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19/abr

Coraline descobriu a porta pouco depois de terem se mudado para a casa. Tratava-se de uma casa muito antiga – com um sótão sob o telhado, um porão sob o chão e um jardim coberto de vegetação e de árvores grandes e velhas…

 

Termômetro: ❤❤❤❤❤ (5 corações sim!)

 

Se não me falha a memória, Coraline foi um dos últimos livros que li em 2015. Ele foi escolhido com muito amor e carinho para passar um tempo embaixo do meu braço porque não estava mais tão interessada em cumprir minha meta do Goodreads. Já estava distraída, querendo o fim do ano, o que me fez ir atrás de títulos que não exigissem demais dos meus neurônios (não é ressaca literária porque há fases que leio muito e outras não por estar enjoada de ler).

 

Este livro é assinado pelo sempre muito querido Neil Gaiman e traz a pequena Coraline embrenhada em um mundo de fantasia infantil um tanto quanto dark. Ela e os pais se mudam para uma casa arquitetada para ser dividida em apartamentos e é no 2º andar que passam a viver. O lugar aonde a trama sombria, regada de expectativa vs. realidade, se desenrola.

 

Nas primeiras páginas, vemos que tipo de relação a protagonista tem com os pais. Ela tenta manter um diálogo com eles, mas acaba sendo deixada de lado ao ponto de receber a dica de explorar a nova casa e/ou de entrar em contato com os novos vizinhos. Nisso, a conhecemos um pouco: uma menina de imaginação fértil, que passa o tempo no computador também e, claro, ama explorar. Válvulas de escape tendo em vista que seus responsáveis estão sempre ocupados ou não podem falar ou precisam de silêncio para colocar as tarefas em dia.

 

Ela não tem irmãos, então, facilmente fica entediada. Seu único incômodo palpável é um gato que passa a persegui-la por todos os cantos.

 

Ao longo da leitura, percebemos que Coraline tem a vantagem e a desvantagem de ser curiosa. Quando menos espera, a brincadeira de explorar a norteia para uma porta que não leva a canto nenhum. Por detrás dela há uma parede de tijolos e a mãe explica que não passa de um bloqueio para outro apartamento. Isso poderia passar batido levando em conta a estrutura do imóvel, mas só que a situação deixa a menina intrigada para saber mais.

 

Parece nada, mas os dias de Coraline naquele apartamento se tornam mais estranhos e ficam ainda mais estranhos ao visitar duas senhoras do “condomínio”. Lá, ela se vê diante de uma consulta com borras de chá que afirma que sua vida está em perigo. Em vez de sair gritando para os pais, a personagem acha tudo muito bacana. Simplesmente porque isso pode tirá-la do tédio.

 

Mais uma vez, Coraline tenta conversar com os pais na tentativa de relatar a visão do seu dito futuro, mas logo é deixada de lado e recebe um novo pedido para que se entretenha enquanto trabalham. Um momento decisivo da personagem que se vê mais descontente do que nunca, pois as únicas pessoas que têm para conversar não a ouvem. Pensamento que a faz passar muito tempo consigo mesma, o que reforça o quanto ela é uma criança solitária.

 

Tudo parece bem, normal, tranquilo, favorável, até que a porta que afugenta tijolos retorna para o cerne do enredo. Há algumas indiretinhas ao longo da leitura, mas o bicho pega quando Coraline se vê frustradíssima e aproveita a saída dos pais para pegar a chave de acesso. Em uma nova vasculhada, a personagem dá de cara com um corredor que mais parece um túnel e é aí que a história se apresenta. Ela poderia fechá-la e fingir que nada aconteceu, mas segue o percurso às escuras. Ao chegar do outro lado, as coisas ficam sombrias e intrigantes.

 

Coraline dá de cara com um apartamento igual ao dela. Uma mãe igual a dela. Um pai igual ao dela. Vizinhos iguais aos dela. O que os difere são os olhos negros que nada mais são botões. E todos são bem pálidos. Por estar tão descontente do outro lado, ela não hesita em explorar o novo mundo que não passa de uma recriação. A diferença é que ali a personagem é ouvida pelos outros pais, que lhe dão toda a atenção do mundo, e tem seus pedidos atendidos.

 

Essa aventura poderia assustar Coraline, mas ela é bem-recebida com todos os mimos que seus pais reais não lhe dão. A outra mãe e o outro pai sabem das fraquezas da menina e as alimentam. De refeições fartas até um quarto bem desenhado e apinhado de brinquedos, qualquer criança acharia que venceu na loteria. Voltar para a realidade? Não mesmo!

 

É tudo tentador, um mundo que faria qualquer criança feliz, que impossibilitaria qualquer desejo de retorno por ter a liberdade para brincar, para comer, para dormir. Não demora muito para Coraline ficar à mercê da outra casa, mas vamos nos lembrar do gato que ressurge fiel a quem é, só com a habilidade de falar (que não acontece no mundo real). O bicho acompanha a menina e age como um grilo falante, ciente de que aquela fantasia é nociva.

 

É surpreendente o quanto do que somos depende da cama onde acordamos pela manhã, e é surpreendente o quanto isso é frágil

 

Toda ilusão dura pouco e Coraline não demora tanto para sacar que aquela outra casa, aquela outra mãe e aquele outro pai não a merecem. É aí que começamos a entrar nas morais, como o fato da outra família querer que a menina fique e costure botões nos olhos para ficar igual a todo mundo que ali vive. Fazendo isso, a personagem ficaria alheia aos arredores, à mercê do amor prometido enquanto sua identidade esvai pelo ralo. A protagonista não cede e ouve poucas e boas, como o fato dos pais reais terem ido embora por mero tédio que a filha lhes causava – o que rende outro viés na história.

 

A proposta dos botões a faz querer a realidade de volta, só que a reviravolta força Coraline enfrentar a outra mãe. Há muita coisa sombria escondida naquela outra casa que faz a personagem despertar para sua coragem a fim de acertar as contas com uma mulher que não é nada como sua verdadeira mãe. A partir daí, a situação rumo à conclusão transcorre em um rodopio, a leitura é muito rápida, e quando se menos espera o livro terminou.

 

Coraline tem muito do Gaiman, mesmo sendo seu primeiro livro para o público juvenil (e se deu bem). A fantasia que parece um conto de horror mexe com a imaginação e a cada virada de página há a impressão de que a história terminou com uma reviravolta sendo que ainda dá tempo para introduzir mais outra. Mesmo de leitura rápida, o enredo explora um dos seus ensinamentos: a coragem é um sentimento movido pelo medo. O desafio na outra casa exigiu bastante de uma garotinha que encontrou sua fuga da realidade até perceber que a outra realidade não é tão boa quando se é apenas imaginada.

 

Quando você tem medo e faz assim mesmo, isso que é coragem

 

A personagem empaca várias vezes na desesperança, mas luta em meio ao pavor de ficar presa na outra casa para sempre. Seu lado curioso e explorador a beneficia para sair daquele universo que não vale a pena por ser uma imitação fajuta da sua realidade com os verdadeiros pais. Coraline vence com o brilhantismo de uma criança dentro de um embate familiar de acharmos o nosso imaginário melhor que a realidade. Nossa criação mental de um mundo perfeito e intocável que pode render decepções piores, especialmente porque você se anula na tese de que está tudo no controle.

 

A fantasia é ótima, mas pode se tornar um verdadeiro tédio e se tornar uma verdadeira emboscada. O enredo desenrola isso. A infância com uma pitada de horror soa meio esquisita no livro, mas Coraline tem um objetivo como a maioria dos textos – se não todos – desse autor lindo e cheiroso. Nesse caso, mexer com o sentimento de rejeição de uma garotinha que não é escutada ou levada a sério pelos pais.

 

Coraline foi comparado com Alice no País das Maravilhas e o efeito para mim foi bastante semelhante. É a infância na sua pura ingenuidade, em que achamos um saco a vida que temos, em que achamos que nossos pais nem se importam conosco, e é quando o desejo de descobertas está no auge. Sem contar que ambas as histórias mexem com os pontos fracos das respectivas personagens, insatisfeitas com a realidade da qual vivem.

 

Alice fugiu em sonhos e não gostou tanto assim da experiência. O mesmo vale para Coraline que experimentou uma cópia do seu mundo real e não viu a hora de sair dela. Ambas viram que as imperfeições são de certa forma importantes e que tudo em excesso faz mal. Inclusive, essas personagens se assemelham por julgar tudo que veem. Buscar o que é real ou irreal.

 

A narrativa transcorre fora da mente de Coraline, ou seja, a voz de um adulto nos norteia – que para mim soava como o gato, mas preciso de mais pesquisa para chegar a essa conclusão. Por isso o livro é um tanto quanto aterrorizador e me perguntei mil vezes se era literatura infantil porque jamais teria lido aos 11 anos (eu acho!). Tive essa mesma sensação quando assisti Dumbo, já mais velha, inconformada com aquelas mensagens mais maduras.

 

O livro de Gaiman não é tão pesado quanto esse citado desenho da Disney (que me incomodou especialmente por causa da época) para uma criança, porque as mentes infantis são criativas. Elas aumentam e dão riqueza aos detalhes. Deu para capturar pelo POV da personagem o quanto a outra casa, a outra mãe e o outro pai são aterrorizadores e igualmente reais – e as ilustrações ajudam.

 

Não há tanto aprofundamento de trama em Coraline, o que me deixou com a impressão de ser uma short fiction. O mesmo que também senti ao ler O Oceano no Fim do Caminho. Esse livro traz os conflitos pessoais que uma criança pode ter em meio à fantasia só que de um sentido reverso. Afinal, um sonho bom se tornou um pesadelo e deveria ser o contrário se pensarmos bem. Há o trabalho em cima do claro descontentamento da personagem e temos aquela questão de aceitar os defeitos e as qualidades porque o amor é imperfeito.

 

Extra

 

Coraline também tem uma adaptação stop-motion feita em 2009. Foi bem legal assisti-la porque o que li ganha vida e o roteiro brinca bastante com a questão do sonho bom e o agridoce do despertar em uma realidade nada querida – até o processo se reverter.

 

 

Vale ler tudinho, hein?

 

Na Estante

Título: Coraline

Autor: Neil Gaiman

Páginas: 155

Gênero: Fantasia, Horror

Editora: Rocco

Stefs
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