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19/mar

Como era de se prever, o finale de HTGAWM não se apoiou nas reviravoltas carpadas que gerariam um novo corromper dos personagens, mas na protagonista. Com isso, a série provou que ainda consegue ser sólida e intensa sem ao menos precisar de uma força vinda da fórmula que a consagrou. Foi tudo lindo!

 

Da S1 até parte da S2, tudo o que tínhamos sobre Annalise Keating era superficial. O foco inicial da série recaiu nos estagiários, o que deixou a protagonista na penumbra que a “vendeu” como o pior ser humano do universo. Ideia que convenceu todo mundo e mantê-la na dualidade segurou o interesse por torná-la intraduzível e imprevisível. Já nesses últimos episódios, nos deram muito sobre ela e largaram toda essa bagagem aos nossos pés para decidirmos se respeitamos ou não essa mulher.

 

No arco passado, observamos Annalise como se estivéssemos no batente da janela, meros espiões da vida de uma mulher que se deixou conhecer pela profissão. A advocacia se tornou uma defesa para ela e um meio de ataque para outros que a odiavam/odeiam. Pouco se apresentou sobre essa personagem que nos entregou um finale atípico, centralizado na vivência em família com uma pitadinha tímida de conflito que mostrou que subestimá-la ainda é um dos piores erros das pessoas que cruzam seu caminho.

 

Quando digo atípico, faço referência ao fato de que Annalise pulou completamente do barco. Ela se deu o direito de fugir enquanto os estagiários apenas cogitaram a ideia. Em uma situação típica, a personagem teria revidado Philip e focado em encontrar Caleb para que seus planos não caíssem por terra. Detalhes que renderiam uma conclusão muito próxima a da S1, com muita ação, adrenalina e queda de cabelo.

 

Não foi o caso e estou aliviada porque seria repetição dos 9 primeiros episódios da S2. A mudança de ares caiu bem, pois provou também que Murder não intenciona investir no mais do mesmo. Em outras palavras, só nos dar o que claramente já estamos acostumados: plot twist em sequência. É ótimo focar nos personagens porque eles são tão interessantes quanto Annalise e, no futuro, espero que façam o mesmo.

 

O retorno de Anna Mae

 

Murder-2x15---Annalise-2

 

O que aconteceu neste episódio foi o arremate pós-tiro. O que poderia ser aprendido? O que poderia ser melhorado? Como as relações desses personagens mudariam? Atrelado a isso, e aos episódios passados a partir do 2×11, houve o intuito de nos aproximar muito mais de Annalise enquanto todos continuavam a se afastar.

 

Vale lembrar que os estagiários começaram esta temporada de saco cheio de Annalise, berraram inúmeras vezes que iriam embora e tentaram se libertar do escritório que não passa de um pesadelo sem fim. Até Bonnie foi inclusa no pacote de indignados, sendo responsável pelo que chamaria de ultimato sobre as decisões antiéticas da sua mentora. Atitudes que pareceram inofensivas no começo, mas se agregaram ao matutar calado da advogada até os últimos minutos do season finale.

 

Depois do caso Lila, só restou cobranças que viraram um efeito dominó assim que o tiro atingiu a advogada. O estopim que a quebrou e que a fez retornar ao passado.

 

Annalise veio de uma sequência de comportamentos e de decisões que não remeteram ao cotidiano do escritório. A vela que mantinha o navio em alto mar rachou de vez e não sustentava mais nada. Foi interessante desde o começo vê-la se debater para no fim encontrar certo conforto ao voltar para si mesma. Ao voltar para Anna Mae.

 

Vê-la no âmbito familiar aqueceu meu coração por mostrar o quanto a escrita de Annalise é muito boa. Inclusive, muito bem sacada. Na S1 e parte da S2, tudo o que vimos foi uma mulher amoral que não hesitou em sabotar casos e em esconder a verdade sobre a morte do marido (informação que ganhou respaldo por ter sido outra forma de proteger Wes). Vimos essa personagem agir na falcatrua, toda antiética e ausente de escrúpulos, nuances que até o mid-season da S2 pareciam naturais de uma personalidade incorrigível.

 

Fato é que começamos com Murder tendo uma personagem amoral para terminarmos com a mesma personagem em busca da sua moralidade. Irônico de esperto. Um peso cativante entremeado à necessidade de Annalise parecer implacável/independente, informação que caiu por terra quando conhecemos a mãe. Uma senhora que nada sabia da rotina da própria filha e que claramente não era inclusa na vida da sua Anna Mae.

 

O caráter duvidoso da protagonista reforçou sua dualidade em forma de Annalise Keating e de Anna Mae. São duas mulheres conflitando em um só corpo. Uma briga que se acalmou assim que ela voltou para onde sua vida começou e encontrou conforto. Por mais que negue, a advogada mergulhou numa paz de espírito que só a mãe lhe proporciona e a fala do pai sobre buscar a mama sempre que há necessidade de se reencontrar arrematou a situação perfeitamente.

 

Murder-2x15---Ophelia

 

É esse o efeito dessa senhora linda e maravilhosa na vida da filha que, mesmo na nuvem sobre quem é/foi Annalise Keating, ainda se esforça por Anna Mae. A versão da protagonista muito mais consciente das dores e dos erros que lhe afligem. Afinal, com Ophelia, não há mentiras.

 

A experiência em família mostrou o que um dia já comentei: Annalise se tornou tão bem-sucedida no que faz ao ponto de ser temida. E ela gosta. Ela gosta de fazer todos se recolherem quando passa por ser seu mecanismo de defesa. Isso evita que as pessoas se aproximem, como Bonnie e os estagiários, algo ineficaz quando conversamos sobre Ophelia. Um encontro que bota em cheque a versão desafiadora, indesculpável, independente e genial de Keating por realçar as fraquezas. Por realçar o quanto a advogada é/está quebrada.

 

E é nesse momento que sempre fico jogada. A personagem tem uma compostura tão convincente que quando a vejo quebrar é um corte fundo seguido de choradeira sem fim. Annalise sai da versão odiada, aquela que vê a competição em tribunal como tudo na sua vida, para uma que gera compaixão. Que gera pontos de similaridade.

 

Simplesmente porque há essa de esperar o pior dela em cena – que é o melhor de Viola –, caminho fácil que, às vezes, me faz esquecer da complexidade de Annalise e da sua caracterização. Não há quem acredite que uma mulher como ela possua fragilidades e necessidades porque se “vende” a ideia de ameaça constante. O que lhe é muito mais seguro. Daí, ninguém se importa ou acha que a bad é TPM. Impressões que calham no que a mama disse sobre a filha carregar tudo sozinha.

 

Todo o drama do tiro até o regresso para casa foi o meio de nos mostrar que essa mulher não é tão ruim assim, embora tenha muito sangue nas mãos. O peso dessa personagem vem do lado mais humano possível: mesmo ciente de que é amada pela família e de que tem chances de recomeçar, sua vida já atingiu um ponto sem retorno. Annalise pode fugir o quanto for, dizer que abandonou a carreira, ignorar o passado com os estagiários, mas nada apaga os acontecimentos de Lila até Caleb/Catherine.

 

O que a advogada buscou pós-tiro foi normalidade, só que o peso dos podres não lhe deu esse benefício. Ela estava embaixo do teto da mãe e ao mesmo tempo não estava por ter duas vidas colidindo o tempo todo.

 

A cena marcante desse duelo foi quando Annalise finalmente está com o celular. As mensagens de voz pareciam vozes na sua mente. Um instante curto, mas certeiro, em que ela vê sua falsa paz e cai em si de que a resolução de outro caos também morava em suas mãos.

 

Mesmo jogada na vala para lidar com o tiro e voltar para a rotina, tudo que Annalise queria era dissolver o seu atual estilo de vida e recapturar a de Anna Mae. Ela disse que não queria mais mentiras. Não se esforçou para ajudar os Hapstall e nem para prender Philip. A personagem só queria a si mesma, algo que não vinha tendo, quem sabe, desde que perdeu o bebê.

 

Ali, fora da Filadélfia, Annalise viu que ainda é amada, ao contrário do que rola em seu escritório em que todo mundo claramente se detesta e o convívio é forçado porque geral depende um do outro – e ninguém confia no outro. No mundo Anna Mae, ainda há confraternização, ainda há lisonjeio sobre seus feitos, ainda há risadas e um quarto decorado com o melhor dos anos 80 para dormir por horas indefinidas. Ali, Annalise voltou a ser criança.

 

Murder-2x15---Annalise-e-Ophelia

 

Acima de tudo, voltou a ser transparente. Fiquei bem mal quando Ophelia julga Annalise para depois ouvir que a filha engravidou e deu tudo errado. Queria abraçar essas duas! O que veio a seguir me deixou ainda mais sem chão, a libertação de uma mulher que ainda se remoía com sua maior perda. Achei que Annalise recuaria ao pequeno memorial proposto pela mãe e só restou chorar quando a personagem escreveu a cartinha e a enterrou.

 

Foi um momento de absolvição emocional e, talvez, espiritual. Enterrar a memória não quer dizer que a situação será esquecida, pois o ato tem tudo para abrir uma margem de evolução. Keating se debateu desde o 2×10 para lidar com uma perda reativada pelo ódio de um Wes que a queria morta. Situação que a fez rumar para a casa da mãe a fim de encontrar uma libertação.

 

E encontrou e nos resta esperar para saber que impacto isso terá na vida dessa personagem que voltou a ser Annalise Keating.

 

Por ser ficção, é fácil amar Annalise, mas na vida real não haveria tanto sentimento de bondade. Essa é uma baita saia justa que a escrita da série oferece e o timing usado para explorar que aquela mulher não é um robô caçador de troféus deixou muito o que pensar daqui por diante. Essa troca de identidade foi necessária para entendermos com mais propriedade aonde tudo na vida dela se destruiu e o quanto ela estava disposta a se recuperar. Nem tudo se resolve com um pote de sorvete – bem que eu gostaria.

 

Ao longo dos últimos episódios, Annalise buscou portos seguros. Nate foi um deles e gostei bastante de vê-lo dentro da rotina de Anna Mae. Lembrou-me de Laurel e de Frank, a verdade crucial sobre as origens que não fazem mais jus às pessoas que se tornaram no presente. Ele faz bem a ela e isso é ótimo.

 

No fim de tudo, e o mais relevante, é que Annalise tentou ser melhor. Ela tentou ser mais coerente, mais justa, mas os podres vieram à tona como dívidas e assuntos inacabados. Sabiamente, a personagem terminou a temporada ciente de quem lhe causou tudo e mais um pouco, e começou a abrir mão do que é venenoso.

 

Isso pode sinalizar novos tempos para o escritório que muito provavelmente contará com Oliver (Conrad foi promovido a regular).

 

E sobre o Frank?

 

Murder-2x15---Frank-e-Sam

 

A surpresa do finale foi Frank se estabelecer como o causador da maior perda de Annalise. Penso que ele merece os créditos de ter destruído o relacionamento dela com um claro apaixonado Sam também. O primeiro filho e, talvez, o primeiro filho ingrato. É carma!

 

O flashback mostrou que a presença de Frank não era aleatória, algo que deu para sentir na semana passada. O incrível aqui é que souberam emendar essa parte do passado de Annalise com a dele, fechando todos os mistérios dos 10 anos que ninguém imaginaria que teria mais. Não sou capaz de opinar!

 

O ponto de vista desse cidadão, em parceria com Wallace, dedou outra quebra de caráter que conflitou com o que é visto pelos olhos de Laurel. No passado, havia o homem inocente que se corrompeu por grana, atitude motivada pela aparente poker face de Annalise. Agora, há o assassino que provavelmente matou de novo – Mahoney?.

 

Essa verdade foi estarrecedora porque Frank conviveu com a mancada e viu o sofrimento intermitente de Annalise. Ele ruiu os Keating e se queimou ao ter seu segredo com Sam revelado – que não passou de uma dívida.O que sobrou? Pegar toda a grana maravilhosa e curtir umas férias na Disney, quem sabe.

 

Só queria saber se Lila foi a primeira que o personagem matou. O lembrete da ligação de Sam deu a entender que foi, mas esse cidadão sempre me pareceu esclarecido sobre cometer uma barbaridade dessas ao ponto de não parecer atitude inédita/recente.

 

Estamos de olho!

 

Concluindo

 

Murder-2x15---Caleb

 

Literalmente, o último episódio veio com essa de salve-se quem puder e Annalise chegou muito perto de afundar solitariamente. A escrita do finale nos lembrou que há personagens ricos na série e que eles sempre são ofuscados pelas reviravoltas quentes. Isso não é ruim, mas se provou que é possível e que fica tão bom quanto tentar escapar de um homicídio. O foco na protagonista e o destrinchar da sua dor mais íntima renderam a esperança de que qualquer um pode contar com mais desenvolvimento em meio ao plot central. Quero que isso aconteça, pois senti falta do background dessa turma.

 

A reviravolta dos Hapstall não deixou de ser bafônica, mas só foi o meio para trazer Annalise de volta e para relembrar que, mesmo abatida, ela ainda tem força para lutar por si mesma. Inclusive, tem pique para ser genial até quando não há mais energia. Fato é que esse caso ficou a desejar, largado desde o retorno de Murder (os julgamentos semanais também), sendo unicamente o impulso para unir Wes e Annalise, Annalise e Anna Mae e Annalise e Frank.

 

Fica no ar se Caleb realmente se matou (que cena!) com essa suposta acusação de ser serial killer e se Philip e Catherine sairão supostamente inocentes.

 

Concluindo²

 

Murder-2x15---Wes-e-Mahoney

 

Mudar o tom de uma série que fez sucesso pelas reviravoltas chocantes é o que chamaria de risco tremendo. Afinal, Murder é viciante por ser imprevisível com seu plot central e pelos flash-forwards. O súbito novo norte foi lento, por vezes cansativo, mas desenvolvido sem tirar o valor da protagonista e do roteiro. Estou satisfeita com esta temporada.

 

Esse restinho de S2 foi de Anna Mae e todos os relacionamentos que acarretaram sua maior tragédia pessoal. Os últimos episódios traçaram o caminho de Annalise até seu passado e rendeu um ótimo final de temporada, especialmente por ser uma amostra de que a série não depende tanto das reviravoltas. O teor do texto foi maduro, pessoal, e seguiu assim até o final.

 

Agora, ficamos com a cara de choque de Wes que acabou de ganhar mais um trauma. Só porque estava na expectativa sobre o retorno de Mahoney na vida de Annalise…

 

Espero que tenham gostado das resenhas de Murder. Nos vemos na S3. ♥

 

PS¹: Oliver trollando Connor. Gostei não.

 

PS²: mas gostei do envolvimento entre os estagiários. Era algo que precisava (e ainda muito passada com Asher e Michaela).

Stefs
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