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17/fev

Confesso que me preparei psicologicamente para comparecer a este crossover pelo motivo óbvio chamado Gregory Yates. Pensei em rever os acontecimentos passados, mas não tive estômago para tanto e me abstive em reler a resenha. É fato que a composição deste personagem foi visceral desde o início e revisitá-lo foi o mesmo que abrir a janela mental e emocional com relação aos desdobramentos que custaram Nadia.

 

Pior que esse chove e não molha para enfrentar o crossover, só mais uma dose de consciência de que existem homens como Yates. Como de praxe, foi impossível não se envolver de um jeito muito pessoal.

 

Como costumo fazer, falarei um pouco de SVU e depois de Chicago P.D..

 

Law & Order SVU (17×14) – Nationwide Manhunt (1)

SVU-17x14---Nadia

E tudo começou por causa de uma lasanha. Seria cômico se não fosse trágico.

 

Resgatar criminosos é o mesmo que resgatar o crime. Uma tarefa nem um pouco fácil, pois é um pedido para rememorar o desagradável, precisamente o circuito da caça até o bote que nem sempre é bem-sucedido. Uma tarefa que parece fácil para qualquer equipe que tem como missão servir e proteger. Porém, a tensão de um nome foi o bastante para dizer que o caso de Gregory Yates estava longe de terminar. Por mais justa que a prisão tenha sido, ainda faltava uma confissão que o enlaçasse para sempre, o preencher de reticências de outras histórias que não contaram com um final feliz.

 

A trama poderia ter entregue logo o rosto daquele que tirou a vida de Nadia, mas, como todo bom caso, foi preciso resgatar os trâmites que acarretaram a prisão e depois reintroduzir aquele que fazia qualquer um tremer só com uma espiada de relance. Inclusive, o modo de operação que centralizava mulheres trabalhadoras, por vezes enfermeiras, que eram abusadas e largadas ao breu. Mas sem se esquecer da assinatura, as pinceladas de esmalte nas unhas.

 

A diferença dessa vez é que uma barganha irresistível caiu na mesa da Sargento Benson, daquelas praticamente impossíveis de dizer não. Quem não daria chance a um criminoso tão solícito em identificar suas próprias vítimas? Só seria preciso conduzir o tabuleiro que, aparentemente, estava sob controle – até começar a se dissolver por causa do ácido mental de Yates. Afinal, barganha foi a palavra de ação desse sujeito que disfarçou um projeto de fuga. Nada como ser simpático para atingir o propósito.

 

Dizer que identificaria as vítimas não foi mera bondade. Ou mera coincidência. Da mesma forma que não foi um mero insight ver Benson solicitar a presença de Erin em vez de deixar Rollins, neste primeiro momento, assumir um novo interrogatório com Yates. O frio no estômago bateu forte quando a detetive da Unidade de Inteligência se revelou dentro de um táxi e a bile estancou na garganta quando os flashbacks de Nadia nortearam esse percurso. Um artifício efetivo para reabrir as feridas deste caso, muito mais que rever o rato diante daquela que contribuiu para enjaulá-lo e que lhe rendeu uma onda de rancor embutido ao desejo de tê-la.

 

A tensão veio à tona no cara a cara, em que Yates saudou Erin do jeito esperado e Erin engoliu em seco a culpa que a corroeu por meses pelo ocorrido com a melhor amiga. Um reencontro desafiador, em que ele queria se deliciar diante da detetive que empacara na sua memória e ela obter respostas ao mesmo tempo que testava sua compostura diante daquele que queria arrancar o coração.

 

Ali, vimos um rato mais desequilibrado do que nunca. Como um rato de laboratório que quanto mais fica preso, ou é testado, mais raivoso e faminto fica. Uma mistura que só há uma intenção: dar o bote final. Marcar seu nome nem que seja pela última vez. Mas como?

 

Diante de Erin, Yates roubou a cena. Seu parasita se agitava, um gatilho que muito provavelmente ganhou força ao estar diante da detetive, o lembrete daquilo que matutara desde que foi preso. Ou até mesmo antes. A presença de Lindsay parecia uma ótima empreitada, mas mal sabia Benson que a somara ao combo maligno de um plano que reativou trejeitos desconexos, fala mansa e regada de saliva, como se quisesse algo desesperadamente, e olhar em frenesi. Ele mostrou que não havia mudado, que continuava petulante e que sentia orgulho de seu legado criminal.

 

A partir de uma barganha, Yates começou a ter o que queria: atrair situações que faziam parte de um plano maior, esclarecido em uma sinopse, mas não visualmente claro. Primeiro, ele confrontou seu objeto de desejo. Depois, Rollins, outro meio para um fim, tática que deixou a Unidade de Vítimas Especiais desejosa por mais identificações para encerrar de vez este caso. O rato soube brincar com a famosa sede de justiça alheia e abriu margem para sua própria justiça pessoal. Enquanto Benson achava que dominava a situação, o outro concebia, pouco a pouco, uma fuga que seria de preocupação geral.

 

Yates deu o suficiente para amarrar o time de Benson. Com uma gota de credibilidade, ele pediu por mais. Uma transferência, com direito a beicinho, um passo enorme rumo a sua tão almejada liberdade. Um plano que chegara aos seus ouvidos e que só exigira o salto perfeito.

 

SVU-17x14---Yates

A transferência destacou ainda mais o terror que Yates representava. Por ser unicamente dono do espetáculo, sentir nojo foi um sintoma muito leve. O reencontro com Rudnick, também conhecido pelo seu título de Doutor, faria jus à música Bad Blood da Taylor Swift. Só que com um remix sombrio para honrar a canção de Gregory Yates que começou com acordes sutis, mas precisos.

 

Foi aí que o encontro no grupo de apoio fez sentido. Como também a passadinha no corredor até Yates chegar ao seu bloco. Ele sabia o segredo da lasanha e se apoderaria dela. Sem hesitar!

 

Benson e parte da sua equipe nem tiveram tempo de segurar o rato pelo rabo, pois ele voltou a um lugar adequado a sua persona: os túneis do presídio que o libertaram. Com uma bolada dessas, Yates mostrou sua perspicácia em usar as pessoas e em interpretar no seu próprio show. Uma manipulação perfeita, uma atração fatal que enganou policiais, detetives, cúmplices e afins.

 

SVU-17x14---Benson

A armação do palco mereceu uma salva de aplausos. Bem como o alarde da busca. Inteligência alheia sempre é algo admirável e ao mesmo tempo incompreensível quando conversamos sobre alguém como Yates. É intrigante e aterrorizante acompanhar uma pessoa que julga ter nascido de tal forma, que se protege nisso para justificar crimes hediondos, aparentemente sem um gatilho que os impulsiona a agir. Esse rato assumiu a situação e fugiu para sanar a fome.

 

A lasanha não era o suficiente para forrar o seu estômago, mas foi o início de um belo jantar de despedida que mostrou não só o quanto ele é genial, mas, ao mesmo tempo, o quanto a polícia pode ser incompetente. Ao som da festinha de drones, só restou o medo, pois foi impossível não rememorar o que Yates provocou nos seus últimos dias de liberdade. A canção anterior que custou Nadia. O rastro de sangue não demorou a surgir, vetando até Rudnick, aquele que só queria fugir supostamente para viver em paz, que caiu na rede de vingança de Yates.

 

A sua esclarecida obsessão.

 

Mas se vingar de quem? Erin, o objeto de desejo não consumado? A detetive quase caiu por terra ao ser irresponsável em rumar sozinha atrás de um serial killer que a queria. Foi estúpido da parte dela  colocar a vida de um oficial em risco e não esperar reforços. Porém, ela também tinha seu desejo de vingança. Uma vingança tão pessoal quanto a de Yates.

 

Embrenhada naquela floresta, a expectativa aterrorizadora nos olhos de Yates para continuar a brincadeira foi ressaltada por meio de um bilhete. Que indicava o lar doce lar… Em Chicago.

 

Chicago P.D. (3×14) – The Song of Gregory Williams Yates (2)
 

Yates saiu da prisão mais sádico e mais impetuoso. Com a mente feita, o que o fez se desprender do modo de operação anterior. Rudnick foi apenas a porta para um serial killer ser livre, uma pessoa que não mais se preocupava em seguir as próprias regras que se transformaram em suas assinaturas. Ele só queria chegar em Chicago para botar sua vingança em prática.

 

Seus movimentos não se guiavam mais com base na escolha de algumas vítimas para alimentar o parasita. O rato queria dar fim aos gatilhos que culminavam nos crimes. A fuga foi um jogo de sorte, que deu certo, e a sequência exigiu o mesmo cuidado para não atrair aqueles que queriam botá-lo de volta na gaiola.

 

Em meio a tanto ruído, houve uma singela dose de negação da parte de Erin, a razão de Yates ter se esforçado um pouco mais para ter o que queria. Porém, o senso de dever da detetive apitou. Os últimos acordes dessa canção pertenciam unicamente a Lindsay e não importava o quanto Voight tentasse mantê-la sob proteção. Uma hora haveria o reencontro e todo mundo sabia disso.

 

Enquanto o rato não dava as caras, a atmosfera dessa sequência foi de pura frustração. Inclusive, emergencial, ao ponto de tirar todo mundo realmente da cadeira. Platt ficou responsável pelo aviso que nenhum cidadão espera receber na hora da janta, o que colocou o batuque dessa busca em um crescendo que exigiu passadas mais largas, mais estratégia e mais pensamentos concisos. Tudo porque Yates repaginou seu modo de operação e confundiu e dividiu duas equipes que esperavam a mesma ação.

 

CPD-3x14---Yates-e-Nellie

Daí, o vemos conseguir parte do que queria e celebrar, como sempre faz. No caso, Nellie, a irmã, um baita golpe, sem esquecer de brincar com bilhetinhos e vídeos enviados para Lindsay.

 

Benson teve completa razão em dizer que serial killers são inteligentes. Yates brincou com o desejo de justiça, fez oficiais de tolos, sempre tendo Erin como o seu holofote. O seu peão. Dizem que mente vazia é oficina do diabo e o rato comprovou isso ao enganar geral enquanto fazia sua busca.

 

Há um ano, o perfil de Yates tinha ficado incompleto e a proposta desse giro final foi apresentar o gatilho para tal comportamento. Erin foi um deles e acredito que ela tenha incitado ainda mais esse desejo de vingança ao se reencontrar com o rato. A detetive sempre foi vista como um meio, mas não passava de uma garantia para o último ato, digno de um texto que Hitchcock amaria adaptar: um filho abandonado pelos pais por ser perigoso desde a infância, praticamente um Damian 666.

 

Trocado e disponível para adoção, com sérios problemas mentais, se criou um serial killer que externou toda a rejeição e a tornou em um contra-ataque envolvendo mulheres que lembravam a mãe. Tão Norman Bates que extrapola, e Lindsay enriqueceu essa ideia ao assumir o papel crucial na banda musical de Gregory Yates: o gatilho, a representação da mãe que não tinha encontrado.

 

CPD-3x14---Erin

O que Yates queria era exterminar os responsáveis por seu abandono, nem que morresse no processo. Algo que muito intriga tendo em vista que ele foi retratado como um estuprador em série. Tudo começa por algum motivo e descobrimos o que o motivava.

 

Era de se esperar vê-lo focado só em Lindsay para torná-la uma de suas vítimas. Não sei se isso seria conveniente tendo em vista que ela já havia passado por uma espiral emocional que a consumiu por completo. O que interessava era sua força e compostura em lutar contra aquele que lhe tomou Nadia. O que essa canção precisava era de uma brava detetive que trouxesse justiça em nome da memória da sua amiga e nada mais delicioso que vê-la apertar o gatilho. Matando não só Yates, mas o seu parasita interno que ainda a culpava por uma morte que não cometera.

 

Matá-lo não foi apenas um favor para a história, mas um favor para Erin Lindsay que precisava da sua libertação. A barganha só tinha o intuito de libertar os envolvidos e foi excelente pra caramba, com direito ao sutil alívio ditado por Benson.

 

Finalizando

 

CPD-3x14---Gangue

Este crossover entre SVU e Chicago P.D. deveria ser um espelho daqui por diante para qualquer um que envolva as Chicagos. Perfeição do começo ao fim, não tenho do que reclamar.

 

Comentei no último One Chicago, que incluiu Med, que as deficiências no roteiro ficaram muito mais em evidência no quesito unir as três séries. Solitariamente, os episódios foram bacanas e bem estruturados, mas juntos não ornaram com o propósito de trazer justiça em nome da família. Fire/CPD mostraram os primeiros sinais de enfraquecimento no ano passado e a chegada da irmã mais nova não aumentou o score do sucesso. Isso me deixa bolada, porque amo esse evento televisivo.

 

É bizarro ver como SVU/CPD continuam a funcionar e parecem mais uma família em comparação as outras Chicagos. Ambas mostraram o quanto é bom ocupar o mesmo time slot, o que permitiu uma exibição sequenciada. Um fator que também beneficiou o roteiro que focou no evento e não deu margem para plots paralelos, aqueles que destroem o ritmo da trama como tem acontecido com as Chicagos. E, não menos importante, os personagens funcionam juntos e são realmente úteis.

 

Benson voltou a respaldar o caso, explicou porque Yates ainda era foco, a importância de Lindsay em ter que reviver não só isso como a perda de Nadia, e o quanto a fuga dele precisava de uma comoção midiática – um dos pontos positivos deste crossover porque amo isso de paixão. Foi impossível não se envolver e as séries pareciam únicas, algo que as Chicagos perderam um pouco do apelo por causa da quebra a seco, que esmorece a adrenalina, e perda de continuidade.

 

Isso que é crossover: ter um evento, nada de plots paralelos, e contar com o elenco em peso. Não o que rolou no último One Chicago que Fire deu a faca e o queijo na mão, Med ficou perdido e P.D. virou Chicago Law. Pontinha de personagem acontece toda semana e isso não é cruzamento de história, peloamordeDeus! Quando terminei de ver estes episódios, chorei de raiva porque não vi nada disso acontecer entre bombeiros, médicos e detetives, socorro!

 

E vejam bem: a justiça por Nadia foi mais eletrizante que a em nome da Shay. Só não contou com o apelo emocional porque já tinha rolado antes.

 

CPD-3x14---Erin-e-Olivia

Houve tantos pontos altos neste crossover, mas destaco Rollins que não queria ser poupada só porque voltou ainda muito recentemente da licença maternidade. Benson que tomou o controle da situação, sempre professoral e amorosa, uma mãezona para os agentes e até para os detetives. Lindsay mereceu 5 estrelas por nortear uma história que traz o melhor da Sophia em cena, escapando do mais do mesmo que tem afligido sua personagem e me feito reclamar horrores. Um salve também para a narrativa da Burgess sobre a primeira cena criminal de Yates em Chicago. O tom tenso dela só enriqueceu mais a dramática do texto.

 

O papel da mulherada neste crossover estava fora do sério, mas vale um adendo para o Carisi sexy (tenho crush nele sim, com certeza), o único que transportou uma singela dose emocional ao ir contra tudo o que pensavam sobre Rudnick. E, claro, Dawson, uma presença em NY que me deixou muito contente, pois era óbvio que esperava Halstead.

 

Gostei bastante da jogada com os bilhetinhos. Aumentou a frustração da equipe que claramente estava sendo feita de trouxa. Quando Benson juntou os pontinhos quis beijá-la.

 

E, claro, Dallas na pele de Yates (Emmy, what’s good?). O jeito como ele incorporou esse personagem só me faz indagar como foi o processo para sair dele. Complicado, porque o rato foi a causa dessa trama ser muito verdadeira e muito relacionável. Vários gatilhos.

 

Enfim, muita coisa boa neste crossover. Esse é um tipo de roteiro que me faz muito feliz e espero que acertem One Chicago (não custa nada chorar para a NBC e pedir duas horas, né? Já tem autoridade para isso, meldels!) no futuro. Muitos que leem minhas resenhas sabem o quanto me incomodo com história paralela conflitando com o grande evento, e este foi tão limpo, tão focado, tão bem executado que só me resta mandar um abraço virtual para os escritores – que contou com a Jamie que também assinou P.D. o último entre irmãs.

 

Que diferença faz uma mulher escrevendo roteiro, né? Sensibilidade nos pequenos detalhes, um beijo.

 

Desejo que tomem consciência com base neste crossover para cuidarem das outras filhas de Chicago que estão abandonadas. Elas precisam de apoio dos grandes, pois talentos têm, só não há mais boas histórias.

 

PS: a expressão do Boden “cê nem devia estar aqui, Voight lindo” me fez rachar o bico.

Stefs
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