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04/maio

Embora eu seja aquela pessoa que se vangloria de ter vivido nos anos 90 (com muito orgulho, com licença!), há uma verdade extremamente dolorosa: havia poucas músicas do mundo pop que realmente eram empoderadoras. Conto nos dedos os álbuns que me marcaram, como o já citado Stripped da Christina Aguilera e o Jagged Little Pill da Alanis Morissette. Há Céline Dion nessa lista, mas, como as canções dela eram (e ainda são) 100% românticas, só as escutava quando meu pobre coração era partido – e foi umas cinquenta vezes.

 

Todo esse draminha breve é por causa de uma menina chamada Alessia Cara – que queria adotar, fato. Ela me faz sentir uma inveja boa com relação aos artistas que os jovens de hoje têm como inspiração e não são pouca coisa. Dá para notar que alguns são mais preocupados com a música que com o visual, algo que rebate em cheio quando penso na minha admiração passada pelos pompons de Britney Spears em …Baby One More Time. Além disso, poucas músicas da Britoca me acrescentaram, a não ser o álbum Britney de 2001, mas amava.

 

Preocupar-se só com a música não era um benefício dos anos 90 quando pensamos no pop. O problema sempre esteve na imagem, em que esses artistas eram rotuladinhos, bonitinhos, branquinhos e loirinhos em maioria, presos a mesma sonoridade ou a uma sonoridade muito próxima. Naquela época, acontecia o que vejo rolar hoje com livros YA: uma vez que um estilo bombava, surgiam as réplicas. E eram muitas se considerarmos até quem não chegou perto do sucesso. Fato é que o mundo pop dos meus anos protegidos era repetitivo, mas fui muito feliz, ok?

 

(Backstreet Boys >>>> *NSYNC)

Alessia Cara entra na minha lista de xodós e me sinto a mãe protetora. Quem me apresentou essa moça foi migo Yan que sempre me manda músicas bem boas – para ficar triste na escuridão do quarto – e a que chegou até mim foi Here. Gostei da voz, do ritmo e do videoclipe, bem me vi na música porque sou dessas de “migos, tô aqui, mas me deixem”. Festas nunca foram meu forte, não consigo me portar e tenho pavio curto para elas.

 

Foi amor à primeira vista e resolvi ir atrás dessa moça. Não entendam o meu “ir atrás dessa moça” como algo imediato porque sempre esqueço e ouvir o álbum completo da Alessia aconteceu algumas semanas depois. Uma vez que apertei o play, tive que ativar o repeat.


Mas quem é essa jovem?

 

Alessia-3

 

Alessia é uma adolescente no fim da adolescência, se é que me entendem, estando no limbo dos 19 anos. Seu primeiro álbum, Know-It-All, tem muito dessa fase de vida, regado de amores incertos, descobertas pessoais e a necessidade de empoderar e de ser empoderada. Ela foi descoberta praticamente pelo YouTube, aos 13 anos, em que cantarolava músicas em versões acústicas.

 

Quem lê pensa que tudo foi tranquilo e favorável, mas essa jovem é deveras tímida. Antes da fama, e de compor músicas, ela se fechava em seu mundinho e escrevia poemas. Há até um momento de sua vida que Alessia considera esquisito, que foi ao apresentar um dos seus escritos em um concurso e sair vitoriosa. Ok, mas o conteúdo aclamava o quanto odiava a escola.

 

O que era lançado no papel com teor opinativo e no formato poema se tornou música que qualquer jovem pode se identificar sem a menor dificuldade. Essa transição deu a Alessia um pouco mais de confiança para lidar com os empecilhos escolares, principalmente por acreditar que não era boa em mais nada. Por não ser a garota popular, ela se sentia como se não tivesse uma assinatura própria, uma que a separasse das outras pessoas.

 

As coisas mudaram quando começou a cantar fora da bolha (um empurrãozinho de mãe) e o retorno positivo contribuiu para deixá-la mais confortável com a ideia de que nasceu para a música. Instante que lhe mostrou que era sim boa em algo e que era isso que tinha que fazer.

 

Claro que a ideia de deixá-la se dedicar ao âmbito musical, um universo que corrompe muitos jovens, se tornou um divisor de águas. Alessia chegou a cantar para a mãe antes da fama e gerou um chororô sem fim – um ponto positivo se quisesse seguir por esse caminho. Já o pai não foi uma base de apoio porque ele não considerava cantar uma carreira. Esse senhor só se tornou maleável quando passou a acompanhá-la nas viagens e viu que o negócio é pra valer.

 

Há muitos de nós mortais que uma vez na vida já ouviu que não era pra fazer isso ou aquilo porque não daria uma vida estável. Mas se havia uma coisa que Alessia tinha absoluta certeza era da sua carreira musical e cá estamos.

 

As ironias de Know-It-All

 

Alessia-1

 

Antes do Know-It-All, Alessia lançou um EP chamado Four Pink Walls que nem chegou a esfriar porque o álbum debut veio coladinho, unindo as músicas já lançadas com algumas novas. Here a apresentou ao mundo, o hino de quem não curte festas, cujo videoclipe foi a recriação de um momento vivido pela cantora na companhia de alguns amigos. Inclusive, vale dizer que ela bateu o pé para que essa faixa fosse lançada primeiro porque os produtores não queriam.

 

O título do álbum é eco da faixa Seventeen, um pensamento dito como irônico que faz referência ao fato de Alessia estar em crescimento pessoal. Ela não sabe de tudo, mas continua a explorar e a buscar o próprio amadurecimento. Em 10 faixas, a artista mostra esse conflito que é inspirado em diversos assuntos, refrisando a importância de ser opinativa mesmo que seja por meio de uma canção de amor. Há um transitar entre vulnerabilidade e empoderamento nesse trabalho, que rebate bastante no ser jovem e se autodescobrir.

 

Além do retrato adolescente de Seventeen e Here, há espaço para romance e coração partido. I’m Yours é minha favorita, que me faz lembrar daquelas comédias adolescentes dos anos 90 em que o casal sabe que se gosta, mas não sabe como agir. Há também River of Tears e Stars, ambas muito minha cara de sofredora pelos amores platônicos da vida.

 

A feridinha da Stefs é cutucada na faixa que vira e mexe está no meu repeat: Scars To Your Beautiful. A música que realmente senti a Alessia, considerando que ela não tem uma voz que atinge notas altíssimas – informação que não desmerece seu talento. Há energia e força na sua voz, e fico arrepiada toda vez que escuto essa, que fala de autoimagem.

 

Quando ouvi Scars pela primeira vez, suei pelos olhos porque rebobinei e empaquei nos meus capítulos difíceis em que não estava de bem com meu próprio corpo (para mais detalhes, aqui). Ela seria ideal para a Stefs adolescente colocá-la no repeat (junto com Soar da Aguilera) e chorar como se não houvesse amanhã.

 

Nela, Alessia conta a história de uma menina que quer ser bonita e que preza a imagem das capas de revista. Ela quer ser como essas garotas e, por querer tanto ser bonita, passar fome não seria um problema. Porque beleza é dor, mas está em todos os lugares. No fim, o lembrete é que ela é uma estrela, que ela é linda do jeito que é, e que o mundo é quem precisa mudar seu coração sobre a maneira como a vê. Porque não há melhor você do que o que você é.

 

 Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

 

O outro hino é Wild Things que é tão cheia de energia, tão encantadora que dá vontade de tocar a campainha dos vizinhos e sair correndo, sério. Fiquei bem feliz quando Alessia a lançou como single e quero acreditar que Scars tenha chance porque pre-ci-so! E, digo mais, não confio em quem diz que WT é a pior faixa do álbum. Vão ouvir de novo!

 

Se eu começar a falar faixa por faixa, este post não terminará nunca. Know-It-All vale completamente a pena e digo isso porque não pulei nenhuma música – e isso para mim serve de termômetro extremo. Quando pulo demais, há alguma coisa errada e esse não é o caso.

 

Os hinos que não rolaram (tanto assim) na minha adolescência

 

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Assim que terminei de ouvir esse álbum pela primeira vez, captei que se tratava de uma artista verdadeira. De uma pessoa real que falava sobre coisas reais. Dá para sentir em cada música e pela maneira como ela fala nas suas entrevistas. Há genuinidade na sua intenção de empoderar os jovens, de não escrever por escrever, de fazer para deixar uma marquinha que seja.

 

Ela quer compartilhar mensagens que ajudem seu público e ser uma voz de apoio que afirma que ninguém precisa seguir o padrão e que todo mundo deve amar a si mesmo.

 

Para mim, Alessia é muito madura para a idade dela, fatos reais, outro ponto de inveja do bem porque a meninada dos anos 90 só queria saber de alguma boy band. Sério, não havia tantas vozes feministas e empoderadoras como agora na música. Essa parte me entristece por ser a tia do fandom, mas fico contente por ver que há hoje adolescentes que são muito vocais.

 

O mais engraçado de ouvir álbuns como os de Alessia é que sempre faço um retrocesso de mim mesma e penso como essas músicas são necessárias. O mesmo acontece quando leio algum YA e me vejo meio aborrecida por também não ter tido tanto dessa literatura. Mas daí, penso que não teria maturidade para compreender a mensagem e o mesmo vale para algumas músicas.

 

Lembro como se fosse ontem a primeira vez que vi o clipe da Lorde e me perguntei quem era aquela deusa adolescente. O mesmo para Zendaya até a evolução atual da Selena Gomez. Todas são tão diferentes e tão únicas que tenho vontade de chorar quando relembro da fileira de loiras magérrimas que tinha como missão mudar a cultura pop dos anos 90.

 

Por essas e outras que sempre direi que apesar de amar os anos 90, a música pop de lá era pobre demais, especialmente para garotas que acabaram mais influenciadas pela imagem que pela letra. O máximo que tínhamos perto de empoderamento, além das cantoras que já citei neste post, era as Spice Girls que, infelizmente, não tiveram tanto tempo no mercado.

 

E hoje tudo está muito poderoso por causa da internet. Um artista consegue sobreviver sem vender muito porque basta fazer algo online para compensar qualquer orçamento. Detalhe que também não tinha nos anos 90, o que criou várias carreiras relâmpago.

 

Na minha época era ostentação pura, principalmente da magreza das cantoras, e quando olho para meninas como Lorde e Alessia, com seus cabelos escuros e cacheados, cheias de opinião, sinto raiva porque elas teriam me representado no passado (e representam agora). Na adolescência, sempre me senti um zero à esquerda e não tinha ninguém para me espelhar. Só inspiração de pessoas impossíveis (amo Aguilera, mas ela nunca será eu).

 

Enfim, não sou muito ligada nessas coisas de nota ou de resenhas mais afinadas sobre música, até porque não é minha especialidade. Sempre tratei a música como algo que ritma com as batidas do meu coração e o 5,5 do Pitchfork para Know-It-All só me deu mais motivo para dizer que tem adulto que parece que se esqueceu que um dia foi adolescente.

 

Meu eu de 15 anos acompanhada desse álbum teria feito a festa! Vejo perfeitamente as migas dançando Wild Things de pijama – e fazíamos isso com BSB e Britoca até sermos pegas sujas de massa de panqueca. Naquela época, tinha a música como minha maior companhia e, talvez, Alessia teria dado um tico mais de força para aquela Stefs que sucumbiu à pressão de ter que ser magra e loira para se encaixar (nunca tingi meu cabelo de loiro, caso perguntem).

 

Espero, mesmo, que Alessia tenha muito sucesso e que continue focada em empoderar os jovens. <3

 

E sério: o álbum é muito bom e comprei a versão física porque não sou obrigada. Já disse que sou mãe protetora das crianças, então, não podia deixar de prestigiar.

 

Vocês podem ler duas entrevistas bem legais com a Alessia aqui e aqui.

Stefs
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