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24/mar

Gritos de alegria porque achei que tinha perdido esta resenha (que deveria ter sido postada no ano passado, mas…).

 

Este livro foi o sinal do quanto me tornei meio relaxada com a leitura em 2015. Sério, levei dois meses para terminá-lo. Nem foi pelo fato dele não ser interessante – ele é muito –, mas, às vezes, não sinto vontade de ler. Daí, enrolo, enrolo, enrolo porque não consigo me concentrar.

 

Pior que há vezes que leio num gás completo, 1 por semana dependendo do tamanho, mas sempre chega o instante da preguiça literária e é difícil sair dela (geminiana que enjoa rápido das coisas). Quando terminei este livro, consegui engatar meu ritmo de novo, mas não cumpri a meta de ler 30 livros em 2015. Isso rebateu na minha meta mais humilde: de 30 botei 15.

 

Mas vamos falar deste livro lindo e maravilhoso assinado pela minha querida Jojo Moyes. Sim, a mesma de Como Eu Era Antes de Você.

 

A Garota Que Você Deixou Para Trás é um romance meio histórico e meio contemporâneo. Meio histórico porque o livro começa com uma série de retrocessos que nos apresenta Sophie. Ela é uma das personagens abaladas com os efeitos da Primeira Guerra Mundial em St. Péronne, uma das primeiras cidades francesas a cair nas mãos dos alemães. Meio contemporâneo porque depois dessa introdução, saltamos para o presente e conhecemos Liz que tem lá sua relação com o passado.

 

Essa era a história de nossas vidas: insurreições menores, vitórias miúdas, uma breve chance de ridicularizar nossos opressores, barquinhos de esperança em um mar de incertezas, privação e medo

 

O atrito inicial começa em 1916, em que acompanhamos uma família composta por mulheres famintas escondendo um belo porco. Uma atitude proibida, pois, na época, os alemães eram responsáveis em encaminhar suprimentos que, óbvio, nunca eram o bastante para diminuir a fome. Só que esse segredinho corre o risco de ser descoberto devido a uma batida dos militares que leva Sophie a um, de vários, desafios contra aqueles que poderiam prendê-la por uma omissão desse tipo.

 

No disse me disse, se destaca um Kommandant alemão, a quem ela responde para tentar não chamar a atenção para o que há na casa. Um homem que, à primeira vista, deixa a impressão de não ser igual aos outros nazistas – e é terrível notar isso por causa da bagagem do holocausto. Um brilho diferente no olhar dele = ruína.

 

Tudo parece no lugar depois deste episódio, só que ao contrário. Sophie e Hélène (a irmã) seguem a rotina e continuam a exercer o dito papel masculino de tomar conta dos negócios. No caso, um hotel da família que recebe os suprimentos, alimenta a vizinhança, elas e as crianças. Essas personagens são responsáveis pela tarefa de assumir as finanças do lar essencialmente porque os respectivos maridos estão na guerra. Ambas estão solitárias e desprotegidas se pensarmos nessa época, mas conseguem manter tudo sob controle.

 

Só não os eventos de um dia que torna o hotel o novo point para os alemães fazerem suas refeições. No grupo, lá está o tal novo Kommandant e você começa a tremer daí porque o interesse dele imediatamente centraliza Sophie.

 

Como bem sabemos, ficar ao lado dos alemães ou não era visto como traição de qualquer maneira, tanto da parte do sistema quanto da vizinhança. Sophie e a irmã sentem isso na pele, pois receber os inimigos indigna quem as conhece – sendo que não podia, e nem devia, recusar qualquer oferta vinda deles. A decisão, que nem chegou a ser discutida com os militares, vira meio de difamação.

 

Os visitantes fingem que engolem a novidade, mas, no fundo, há o agridoce de trairagem que muda a rotina dos arredores. Afinal, qualquer um que servisse os alemães com certa boa vontade ou era simpatizante ou tinha dormido com um deles. Certo pensar na segunda opção para motivo de fofoquinhas, pois duas mulheres, sem os maridos, fazem sexo por vantagem mesmo. #Ironia

 

No caso de Sophie, o buraco é mais embaixo. A sua tal simpatia pelos alemães é discutida embaixo dos panos pelos outros que notam o quanto o Kommandant é solícito com ela. Ao passar de algumas páginas, fica meio claro que ele tem interesse, só não se sabe qual, e tememos pela personagem não apenas por ser casada, mas por estar sendo rodeada pelo inimigo. Só que esse inimigo a faz oscilar ao comparar o caráter dele com o dos companheiros. O clima é sempre intenso quando ambos estão sozinhos e você continua a tremer por esperar o pior.

 

É entre diálogos que sabemos mais de Édouard Lefèvre, o marido de Sophie, e do atrito da história em forma de quadro em que ele pintou a esposa. A obra fascina o Kommandant que não liga com a exposição no meio do hotel – sendo que também não podia porque os alemães faziam batidas e aproveitavam para afanar objetos preciosos das famílias. E ela também faz questão de expor o item como sua afronta ao sistema, só que essa determinação chama ainda mais a atenção de um homem 100% incógnito.

 

O quadro ajuda a estreitar a relação de Sophie e do Kommandant, e não sabemos se ficamos felizes ou temerosos. Simplesmente porque é esse item que mostra uma faceta desse alemão que nem passa pela nossa mente quando pensamos em um nazista: a emotiva. Isso mesmo, migos.

 

É aí que começamos a indagar se o Kommandant é uma pessoa boa e rola aquele momento de culpa porque é impossível não romantizar esses dois. E ninguém merece um nazista! Como sou uma pessoa que ama redenção e absolvição, aguardei essa ideia mirabolante brotar na mente de Sophie, pois, a cada fim de conversa, é esperado que esse homem encontre a luz.

 

Vejam bem: o Kommandant não é nada como nos filmes nazistas. Isso porque, conforme imaginava esse personagem, só tinha como referência A Lista de Schindler, em que o comandante de lá é monstruoso e finge certa ternura. Já o personagem de A Garota Que Você Deixou Para Trás é inteligente, articulado, bom ouvinte e sensível. Ouve e não julga, detalhes que facilitam a ilusão de que ele é bom.

 

Só que há o conflito pessoal: como assim existiam nazistas meio que legais (essa indagação é problemática com nazista e legal na mesma sentença)? Meio bizarro, eu sei, mas, por meros segundos, deu para crer que esse homem se apaixonaria por Sophie. Principalmente por causa da sequência de atos surreais a favor da família dela – e que só aumentou a impressão dela ser simpatizante feat. amante de um nazista.

 

Às vezes… a gente demora um pouco a captar a verdadeira essência de uma pessoa

 

A desconfiada bondade do Kommandant pesa para o lado de Sophie. Ela está muito solitária e carente por causa da ausência do marido e o militar é muito bom para ser verdade. Não há contato entre esses dois personagens, a não ser a afinidade pelas artes, o que propicia ao texto um tom sensível que os interliga rapidamente. Por mais que a personagem esteja um tanto quanto encantada – e nem a culpo porque também fiquei –, dá para capturar um resquício de medo, pois qualquer negativa a um alemão poderia tornar sua vida, e de quem vive com ela, um inferno.

 

Não há nada a se fazer a não ser entrar no jogo que tem lá certa dose de inocência e de desespero porque você se divide entre a possibilidade do nazista quebrar e/ou acarretar a grande nhaca da história. O retrocesso trabalha muito bem a relação entre Sophie e o Kommandant e, em poucas páginas, vemos essa “amizade” chegar perto de ser algo mais. Só que a linguagem corporal de cada um emite a mensagem errada e é aí que a cilada maior do passado começa a tomar forma.

 

A nhaca das nhacas por causa de um bendito quadro!

 

Com esse background desenvolvido, somos norteados para o presente e conhecemos Liz. Há um corte seco no retrocesso para introduzi-la e é impossível não querer saber logo a relação dessas duas. No primeiro momento, me perguntei o que elas teriam pessoalmente em comum, mas eis que o quadro bafônico se revela como a ponte para revisitar uma época de pura crueldade, repressão, preconceito e genocídio. Detalhes que voltam a rebater com muito mais força que os momentos de Sophie com o Kommandant.

 

Fora o quadro, o que as botam na mesma página é a perda dos maridos e os maridos têm suas inclinações artísticas, cujo legado se perdeu/se perderá com o tempo.

 

A pintura de Sophie parece inofensiva no presente, mas daí surge Paul, um agente que tem como função recuperar bens que foram furtados na época da Primeira Guerra Mundial. O drama ganha um pouco mais de intensidade quando o caminho de Liz cruza com o dele e, passados alguns dias, ambos se envolvem. Sem ele saber que ela tem o que procura. Sem ela saber a real profissão dele.

 

Paul e Liz ficam mais próximos, mas Sophie em pintura estraga tudo ao acarretar uma briga no tribunal. A família Lefèvre quer o quadro por direito e a atual dona não quer entregá-lo. Isso afeta a relação de dois personagens que já estão completamente apaixonados.

 

Mas essa não é a questão a ser solucionada no presente, mas sim o legado de uma mulher no decorrer da Primeira Guerra Mundial. Os  Lefèvre não se importam com o quadro porque na mente deles Sophie não passou de uma v**** por ter caído nos encantos do nazista. Outro plot twist!

 

Liz resolve lutar pela história de Sophie, mas a mensagem que se emite é que ela quer o quadro por capricho e isso torna a sua vida um inferno. Este é o momento em que ambas se unem em similaridades por causa da acusação de serem simpatizantes dos nazistas, algo que transcorre durante o julgamento. No caso da protagonista do presente, a crítica é a falta de necessidade de manter algo roubado por assassinos que não respeitaram ninguém durante a guerra.

 

Essa personagem se sente pressionada de todas as formas possíveis e inimagináveis, tanto física quanto emocional. É nesse momento que questionamos junto com ela o quanto vale a pena lutar por algo que não é nosso, que é culturalmente nocivo, mas que temos plena certeza de que cuidaremos com zelo por se tratar de um item histórico que não deixa de ser relevante. Tudo bem que, primeiramente, o que Liz vê no quadro é a lembrança do marido – ele o deu a ela –, o ponto maior de relutância em ceder, mas o jogo muda conforme a personagem começa a traçar o passado de Sophie.

 

Ao saber mais de Sophie, Liz vê nela a garota que era. Destemida e independente. O quadro passa a ser uma inspiração para continuar uma briga que a cada capítulo se torna mais agoniante. Mas só há uma certeza: a personagem não quer entregar o quadro para uma família que faz pouco caso da história de uma mulher julgada sem ao menos ter tido a chance de se defender.

 

Sophie e Liz são muito semelhantes, independente da época. Direta ou indiretamente, elas lidaram com nazistas, assumiram a responsabilidade da casa e sofreram/sofrem com a falta do marido. A partir do meio do livro, dá para sentir como os paralelos as tornam uma só. Quando Liz dá relevância para Sophie, a fim de saber qual foi o fim dessa mulher e do quadro depois da guerra, você passa a ver duas mulheres que sacrificaram até a reputação para ter o que lhes importava.

 

Este é o momento que vemos que A Garota Que Você Deixou Para Trás é uma história de mulheres que tentam sobreviver entre o luto e as dificuldades financeiras, mas há muito da reputação, de querer se preservar e o sistema fazer de tudo para corromper uma pessoa por meio de suas fragilidades. Nisso, vemos a relação crucial entre Sophie e Liz: a fé. Ao longo da jornada, ambas acreditam que tudo dará certo. Até que dá, mas não sem uma sequência de tretas e de reviravoltas que me fizeram engolir rapidinho os 10 últimos capítulos que intercalam o julgamento pelo quadro e a continuação da história de Sophie.

 

O que isso ensina à gente, Sr. McCafferty, é que na vida há coisas mais importantes do que vencer

 

Sophie e Liv são vítimas dessa agressividade histórica e o que tiro de lição é a realidade do quanto a mulher ainda não é ouvida. Isso tem mudado de uns tempos pra cá, mas, no livro, nenhuma das duas é levada a sério, nem o que sentem. De uma hora para a outra, ambas são taxadas de simpatizantes do nazismo, sendo que as respectivas histórias nada têm a ver com isso. Ninguém vai lá e indaga o que realmente acontece. Só há “você não pode”, “você deveria fazer assim”, “acho que está na hora de desistir”. Por amor ou por respeito, as personagens não desistem.

 

Ninguém escuta mais. Todo mundo sabe o que quer ouvir, mas ninguém realmente escuta

 

A Garota Que Você Deixou Para Trás pontua o quanto não há empatia para com as mulheres, principalmente com o background histórico de uma mulher. Além de serem as traidoras, Sophie foi praticamente chamada de prostituta e Liz de mandante do nazismo no século 21. Ninguém quis olhar para trás e entender porque aquele quadro era importante. Não deram o benefício da dúvida por ser a história de uma mulher que estava sendo discutida e protegida com afinco por outra mulher. É aí que ambas se sobressaem pela sua fé. A fé é o sentimento que as movem.

 

E mesmo que não tenha sido a intenção, Liz empodera Sophie para libertá-la da família Lefèvre.

 

Fiquei jogada em muitos momentos deste livro, especialmente o último plot twist. Sou curiosa sobre a história do nazismo porque sempre tento entender como militares e simpatizantes assinaram uma sequência de genocídios. É algo que foge da compressão humana. Liz e Sophie oferecem um novo olhar do papel da mulher na Primeira Guerra, os riscos que corriam caso se envolvessem com esses criminosos ou agissem como espiãs. E A Garota Que Você Deixou Para Trás é tão girl power que… <3

 

O presente não é tão atraente quanto o passado que traz um novo recorte com relação a este tópico. Moyes filtrou bem a história por trás do nazismo ao explorar um trecho pouco comentado e gostei muito. Precisamos de mais histórias sobre mulheres lutando pelas suas vidas nessa época.

 

“Às vezes, a vida é uma série de obstáculos, uma questão de colocar um pé na frente do outro. Às vezes, de repente ela se dá conta, é uma questão de fé cega”.

 

Este livro me fez amar mais a Jojo. Amo como ela destaca personagens femininas e as bota no limite sem se esquecer de lhes dar certa dose de independência para reencontrar a força dentro delas mesmas. Elas começam desacreditadas, no auge da vulnerabilidade, mas a obstinação é o bastante para mudar o norte da história. Isso torna o livro muito interessante, muito querido e muito verdadeiro.

 

A Garota Que Você Deixou Para Trás atendeu minhas expectativas e pretendo ler novamente.

 

PS: e o Kommandant….Meldels, só lendo.

 

Na Estante

Título: A Garota Que Você Deixou Para Trás
Autora: Jojo Moyes
Páginas: 384
Editora: Intrínseca

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