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13/maio

Antes mesmo de ver este episódio, sabia que se tratava de uma tentativa de maquiar um revival de Law & Order e de somar todos os clichês que têm sido vistos no âmbito personagens determinado entre Dick Wolf e sua equipe. Justice passa longe de algo primoroso e inovador, e pode até ser chamado de golpe do Sr. Lobo para investir em algo que a NBC cancelou. De quebra, um refrisar de que esse senhor está bem longe da famigerada criatividade.

 

Aviso: se você gostou muito de Justice, assim de aplaudir, não recomendo este texto. Mas, se quiser ler, coloque o colete à prova de balas.

 

Não aceitei a notícia de Chicago Justice e, depois deste episódio, minha razão continuou a botá-la para escanteio. É furada? É! Pode dar certo? Pode! Afinal, é do Wolf que estamos falando (e a série acabou de ser encomendada). Porém, precisa? Óbvio que não! Ainda mais quando Med ainda está nas fraldas.

 

O piloto backdoor pode ter sido muito bem executado e ter contado com atuações estelares dos personagens que estavam em foco, mas o roteiro não é digno de alegria e de orgulho. Nem muito menos a escolha do elenco de Justice e a proposta que apresentou suas cores sutis que não são inéditas para quem assistiu Law & Order. Não tem nada de novo aqui, a não ser o nome.

 

O caso que inspirou este roteiro pode ter seguido uma ótima linha de raciocínio inicial, mas se perdeu completamente do propósito de Black Lives Matter. Nisso, entro no que era muito óbvio antes mesmo de ter visto este episódio: eu já sabia que Burgess não pagaria pelo tiro e que o suposto atirador negro seria preso. Isso quer dizer que o suspense foi fajuto desde que saiu a sinopse. Ri da conta de CPD indagando se a policial seria condenada. Ninguém que assiste a série cai mais nessa (pelo amor, me digam que não caíram).

 

Uma vez que você investe em um teor ativista, o mínimo que se pode fazer é respeitar nem que seja 50% disso, algo que não aconteceu com este piloto backdoor. Claro que não podemos nos esquecer que o intuito era vender a ideia e os personagens, detalhes que não tiro o mérito porque fazem parte de toda introdução de uma série nova. Porém, a razão do roteiro não convenceu e se planejam seguir com Justice dando aval apenas para o heroísmo do main cast, já quero o cancelamento. Já me basta CPD que tem perdido demais com seus detetives certinhos.

 

E a única série que me rasga quando há perda é SVU (por claros motivos).

 

Falar da comunidade negra não é meu espaço, mas o que absorvi deste episódio foi uma causa não respaldada e um julgamento que não foi parcial desde o início. O jogo estava entregue antes mesmo da trama ser concluída e isso é um ponto absurdamente negativo e frustrante.

 

Uma frustração que engrossou ao acompanhar Burgess completamente descaracterizada, sendo humilhada não pelo tiro que deu, mas porque as pessoas estavam mais preocupadas se havia pensado com a cabeça ou com a vagina na hora que puxou o gatilho. Sério mesmo que desceram a esse nível para Justice acontecer?

 

Por mais que este episódio tenha sido “inspirado” em algo que aconteceu, meter Roman e Burgess em um buraco sinistro, fora de mão, como se não fossem responsáveis, foi um meio de pisar em dois personagens que sempre foram muito ligados às regras. Daí, vem a culpa do relacionamento de novo, sendo que o pontapé da história aconteceu em um cenário escolhido de maneira infeliz. O início dessa trama foi tão forçado quanto o encerramento do 3×21.

 

Chicago-PD-3x21---Roman

 

Conforme os minutos passavam, o roteiro não acentuou o tiro e o impacto social, mas o fato de Burgess ter um relacionamento por debaixo dos panos. Ela foi humilhada até no tribunal pelo mesmo tópico. Um meio ridículo que foi usado para abalar as emoções de Ruzek. Ainda querem que respeite Justice? Ok que teve apoio de P.D., mas quem me garante que o mesmo não se repetirá se a série se der bem?

 

Para piorar, não trabalharam a complexidade de sentimentos de Burgess. Afinal, ela sempre, sempre, sempre contestou suas habilidades como policial por sentir demais. Ela sempre carregou certa vergonha “de ser mole”, algo comentado desde a S1 e mais recentemente no episódio anterior (e Roman destacou como uma qualidade). Não era preciso um personagem como Peter, que não passa de uma cópia do Lang da força-tarefa, partir para o discurso 99% misógino com aquele 1% machista (por quanto tempo você está f*** seu parceiro. Really?).

 

Marina estava maravilhosa, mas não conquistou um destaque de mérito como rolou lá na S1 e na S2. Deram-lhe uma grande história, com certeza, mas tudo teria sido feliz se não tivessem revirado esse bife por motivos de Roman e para alfinetarem sua vida sexual e seu lado sentimental (que é um traço da sua personalidade) ao extremo. Foi terrível vê-la correr desesperada para cima do atirador. Ela é uma baita corredora pela justiça, mas esse não foi o caso.

 

Não reconheci a personagem aos berros atrás de Michael. Não reconheci a personagem que botou as algemas em Michael. Não reconheci a personagem que prestou auxílio ao parceiro com muito mais interesse ao fato de que atirou às cegas. Ah, mas foi tudo por causa do momento, só que não.

 

Isso foi uma cuspida na trajetória de Burgess. Foi um dar de ombros para uma policial que deu a cara tapa para trabalhar sob disfarce, que tomou um tiro e ainda se manteve na patrulha, que venceu o trauma, que tomou conta de Roman em mais um dia que achou que morreria. Enumerar essas conquistas, como este episódio vergonhosamente fez, não anula em nada a humilhação.

 

Procuraram tanto o motivo para o caso para não ter motivo de impacto. Que realmente mostrasse que as vidas de mulheres e de homens negros importam. Que nem sempre a polícia está correta. No fim, engataram uma “vingança” medíocre, à custa da dignidade de Burgess, para destacar o quanto os envolvidos com Justice são maravilhosos. A impressão que ficou foi péssima.

 

Roman e Burgess em estado de risco não foi inédito, mas investiram com ineditismo por causa do elo sexual. Era só isso que importava, além do quanto a mulher pode ser a dita louca varrida porque as emoções sempre a atropelam em vários âmbitos da vida.

 

Chicago-PD-3x21--Burgess

 

O caso inteiro estava contaminado de emoções, o que também não sai da proposta. Mas destaco a parcialidade dos justiceiros do caso – Peter e Shambala – que afetou o julgamento ao ponto de desacreditá-lo. Um agia porque o superior era um homem negro que estava mais preocupado com sua posição que com a fatalidade e o outro queria mesmo provar que a polícia era uma porcaria e não que Michael teve a infelicidade de estar no lugar, talvez, certo, só que na hora errada. Impossível levar a sério, principalmente quando Burgess foi reduzida ao seu emocional.

 

Daí, vocês me dizem que Burgess estava sob pressão. Sim, ela estava. Tinha todo o direito de estar brava, irritada, na defensiva. Essa mulher passou por um mega trauma na S2 e não receberia um novo tiroteio embaixo do seu nariz como algo de rotina. O problema é que em vez de enaltecerem a personagem de maneira que sua storyline evoluísse a reduziram ao relacionamento com Roman. Fizeram o “pensar com a vagina” uma calamidade.

 

Ela se envolveu emocionalmente? Sim. E foi irresponsável. Só que a envergonharam pelo sentimento e pelo sexo, não por ter errado na hora de atirar às cegas.

 

A pauta do roteiro estava longe de mostrar os motivos do tiro, mas como uma mulher perde o controle de si mesma por causa de um cara. Não é errada essa preocupação mútua, o amor é assim (só que Burgess e Roman estão mais forçados que Jimmy revoltado em Fire), mas a retrataram de maneira irresponsável. Digo isso porque essa personagem sempre, sempre priorizou o profissional.

 

Vão me dizer que esqueceram o quanto ela relutou para assumir o romance com Ruzek devido ao seu interesse de ir para a Inteligência? Desejo que, inclusive, morreu. Burgess não terminou com o detetive, mas não perdeu o foco até tomar o tiro.

 

E reclamo ainda mais porque nem por Ruzek essa moça saiu dos trilhos. E ela ficou noiva dele, o que pesa muito em comparação a um caso de algumas noites depois do expediente, me desculpem.

 

Assim, deixo a pergunta: será que Burgess agiria assim pelo ex? Sem Justice?

 

O que mais posso dizer sobre Justice?

 

Chicago-PD-3x21---Peter-e-CiaNão os quero na minha vida

 

Agora, sendo engraçadinha: sabem como me senti nesse julgamento? Como a votação do golpe. Falaram, falaram, falaram e não falaram sobre o que interessava. No caso, o tiro e o impacto dele na comunidade negra. Wolf só usou o cenário para insinuar a pauta Black Lives Matter, como os protestos que não ornaram, e, no fim, continuaram a não importar. Não houve absolutamente nada marcante e a conclusão foi extremamente um anticlímax.

 

Ao contrário do piloto backdoor de Med que indagou como uma pessoa vai lá e cria uma histeria. Tudo bem que o universo médico aconteceu para mim no 1×12 de P.D., mas a condição dos personagens e a proposta conseguiram casar. Ao contrário de Justice que errou e feio.

 

Dizem que a primeira impressão é a que fica, então, aqui vai: Justice se resumiu em mulher não pode ser policial por causa das emoções; mulher sempre será julgada porque faz sexo; mulher não pode terminar o relacionamento e engatar outro porque isso a faz uma tremenda vadia – e tem que passar vergonha por isso; mulher quando passa dos limites não é porque foi reação de proteção, mas porque ela pensou com a vagina ou não tem controle emocional. Uma vez tirado o filtro, esse é o combo que a nova empreitada da NBC entregou. E acertou no mau gosto.

 

E, de novo: você não me mete assunto ativista se não fará jus a ele. Pouparam o elenco, tudo bem, mas não tem como incitar essa pauta sem sacrifício. A proposta de Black Lives Matter não estava ali em hipótese alguma. Para vocês terem ideia, o caso Filadélfia seguiu do mesmo jeito que este episódio começou, mas o atirador quis atirar porque “a polícia atua por leis não correspondentes ao Alcorão”. Ou seja, Voight não tinha nada que falar que o caso era “igual”.

 

A tentativa de humanizar a história pelo currículo exemplar de Michael falhou por um desejo de vingança que soou como aqui se faz aqui se paga. Um tom que nem sempre é sucesso. A realidade é dente por dente entre policiais e a comunidade negra, com certeza, mas não houve justiça em Justice. O julgamento foi medíocre, encontrando seu auge só com Peter vs. Michael. Mas nada apaga Burgess ser culpada por ser mulher a fim de dar aval a uma história que não transmitiu sua mensagem e que condenou o negro mais uma vez. Qual é ganho? Mais do mesmo.

 

Chicago-PD-3x21---Peter

 

Inclusive, este episódio berrou uma desigualdade sem precedentes na escalação do cast, o que aumentou minha antipatia já enraizada quando as notícias começaram a sair. Simplesmente porque é a mesma regra de mil homens para 2 mulheres, sendo a maioria branco.

 

Não reclamo tanto de Fire e de P.D. porque há um ponto em que relevo por questões de ano, mas representatividade nas Chicagos começou a me doer com Med, pois o núcleo das enfermeiras me incomoda demais! Agora, vem Justice que, de novo, bota o negro em um status acima do branco só para dizer que está lá – e nem ganham storyline vide Boden que só toma decisão, Goodwin que só fala do marido,  Atwater que não sabe o que é ter história desde que saltou para a UI e Crowley que está acima de Voight e nem aparece. Tiveram mais uma vez a chance de fazer diferente nesse quesito, mas o ego impede que Wolf veja que não estamos mais na década de 90.

 

Ter negro no elenco não é mais uma questão de preencher lacuna. E já foi o tempo que personagem negro tem que se sacrificar para enaltecer o personagem branco. Deveria ficar quieta (mentira que não deveria não e se você também está infeliz, manda o panelaço) porque a série é escrita por homens em maioria, com um ego maior que a empresa da Shonda, mas custa fazer pesquisa antes de jogar qualquer ideia na roda?

 

Muito me intriga como ignoram tudo que Benson representa, na boa.

 

Se eu for salvar alguma coisa de Justice, salvo a tensão e o estresse da situação. Houve adrenalina, mas tudo esmoreceu quando Michael se revelou como atirador. Por mais que já estivesse preparada para esse resultado, rolou uma decepção muito grande. O erro visual de Burgess na hora do tiro, de não ter certeza se era a mesma pessoa depois de uma viradinha que a fez perder o ângulo, era a chance de um revés que poderia fazer mais jus ao tema.

 

Sim, negros fazem burrada e cometem atrocidades. O mesmo vale para os brancos. Justice veio com a supremacia branca, sendo que tinha a faca e o queijo na mão para ser diferente. É uma série “nova” que poderia realmente sair da zona de conforto tendo como apoio uma pauta que ainda está na roda. Talvez, se o resultado fosse diferente, daria meu benefício da dúvida.

 

Nem sempre o cara negro é culpado. Nem sempre a moça branca é bacana. E, esquecendo Justice, Chicago P.D. tem que começar a parar de jogar na nave da Xuxa porque é exatamente isso que começa a matá-la aos poucos. Quer brincar de polícia? Está na hora de mostrar que a boa polícia pode não ser tão boa assim – e parar de usar a mulher como o problema sentimental da trama. Saudade Voight corrupto, sinceramente.

 

Wolf pode ter a franquia das Chicagos como seu ponto de frescor, mas Justice se saiu como um programa que dominamos, mas que temos preguiça de atualizar. Nada mais é que Law & Order: Chicago e essa fórmula já falhou uma vez.

 

Dick Wolf, amo muita coisa do que você cria, mas, por favor, retorne ao século 21. Não está dando mais para te defender e o coloco na lista negra ao lado de Julie Plec (eu mesma, a radical). Vocês precisam ter uma conversa sobre mulher, representatividade e protagonismo.

 

PS¹: e se vocês ainda têm dúvidas de que Justice é Law & Order com outro nome, só jogar no Google Shambala Green.

 

PS²: forçar o diálogo do Atwater foi assim o fim da picada. Uma demonstração de “alá, estamos fazendo o serviço”. Parem-de-passar-vergonha.

 

PS³: e, gente, se o revólver foi edição do designer lá, então…?

 

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E não, não terá resenha de Chicago Justice por todos os motivos que listei acima (no gif: Jay sou eu enquanto Will é Justice querendo chamar minha atenção).

Stefs
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  • Mateus Moraes

    Eu realmente fiquei decepcionado com o desenrolar do episódio, Voight simplesmente foi escanteado, e na equipe faltou aquele sentimento familiar que sempre ocorre nos piores momentos da série, como ocorreu quando a própria Kim foi baleada ou no caso do sequestro do filho do Dawson. Me pareceu que fizeram pouco caso com o fato do Sean estar quase morrendo. Também não gostei que a investigação não andou nos moldes da Inteligência, foi muito atropelada (nem houve interrogatório). Justice não me impressiona em nada, parece mesmo que o Wolf quer voltar aos seus dias de glória que teve com Law & Order nos anos 90. O que mais me frustrou foi o fato de Sean e Kim terem sido usados como “cobaias´´ para a promoção de Justice, simplesmente jogaram no lixo toda a carreira e o profissionalismo desses dois policiais. Espero que o último episódio da temporada não seja deprimente como foi esse.

    • Hey, Random Girl

      Hey, Mateus, tudo bem? Obrigada pela visita e pelo comentário. Agora vem aqui me dar um abraço! hahahaahaha

      Por
      mais que o episódio tenha tido a intenção de apresentar Justice, é bem
      fato que a equipe de Inteligência não brilhou. Ao contrário do que
      aconteceu quando Fire apresentou Med, em que todo mundo se ajudou e todo
      mundo, na medida do possível, teve espaço de fala. Priorizaram tanto
      essa série e, ao mesmo tempo, não priorizaram nada.

      Foi
      frustrante e estou contigo sobre Burgess (que foi a que mais me
      machucou) e Roman. Ambos são deveras profissionais, jamais se
      rebaixariam a tanto, jamais se meteriam em um beco esquisito para darem
      uns beijos. Deram uma história a esses policiais que não ornou em
      absolutamente nada com as respectivas trajetórias – e eles ainda nem
      tiveram espaço de fala pertinente nesse episódio. Nem o pobre Roman que
      só ficou com a responsabilidade de aceitar ou não o acordo de Michael.
      Foi decepcionante para não dizer uma completa vergonha alheia.

      Espero que P.D. se supere depois dessa. Que o finale seja recompensador.

      Beijosss!