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24/mar

Bem, sobre o Kansas não tenho muita certeza – disse Oz –, pois não faço a menor ideia pra que lado fica…
– L. Frank Baum
“O Mágico de Oz”

 

Então entramos no quarto capítulo desta história que se passa quase inteiramente no passado, quando Roland tinha apenas 14 anos. Mas, antes do flashback começar, a primeira parte do livro traz o ka-tet do jeito que nós o deixamos ao final de Terras Devastadas: a bordo do mono Blaine, apostando suas vidas em um jogo de adivinhações contra um computador louco.

 

Claro que eles conseguem derrotar o Blane. Se não conseguissem, a série acabaria aqui sem graça nenhuma. O legal é como eles fazem isso e o mérito é todo de Eddie, ainda que Roland demore em reconhecer o valor de seu novo amigo, tão parecido com seu velho amigo, Cuthbert.

 

Há uma espécie de cegueira em mim. Uma cegueira arrogante.

 

Em terra firme novamente, os pistoleiros descobrem que desembarcaram em Topeka, no Kansas, mas há alguma coisa bem errada naquele lugar. Logo na estação, eles podem ver cadáveres mumificados já completando um ano naquelas mesmas posições, se o grau de decomposição for algum indicativo confiável. Andando em direção à I-70, o grupo encontra um jornal datado de 24 de junho de 1986, um ano antes do quando Eddie foi puxado por uma porta para o mundo de Roland.

 

O jornal falava sobre a Supergripe “Capitão Viajante”, que pelo jeito havia dizimado toda a humanidade. Vindo de uma Nova Iorque que nunca ouvira falar da Capitão Viajante, Eddie jura que aquele Kansas não faz parte de seu mundo. Jake e Susannah concordam depois de verem adesivos de times e carros de que nunca ouviram falar. Eles não saberiam, mas quem já leu The Stand (A Dança da Morte) está dando cambalhotas de alegria, porque, vejam só que coincidência, aquela é a epidemia que reúne Stu, Frances, Larry e Cia. e os faz cruzar os Estados Unidos para lutar contra um certo vilão. Mas isso é assunto para outra resenha.

 

Por que o bebê ciscava atravessando a estrada? Porque era um filhote da supergripe.

 

No segundo dia seguindo pela I-70, repleta de carros abandonados, um cadáver ou outro ocasionalmente marcando território, o ka-tet enxerga uma forma estranha quilômetros adiante. Alguma coisa parecida com um prédio, refletindo um brilho verde esquisito. Mas, antes de chegarem lá, montam acampamento para passarem a noite e é então que Roland conta sua história.

 

Será um faroeste – disse Eddie. – Todas as histórias de Roland, quando você as observa mais de perto, viram faroestes.

 

O flashback – que dura praticamente o livro inteiro –, conta a história de Roland e seus amigos de infância logo após o pistoleiro ter passado em seu teste e conquistado as armas de seu pai. Acontece que Roland foi provocado a desafiar seu professor pelo menos dois anos mais cedo do que deveria, porque viu Marten, o mago e conselheiro do pai, praticamente na cama com sua mãe. Marten queria que Roland fizesse exatamente o que fez, mas não esperava que o menino passasse no teste e se tornasse o pistoleiro mais jovem que jamais existiu.

 

Quando Steven, seu pai, volta de viagem e descobre o que aconteceu, dá uma senhora bronca no filho. Diz que já sabia sobre a traição da mulher há dois anos e o manda para o leste com outros dois companheiros. Mais para tirá-los do caminho de Marten do que qualquer outra coisa. Os dois companheiros são Cuthbert e Alain, os melhores amigos de Roland, de certa forma representados no ka-tet atual por Eddie e Jake.

 

Não tenho opinião – disse Cuthbert de imediato. – Não, realmente nenhuma. Opinião é igual política, e política é um mal que tem levado à forca muita gente jovem e bonita.

 

O trio vai para a cidadezinha de Hambry sob o pretexto de que estão contando cavalos e outros bens para a Afiliação. São tempos difíceis, e quanto maior for a vantagem contra Farson, o Homem Bom, melhor. Teoricamente, seus pais os havia mandado para um lugar tão seguro que seria até entediante, mas há uma conspiração a favor de Farson bem no coração de Hambry, contando com o prefeito, seus homens e a Associação de Cavaleiros. Além disso, Roland se apaixona por Susan, filha do falecido Pat Delgado, que era responsável pelos cavalos do baronato (e provavelmente havia ido contra a conspiração), e futura concubina do prefeito. Futura porque o ato só seria consumado na noite da colheita, dali a três meses.

 

Não vou me demorar aqui, porque, por mais que a história seja boa, eu não gosto da Susan e reler este livro duas vezes seguidas (uma em português, a outra em inglês) foi um verdadeiro desafio. Acho que o King tem sim alguma dificuldade em escrever personagens mulheres, são poucas as que realmente me ganharam e nenhuma delas veio de Torre Negra. De qualquer maneira, a conclusão da sequência de Hambry é fantástica e faz valer a pena as páginas e mais páginas de melação com a Susan.

 

De seu campo de rosas, a Torre Negra grita com sua voz de animal. O tempo é uma face na água.

 

Terminado seu relato, Roland fica emocionado por ter conseguido falar sobre tudo aquilo pela primeira vez e o ka-tet novamente se coloca a caminho do que quer que seja que se ergue à frente. No fim das contas é um castelo de esmeraldas, como o que Dorothy encontra em Oz, e, ainda faltando alguns quilômetros, eles encontram enfileirados na rodovia sapatos vermelhos feitos sob medida para todos: uma bota de cowboy para Roland, botinhas para as quatro patinhas de Oi, capinhas para as pernas de Susannah, oxfords para Jake e botas de cano curto e saltos cubanos para Eddie. O que fazer senão avançar a distância até o castelo, calçar os sapatos e ver o que acontece?

 

Atravessaram os portões com a ajuda dos sapatos, andaram pelo comprido corredor esverdeado, que parecia que não iria acabar nunca, e finalmente foram parar em uma sala ampla e vazia, exceto por um trono gigante (e verde) no meio dela. A princípio vazio, o trono de repente é ocupado por ninguém menos que Marten, o ex-mago e conselheiro do pai de Roland. Marten dá a eles (a Roland principalmente) a chance de renunciarem à busca pela Torre, a qual todos rejeitam com veemência. O mago então os obriga a observarem (quase participarem) do final da história de Roland – da parte de sua narrativa que ele havia optado por não revelar.

 

Depois disso, o grupo acorda de volta no caminho do feixe de luz, o castelo já há quilômetros de distância. Ao verem que seus sapatos vermelhos estão usados e sujos, e que as rodas da cadeira de Susannah deixaram um rastro atrás deles, percebem que andaram até ali, apesar de não se lembrarem de nada. Acham comida e bebida (Nozz-A-La, a Coca-Cola do mundo médio) em suas mochilas, e um bilhete de Randall Flagg (Marten e Walter. Lembram do Homem de Preto?) em uma árvore próxima, dizendo que da próxima vez não será tão bonzinho.

 

Problema, e na nossa estrada. Vamos chegar lá quando for a hora. Não é preciso viver o problema antes de o problema começar.

 

De todos os livros, Mago e Vidro é o que menos avança na narração atual. Em compensação, é o que mais revela do passado do Roland, uma história que ganhou adaptação para os quadrinhos pela Marvel. Com cinco arcos dedicados à história que nós sabemos, mas que não é contada na série principal, somente o primeiro é um repeteco do que foi narrado por Roland na I-70. Finalizados os cinco arcos (The Gunslinger Born, The Long Road Home, Treachery, The Fall of Gilead e Battle of Jericho Hill), a Marvel partiu para a adaptação da série em si, começando com O Pistoleiro. O quadrinho mais recente foi lançado em setembro de 2015 e se chama Lady of Shadows, já fazendo parte d’A Escolha dos Três.

 

No Brasil, a Panini que ficou responsável pela publicação das HQs e sei que a Suma publicou os arcos em capa dura até Jericho Hill, mas nunca mais vi nem sombra deles em lugar nenhum. Infelizmente (e por enquanto!), só tenho o primeiro, Nasce o Pistoleiro, que serve como ilustração de Mago e Vidro.

 

Não sei se é bom ou ruim – perdi todo o senso de perspectiva por volta da página 600.

 

Em português, Mago e Vidro tem 816 páginas na edição da Objetiva (não sei se a Suma mudou a diagramação, acredito que não). Em inglês, Wizard and Glass tem 672 no paperback ilustrado da Plume que achei em um sebo. Como sempre, aconselho a leitura do original, porque muita coisa se perde na tradução (horses, of courses).

 

Considerando toda a série, este quarto livro é meio atípico por se tratar de um flashback monstruoso, mas não deixa de ser bom. Não é, contudo, melhor que o terceiro, e pra mim nem chega perto de Lobos de Calla, o quinto volume. Dou nota 3, de 5.

 

And now, all these years later, it seemed to him that the most horrible fact of human existence was that broken hearts mended.

 

Na Estante

Título: Mago e Vidro (A Torre Negra Vol. 4)

Autor: Stephen King

Páginas: 816

Editora: Objetiva

 

Mônica
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