– Sai daqui! – ela brandou, do nada, empurrando Landon para longe. Sua respiração saiu pesada e o coração batia na garganta. – Eu falei para sair de cima de mim.

 

Landon estava mais dopado que ela, percebeu enquanto ajeitava suas roupas. Sua mente rodopiou, a ânsia subindo rapidamente. Não vomitaria. De forma alguma. Tinha que suportar o nojo de si mesma e empurrou o bolo de saliva goela baixo.

 

Afastou-se, sozinha e trôpega, indo para o meio da multidão. A música começou a impulsionar gatilhos na sua mente. O corpo de Nadia. O abraço de Jay. O sorriso macabro de Yates. Voight. Bunny. Landon. Ela. O vazio.

 

Sua raiva foi se intensificando a cada reviver indevido. Perguntou-se porque estava fazendo aquilo, ou deixava que aquilo acontecesse. Uma pausa súbita para sua consciência falar mais alto.

 

Assassina… O sussurro a fez se sobressaltar. Notou que Landon não fizera questão de segui-la dessa vez. Livre da multidão, encontrou o chão, caiu de joelhos e vomitou. O estômago se contraindo de encontro as suas costelas, expurgando o nojo de si mesma que não era mais possível controlar. Que não era mais possível fingir que não existia.

 

Nem notara as lágrimas desesperadas que rolavam quentes em suas bochechas.

 

Passado o efeito do enjoo, ela sentiu um frio lancinante. Seu corpo estava despertando e sabia o quanto não seria legal os efeitos colaterais. Não estava vestida para se proteger daquele frio de rachar o crânio e preferiu buscar um canto para se refugiar. Encontrou na grade um apoio e suas costas escorregaram até se sentar adequadamente.

 

And I know you’ve been thinking of me… Por costume, tirou o celular do bolso e viu o nome de Halstead na tela. Ligação de 5 minutos atrás. Resolveu ouvir uma parte ainda desperta de si mesma e escolheu uma das mensagens que ele havia deixado. Optou pela do dia em que, provavelmente, a notícia de sua demissão se espalhara pela Inteligência. Ele foi o primeiro a ir atrás dela. Burgess foi surpreendentemente a segunda. Nada de Voight. Nem uma visita forçada para deixar Bunny histérica.

 

Abaixou a cabeça para afastar o som da música e focou na voz de Halstead. Tinha se esquecido de como ele soava e riu sozinha ao perceber que ele estava calmo. A pessoa menos calma do universo. Parecia até um ser decente, que não tinha nada de impulsivo e cabeça-dura. Mas percebeu ali, no meio da mensagem, o tremeluzir. Captou o instante em que as emoções dele afloraram.Ele pedia para que telefonasse de volta. Nem que fosse apertar o botão e desligar para dizer que estava viva. Deixou um prazo de 3 dias para que respondesse ou iria atrás dela. Se foi, não sabia. Talvez, Halstead tenha ido, mas Bunny não lhe contou.

 

Erin chegou a dura conclusão de que ele se importaria sim com o que tinha feito em menos de uma semana. Tinha feito tantas bobagens. Tinha feito de tudo para ser indigna. Pegou-se aflita em seu novo conflito que incluía todos os seus complexos pessoais. Sentiu-se verdadeiramente esquecida, mesmo ciente de que procurara por isso.Por mais estúpida que tenha sido, não havia um só dia em que não se perguntava se o time da Inteligência estava bem. Se todos resolviam os casos em segurança. Se estavam felizes no âmbito pessoal. Se tinham planos para o novo ano. Tinha desaparecido da vida deles e falsamente os tinha anulado do seu coração.

 

No fim de toda essa análise, a conclusão era sempre a mesma: sentia falta do seu antigo eu. Sentia falta da sua real família em Chicago. Só precisava admitir em voz alta.

 

Algo dentro dela pediu para que ouvisse a mensagem de Halstead de novo. Aquela voz familiar a acalmara. A voz dele a fez suprimir o pânico que queria engoli-la.

 

Hei, Erin, já perdi as contas das tentativas que me fizeram ligar pra você. Isso, só hoje. Não sei, apenas não estou com um bom pressentimento sobre seu sumiço. Voight finge não ligar com sua súbita demissão que, a propósito, o que diabos foi aquilo? Sei que ele é tão orgulhoso quanto você quando o assunto é pedir ajuda, mas, repito, estou aqui. Como eu, você não sabe mensurar o tamanho da queda. Extrapolamos, até chegarmos a um ponto em que achamos não ter volta. 

 

Lembra-se do caso Lonnie? Que me custou o distintivo por alguns dias? Que quase custou minha integridade? Você não precisa fazer isso com você. Assim como eu, você não provocou nada do ocorrido com Nadia. Como eu não fiz nada contra Lonnie, e achei por meses que a culpa tinha sido minha até me redimir. E redimir foi proteger a lei. 

 

Dê algum sinal de vida, ok? Nem que seja ligar e desligar. Só preciso de algum sinal que me garanta que você está segura. Juro que paro de telefonar. Você é minha parceira, sabe disso… Apenas… encontre meu número, aperte o botão verde e depois desligue, ok?

 

O celular girou entre os dedos de Erin até terminar apoiado em seus joelhos. Procurou o nome de Halstead na agenda, brigando com a mente anuviada, e observou a foto que tinha colocado. Os dois juntos, em algum momento impossível de recordar por causa da sua confusão pessoal. Era um rosto difícil de esquecer… O dele. Um vislumbre costumava ser o bastante para confortá-la, uma fuga boa para uma mente que vivia presa no que acontecera com Nadia.

 

Em um ímpeto, decidiu seguir as instruções de Halstead. Apertou o botão verde e aguardou. Um chamado. Dois. Três. Deu-se ao luxo de ouvir a voz dele e desligou rapidamente, como uma adolescente que liga para o garoto que está a fim e desliga em um pulo como se ele soubesse quem era do outro lado da linha. Ok, Halstead sabia que era ela, mas se esqueceu do fator detetive. Ele poderia rastreá-la até ali.

 

Apesar que seria ótimo ele rastreá-la, pensou, se forçando a ficar em pé. Assim ele desencantaria de vez e a deixaria em paz. Fato é que Halstead tinha se tornado uma bela pedra no sapato. Relembrando-a a cada ligação não atendida da vida que abdicara.

 

Caminhou, trôpega, no meio da escuridão. Percebeu que dois homens vinham decididos na sua direção, cochichando entre si. Sentiu medo da formação que se seguiu: os dois se separaram a fim de cercá-la. Estava sozinha. Poderia gritar e ninguém ouviria.

 

Bambeou, quase caindo, e no súbito momento de clareza correu para a multidão.

 

Apenas… Encontre meu número, aperte o botão verde e depois desligue, ok?

 

Encontrou refúgio perto de um poste e se forçou a organizar os pensamentos tão difusos quanto a iluminação. Tirou o celular do bolso de novo, ignorando uma nova ligação de Halstead congelada no visor, e sorteou a pessoa que a tiraria dali.

 

Um toque. Dois toques. Três toques.

 

– Burgess, é melhor que esteja acordada para vir me buscar.

 


N/A: Sim, vai ter Burgess. Muita Burgess para homenagear os haters.
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