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11/maio

Este ano resolvi fazer uma troca aqui no Random Girl. Ano passado, me dediquei bastante ao Manifesto Aleatório que foi transferido para meu outro projeto A Bela e as Feras (só que terá uma carinha diferente). Para não perder a chance de meditar e de incitar algum tipo de inspiração/conscientização, investirei em outra coisa que amo muito: quotes de séries.

 

É bem verdade que há personagens que transmitem suas mensagens em uma linha de diálogo, de um jeito que move você mais que a trama propriamente dita. Às vezes, o episódio pode não ter absolutamente nada, mas a intenção dele pode se resumir nessa linha que sempre me ajuda a mudar de perspectiva ou, de uma forma bizarra, fortalece alguma coisa que penso ou acredito.

 

Quem se destaca hoje é Dr. Charles, um personagem muito querido que vive lá em Chicago Med. Ele é um psicólogo muito amorzinho e que tem me ensinado bastante sobre essa área ao longo da 1ª temporada da série. Nem é mais segredo que ele é meu favorito e que suas histórias são as que mais têm me prendido e me agradado nessa minha nova experiência médica.

 

E, hoje, o assunto é depressão – com um foco no sexo masculino. Uma pauta pertinente já que o mês de maio é dedicado para gerar conscientização sobre saúde mental.

 

No episódio 1×12, Dr. Charles disse:

 

Você sabe, vender essa ideia de quem você acha que precisa ser, o tempo todo… Carregando por aí o peso dessa performance. Não é cansativo? Você não está exausto? Eu acho que seria exaustivo.

 

A situação:

 

Um paciente que sofre com a depressão. Ele tinha certa consciência de que havia algo errado consigo mesmo, mas não tinha coragem de assumir. A resolução começou a vir nos detalhes, como o motivo que o fez dar check-in no hospital, que afirmava um acidente como a causa. Na realidade, se tratava de uma tentativa de suicídio.

 

Essa situação me deixou surpresa, primeiro porque pouco se fala desse assunto quando temos homens no cerne da conversa; segundo que quando falam é sempre clichê; terceiro que esse clichê tende a pertencer às mulheres, como se depressão fosse uma doença exclusivamente feminina.

 

O paciente em questão se chama Dietrich e ele passa parte do episódio em negação sobre os desdobramentos daquele longo dia que quicam da certeza da tentativa de suicídio até o diagnóstico oficial de depressão. Charles não sossega até que ele assuma que não sofreu um acidente, mas sim que o provocou, alfinetando os pontos fracos que tendem a fazer uma pessoa nessa situação desmoronar. Mas Dietrich é homem. É bem-sucedido. Ama a esposa. Tem uma bela casa. Não há motivo nenhum para estar triste quando aparentemente a vida lhe sorri de volta.

 

Depois de apertar os botões e atingir o correto, o paciente quebra e afirma que não tem uma desculpa para estar triste. Como se estar triste não fosse um direito seu como homem. O personagem sabe que o calafrio dentro dele é sobre a falta de reconhecer o que há de errado consigo mesmo, mas não admite. Porque Dietrich é homem. É bem-sucedido. Ama a esposa. Tem uma bela casa. Não há motivo nenhum para estar triste quando aparentemente a vida lhe sorri de volta.

 

Depressão não é coisa de mulherzinha

 

Med---Depressão

 

A depressão não é uma doença exclusivamente feminina e este episódio de Chicago Med fez questão de mostrar isso ao investir em um paciente que se enquadra no pavor masculino: parecer fraco. Por mais que pouco se comente, alguns homens também sentem a pressão vinda do patriarcado e do machismo, que exige que eles sejam fortes para tudo. Fortes porque é deles o papel de chefe da família, de marido ideal e de pai do ano.

 

Um ciclo que nada tem a ver com o homem adulto, mas com o adolescente que foi pressionado a ser forte não fraco. A ser chefe da família, bem-sucedido, marido ideal e pai do ano. Fatores que sim, podem levar muitos para o caminho da depressão porque o acúmulo desse aprendizado nem sempre é compatível com a realidade. O coração dos homens não é inquebrável, mas muitos acham que é. Afinal, chorar pelo coração partido é coisa de mulher também.

 

Mal sabem que é deles a porcentagem alta de suicídio. Em vez de buscar ajuda, eles silenciam para não assumir essa tal fraqueza.

 

A depressão vem em ondas diferentes para a mulher e para o homem. Há pesquisas que ainda afirmam que as mulheres são as mais propensas a esse quadro, mas sempre penso no silêncio masculino com relação ao que sentem e ao que não sentem. Homens não escondem apenas seu quadro de depressão, mas de transtorno alimentar ou de qualquer manifestação que compromete sua dita masculinidade. Sofrer é coisa de mulher também, ainda mais quando há foco na saúde mental.

 

Jovens acreditam que chorar é coisa de mulher. Que sentir é coisa de mulher. Mostrar-se sensível é como abrir brecha para o ataque e para o desrespeito por ser algo do universo feminino. O machismo também os afeta por impor que os homens precisam ser a rocha, principalmente da família, e o progenitor fodão. O macho! Só que há meninos e homens que sabem que seus corações são quebráveis e que não há vergonha em ser vulnerável. Nem todos têm pulso de ferro.

 

Em contrapartida, há o menino e o homem que se calam dentro da sua panelinha porque sabe da chacota que enfrentará, o que o impulsiona a interiorizar tudo que sente. Uma hora a pessoa explode e, nisso, voltamos à dificuldade deles em falar sobre suas emoções. E, quando falam, raciocinam demais para evitar que soem “afeminados”.

 

De acordo com o site da ABRATA, os homens negligenciam a depressão por causa da pressão de serem fortes e para manterem o controle das suas emoções. Homem não chora, certo? Homem não sente nada, correto? E se chora e sente, é porque é fraco e não porque tem alguma coisa errada. E há o peso de ser bem-sucedido que vem das expectativas da sociedade – ser o líder da casa, ter um ótimo emprego, ganhar bem, ter uma casa. Detalhes que combinam com Dietrich, o personagem deste post.

 

Isso vem muito da criação que lança na roda que o menino precisa comandar a sua vida para ser um homem de domínio, de controle e de prestígio.

 

Med 1x12

Não tenho absolutamente nenhuma desculpa para estar triste

 

Dietrich representa todos nós na tentativa de manter as aparências. Por mais que não tenha sido dito ao longo do episódio, foi muito fácil capturar que ele sentia a pressão de silenciar sua fragilidade somente por ser homem. Não é à toa que o personagem evita de todas as maneiras possíveis e inimagináveis que Charles chame a esposa para o hospital.

 

Enquanto há mulheres que se preocupam e buscam um médico ao menor ou maior sinal de que há algo errado, os homens se fecham. Por prenderem o que sentem, há margem para a depressão que abre um buraco para a irritabilidade, para a inclinação de ser agressivo e para comportamentos imprudentes. Pode rolar refúgio na bebida e se tornar workaholic. Eles podem culpar os outros por sua instabilidade emocional, principalmente a parceira/parceiro, gerando conflitos gratuitos. Somado a isso, ainda há a necessidade de controle porque dá a falsa sensação de que tudo está no lugar para não dizer que nada está no lugar.

 

Meios de camuflagem que só contribuem para piorar a manifestação da depressão e que pode acarretar em situações drásticas como o suicídio.

 

Já nas mulheres, a depressão pode encontrar o seu estopim nas alterações hormonais (a mulher produz mais hormônios que o homem), na gravidez e no pós-parto, em problemas crônicos de saúde, em sentimentos negativos e no estresse. A manifestação da depressão soa como um processo reverso em comparação ao que acontece com os homens. Em vez de brigarem, as mulheres contornam as zonas de conflito, principalmente por se sentirem culpadas.

 

As causas podem ser diferentes, mas o primeiro passo é buscar auxílio. Os homens tendem a ser mais resistentes nesse quesito e, às vezes, ousam a se cuidar por conta própria para calar o problema. Ao falar, se abre margem para o apoio e para mudanças que recobrem a saúde.

 

Depressão não é apenas um tipo e pode surgir por outros motivos – sendo atrelado aos transtornos alimentares ou à automutilação, por exemplo. O tratamento vai muito além do amparo psicológico e de apoio, pois a alteração na rotina também se faz necessária. Trata-se de uma doença tratável e de recuperação gradativa.

 

Eu estou bem… Depressivo?

 

Med-Depressão-2

 

Não, você não está. Muito provavelmente, você só está triste e trata o “depressivo” como um negrito para reforçar o que sente. Já fui essa pessoa. E não queremos ser essa pessoa, certo?

 

Tristeza

1. Qualidade ou estado de triste ou do que é triste: as raízes psíquicas da tristeza. Antônimo de alegria. 2. Caráter do que infunde esse estado. 3. Falta de alegria, contentamento. 4. Desgosto, mágoa.

 

Tristeza é um sentimento que faz parte de nós como seres humanos. Todo mundo fica triste por algo em algum momento. É comum e normal. Nesse caso, tristeza pode rimar com insatisfação pessoal ou interpessoal, uma sensação súbita por sentir falta de algo, mágoa de alguém, desmotivação, entre outros fatores. Duas inclinações rumo à depressão é a desmotivação e/ou rejeição que engatam a baixa autoestima e fortalecem, dia após dia, estados de tristeza permanentes.

 

A depressão é uma doença. Sendo prática na descrição, é quando o que está empacado no peito e na mente deixa de ser um filete de tristeza para ser um fator dominante na vida de uma pessoa. Essa pessoa deixa de reagir aos estímulos da vida, não sente prazer nem naquilo que costumava fazer e nem em estar com as pessoas queridas. É tristeza persistente que afeta do sono ao apetite, e pode acarretar pensamentos suicidas.

 

A ABRATA descreve que a pessoa deprimida percebe que seus sentimentos diferem de uma tristeza anteriormente sentida. Na depressão grave, ela se isola, perde o interesse por tudo. Algumas pessoas procuram se ocupar ao máximo para se distraírem e para afastarem o mal-estar emocional. Só que essa luta interna tende a roubar a pouca energia que lhes sobra.

 

Sem contar que as pessoas nesse quadro tendem a não ser levadas a sério de início. Os instantes de solidão e de apatia são chamados da tal “frescura” e do tal “logo passa” por, supostamente, ser só “uma fase de tristeza”. Atitudes que abrem brecha para a psicofobia, para “vai fazer sexo que passa, lavar a louça também”. Ou, no caso dos homens, “que tal ser macho?”.

 

Não vamos ser esse tipo de pessoa, combinado?

 

Falar de depressão é importante sim!

 

› Depressão não é simplesmente sentir-se triste, infeliz ou deprimida;
› Depressão é tão real quanto qualquer outra doença, como câncer ou diabetes;
› Depressão não é sinal de fraqueza ou defeito de caráter;
› Pessoas com depressão não conseguem melhorar simplesmente pelo próprio esforço – precisam de ajuda;
› Depressão afeta pessoas de ambos os gêneros, todas as idades, raças, religiões e classes sociais em todo o mundo;
› É possível ter depressão sem sentir-se triste (é a chamada distimia);
› Existem diversos sinais ou sintomas de depressão que podem ser notados pela própria pessoa ou pelos que a cercam.

 

E digo mais:

 

› 8 a 12% da população mundial tem ou terá depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS);
› 2ª causa de incapacidade (em 2020), estima a OMS, somente após as doenças cardíacas;

› 61.000 afastamentos do trabalho devido à depressão ocorreram no Brasil em 2013;
› 11 meses é o tempo médio que pessoas com depressão demoram para relatar seus sintomas a um médico segundo um levantamento da Federação Mundial para Saúde Mental;
› 72% das pessoas diagnosticadas com depressão não acreditavam, antes do diagnóstico, que sintomas físicos dolorosos fossem sintomas comuns de depressão;

› 90% das pessoas que tentam suicídio são portadores de depressão ou outros transtornos mentais.

 

Fonte: Conte Comigo

 

Esse episódio de Med foi tão significativo, especialmente por ter colocado não só um paciente com depressão, mas dois – o próprio Charles passa pelo tratamento. Um homem que compreendeu o outro, o que faz a ficção ser linda de vez em quando. Ainda mais quando lembra de ressaltar que nem tudo nesta vida é “coisa de mulher”.

 

Med 1x12 - Charles

Você não precisa de uma desculpa, cara. Você é um ser humano

 

Charles diz que Dietrich não precisa de uma desculpa para se sentir como se sente. Nós não precisamos nos desculpar pelo que sentimos. Sentimos e pronto. Não somos robôs.

 

A depressão é silenciosa e ninguém a tem porque deseja. Ninguém deita na cama, insatisfeito, testando a lei da atração para “chamar” uma doença que é avassaladora. E muitos acham que é assim que acontece. O mesmo se aplica aos transtornos alimentares ou qualquer alteração de humor.

 

Ainda vivemos em uma sociedade que diz que dar voz às fraquezas não leva ninguém a canto algum. Ainda vivemos nessa bolha que nos pressiona a pensar que sentir não faz sentido. Que sentir é ruim e que precisamos fingir que não sentimos nada para, supostamente, sobrevivermos. Detalhes que ajudam a tornar este mundo cada vez mais injusto, desigual e competitivo porque uma vez que você cala o que sente, você fecha uma porta para o seu autoconhecimento.

 

Inclusive, ao silenciar, você pode também deixar de prestar ajuda a quem precisa. Imaginem se Charles não tivesse insistido em Dietrich? O paciente teria voltado para casa e muito provavelmente teria contemplado o suicídio de novo.

 

Ninguém passa nesta vida sem ter o coração partido. Não só uma vez, como várias. Ninguém está imune a insatisfação ou de ser vencido pelo próprio medo. Tenso é que o que necessitamos para esvaímos o peso diário das nossas emoções pode se tornar um bloqueio, um dito erro, que nos torna vigilantes para continuar a atender as expectativas.

 

Mas e as nossas expectativas? Devemos mesmo sacrificar nossa saúde mental, nosso bem-estar, pelo que o outro pensa? Pelo que o social quer?

 

Os homens ainda silenciam o que sentem porque o patriarcado os ensinou que sentir é um traço feminino. Que sentir o torna menor. Que sentir tira a sua suposta força. Não há espaço de fala, principalmente para adolescentes que já temem ser julgados pelo que sentem na escola. É quando vemos o quanto a depressão ainda é tabu e o quanto o mundo nesse quesito ainda está errado.

 

As mulheres também não fogem de ser piadas porque uma vez que quebram, era de se esperar que não desse conta do trabalho, que não aguenta a ausência do marido, que está com inveja de sei lá quem que subiu na vida e ela não. Há julgamento pra todo lado.

 

Já vi amigos meus sofrerem com a depressão. Ainda vejo alguns tantos lutando contra essa doença. Não é uma questão de estar triste ou simplesmente insatisfeito com alguma coisa. É ver o dia cinza, constantemente cinza, um looping emocional de se indagar o que diabos tô fazendo aqui?.

 

Sim, é difícil oferecer ajuda quando não se passou por isso ou não viu acontecer com alguém. Porém, se há uma coisa que aprendi ao longo da vida é estar lá por quem precisa de mim. Não forçar a entrada. Apenas, estar lá para dar a mão, para ouvir ou para oferecer uma palavra de apoio. Gestos tendem a bastar. Gestos mostram que as pessoas, independente da sua condição, não estão sozinhas nas suas batalhas. E isso aquece dois ou mais corações.

 

A depressão não é coisa de mulher. É sobre todos nós. Afeta mulheres negras e brancas, homens negros e brancos, a comunidade LGBT, transexuais, etc.. Essa doença não trabalha com peneiragem. Mesmo que você não tenha vivido com a depressão ou não conheça alguém que passou por isso, o segredo é força de vontade em compreender e ser empático.

 

Fontes: Abrata | Conte Comigo | Associação Brasileira de Psiquiatria

Stefs
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