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27/fev

Quando o episódio mandou a mensagem de que qualquer semelhança é mera coincidência, bem aos moldes de SVU, me conformei de que a trama dali por diante seria um tanto quanto séria. Não rolou cenas e reviravoltas eletrizantes, pois a proposta do roteiro de Olmstead foi chamar a atenção, e quem sabe conscientizar, sobre o Black Lives Matter. Para isso, houve o apoio em tópicos pertinentes e que não deixam de ornar com Chicago P.D.: guerra entre gangues e o uso de menores no crime. O resultado? Meio intraduzível, porém, sensitivo.

 

Noah foi o ponto de atrito e pareceu até um aceno para a criança da semana passada que também foi executada por estar no lugar certo, na hora errada. Um instante que engatou a tragédia de um episódio de cunho social, antes mesmo do crédito de apresentação da série. Não me lembro de ter vivenciado nada parecido em CPD como esse momento de descoberta, que foi tecnicamente perfeito por não ter contado com a típica trilha de tensão de todo início de episódio. Não havia som e nem diálogos longos, a não ser as impressões regadas de respirações descompassadas, contenção de lágrimas e a sensação de fracasso. Foi atordoante e ao mesmo tempo belíssimo.

 

CPD-3x16---equipe

Foi um lamento uníssono que precisou apenas da linguagem corporal de cada um para transmitir o peso da situação. A começar por Burgess que saiu de cena claramente com o estômago embrulhado e depois veio os pais que agravaram o gosto de injustiça. Uma atrocidade que teve seu crescendo ministrado por Voight: esse caso precisava ser resolvido.

 

Sabe aquela cena linda, bem editada e com ótimas performances? Os minutos iniciais mostram.

 

Esse instante diante do cadáver de Noah anula os demais desdobramentos do episódio, pois o choque e o desespero para encontrar o atirador não alterariam o ocorrido. Não alterariam a verdade de que uma vida foi tirada em vão, de maneira aleatória e errônea. Poderiam encontrar 20 envolvidos com essa barbaridade, mas nada apagaria o fato de que mais uma criança foi sacrificada na zona de fogo que separa não uma, mas diversas gangues.

 

Além da dor, havia o inconformismo da suposta falta de testemunhas impregnado no ar. Outro ponto de valor deste episódio que me fez lembrar do 17×13 de SVU em que o crime aconteceu no pátio de um condomínio e os sons refugiaram os vizinhos. Ninguém ali se propôs a dizer o que realmente viu/ouviu por medo, detalhe semelhante ao que aconteceu esta semana em CPD. No mundo de Benson a pegada é outra já que é mais fácil silenciar estupro ao contrário do mundo de Voight em que falar é o mesmo que desenhar um alvo nas costas.

 

(E vale dizer que este episódio estava muito SVU).

 

Mesmo com a boa vontade de Chelsea, o soco do episódio veio ao descobrirem que Noah foi assassinado por engano. Quer coisa mais dolorosa? Uma vida tirada pela tal justiça com as próprias mãos. Pior é que não dá nem para chegar a uma conclusão coerente sobre isso, pois se até Antonio não soube o que dizer, quem dirá minha pessoa. Mas, lá no fundo, entendi certos traços dos argumentos de Jordan que, se não houvesse a criança envolvida, seriam ouvidos sem tanto ruído. Concordo: ninguém sabe do que é capaz de fazer na hora do aperto porque são instantes que tendem a revelar o pior de nós. Só que o meliante era cruel por si só.

 

Há quem jure ser incapaz de matar, mas do nada puxa o gatilho. Às vezes, por assuntos banais, tais como brigas de trânsito. Neste caso, a irmã de Jordan foi estuprada e sua reação contra o Brian errado foi retaliação + com base no seu estilo de vida. E, quem sabe, do caráter que já estava deveras corrompido por causa da vida na criminalidade. Rolou o olho por olho de gangues rivais, ações que policiais condenam e não conseguem 100% controlar.

 

Independente disso, nada anula o crime encomendado. Ninguém é dono da vida de ninguém para tirar o direito do outro de respirar. Por essas e outras que este episódio exigiu uma reflexão pessoal, pois houve muitas perspectivas em torno da morte de Noah.

 

No fim, o caso foi resolvido pela metade. A UI não teve controle da investigação por ser um problema de gangues que, como bem disseram, têm seus meios para lavar a roupa suja. Depois do crime, houve a tentativa de limpar um erro para não chamar a atenção da polícia e os detetives correram bastante às cegas. Até chegarem em Jordan, houve muito ato desesperado, como o de Brian que partiu meu coração não só pela perda do filho, mas pela convicção pura de que não tinha feito nada contra ninguém para merecer o que aconteceu.

 

O golpe final foi a revelação que ninguém esperava: um menor atirou em outro menor.

 

Justificativa? Porque ele precisava aprender e teria uma pena branda. Não sabia se ria da ironia verossímil ou se ia lá abraçar Antonio porque simplesmente não deu.

 

CPD-3x16---Antonio

Já que o citei, lá estava Antonio, que apareceu por tempo suficiente para indicar o quanto o caso da semana foi complicado de lidar e de digerir. Jon Seda reinou no episódio, a cena na sala de interrogatório me deixou aos prantos. Esse personagem é a janela emocional para qualquer temática familiar, o que deixa a trama quente por sempre reviver dentro dele sentimentos já experimentados durante o sequestro de Diego.

 

A maneira como o personagem se segurou para não acertar Jordan foi indescritível. Foi impossível não compartilhar a indignação diante de um ser que mata crianças e se posiciona como se fosse a coisa mais normal do mundo. É aí que os argumentos do meliante se invalidam porque, mesmo fugindo, ele não sentiu absolutamente nada. E ainda riu.

 

Sem dúvidas, o envolvimento de Dawson com a investigação foi arrebatadora e, de novo, ele teve a chance de mudar de perspectiva com relação ao seu trabalho e ao seu filho. Por ter chegado perto de perdê-lo por um cara que se achava o rei das ruas, a situação de Noah foi mais do que relacionável para esse detetive. Foi extremamente pessoal.

 

Claro que o foco em Dawson não anula as emoções dos outros personagens. Os detetives brigaram com eles mesmos diante da verdade do quanto a vida é insignificante e tiveram que ter muito jogo de cintura para não serem injustos e confrontarem o pedido do Reverendo.

 

Concluindo

 

CPD-3x16---homenagem

O intuito do episódio foi trazer uma reflexão sobre o Black Lives Matter, mas jogaram um pouco no seguro para não comprometer a índole dos personagens da UI. Digo isso porque esse movimento não só chama a atenção para a violência contra negros, como também para as ações policiais contra essa mesma comunidade que culminam em mortes gratuitas (o princípio de que todos os negros são criminosos e/ou não possuem cacife nem para ter uma BMW). A salvação veio da ponte que criaram entre o Reverendo e Voight, que frisou o quanto a turma de distintivo não deve passar dos limites ao capturar meliantes. Sejam negros ou não.

 

Uma confiança que deu força a mensagem de um episódio que trouxe conscientização. E foi maravilhoso por terem tomado a iniciativa. Contudo, ficou o agridoce de caso não resolvido em meio a uma homenagem linda à luz de velas que apenas escancarou o quanto a vida tem valido muito pouco ultimamente. Não há coincidências aqui. São fatos.

 

Este episódio me fez lembrar demais da 1ª temporada e as referências ao Maurice, passeando na face do Voight, me fizeram chorar de saudade daquela época. Quero mais paralelos assim (e um inimigo nível Pulpo porque tá precisando) e sofri bastante quando o Reverendo cutucou mais uma página do passado do Sargento. Queria ver o trabalho dele na Unidade de gangues.

 

Outro ponto de valor foi a ausência do núcleo de Platt. Rolou por uns 3 segundos, mas não teve nada que dispersasse a atenção dos acontecimentos da semana. De quebra, ainda tivemos outro teaser sutil do passado de Halstead e Mouse, e repito que não aguento mais ser feita de palhaça. Agora, tenho a plena sensação de que Jay não foi uma boa pessoa. Landigal rima com Afeganistão e pelo que consta no Google não foi nada fácil.

 

Foi um ótimo episódio para Al e Atwater também. O discurso de Olinsky no derradeiro final me fez acreditar que tudo terminaria em grande nhaca. Já Kevin, muito me magoa vê-lo tendo destaque só quando o caso envolve gangues ou uma família negra.

 

Sei que esse é o espaço de fala dele, os outros detetives jamais compreenderiam o que acontece tanto quanto esse personagem, mas não é porque Atwater é negro que ele só tem que atender casos assim. A injustiça com esse cidadão no quesito trama continua e não tem fim, mas o que lhe deram fez meu coração feliz.

 

Para semana que vem, preparando meus ouvidinhos para os berros de outro Halstead.

 

PS¹: quem deixou o Paddy sem a barba? Quem autorizou esse escândalo?

 

PS²: presença de Boden e de Sharon, simbolizando as outras manas, é disso que precisam investir mais.

Stefs
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