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24/mar

Vamos prosseguindo com essa fic que está mais demorada que encomenda online. Hoje é dia de POV da Erin em algum canto de Chicago que só lendo pra saber. ♥

 

 

 

Capítulo 4

 

Erin foi arrancada de seu sono – milagrosamente profundo – por causa de um pesadelo. Abriu os olhos em um rompante e percebeu que ofegava. Até seu corpo se habituar à realidade, ainda pôde sentir o colchão puxando-a para baixo, como se quisesse engoli-la. Suas mãos tatearam desesperadamente em busca de apoio enquanto sua mente tentava lhe avisar que estava tudo bem. Que não passava de um sonho ruim.

 

O pesadelo fora tão real que lhe custou tempo para notar que não estava submergindo no oceano. Estava a salvo, repetiu mentalmente até as batidas cardíacas ficarem mais lentas.

 

Passado o susto, os olhos desorientados percorreram pelo ambiente desconhecido. Foi rápida em notar, em meio ao turbilhão de emoções que a açoitava por causa do pesadelo, que não estava na casa de Bunny – a falta da beliche ajudou no processo. Nem em seu próprio apartamento – a localização da janela também lhe ajudou nesse eficiente reconhecimento. Então, aonde estaria?

 

Seus dedos apertaram as pálpebras na tentativa de fugir da claridade quase total do quarto. A falta de reconhecimento trouxe pânico – sentimento que se tornara bem familiar agora que passava mais dias entorpecida que consciente. Se dera conta de que não se lembrava como fora parar ali – o que não era relativamente uma novidade – e nem de quem era aquela cama – nenhuma novidade nisso também. Aqueles móveis cinzas, aquela cortina branca e o cheiro do que parecia ser lavanda não lhe diziam nada.

 

Mas era quarto de mulher, apurou, soltando a respiração lentamente pelas narinas. Uma conclusão que lhe dera um pouco de tranquilidade.

 

A mente anuviada dela não estava mais tão preocupada em desvendar aonde estava. Nem o que faria neste novo nascer do dia. Seja lá quem fosse sua anfitriã, essa pessoa estava bem confortável em deixá-la ali, sozinha, em uma cama espaçosa, dormindo até o corpo não aguentar mais, sem vigiá-la. Ao contrário de Bunny que, quando ela retornava vezes ou outras das noitadas, fazia questão de perambular no corredor para saber dos danos que causara e não exatamente se estava bem e viva.

 

Seja lá de quem fosse aquele quarto, era bom saber que não o compartilhava com um estranho. Ou que não estava amontoada entre outros corpos. Era até que bom saber que estava sozinha.

 

Só que a sensação de que havia algo errado a inquietava. Nos últimos dias, não encontrara ninguém caridoso para assegurá-la daquela maneira. Alguém, especialmente, que não quisesse algo em troca. Observação que a fez sentir a vocação de detetive palpitar no seu organismo. Nem com todas as bebidas e entorpecentes, esse gene não havia se dissolvido do seu DNA.

 

Nem se tentasse muito.

 

Dos últimos dias para cá, festejara e caíra em diversas camas. O drama vinha quando despertava porque se via sóbria, o que não era algo bom, pois, passado o rodopio mental, gastava os instantes seguintes para remontar a noite anterior. Quando não conseguia, botava um sorriso falso na face e aceitava a situação – ou ao menos se convencia disso. O importante era se manter em constante movimento, principalmente para escapar do falatório matinal de Bunny, sempre muito apoiador sobre sua nova rotina.

 

Sem contar que se manter em movimento tirava Nadia da sua mente.

 

O que também não vinha funcionando mais.

 

Naquele instante, Erin sentia o gosto da desistência amargurar na sua garganta – junto com o agridoce do que sabia ser vômito. E se sentia exausta. Podia sentir que seu organismo já pedia arrego. Seu corpo estava no limite, percebeu ao menor movimento que fizera na cama. Suas pernas pareciam feitas de geleia, bem como seus braços estirados sobre o edredom. Sua vista estava cansada também, implorando para que mantivesse os olhos fechados. Era um misto de exaustão física e emocional.

 

Uma fina dor de cabeça começou a se insinuar agora que estava um pouco mais desperta e consciente, mas nada era pior que a sede que sentia. Parecia que estava desidratada. Virou um pouco o pescoço e parecia que tinha sido golpeada na nuca.

 

Tudo nela incomodava.

 

Esforçou-se em rebobinar a noite anterior. Não conseguiu. Não por completo. Os fragmentos que sua mente lhe deu não eram bonitos e envolviam Landon.

 

Se fosse adolescente, provavelmente estaria aos prantos naquele momento, pois vivera em um efeito em cadeia. Uma vez que Bunny dava trabalho, ela procurava alívio na rua. Até que em uma noite, a busca por esse alívio resultara em cadeia, Voight e… Absolvição.

 

Suspirou, também sentindo dor nas costelas. Estava impossível ser Erin Lindsay.

 

Forçou-se a girar na cama para ficar de frente para a janela. A cortina semiaberta denunciou mais um dia nublado, frio, daqueles de bater os dentes. Daqueles que só quem amava Chicago conseguia resistir. Seus olhos arderam com o pequeno feixe de luz e se encolheu, desprotegida, à mercê da sua existência. Queria ver as horas daquele dia passar em silêncio e botar na balança o que tinha feito desde que se abandonara.

 

Não aguentava mais carregar essa Erin Lindsay nos ombros, essa era a verdade. Uma verdade de dias e que voltara com força total na noite anterior. Só que precisava de ajuda. Uma ajuda que não pediria porque era cabeça dura demais para isso. Internamente já agradecia o favor da pessoa que ainda não se revelara pela oportunidade de sobriedade e de quietude – um grande avanço considerando que desviava caminhos para não se enfrentar, o que lhe matava aos poucos. Precisava e muito daquilo, percebeu.

 

Conseguiu, enfim, se lembrar de mais fragmentos da noite passada. Tinha ido a um festival. Entediou-se. Fizera sexo com Landon. Sentira nojo. Vomitara. Ligara para Halstead.

 

O último pensamento gelou seu estômago.

 

Não podia estar no apartamento de Halstead. Lá não cheirava a lavanda, mas a cerveja.

 

Roubou um pouco de oxigênio do ambiente enquanto dobrava mais as pernas junto a barriga para espantar o horror que seria encarar Halstead. Vinha fugindo dele, óbvio, mas não queria encontrá-lo de forma alguma. Não naquele estado de vergonha pessoal.

 

Não sabia porque telefonara. Foi completamente impulsionada pelo pedido dele via mensagem de voz. Tudo por causa dos seus instantes de vulnerabilidade.

 

De um instante em que sentira falta dele.

 

Concentrou-se em somar mais informações que retinha do dia anterior. Suspirou aliviada.

 

Possivelmente, estava no apartamento de Burgess. Só podia ser para se sentir tão segura.

 

Mas não por muito tempo. Os pensamentos traiçoeiros logo revelaram o que não queria ver. As mãos… As mãos intrometidas em seu corpo enquanto cambaleava o mais longe possível das luzes e do barulho ensurdecedor de música. Uma música que a fez se recordar de Nadia e abrir margem para a sequência de gatilhos de novo.

 

O corpo de Nadia. O abraço de Jay. O sorriso macabro de Yates. Voight. Bunny. Landon. Ela. O vazio.

 

A bile subiu seca na sua garganta, o que a fez se levantar de pronto, tampando a boca, olhando para os lados sem saber aonde era o banheiro. Acabou vomitando em um balde de lixo que estava escondido embaixo da escrivaninha.

 

Limpando a boca com as costas da mão, Erin ajeitou a postura e observou a organização extrema de Burgess. Era extrema mesmo. Nem ela era assim tão organizada, embora soubesse aonde estava sua agenda, celular e a chave do apartamento em um redemoinho de coisas pessoais. O notebook da policial estava desligado, mas ocupava o exato centro da mesinha. Havia uma coleção de cadernos empilhados, post-it coloridos, pote de canetas e algumas fotografias. Atreveu-se a pegar um quadro em que ela posava com Ruzek. Outro companheiro de trabalho que nem recordava o formato do rosto.

 

Naquele instante, Erin sentiu como se anos a tivessem distanciado da sua antiga vida.

 

Permitiu-se que seus passos a norteassem pelo quarto, como se fizesse uma vistoria. Encontrou um mural e estancou ali. Família. Amigos. Formatura da escola. Formatura da Academia. Treino da Academia. Primeira vez que vestira o uniforme da patrulha.

 

Burgess, uma colecionadora de memórias.

 

Os braços de Erin a abraçaram pela cintura em sinal de desconsolo. Não tinha um mural. Não colecionava tantas memórias visuais, só de quem importava. Praguejou consigo mesma sobre o fato de que não deveria ir por aquele caminho, mas foi meio inevitável não se perguntar porque não demonstrava tanto apego com relação as outras pessoas.

 

Gostava das pessoas. Realmente gostava. Só demonstrava quando era pertinente. O problema é que havia uma trava dentro dela que, ao menor sinal de cerco, a fazia fugir. Não conseguia lidar com carinho gratuito e buscava fugas. Pior ainda quando se sentia segura, pois dava um jeito de tornar tudo um jogo de gato e rato. Como fez com Halstead.

 

Um barulho a atraiu para a porta. Viu Burgess escorada no batente, arrumada não com o uniforme da patrulha, mas com suas roupas de rotina. Deduziu que ela teria assumido um posto na Unidade de Inteligência e, internamente, ficou feliz. Kim Burgess era uma mulher talentosa e dedicada. Amava o seu distintivo como um dia ela já tinha amado.

 

Acima de tudo, Burgess tinha fibra. Tanta fibra que quase morreu em nome do trabalho e agora estava ali, sendo babá de uma bêbada.

 

Elas se encararam por certo tempo. Tempo que Erin percebeu ser aquele em que uma pessoa fica tentando encontrar as palavras certas para iniciar uma conversa. Conseguiu captar uma diferença no comportamento de Burgess, pois, geralmente, ela tentava amenizar qualquer situação logo de cara e gaguejava por causa das emoções que vinham à tona.

 

Dessa vez, ela parecia intencionada a lançar as palavras certas. O olhar dela era penetrante e Erin sentiu uma fina corrente de adrenalina inchar suas veias. Se fosse para discutir, estava pronta. Melhor do que ouvir um “vai ficar tudo bem”, afirmação que a tirava mais do sério que “logo passa”.

 

Erin girou nos calcanhares e puxou a cadeira. Sentou-se e depois esticou as pernas para apoiar os pés na escrivaninha impecável de Burgess. Seu queixo se empinou e seus olhos se estreitaram. Sinais de desafio. Perguntou-se, naquele silêncio, porque tinha ligado justamente para ela. Trabalharam no mesmo Distrito, mas nunca foram próximas. Compartilharam um caso ou outro, mas nada o bastante para uni-las.

 

A não ser um caso que incluíra Nadia, sua mente a relembrou para seu próprio horror.

 

– Banheiro à esquerda. Guarda-roupa. Café na cozinha.

 

Foi o mais sucinta que Burgess conseguiu ser.

 

– Só isso? – indagou Erin claramente estupefata. – Eu ligo para você, no meio da noite, provavelmente vomitei no seu carro, e tudo que me diz é isso?

 

– Queria uma serenata? Ou, tadinha da Erin, ela não sabe o que faz?

 

Ali estava a Burgess que mais gostava. Não que não gostasse da versão sensível, gostava sim, mas aquela versão era a que valia mais a pena abrir uma discussão.

 

– Não discuto com ninguém de barriga vazia.

 

O dedo indicador de Burgess voltou a indicar o banheiro. Erin entendeu o recado e resolveu se apressar. A policial estava pronta para ir trabalhar e ela estava empacando o processo.

 

Um novo tormento perpassou na sua mente enquanto tomava banho. O que Burgess fazia enquanto estava embaixo daquela água fria? Fofocando com Voight? Tinha ligado para Bunny? É fato que ela não a conhecia com a palma da mão, provavelmente não saberia para quem ligar, mas só o fato de sair e dar de cara com uma lembrança das pessoas que evitara há dias não era uma boa pedida.

 

Era a continuação de seu pesadelo particular.

 

Pensando bem, por mais que tivesse desafiado Burgess por alguns segundos, não estava a fim de conversar. O que era uma burrice considerando que tinha pedido auxílio a uma pessoa que tinha tudo para lhe dedar – e pelo visto não o fizera.

 

Tinha telefonado para ela por instinto. Agora, sabia que seu inconsciente a fizera telefonar por se tratar de uma pessoa neutra. Que não lhe lançaria um olhar frio e distante como Voight ou conselhos idiotas como Bunny ou berros de inconformismo como Halstead.

 

De todos as pontas que poderia tocar para ser alfinetada, escolheu a lança que nunca recorrera em toda sua carreira na Unidade de Inteligência.

 

Burgess poderia lhe dar um sermão e sabia que seria movido por algo muito além do relacionamento que tiveram no trabalho. No caso, Nadia, e isso doeu na boca do seu estômago. Atreveu-se até a olhar para a janela na tentativa de planejar uma fuga imediata.

 

Covarde.

 

Trocou-se, relembrando que essa era a segunda vez que pegava roupas emprestadas de Burgess. A primeira foi no dia seguinte a noite em que cedera aos velhos hábitos. O dia em que o demônio em forma de Landon retornara e virara a desculpa para seus comportamentos autodestrutivos. O dia em que tudo mudara.

 

Mais relaxada, ela sentia os efeitos colaterais da noite anterior criar comichões em sua pele. Olhou-se no espelho e passeou os dedos pelos fios molhados. Parecia um pouco melhor, embora claramente abatida. Viu marcas negras em alguns cantos dos seus olhos por causa da maquiagem escura. Os lábios estavam ressequidos, sinal de uma ressaca que estava impregnada em cada parte do seu corpo, e o nariz estava congestionado.

 

Estava uma derrota.

 

Seu aparecimento na cozinha assustou Burgess, que se apressou a abaixar a tampa do seu notebook. Ela escondia algo, Erin notou. O sobressalto dela valia mais que mil palavras, e deduziu ser algo a ver com um novo caso.

 

Sentiu uma pequena curiosidade dominá-la, mas fingiu que não estava interessada. Preferiu analisar o que tinha na mesa e sentiu vontade de vomitar de novo.

 

Não tivera opção a não ser aceitar a xícara de café que Burgess empurrara na sua direção com a ponta dos dedos. As mãos de Erin abraçaram a caneca enquanto inalava o cheiro da semente tostada. Inclinou a cabeça, notando que a ilustração no fundo branco era o símbolo da polícia. Não conseguiu segurar um riso irônico enquanto bebericava o café.

 

– Não vou lhe forçar para uma conversa.

 

– Isso ajudaria muito, pois não estou a fim de falar nada.

 

– Mas considerando seu estado de ontem, – Burgess empurrou o notebook para o lado e ocupou a cadeira de frente para Erin. – meu caminho até você sofreu uma grande interrupção. E essa interrupção só entrará neste espaço caso você não se comporte.

 

Erin se sentiu dentro de uma sala de interrogatório. Mesmo que não pudesse ver a porta da sala, era para lá que Burgess olhava por cima do seu ombro.

 

– Você chamou o Halstead. – Erin afirmou, sentindo um frio no estômago.

 

– Você o chamou.

 

Burgess parecia se divertir com o momento confuso de Erin.

 

– Ele se tornou meu parceiro de trabalho e não aguento a cara de sofrimento dele. Aqueles olhos verdes tristes, perdidos na noite, é meio difícil de aturar.

 

Os dedos de Erin deslizaram pelo canto da testa. O rosto de Halstead era muito fácil de desenhar sem ver e sentiu um arrepio na espinha ao menor vislumbre mental dele.

 

– Chegamos praticamente ao mesmo tempo – continuou Burgess, percebendo o brilho de raiva nos olhos de Erin. – Tentei contê-lo o máximo que pude, mas foi bem difícil.

 

– Deveria denunciá-lo por ser um tremendo stalker.

 

– Ele só está preocupado.

 

– E eu estou 100% nem aí.

 

Erin escondeu o rosto por detrás da caneca e se manteve daquele jeito. Usou-a como uma máscara para se proteger de Burgess e esconder o ódio que sentia pela burrice de ter ligado para Halstead. Claro que ele a rastrearia. Principalmente por ter um amiguinho que respondia agora por toda a tecnologia da Unidade de Inteligência.

 

– Não sou sua melhor amiga, mas entendo o que anda sentindo e o que anda fazendo.

 

– Ah, é mesmo? – Havia desdém na voz de Erin. – Você me parece tão perfeitinha, Burgess. Sabe, daquelas mulheres que se bota no potinho e arremata com um laço. Ruzek se deu bem.

 

Erin ergueu o dedo anelar da própria mão esquerda. Sinalizava o anel de noivado de Burgess.

 

A maldade não afetou a mulher à sua frente, que prosseguiu o discurso sem perder a compostura.

 

– Me ofender não a fará se sentir melhor – rebateu Burgess, apoiando os cotovelos na mesa. – Eu não sou seu problema. Você é seu problema. Como fui a felizarda a receber sua ligação, só me resta tentar ajudar e depois seguir com minha vida… Perfeitinha.

 

As sobrancelhas de Erin se altearam rapidamente enquanto ria de um jeito desconfortável.

 

– Erin, já se passou uma semana e seu estado é deplorável.

 

Toda vez que Burgess tentava se impor, os ombros dela tencionavam, um sinal de insegurança que sempre virava motivo para Platt fazer chacota dela.

 

– Você não atrairá minha atenção elogiando minha falta de beleza – disparou Erin, com menos azedume na voz. – O que você quer ouvir para ele não ter que entrar?

 

– Quando disse que eu sei o que você sente, é porque eu sei o que você sente. Porém, de uma perspectiva completamente diferente. – Burgess se serviu de mais café só para ter com que ocupar as mãos. – Não faz muito tempo que tomei um tiro.

 

– E esse será o seu exemplo para me convencer de que preciso voltar ao normal?

 

– Eu perdi um pedaço de mim mesma quando isso aconteceu. – Ela ignorou a interrogativa de Erin. – Nunca saberei explicar como me senti, mas é verdade que algo de mim foi tomado. Porque alguém se sentiu no direito de deixar uma arma de fogo pronta para matar quem fosse. Você viu a morte, mas isso não anula quem realmente a sentiu na própria pele.

 

Erin se escorou na cadeira. Uma coisa que aprendera na Academia é a influência da linguagem corporal. Isso poderia dizer muito ou pouco ao interrogador.

 

Naquele momento, queria deixar claro que não estava nem um pouco a fim de aprofundar aquela conversa. Não queria enfrentar a si mesma em pleno café da manhã sem ter argumentos fortes para se defender.

 

– A diferença aqui é que você escolheu se perder em vez de enfrentar. – Burgess percebeu que cutucou a ferida ao ganhar atenção completa de Erin. – Eu escolhi enfrentar e não foi o Ruzek que segurou minha mão para me manter de pé. Da mesma forma que não é o Voight que fará isso por você. Ou o Halstead que está do lado de fora como seu amigo e mesmo assim não o deixei se aproximar por imaginar o quanto a deixaria desconfortável.

 

Erin contemplou o rosto lívido de Burgess na tentativa de encontrar sua força de vontade para resistir aquela conversa. Intimamente, sabia que as intenções dela eram boas, mas não queria quebrar. Não quebraria na frente dela ou de quem quer que fosse.

 

Por um momento, sentiu o embaraço de tê-la cutucado instantes atrás, já que a vida dela não era da sua conta. Burgess estava sendo gentil. Precisava devolver da mesma forma. Se não fosse por ela, teria dormido em alguma vala ou na cama de um estranho.

 

– Agradeço por isso. – Erin afirmou, com sinceridade. Não queria lidar com Halstead mesmo. – Mas por mais que tente nos colocar no mesmo patamar, não há um ponto que nos conecte e nos bote na mesma situação. Entende?

 

– Nosso ponto em comum se chama Nadia e me surpreendi ao receber sua ligação. Achei irônico, porque estava disposta a ir atrás de você. Não pelo Voight. Não pelo Halstead. Nem pela sua mãe. Mas por saber que, talvez, com uma desconhecida fosse mais fácil conversar.

 

Um novo silêncio se instalou entre elas. Só que mais amigável.

 

– O fato de você ter sido tutora de Nadia, não anula o que sinto. Estou disposta a lhe ajudar no que for preciso. Até ceder meu espaço para você, se quiser.

 

– Não quero atrapalhar sua rotina e nem muito menos seus encontros com Ruzek – avisou Erin, se inclinando sobre a mesa. – Eu estou bem, de verdade. Só tive uma péssima noite.

 

– Você não se lembra de nada da noite passada não é mesmo?

 

Uma sombra tirou o brilho do olhar de Burgess. Da mulher que parecia uma irmã mais velha, indicando o que a mais nova deveria fazer para contornar a ressaca, ela migrou para uma outra versão que Erin nunca vira. Uma claramente perturbada.

 

Erin mudou de posição imediatamente tendo em vista a tensão nos ombros de Burgess.

 

– Você me ligou e tive que correr atrás de você, porque, naquele mesmo instante, Voight chamou a equipe para atender um caso.

 

– No meio da noite?

 

– Como se isso fosse alguma surpresa, convenhamos.

 

Erin concordou com a cabeça. Não tinha hora para casos surgirem no colo da UI.

 

– Você estava meio distante de Chicago. Sem contar que foi um parto encontrá-la na multidão.

 

Burgess pausou. Escolhia as melhores palavras de novo.

 

– Eu a encontrei perto de uma tenda. Não era nosso ponto de encontro, mas você estava lá. – As mãos de Burgess se esfregavam umas nas outras. – Daquela distância, a vi deitada e havia um cara ao seu lado. Ele meio que… Bem…

 

As reticências não abalaram Erin. Sabia o que tinha rolado, mas a lembrança não ganhara vida.

 

– Halstead chegou logo atrás e perdeu a cabeça. Socou o cara.

 

Os olhos de Erin se arregalaram. O temperamento de Halstead sempre fora algo que a preocupou. Ele não tinha limites quando estava com raiva.

 

– Só que o depois foi ainda pior, Erin. Você não parecia você mesma. Você estava entorpecida. Completamente. Quase… Inconsciente. Não era caso de overdose, mas parecia. Você deve ter usado mais alguma coisa enquanto me esperava.

 

Burgess tinha voltado a pose de irmã mais velha. A voz dela tremia e tinha aumentado alguns timbres.

 

– Você estava completamente suscetível e cheguei a achar que você estava morta naquela tenda. Quando a vi, decidi que não seria a pessoa com mais péssimas notícias.

 

Gentilmente, Burgess puxou o braço de Erin e indicou um curativo ali.

 

– Foi uma madrugada longa. – O dedo dela repousou no que Erin conheceu ser um band-aid. – Levei-a ao hospital para tomar soro na veia porque você estava desidratada. Esperei até que estivesse um pouco consciente e lhe ofereci carona de volta para sua mãe.

 

– E por que diabos não estou lá?

 

– Você me pediu para não fazer isso.

 

Aquilo sim pegara Erin de surpresa. Ao ponto de ficar boquiaberta.

 

– Você é uma ótima contadora de histórias Burgess. Deveria escrever um livro. Tenho certeza que suas mentiras virariam um mega best-seller.

 

– O que eu ganharia mentindo, hum? – Burgess indagou com energia. – Você implorou para não ir, como uma criança com medo dos pais. E acatei e a trouxe até aqui. Você está de novo em Chicago, a salvo, e preciso saber o que pretende fazer daqui por diante.

 

Aquela cena, aquela conversa… Tudo parecia familiar para Erin de certa forma. Chegou a ter um tipo de conversa daquele jeito com Nadia. Claro que foi com diretas secas, pois o que afligia sua amiga como ser humano era muito mais que as drogas. Havia a prostituição também, somada aos sentimentos de baixa autoestima e autodúvida.

 

Sentimentos que conseguia se relacionar vez ou outra quando estava desperta o bastante para mensurar o que vinha fazendo.

 

Ironicamente, tinha se tornado projeto de Burgess e estava ok com aquilo.

 

– Sobre o que é o caso? – perguntou por ímpeto vendo os dedos nervosos de Burgess tamborilarem sobre a tampa do notebook.

 

– É isso o que você quer? Saber do novo caso?

 

– Apenas – Erin largou a caneca de um jeito brusco. Espirros de café brotaram na tampa do notebook da Burgess -, me distraia enquanto penso em uma resposta.

 

– É sobre algo que não a faria se sentir bem. Tem haver com uma mulher seguida de morte. Nada mais.

 

Erin viu a vontade dela em contar mais. Um duelo interno que uma vez vencido colocaria muitas coisas a perder. Quis insistir sobre o caso, fazia tempo que não pensava na rotina da Inteligência, e a curiosidade parecia aliviar a vida que vinha tendo nos últimos dias. Era como se estivesse atendendo ao seu chamado e ao mesmo tempo querendo negá-lo.

 

– Fico feliz por Voight tê-la mantido na Inteligência. – Mudou de assunto por causa da incerteza sobre querer forçar a barra para saber do que se tratava o caso. – Tenho certeza que suas mãos não estão trêmulas como as minhas e seus olhos não tão míopes quanto os meus.

 

– Sabemos que isso é temporário. Afinal, Voight olha todos os dias para a entrada da Inteligência, como se a esperasse cruzar o corredor.

 

Erin se moveu de um jeito desconfortável. Como se sentisse uma súbita dor na coluna, fazendo-a se contorcer para procurar uma posição melhor.

 

– Você é insubstituível e não digo isso para tentar convencê-la de que precisa voltar. Uma hora você voltará. Terá seu tempo para isso. O que quero dizer é que por mais que queira manter o meu posto na Inteligência, só estou lá até você voltar.

 

– Não sei porque essa esperança tola sendo que claramente não voltarei.

 

– Eu não nasci para ser parceira do Halstead. Aquele cidadão é muito difícil de lidar.

 

As duas riram, fracamente. Cúmplices do temperamento difícil de Halstead.

 

– Burgess, se eu fosse chefe daquele lugar, você já teria sido promovida desde o caso Rolo. Eu estava com os caras, mas não conseguia parar de pensar em você e na Nadia. Até no idiota do Halstead que tomou uma bela de uma surra.

 

Erin alisou a sobrancelha, contemplando a mesa, revivendo o caso naquele instante.

 

– Nadia salvou minha vida – confessou Burgess com certo saudosismo. – Não pela carreira de cocaína, mas por ter se tornado o meu escudo. Foi meu primeiro caso de risco, fiz a maior burrada e parece que ainda sinto o peso do soco no meio da minha cara.

 

Erin permaneceu isolada em seus pensamentos. De fato, Burgess e ela tinham Nadia em comum e nunca discutiram sobre isso. Nem discutiram a perda, justamente por nunca terem tido um momento como aquele.

 

– Escute, naquela noite, o que aconteceu é que você me protegeu junto com a Nadia. – Burgess atraiu a atenção de Erin de novo. – Você é a única detetive feminina na Inteligência que se importa em vasculhar casos como aquele com mais rigor. Não estou esnobando os outros, pois cada um sabe o que faz. Porém, a sua sensibilidade sempre salvou vidas e trouxe justiça para a mesa.

 

– Isso está me soando como texto ensaiado, Burgess.

 

– Não jogue a negação para cima de mim. Podemos não ser melhores amigas, mas o que você sente pela perda da Nadia, eu também sinto, e sinto dizer que estou segurando um cargo na Inteligência não por mim, mas por nós duas. Alguém precisa continuar remando esse barco, só que o peso de dois remos está sendo demais. Precisamos dividi-lo.

 

Erin voltou a meditar que não quebraria, mas algo dentro dela tremeu. Tremeu ao ponto dela fungar o nariz e fechar os olhos por alguns segundos sabendo que estava prestes a ceder.

 

– Você pode achar que sua sensibilidade é sua ruína. Eu sinto isso o tempo todo quando não me acho forte o bastante para dar a cara tapa, como tem acontecido nos últimos casos dos quais você não fez parte. E, neste exato momento, estou engolindo em seco, porque estou duvidando da minha capacidade ao mesmo tempo que me preocupo com você.

 

Quando Burgess começava a cuspir palavras era difícil de interromper, Erin percebeu.

 

– Dizer que essa não é você não é justo, porque cada um lida com o luto de formas diferentes. Mas está na hora de perceber que essa dor não é só sua e que a vida continua.

 

– Isso é meio insensível.

 

– Experimente ter sua vida quase tomada de você e ver o mundo agir por caridade ao redor do seu leito, finalmente vendo você, dizendo bobagens como o quanto você é uma lutadora em nome da vida. Aí sim você vai perceber o que é insensibilidade.

 

A voz de Burgess estava alterada. Erin viu nos olhos dela o marejar de lágrimas que se recusavam a cair. Estava tão isolada no que sentia com a perda de Nadia que sua mente parecia que tinha sido apagada. Não recordava tanto assim das suas experiências anteriores até a mulher à sua frente cutucar e gerar um rememorar em cadeia.

 

Estava sendo egoísta. Desde o começo. Mas o que incomodou naquele instante é que nunca se perguntara como os outros se sentiram com relação ao ocorrido com Nadia. E lá estava Burgess, jogando sua dor para cima dela.

 

Na época do caso Rolo, Burgess estava doida para provar seu valor aos olhos de Voight. Nadia foi buscada para formar uma dupla que pudesse enganar os bandidos que investiam em prostitutas. Nunca dissera em voz alta, mas ambas tinham sido absurdamente corajosas – e morrera de medo de perdê-las.

 

Focou o pensamento em Nadia. Ela estava limpa durante aquele disfarce e consumira drogas para proteger Burgess, uma policial que não podia em hipótese alguma usar nada – o que era um risco, porque bandidos não eram burros. Quem nega droga é consequentemente um rato da polícia e Nadia se prontificara a provar o contrário.

 

O desespero que se seguiu não foi nem pelo fato de tudo ter terminado relativamente bem, mas o desespero que viu nos olhos dela por ter cheirado e por ter achado que aquilo a decepcionaria.

 

Nadia nunca a decepcionara. Até quando foi difícil resgatá-la das ruas. Era mais frustração de não fazer o trabalho direito. Um trabalho que Voight uma vez fez e a inspirara a fazer o mesmo assim que encontrasse a oportunidade. Parecia que o ciclo agora continuava, com Burgess, que a recolhera em seu pior momento.

 

– Burgess – Erin pressionou os dedos nas pálpebras. -, você não entende.

 

– O que não entendo?

 

Ela estava pronta para reprisar o mesmo discurso que ditou para Bunny. Na noite em que reencontrara Landon.

 

– Você não estava lá. Você não viu o corpo dela. Aquele sangue ainda corre quente nas minhas mãos, como se tivesse cuidado desse trâmite pessoalmente.

 

– Nada disso aconteceu por sua causa.

 

– Tudo que aconteceu na vida de Nadia foi por minha causa. – Os dentes de Erin se cerraram em descontentamento. – Desde o primeiro encontro até o último. Eu a ajudei a retomar a vida e eu terminei matando-a. Sendo assim, não, você não entende absolutamente nada. Não entende a dor que sinto toda vez que acordo e relembro que não tenho para onde ir porque sinto que deveria estar presa para pagar pelo que fiz.

 

Erin se levantou, completamente esbaforida.

 

– Como não há punição, eu busquei minha punição, e eu sou essa pessoa. – Suas mãos apontaram para ela mesma. – É pegar ou largar.

 

– Você sabe quantas mulheres são uma Nadia? – Burgess se levantou e foi até ela. Inclinou o pescoço para o lado ao reconhecer o sinal de confusão no rosto de Erin. – Milhões. Penso que você não correu atrás do seu distintivo para arregar toda vez que um caso como o de Nadia lhe afete.

 

– Vou imaginar que o espírito do Voight a possuiu.

 

– Você não pode recuar todas as vezes que um caso se torna pessoal. Você não pode recuar todas as vezes que um tiro lhe acerta em alguma parte do seu corpo. Enquanto houver vida em você e sede de justiça, outras Nadias estarão seguras.

 

– Não a própria Nadia, certo?

 

– Não, mas tenho certeza que ela preferiria ver a heroína dela nas ruas combatendo o crime que propriamente se matando por causa de um estado intermitente de negação.

 

As duas berravam uma com a outra. Foi Burgess quem notou isso e resolveu mudar o norte da conversa:

 

– Tive esse momento com Roman, sabe? Quando eu me vi prestes a morrer de novo. Indaguei se era Murphy na minha vida querendo me castigar, querendo me dizer para desistir dessa de usar distintivo e de pegar os caras maus. Foi outro dia difícil e acreditei piamente que ninguém nos encontraria. Houve uma hora que simplesmente me desliguei porque minha vida passou a importar menos. Não porque estava descrente, mas porque valia a pena se sacrificar pelo que sempre acreditei.

 

Burgess deu direito de resposta para Erin e, como não recebeu, concluiu:

 

– Você não está se sacrificando por nada disso.

 

– Não ficarei aqui para ouvir tanta baboseira.

 

– Boa sorte ao abrir a porta. Halstead está prontinho para a fase 2. A não ser que você queira saltar da janela ou algo do tipo. Já que estamos no modo covardia, não me surpreenderia vê-la saltar só para sentir um pouco mais de dor.

 

– Por que você o manteve aqui?

 

– Porque sei que você detesta os berros dele.

 

Sim, era verdade. Quando ele vinha todo cheio de si e cheio das verdades, Erin o odiava – algo que logo passava porque esse era Halstead. Ele só sabia ser irônico e fazer barulho.

 

A mente de Erin começou a rodopiar. Lembrou-se da mensagem de voz de Halstead. Do pedido para que ligasse nem que fosse uma vez. Da última conversa em que ele prometera protegê-la, sem se importar com o que diabos estava fazendo. Sentiu uma súbita vontade de quebrar Burgess por inteiro, mas o que sentia em destaque era a covardia de ter que encarar justamente aquele que fizera questão de contornar por dias.

 

Modo covardia, por algum motivo, aquela afirmação de Burgess a irritou. Foi um desafio velado, o que a fez imediatamente ir até a sala e abrir a porta.

 

Viu Halstead escorado na parede, digitando algo no celular.

 

O mundo tinha congelado ao redor dela.

 

– Você está terrível.

 

Parecia que alguém havia roubado o oxigênio de Erin. Ela se viu sem reação quando o olhar dele encontrou o seu. Parecia que tinha sido uma eternidade que não o via e sentiu algo se agitar dentro dela. Algo que reconheceu como saudade.

 

Podia enfrentar Voight quantas vezes fosse preciso. Já tinha um modo de operação com ele, especialmente quando envolvia decepções. Ou então, expectativa. Ele era muito claro com relação as suas opiniões, independente se eram felizes ou trágicas. E ele não dava o braço a torcer até que a pessoa que recebeu o ultimato reconheça o erro ou simplesmente ceda.

 

A situação era outra quando Halstead entrava em cena. Ele não tinha cobranças paternas. Ele tinha cobranças de parceiragem. Poderiam ter tido um pequeno affair, mais conhecido como uma das melhores semanas da sua vida, só que ambos eram amigos acima de tudo.

 

O início de suas carreiras praticamente coincidiu e viram as mesmas coisas inimagináveis durante o serviço, o que os tornaram não só parceiros como confidentes. Ele era mais novo que ela na profissão, mas parecia ter envelhecido mais rápido.

 

Pode ter sido a experiência no exército, não sabia, mas Jay sabia ser intraduzível. Sabia controlar suas emoções, implodindo quando já não aguentava mais. E ela era o elo mais fraco. A que despencava com facilidade, pensou, cruzando os braços na defensiva.

 

Erin ergueu a cabeça e empinou o queixo. Tom de desafio que o fez rir sarcasticamente. As sobrancelhas dele se altearam, formando 3 linhas de tensão na testa.

 

Halstead estava irritado.

 

– Não sei qual é objetivo desse encontro e imagino que ele se encerre por aqui. – Ela começou, sem dar chance dele continuar seu momento de chacota.

 

– Não encerrará até eu lhe dizer tudo que não disse por mensagem de voz.

 

Ele deu dois passos à frente. Ela dois passos para trás.

 

– Não implorarei para que volte. – Ele disse, com a voz sem um fio de emoção. – Mas quero que veja isso, apenas como consultoria.

 

– Halstead…

 

Burgess tinha chamado a atenção dele, mas não adiantou. Ele virou o celular na altura do rosto de Erin.

 

Com apenas uma foto, ela sentiu todas as emoções que prendia sobre Nadia virem à tona.

 

– Isso é uma brincadeira de péssimo gosto, Halstead? – Erin afastou a mão dele com um tapa. – Eu não tenho mais meu distintivo ou paciência para dar consultoria para vocês.

 

– Jovem. 20 e poucos anos. Morta em algum lugar de Chicago e arrastada para um museu.

 

– Cala a boca.

 

– Os ferimentos são clínicos, especialmente a que forma o sorriso de orelha a orelha.

 

– Cala a boca.

 

– Presume-se que quem tenha feito isso é um amador nas artes, um motivador que ainda não justifica tamanha atrocidade. Parece até com o caso anterior.

 

– Cala a boca.

 

Erin urrou e, por ímpeto, avançou para cima dele.

 

Era aquilo que ela precisava e não tinha se dado conta. Explodir. Estapear. Extravasar tudo que estava empacado na boca do seu estômago e entalado na garganta.

 

Não sabia aonde deferia os golpes, mas sabia que acertava Halstead de alguma forma. De uma maneira completamente cega. Só que estava fora de forma e logo foi dominada. Sentiu seu braço torcer e ser apoiado em suas costas, e o corpo dele pressionando-a contra a parede.

 

– Você pode fugir o quanto quiser, Erin, mas isso sempre será um caso inacabado para você.

 

– Você não sabe merda nenhuma do que está falando. – Ela tentou desviar dos braços dele, mas sem chance. – Se abandonei minha carreira foi justamente para não ter que lidar com merda diária.

 

– Por que já basta lidar com você mesma, não é?

 

Ela queria estapeá-lo de novo. Sabia que jogo era aquele. Halstead cutucando as feridas.

 

– É engraçado revê-la depois de uma semana, totalmente diferente da mulher que foi minha parceira. Aquela mulher que olharia para um caso desses e tomaria a frente. Que não hesitaria em dormir na rua para pegar o canalha que fez isso. Mas aquela mulher deu espaço para uma outra completamente assustada, que acha que uma fatalidade é sua culpa, e que, acima de tudo, se sente incapaz de tomar partido por si mesma.

 

– Você não tem esse direito.

 

– Tenho sim, porque eu me importo. – Halstead a virou para ele, com gentileza, e a cercou com seus braços. – Cansei de ficar no escuro tendo que persegui-la para saber se continua viva. Você é quem não tem esse direito de dominar a sua vida sem ao menos pensar em quem pode perder no processo.

 

– E isso quer dizer você?

 

– Você precisará se esforçar um pouco mais para me perder.

 

Além do ombro de Halstead, Erin notou que Burgess já não estava mais ali, como se poupasse a si mesma de ver o vexame dos dois no meio do corredor. Estava presa entre os braços dele, forçando a respiração ficar mais calma depois do súbito combate.

 

Assim como na conversa com Burgess, sentiu algo dentro dela desmoronar de novo.

 

– Tenho uma proposta pra você. – Halstead fez um grande esforço para se afastar dela. – Burgess e eu tivemos essa ideia, enquanto você dormia, e acreditamos que isso fará um pouco de bem a você.

 

Ele vasculhou o bolso da jaqueta. Tirou de lá um envelope branco e entregou para ela.

 

– Esse é o grande risco que estamos tomando por você. Nós dois, apenas.

 

– Nova Iorque. – Erin anunciou assim que tirou as passagens do envelope. – Vocês estão me mandando para a Benson?

 

– Erin, não podemos ajudá-la, mas Benson pode. Não há pessoa melhor para entender o que você tem passado e ela está disposta em recebê-la. Não há pessoa melhor que pode lhe aconselhar, independente de fazê-la voltar para a Inteligência ou não.

 

Erin desatou a rir.

 

– Isso é ridículo até mesmo para você.

 

– Não me force algemá-la e deixá-la eternamente presa no quarto da Burgess.

 

Erin esfregou a testa com força. Ponderava a ideia.

 

– Não podemos ir, – Ele indicou Burgess com um aceno de cabeça –, pois Voight não acionou a Unidade dela para esse caso e nem sabemos se ele acionará. Enfim, só acho que você deveria pegar essa passagem e prestar uma visita.

 

Burgess retornou para o centro da conversa e Erin se viu no meio da armadilha daqueles dois. Ambos estavam convictos em despachá-la para Nova Iorque.

 

Lá no fundo, sabia que não estava preparada para uma longa viagem. Estava acabada.

 

Olhou para a passagem. Ela era sedutora. Poderia apenas ir e não visitar Benson. Ou, poderia ir só para se livrar de Bunny e tentar se reencontrar.

 

Mas preferiu dizer não.

 

Sem hesitar, marchou decidida até as escadas. Ouviu passos atrás de si e estava pronta para dar uma cotovelada quando reconheceu Burgess brecando suas passadas.

 

Cuidadosamente, ela enfiou a passagem na sua mão relutante e disse:

 

– No caso Rolo, Nadia me deu um conselho que poderia ter custado o meu disfarce.

 

Erin queria arrancar a língua de Burgess. Não queria saber mais de Nadia.

 

– Burgess

 

– Apague a luz de seus olhos. – Burgess insistiu, com urgência. – Isso segurou o meu disfarce. Automaticamente, garantiu minha sobrevivência.

 

– E o que isso tem a ver com esse espetáculo combinado com o Halstead?

 

– Acenda a luz de seus olhos, Erin. – Ela afirmou com veemência. – Essa é sua sobrevivência.

 

Aquilo a atingiu mais que todas as palavras de Voight. Mais que as mensagens de Halstead. Mais que todas as palavras vazias de Bunny. Ela recordava aquele momento como se tivesse acontecido em menos de 24 horas.

 

Ouviu a voz de Nadia ecoando ao redor dela naquele momento. Apague a luz de seus olhos, foi o que ela pediu para uma empolgada e dedicada Burgess que mudou sua expressão em questão de segundos. Como tirar uma máscara e botar outra.

 

Erin espiou por cima do ombro e reconheceu a silhueta de Halstead.

 

Sentiu algo não tão novo ferver dentro dela.

 

Era seu senso de dever rasgando-a de dentro para fora.

 


N/A: no meu ponto de vista, Erin e Kim deveriam ter começado uma amizade a partir da morte da Nadia. Ambas compartilharam um momento muito particular, o caso Rolo, e sempre me incomodou essa falta de menção depois do ocorrido. Por essas e outras que fiz o trocadilho com o nome da fic – e que apareceu no diálogo de ambas neste capítulo.

 

Próximo capítulo: Halstead e Unidade de Inteligência.

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