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07/abr

Este é o primeiro livro do ano que li e que deu início a uma “brincadeira” entre amigas chamada o Livro Viajante. A receita é simples: só reunir mig@s, cada qual com um livro que nunca foi lido (nunca mesmo ao ponto de estar no plástico, ok?) para trocar entre si. Durante a leitura, é permitido fazer marcações, deixar bilhetinhos ou mensagens subliminares, e o giro para quando o livro chega às mãos do dono original – e daí se inicia outro ciclo de troca.

 

Para Sempre Alice ficou nas minhas mãos e já estava preparada psicologicamente para o chororô sem fim. Até porque me lembro da experiência de ter assistido ao filme e minha situação diante dos créditos foi deplorável. Para quem conferiu o longa, poucas coisas mudam da tela para o papel e dá sim para visualizar a personagem na pele de Julianne Moore – mesmo ela sendo originalmente morena de cabelos cacheados. A magia do cinema que pode não nos decepcionar tanto assim.

 

O livro é assinado por Lisa Genova e foi adaptado para o cinema em 2014 (e rendeu vários prêmios para a maravilhosa da Moore). A história conta entre meses a evolução do Alzheimer de Alice, desde o estágio inicial, a confirmação e o esquecimento praticamente completo da sua vida e das pessoas ao redor.

 

Tudo começa em setembro de 2003, numa palestra em que Alice simplesmente perde uma informação que costumava deslizar pela língua de tão viciada que é sua pronuncia. Algo aparentemente normal, pois somos adeptos aos famosos brancos mentais e a personagem acredita que esse foi o caso. Assim, a pequena falha de memória é ignorada como tantas outras que soam apenas como esquecimentos devido ao estresse ou à chegada da menopausa.

 

Enquanto Alice não descobre que sofre do mal de Alzheimer, a autora nos rega com momentos diminutos que indicam o quanto a mente da protagonista não é mais a mesma, que não se trata apenas de brancos na memória. Um dos mais marcantes no livro é quando a personagem conhece Beth e, minutos depois, se apresenta novamente. Enquanto a doença evolui, ela tenta manter uma rotina normal que já não é tão normal assim por causa da sequência de esquecimentos. Algo que nem preocupa os filhos e nem John (o marido), pois, de início, ninguém acha estranha a mudança de comportamento de uma mulher que sempre foi focada, analítica e responsável.

 

Só que as situações começam a sair do controle e chamam a atenção de uma Alice que não é mais a mesma por se ver cada vez mais desnorteada – como se esquecer do caminho de casa. No decorrer da leitura, acompanhamos esses brancos se tornarem mais graves e o interessante é que mesmo que a narrativa parta da perspectiva da protagonista, mergulhamos na sua negação com facilidade. Inclusive, somos golpeados constantemente por outros pontos de vista que nos trazem outro ângulo da situação. Quem a rodeia não compreende o que rola, embaraço que reflete e muito em John que acredita na questão do estresse também.

 

Por ser tão “normal” esquecer, a vida segue normalmente.

 

Os deslizes gerados por súbitos esquecimentos incomodam Alice. Ela é uma mulher assertiva e pontual, e a tomada de providências para checar a própria saúde culmina no diagnóstico de Alzheimer de instalação precoce. Da revelação a aceitação, os meses passam e nos apresentam diferentes nuances da personagem enquanto é devorada pela doença. É quando o coração começa a ficar pequeno e foi impossível não se indagar como isso acontece com uma pessoa que, considerando o livro, não faz mal a ninguém.

 

Alice ajuda e muito os outros, valoriza a sua inteligência e seu conhecimento e ama compartilhá-lo em pró de alguma coisa por ter consciência de que essa é sua vantagem. A personagem é bem-sucedida de forma íntegra, ama os filhos e o marido e recebe o mesmo sentimento em troca. É aí que batemos de frente com a questão de provação, algo que acredito e muito, pois é irônico uma mulher mestre em linguagem passar a não compreender a fala e a mente com o passar dos anos. A protagonista perde a autonomia dentro do segmento que é seu ganha pão e foi meio difícil não me perguntar o que essa situação ensinaria a ela e aos membros da família.

 

Alice dá a entender que não precisa de um choque de realidade e a doença não se destaca como um castigo. Ela tem lá preocupações de mãe que são esboçadas na sua relação conturbada com Lydia, a filha mais nova, como “faça faculdade para ser alguém”. Atitude comum que não torna esse filete de atrito uma justificativa para ela sofrer de Alzheimer. Daí, ficamos no looping de caçar o motivo do suposto carma porque há uma linha na nossa mente que diz que tudo na vida acontece por uma razão e até chegarmos lá a protagonista nos destrói emocionalmente.

 

Outro momento muito marcante (que também transcorre no filme) é quando Alice se apresenta na Conferência Anual de Atendimento à Demência e faz o discurso de abertura. Um chamado à realidade que pede para que aqueles que sofrem com uma doença mental não sejam ignorados, que haja incentivo para o diagnóstico precoce, que capacitem essas pessoas e que tenham paciência porque os erros são incontroláveis. É o auge dela no livro, pois a personagem encontra um meio de continuar a fazer um trabalho que importa, de ser influente na vida de outros com o mesmo mal, ao aproveitar o resto de memória para ser porta-voz dessa situação. Detalhe que reflete na iniciativa de formar um grupo de apoio com quem tem o mesmo tipo de Alzheimer.

 

No discurso, Alice narra que passou meses se sentindo incompetente, que deixou de participar das conversas por vergonha e que evitava ao máximo pedir ajuda até se desesperar. Um texto extremamente inspirador, que deveria ser impresso e espalhado por aí. A personagem encontra em sua já rasa capacidade de raciocinar a força que vem com o pedido de que as pessoas com Alzheimer sejam capacitadas e não limitadas/ignoradas. É a palestra mais importante da sua vida.

 

E vou botar o trecho do filme porque não sou obrigada.

 

 

De uma pessoa independente e ativa, a vemos se tornar dependente e a memória é vigiada por post-its e pelo BlackBerry inseparável. Não há uma linha que confirme tal pensamento, isso vem muito do que senti durante a leitura, mas é possível capturar que Alice é aquela pessoa que acredita que nada de ruim poderia acontecer com ela. Ao menos, não no âmbito mental. Necessariamente por causa da reputação – uma mulher dona de si, professora de Harvard, pesquisadora, com um currículo extenso e participação necessária em conferências e palestras dentro da sua especialização em linguagem. A personagem odeia o fato de ser sugada por uma doença da qual não tem controle por sempre ter tido controle de tudo.

 

Em relapsos de memória, a personagem reflete sobre o quanto sente falta de ser importante, de ter independência, de ser desejada e atarefada. Aos poucos, suas memórias silenciam, neurônios e neurônios se calam, abrindo espaço para uma mulher que passa a tratar o marido como o homem, a filha Anna como a mãe e Lydia como a atriz. É nessa transição que a escrita de Lisa se mostra poderosa, pois as confusões de Alice se tornam as nossas confusões. Houve alguns momentos que ou tive que fazer pausa dramática ou retornar para entender o que tinha acontecido na página anterior. E não é proposital por ser uma demonstração da doença.

 

A repetição de informação, o esquecimento de dar uma aula, o desespero em busca do celular perdido e a troca de nomes… É possível sentir na pele a doença de Alice, pois se segue uma linha de raciocínio impecável. Passada mais da metade do livro, tem que se segurar para não chorar.

 

Para Sempre Alice não foca na dramatização de um debate sobre o Alzheimer, aquela romantizada que geralmente acontece quando conversamos sobre tópicos que envolvem saúde mental, e traz a evolução da doença de forma um tanto quanto crua e prática. Não há parágrafos enormes explicando o que transcorre em tal momento, pois esse conflito do enredo é destrinchado na rotina, nas impressões dos outros personagens e nas certezas da protagonista. Sem parágrafos daqueles dissertativos, Lisa preferiu expor a doença pelo olhar detalhado de Alice. Em vez de justificar, o que exigiria conversa muito técnica, ela mostra. Isso é ótimo até porque a autora estuda essa área.

 

O enredo se apoia nas descrições completas dos ambientes da qual Alice se encontra e como transcorre essa perda, digamos, de atenção com o passar dos meses. Um peso essencial que ajuda a ver como a memória, percepção e orientação desvanecem.

 

Um agridoce que pega o leitor de jeito quando Alice passa a contar os livros que não poderá ler, os filmes que já não compreende, os cochilos que se tornam longas noites ininterruptas de sono. Chega um ponto que a alma fica pesada, de verdade, ainda mais eu que amo buscar motivo para entender o conflito. Não tem como não ficar em choque, pois o livro nos coloca na mente da protagonista. Perdemos o fio da meada junto com ela e é de cada um o que sente no fim da leitura.

 

Para Sempre Alice não trata apenas uma personagem com o mal de Alzheimer, mas como a percepção de mundo dela muda, bem como da família. O livro prega a compreensão e o amor, sentimentos que são testados diante dessas circunstâncias. Não é todo mundo que fica quando há dificuldade. Há sempre quem contorna. E é essa a motivação do livro, pois tem gente que não se esforça para entender esse quadro. Alice sente isso e mais um pouco na luta contra o invisível para se manter sã o máximo que pode.

 

O livro é sobre ontens que são esquecidos e sobre amanhãs incertos. O que resta de apoio para Alice são os hojes que também serão esquecidos, mas não significa que não tenham sido vividos. Para Sempre Alice é uma leitura inspiradora, que não pede um relacionar com base na vivência do leitor, mas sim o reconhecer que pessoas como a personagem não querem ser isoladas por causa desse diagnóstico. Elas querem viver ainda mais e, infelizmente, muitas são silenciadas e já ditas como incapazes antes de se esquecerem de quem são. Isso em vários âmbitos, não apenas nesse.

 

Para Sempre Alice é também sobre lutar pela pessoa que amamos. Sobre borboletas que possuem vidas curtas e que podem não ter um fim trágico. É um drama, mas que encontra sua força em explicar como se dá esse tipo de Alzheimer, como a paciente e as pessoas ao redor se sentem, o que se perde no processo e a conscientização sobre o tema que ainda se faz necessária.

 

Alice poderia contar com um fim trágico, mas o amor a manteve segura. Ela foi protegida por pessoas que simplesmente não desistiram dela. No fim, é isso que importa.

 

Notinha

 

Na época do lançamento do filme, a ABRAz fez essa chamada maravilhosa.

 

 

Na Estante:

Título: Para Sempre Alice
Autora: Lisa Genova
Páginas: 283
Editora: Nova Fronteira

 

Vídeos hospedados no YouTube e podem sair do ar a qualquer momento

Stefs
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