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20/maio

Fazia um tempo que estava mega a fim de fazer este post. Cheguei a rascunhá-lo no ano passado considerando os desdobramentos da 2ª temporada de Chicago P.D. e penso que esse “adiamento” foi a melhor coisa que aconteceu por motivos de Chicago Justice.

 

Depois da experiência com esse piloto backdoor, me senti ainda mais no direito de relembrar a mim mesma, e a todos que a amam, o quanto Burgess, como qualquer outra personagem, poderia ter contado com um salto de storyline empoderador. Não, em pleno 2016, ser virada de ponta cabeça para receber um julgamento mais pelo fato de dormir com o parceiro de job + pelas suas emoções em vez do propósito da trama. No caso, ter dado um tiro às cegas.

 

Apresentando Kim Burgess

 

Se há uma personagem no mundo das séries que precisa de proteção urgente, com direito a carro blindado, é Kim Burgess, muito bem interpretada por Marina Squerciati. Ela pertence ao universo já citado – Chicago P.D. – e sua presença se tornou cada vez mais necessária no decorrer dos episódios. Tudo graças ao seu desenvolvimento gradativo que compõe os prazeres e desprazeres de ser uma policial da patrulha mais o sonho nada segredado de migrar para a Unidade de Inteligência.

 

Em quase 3 anos, tivemos seu auge e sua queda. Parece até aquelas carreiras relâmpago.

 

O auge e a queda representam pontos de preocupação, pois, como se pertencesse à CW, Burgess ficou centrada nos romances – o que deu aval para Justice sambar e cuspir em cima. Só que ela teve uma transição muito significativa no âmbito profissional, mais que Erin Lindsay, outra personagem da série, por não ter absolutamente nada, mas ao mesmo tempo ter expectativa de tudo. Sem contar que atuar como policial deu demais da sua personalidade, muito mais em comparação a sua inserção nos namorinhos com Ruzek e com Roman.

 

Da mulher ingênua e otimista com relação a ser policial da patrulha, Burgess encontrou um ponto fixo para driblar suas emoções sempre afloradas e endureceu ao longo da S1-S2. Transição que não a fez perder o traço essencial da sua personalidade: a compaixão. Por mais difícil que seja a situação, há uma gota de compaixão em tudo que faz e é isso que a coloca sempre na linha tênue da justiça e do crime. Duelo interno que garantiu momentos marcantes, de pura evolução, e me pergunto: aonde enfiaram o resto da história dela?.

 

A compaixão é o que faz Burgess uma personagem completa, multifacetada e relacionável, composição que desafoga a lista de estereótipos no gênero policial (sempre dominado por homens, vale o lembrete) – a mulher Tomb Raider ou a medrosa iniciante que precisa de alguém (o homem) para ensiná-la a atirar. Suas emoções afloradas nunca foram um problema, embora não tenham deixado de ser pontos de reflexão sobre o quanto isso afetaria sua profissão. Nesse quesito, Chicago P.D. foi feliz em destacá-la pela vulnerabilidade, que é seu ponto forte e não algo para se envergonhar, algo que Justice esqueceu na hora de botá-la no cerne da sua trama. É no limite da razão, na pressão do momento, que a vemos dar o melhor de si, e não o pior, sem espiar sobre os ombros.

 

Ressalto outro ponto muito precioso da caracterização de Burgess, e até mesmo da de Erin: ela não foi banhada no estereótipo de mulher ranzinza e de poucas amizades. Aka a bossy, a amarga, a que vive na TPM. Três pontas que os roteiristas amam para inventar as piadinhas infames.

 

As coisas mudam para Burgess, em parte, por causa de Ruzek, o mozão com quem acaba noivando no final da 2ª temporada. Poderia ter aceitado como aceitei por muito tempo Lindsay e Halstead, mas Burgess começou a perder o brilho com a chegada da S3 por estar mais preocupada com um relacionamento em que a outra parte não parecia mais tão interessada. A personagem teve outras contribuições na UI no ínterim S2-S3, no começo da S2 ela ainda falava na mudança de carreira, mas a força desse desejo foi trocada pela atenção a um noivado falido.

 

E quando achei que ela voltaria à estaca zero no âmbito profissional, lá estava os beijos com Roman.

 

O ciclo Burgess de sucesso

 

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No começo da sua trajetória, vemos Burgess superempolgada, chamando Voight de boss com os olhinhos brilhantes de admiração – que tenho certeza que seriam saltinhos fangirl. Fazia 2 meses que ela usava o uniforme de policial da patrulha, uma tamanha reviravolta profissional considerando que foi comissária de bordo. A personagem logo se apresenta inocente e esperançosa sobre o buraco que se meteu, mas quer mais. Muito mais.

 

Esse mais significa conquistar uma vaga que não existe (e continua a não existir) na Unidade de Inteligência. Para isso, ela precisa ver vista, o que a faz chamar a atenção para si sempre quando tem oportunidade. Esse é o real propósito dado a essa personagem na S1, a ideia de iniciante que quer se dar bem. Tentativa muitas vezes abafada por também pertencer ao alívio cômico de CPD.

 

A princípio, e fora desse desejo de ser detetive, aprendemos que a personagem não aceita desaforo e nem que zombem da sua vontade de ser integrante da equipe de Voight. Burgess tem suas defensivas, mas nada a impede de sofrer bullying de Platt, sua superior. Momentos embaraçosos destacados na S1.

 

Por causa disso, pensei, automaticamente, que ela seria a ponta fraca da série. O estereótipo de mulher que teria uma chefia que só a humilharia – e a Sargento emanou a impressão de que seria esse tipão que, geralmente, é representado por personagens masculinos.

 

Tendo em vista que Fire também tem seu alívio cômico, era de se esperar que a tríade Burgess, Platt e Atwater não caminhasse para canto algum e ficasse para sempre esquecida. Tudo porque esses personagens, além de arrancar umas risadinhas, também tapam buraco de tela enquanto o conflito central transcorre. A boa é que passados alguns episódios, você percebe que as piadinhas de Platt, não tão engraçadas quanto às pausas dramáticas, são meios para revelar quem é Kim Burgess (e Atwater). Daí, você começa a dar uma relevada.

 

São nesses trechinhos de cena na companhia de Platt e de Atwater que Burgess se revela o oposto do que imaginei. Ela não é a dita boca aberta, a policial que vive em apuros ou que não sabe se proteger. Fato é que, na época, também foi batata classificá-la como “fácil de influenciar”. Aquele tipo de personagem feita só para dizer amém e não ser valorizada ou vista como merecedora de desenvolvimento. Porém, esses instantes cômicos provaram que a policial tem garras de ataque, sabe dizer não aos pedidos um tanto quanto ridículos da sua superior e manja dos cortes surpresas ao ponto de deixar geral com cara de tacho.

 

Justamente porque Burgess, por muito tempo, foi aquela que ninguém dava 1 Dilma (e usarei Dilma sim porque ninguém merece 1 Temer – ou 1 golpinho).

 

Ao longo da S1, se vê que Burgess tem um nervo, basta apertá-lo do jeito certo. E o jeito certo vem de uma palavrinha que, uma vez dita, ela sobe pelas paredes a fim de mostrar o contrário: incompetente. É quando você começa a entender que todas as provocações de Platt são intencionais para fazer com que ela, e até Atwater, não cometa o erro de cair na zona de conforto. Algo que não é impossível tendo em vista que, uma vez saída da Academia, a pessoa pode se acomodar à patrulha para comer donuts. Só não essa moça que quer a UI.

 

A informação acima também foi esquecida em Justice. Assim, não tem nada de errado em falhar, o ser humano é falho, mas Burgess tem tanto receio de ser incompetente naquilo que ama, somado as críticas pessoais sobre suas emoções, que se atém às regras. Isso quer dizer que ela jamais se meteria em um beco para namorar tendo em vista que estava com o uniforme da patrulha. Talvez, a personagem teria feito isso fora do expediente, o que respaldaria um tiro pelas emoções erradas.

 

Retornando à timeline da S1, tudo que ela quer é mostrar ao Voight que pode mais, a fim de conquistar um posto na Inteligência. Atwater e ela iniciam uma competição camarada, para não dizer camaradamente silenciosa, e se colocam em risco a fim de chamar a atenção para uma vaga que não existe. Claro que a policial se destaca mais que o parceiro por ser prestativa, ter proatividade, e não hesitar em se jogar nas missões cabulosas. Tudo sem perder a humildade e o foco.

 

Foco este que não se perdeu, nem mesmo quando começa a sentir as borboletas no estômago por Ruzek.

 

Infelizmente, a mancada rola e Burgess termina a S1 sem um cargo na UI – vitória de Atwater e não me conformo até hoje –, mas ganha um mozão. Com essa conclusão, veio a típica sensação: uma clara heroína acabará centralizada no romance?

 

Geralmente quando há um equilíbrio entre evolução pessoal e amor, não tenho do que reclamar. Não tenho mesmo porque há crescimento de ambos os lados e dá para aprender muita coisa – e explorar tantas outras. Tenho sonos tranquilos ao saber que alguém se preocupa com essa interseção, que rolou com Burgess no decorrer da S2, mas depois…

 

O início do auge

 

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Antes de ser acomodada na bolha romance, a S2 foi a melhor temporada para Burgess e sua intérprete. Foi um ano impactante, o início do auge tanto na caracterização quanto no desenvolvimento de storyline. Me dá até um negócio no coração só de relembrar o sucesso.

 

No 2º ano de CPD, a policial ainda estava focada em subir de andar e fez o possível para manter o romance com Ruzek em segredo – porque Voight não aceitava relacionamentos no seu antro de trabalho. Ao contrário da S1, Burgess está mais forte, mais perspicaz e mais ácida quanto às piadinhas que tentam de certa forma botá-la para baixo. E, claro, meio magoada por não ter sido escolhida no lugar de Atwater – todos nós ficamos.

 

Nesse novo ciclo, o atrito da storyline dela se chama Ruzek, que começa a ser irritante (desculpa manas que gostam dele) por tirá-la do objetivo ao abordá-la sempre que tem chance para dar uns beijos na hora do expediente. Ele não respeita o vamos se beijar depois e isso o fez cair gradativamente em descrédito comigo. Em contrapartida, esses instantes acentuam um outro lado dela: a grande dificuldade de ser grosseira e de meter um não na face de quem considera pacas.

 

Mas ela não sabe dizer não e dar voadora na Platt? Sim porque o problema está quando cutucam a sua autoestima, que pode ou derrubá-la ou deixá-la furiosa. É o que a Sargento faz e Burgess ataca. O quadro muda quando tem algum benzinho na roda porque, feliz ou infelizmente, a policial é uma mulher que se apaixona rápido (me identifico). Sem contar que os beijos compartilhados com Ruzek abafam sua chateação de não ter subido de andar, lhe dando uma vivência digna de comédia romântica.

 

Inclusive, Burgess é aquela que sofre com tudo por antecedência. Seus rompantes de ação são muito instintivos, na hora do pulo, rápido como estalar os dedos. Isso, no âmbito profissional, pois no pessoal, ela é aquela que sempre tem o coração partido por dar o benefício da dúvida pra geral. Por mais que a personagem se defenda e tenha argumentos, há alguns casos que pensa duas vezes antes de falar, o que a faz se redimir aos seus aposentos rapidinho.

 

A S2 vem com esse desafio de intercalar romance e profissão na vida de Burgess (a S1 era só trabalho), e consegue com extremo sucesso, independente de Ruzek ser pentelho vez ou outra. Inserida em um relacionamento, a personagem ainda se segura no seu propósito porque sabe que com Voight o babado é certo. Mesmo triste, e um tantinho inconformada por ter consciência de que merecia o posto mais que Atwater, a policial não deixa de se mostrar, estando muito mais à vontade em comparação a pose de aluna nova lá da S1.

 

Nessa timeline, Burgess sabe qual é seu lugar e não precisa de Platt como bússola. Porém, sua segurança volta a tremer um pouco ao ganhar Sean Roman como parceiro. Um cara com pinta de durão e sem paciência pra quem tá começando.

 

Milagrosamente, Roman dá um gás em uma Burgess que o vê como inspiração em alguns episódios. Outro ponto feliz para CPD que ainda não trouxe – e nem queremos – um mané machista para ser parceiro dela.

 

Embora continuasse a compartilhar a ala do alívio cômico, a personagem contou com um desafio primordial para a evolução da sua storyline: o tiro do 2×09. Um instante que poderia fazê-la dar mil passos para trás, mas a fizeram ir adiante. Ela não se rebaixou ao clima de pesar que a rodeou e encontrou coragem suficiente para recusar o tão sonhado convite para ser uma detetive na UI.

 

Convite de caridade de Voight que fez meu sangue bater na testa porque houve até a chance de aceitar o relacionamento dela com Ruzek, desde que não atrapalhasse o job (e Linstead só tomando na face, diariamente). Foi um instante catastrófico e que poderia ter sido ainda mais catastrófico se a policial simplesmente topasse.

 

Afinal, não seria uma conquista de mérito, mas porque o ídolo Voight fez uma exceção. Seria pisar no que batalhou ao longo da S1. Nos seus esforços e no respeito que conquistou.

 

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Mesmo acamada, Burgess resgatou o que tinha desaparecido por causa do romance com Ruzek: correr atrás de conquistar sua vaga na UI com todos os méritos. Reviravolta que não aconteceu na S2, pois a policial lidou com muito mais depois que se recuperou do famoso tiro, ao ponto de escolher o posto na patrulha.

 

Escolha que veio como o resultado de uma nova história, mais conhecida como seu auge no 2×15. Novo destaque que esfregou na face dos inimigos o quanto não tinha nada de ponta fraca. Nem muito menos o de mulher que vive somente e unicamente de romance.

 

O 2×09, 2×10 e o 2×15 é o que chamo de Trilogia Burgess e Justice deveria ter se lembrado disso. A policial veio como a boa ouvinte que se irritou e tomou partido de uma situação que lhe rendeu um tiro. Depois, ficou acamada e se recuperou só fisicamente. Em seguida, veio o teste mental, um novo jogo de sobrevivência, que botou em cheque seu condicionamento para manter o uniforme da patrulha. Do susto, a personagem saltou para lidar com o trauma que quase lhe tirou a vida. Um arco que tentou matá-la duas vezes e lá foi essa linda dizer not today, Satan, not today.

 

Claro que a soma de tanto caos não foi fácil de lidar, pois Burgess voltou a repensar suas emoções como pontos de fraqueza e até a rotina que levava porque a chamaram de previsível. E Justice se esqueceu disso também. Em vez de se lamuriar, a personagem pega todo o trauma e o transforma em combustível para sua cura pessoal. Mesmo machucada, ela ainda se mantém a postos para dar a outra face pra bater.

 

Burgess decidiu o próprio futuro por ela mesma e isso me deu muito orgulho. Quem era Erin Lindsay depois de tudo que essa personagem passou (desculpa, Sophia, mas né?)?

 

Para fechar o rolê, Burgess assume temporariamente o lugar de Lindsay na UI no finalzinho da S2. A policial poderia negar a nova oportunidade, mas ocupou o posto sem pensar duas vezes. Um encerramento que a mostrou intencionada a passar por cima de tudo aquilo por conta dela e não por influência alheia.

 

A policial abraça a recuperação nos últimos episódios com valentia e com graciosidade. E só pensava no trabalho. Ela foi jogada na lama, correu risco de vida, foi surpreendida por um tiro e em seguida se viu em outra situação apavorante e não abaixou a cabeça. Ela tinha tudo para se tornar um pé no saco, mas virou exemplo de força e de superação. Não a tornaram uma vítima, que ameaça abandonar o distintivo toda hora porque não aguenta mais. No fim, essa mulher se impôs por si mesma.

 

Mas Justice foi lá e a pintou de chorona que só pensa com a vagina. Dick Wolf não assiste suas séries.

 

Não tiro os méritos de Roman que teve uma fatia de responsabilidade em fortalecer Burgess na S2. Meramente porque ele se jogava em zona de risco ou ficava em perigo, e a levava junto. Ao contrário de Atwater que era sim – e continua – um completo boca aberta e não a ajudou em nada.

 

Já diziam que as pessoas são influenciadas pelo ambiente do qual trabalham e pelas pessoas com quem dividem o job, e a policial se deu muito melhor com o segundo parceiro que respirava causar problema. Um cidadão que foi uma parte essencial em mantê-la focada no presente, embora ainda almejasse o posto na UI.

 

Burgess foi dividida na S2 entre a mulher que ama Ruzek e a mulher que não hesita diante do caso. O balanço que me faz menos resmungona. Nesse mesmo ano, a policial experimenta a quebra de limites, sente na pele o que é o instinto de sobrevivência trabalhando a mil por hora e a alternação de temperamento.

 

Mesmo cercada por 2 homens, essa personagem reivindica seu espaço, só que agora na patrulha, sua escolha final na S2 por causa da parceiragem criada com Roman. Conclusão que destaca outro traço da sua caracterização: uma lealdade absurda com os outros.

 

3ª temporada: a queda

 

Burgess

 

A transição para a S3 é onde tudo esmorece para Burgess. O início do rolê na ladeira. Por ter atingido o auge na S2, a personagem começou a ficar esquecida. Aos poucos, jogada para escanteio. Houve uma queda brusca no desenvolvimento da sua storyline, sendo que vinha como sobrevivente de ondas gigantes que testaram não só ela como pessoa, mas como policial.

 

Burgess tinha que ter retornado reivindicando tudo, até o posto da Platt. Porém, o erro vem lá de trás, no final da S2, em que a policial é pedida em casamento por Ruzek. Um salto que resumiu sua história ao longo de boa parte da S3.

 

Por estar tão preocupada com o casório, e Burgess é deveras preocupada, ela simplesmente perde a ação. A policial teve alguns instantes incríveis ao combater o crime, mas, até o hiatus de final de ano da S3, tudo que a personagem soube fazer e pensar foi sobre o status de um relacionamento que começou a não ser mais interessante para Ruzek.

 

Uma vez terminado o noivado, vi um mar de possibilidades para deixá-la de mãos cheias. Porém, a juntaram com Roman, o parceiro sangue nos olhos. Ato que confirmou a teoria que nasceu na S1, a heroína que perde seu heroísmo porque ela fica bem na bolha do romance.

 

Não.

 

Para disfarçar um pouco o empobrecimento de histórias para Burgess, criaram a isca Lingess (que também não reclamo e amo forte), instantes preciosos (e raros) que compartilha com Lindsay (outra que perdeu demais ao longo da S3). Ações que as fazem temporariamente parceiras, visto no 3×15, episódio que realmente enxerguei essa personagem depois de tanto tempo apagada.

 

Uma empreitada certeira, mas não com gosto de possibilidades porque ambas continuam em patamares diferentes. Caso Burgess consiga um dia a amada vaga na UI, penso que essa parceiragem nunca acontecerá  porque Voight gosta de mulher trabalhando com homem.

 

Todo o gás dela no arco S1-S2 desaparece, bem como o desejo de ser detetive. Burgess surge na timeline da S3 mais preocupada com o noivado e a vemos, gradativamente, meio conformada onde está. Sensação que só piorou porque a personagem começa a se envolver com Roman.

 

Já que ela tinha optado em ficar na patrulha para dar apoio à recuperação do parceiro na S2, o bônus do romance criou a famosa zona de conforto e tudo o que vemos é Burgess jogando no seguro.

 

E isso não é normal? Afinal, Burgess escolheu ficar na patrulha e namorar depois de um noivado falido. Seria, se as Chicagos não estivessem em uma onda de silenciar suas personagens para deixá-las na sombra dos homens. São, mais ou menos, 2 mulheres para 6 homens em cena. Inclinar uma ou outra no romance é jogo seguro, especialmente quando uma ou outra vem de uma storyline que sempre a botou em destaque e não à mercê de situações redutivas.

 

E é aí que entra Chicago Justice. O fim da picada.

 

Jay

O rosto do único homem que foi justo, sensato e bacana com Burgess em Justice

 

Episódio 3×19 de Chicago P.D.. Experiência que, penso eu, será impossível de esquecer. Ainda está entalado, juro para vocês. Uma empreitada que anunciou o empurrão ladeira abaixo, sem cinto de segurança, pois Burgess foi julgada por tudo menos por ter puxado o gatilho no escuro.

 

Salvo Halstead que fez o grande favor de elogiá-la pelo bom trabalho e não porque escolheu bem o beco para dar uns beijos. É isso que amigos fazem.

 

Burgess foi centralizada para dar vida ao piloto backdoor de Chicago Justice. Da hora! Era para ser aquele momento feliz, cheio de ações que poderiam fazê-la brilhar como antes. Um mega destaque que lhe faltou ao longo da S3, mas que, infelizmente, não fez jus à personagem e nem à sua trajetória.

 

Literalmente, foi um tiro no escuro que botou em cheque o fato dela ter um relacionamento em off com Roman e não sua postura como policial que arrasou-demais-no-tiro-mas-foi-irresponsável. Da mulher que batalhava pelo seu espaço, que aprendeu a lidar com Platt, que sempre estendia a mão à la Hermione Granger para impressionar Voight, que foi a melhor companheira de trabalho e que nunca desviou das suas metas, ela foi reduzida para a mulher que fez sexo e que atirou movida pela vagina.

 

Nada, nada mesmo, resgatou a Trilogia Burgess. Tenho absoluta certeza de que essa personagem teria agido como agiu em Justice pelo trauma de outro tiroteio embaixo do seu nariz e só depois pensaria em Roman. É reflexo. É estresse pós-traumático. Ela não deixaria de se preocupar com ele, óbvio, mas exigiria o resfriamento emocional por ter pensado na defesa primeiro e no estrago depois.

 

Existia um trauma que se intensificou com esse novo susto. Detalhe que deveria ter se tornado a causa geral somada ao tema Black Lives Matter.

 

Assim, julgar mulher por fazer sexo é algo típico na TV, mas não em CPD que prioriza o quanto pode o diminuto elenco feminino. Nem Lindsay foi ou é julgada pelo seu passado, sempre sendo destacada pelas suas ações. Burgess pertencia a essa bolha até Dick Wolf tomar o lápis e fazer com que as emoções envolvidas no ato da policial fossem distorcidas pela querida vagina.

 

Rebato de novo: engraçado que ninguém debateu a Trilogia Burgess, que quase custou a vida dela. Assunto que deveria ter retornado em cena como mero reflexo da sua ação errônea. Porém, preferiram rebaixá-la a destacá-la pela valentia, fazendo-a perder as estribeiras por pouco.

 

Sendo que ela não perde as estribeiras. Não do jeito que rolou em Justice (e provarei isso lá embaixo aguardem).

 

Burgess é absurdamente profissional e lhe deram uma irresponsabilidade que não ornou de tão estúpida. Até porque no episódio 2×15, o caos se instalou por causa de uma ação impensada dela e que quase custou sua vida (de novo) e a de Roman – e que deveria ter pesado também em Justice. Jamais ela iria a um beco no meio do nada para dar uns beijos. Não depois de quase ter morrido duas vezes na 2ª temporada.

 

Justice não interligou o background de Burgess. Pareceu um universo paralelo.

 

De uma personagem que tinha potencial, que se destacou em um local dominado por homens, ela foi reduzida pr’aquela lá que dorme com os parceiros de trabalho a menor oportunidade. Ela virou a “fulana que não resiste aos camaradas de patrulha ou quaisquer outros homens solteiros que lhe dão bola”. Não há nada errado nisso, ela está certa em dar uns beijos em quem quiser, mas esse artifício como meio redutivo para quem tinha background e caracterização solidificados foi de um descontrole de roteiro escancarado.

 

Ou, intimamente, crise do ego masculino.

 

A S3 em si começou bem para Burgess, mas se desenvolveu com uma baita preguiça. Até Lindsay não avançou nesta temporada, nem mesmo depois da perda de Nadia (que não foi trabalhada). A policial da patrulha teve alguns momentos preciosos, vários que a fortaleceu, mas Justice aconteceu e o estrago foi demais. Um estrago que botou em cheque vários tópicos que não faziam parte da sua storyline ou da sua caracterização.

 

Mas não vamos chorar por Justice. Até porque, o melhor de Burgess vem agora. Vamos empoderá-la sim!

 

Empoderando Kim Burgess

 

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Burgess mostrou que não estava só pronta, mas que nasceu para a UI no famigerado 1×11 de P.D.. Ela aceita o desafio de se disfarçar como uma prostituta, depois de levantar a mão igual a Hermione, e se envolve até na escolha das roupas para prestar esse papel. A personagem nem ao menos hesitou em ir para a zona de conflito sem o microfone de contato com a equipe de Voight, dependendo apenas da coragem e de um celular.

 

Para quem nunca tinha se exposto a tanto risco, Burgess (e a própria Marina) surpreendeu. Embora tenha caído rápido para dar ação à Inteligência, o que me admirou neste episódio é que ela não tinha experiência alguma, não fazia ideia do que estava se metendo, mas se agarrou na adrenalina de estar em meio ao time que sonha fazer parte. Ela estava empolgada e temerosa, mas convicta da oportunidade e do quanto teria que dar o seu melhor.

 

Burgess mandou nesse episódio ao surfar em uma onda maior que ela. Quase se afogou, mas provou sua fibra.

 

Em seguida, no 1×12 (crossover com Fire), conhecemos o lado frágil de Burgess que está no ápice porque a explosão do hospital afetou sua sobrinha. Aqui, temos a prova do “sendo que ela não perde as estribeiras. Não do jeito que rolou em Justice“. Era a sobrinha. Vítima de uma fucking explosão. E tudo que a policial fez foi manter a calma, raciocinar para, ao menos, dar conforto para alguém que não era um mozão, mas uma pessoa da sua família. Percebem o quanto, às vezes, é fácil captar que a empreitada do romance serve apenas para minimizar a personagem feminina para nada? Aqui temos uma bela contradição com o dito piloto backdoor.

 

Wolf deve ter feito aula com Plec. Uma mulher que deveria nos representar, mas ainda centraliza suas personagens somente na storyline dos namoradinhos. Atitude que anula protagonismo.

 

E não foi isso que rolou com Burgess? A irresponsável que atirou pelo crush? Esse não é meu mundo.

 

Burgess ganhou destaque neste crossover, mas não entrou em ação, o que forçou Marina a representar o bloco do drama sem apoio algum. Aqui, já se vê que a equipe, inclusive Voight, já a vê diferente. Já a vê como parte de um time mesmo que não tenha sido promovida. Há respeito e admiração. E Marina samba de novo.

 

Neste episódio, Burgess vira basicamente o motivo a mais para trazer justiça à mesa e seu engajamento dramático fez desse episódio uma descarga dos mais variados sentimentos que não ornam com o que rolou em Justice. Da personagem versão sangue nos olhos do 1×11, vemos uma mulher com medo e apavorada, sem vergonha de se expor frágil porque uma pessoa que ama se encontra em risco de vida.

 

Fato é que Justice vendeu a “mulher histérica pelo homem” sendo que essa personagem nunca foi assim. Sem contar que isso é discurso machista que impõe a fala de que qualquer mulher com suas emoções afloradas não passa de uma maluca desvairada que não pode ser levada a sério. Não sejam essa pessoa.

 

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As cerejinhas da storyline de Burgess acontecem na virada do 2×09 – o famoso tiro – para o 2×10 – a proposta de caridade para se tornar parte da UI. Época que já não tinha mais a pinta de inocente, mas ainda estava focada em mostrar que era awesome.

 

A S2 trouxe o melhor de Burgess quando conseguia se desvencilhar de Ruzek. O tempo no hospital por conta do tiro lhe abriu novos horizontes e lhe deu mais perspectiva do que fazia. Os minutinhos finais do 2×11 marcam essa mudança, instante lindo e doloroso em que contempla as feridas e as marcas no espelho. Ali, você espera que a policial endureça e que finalmente compreenda que é preciso mais sangue frio que o emocional para agir.

 

Mas Burgess é um poço emocional, algo que, sempre que tem oportunidade, enumera como sua fraqueza – sendo que não é. É o que a faz humana e até mesmo mais forte dependendo das circunstâncias. Algo visto no 2×15, o rebote do destino em que é sequestrada com Roman (que está ferido) e tem que se virar sozinha para sair dali vivinha da silva com o parceiro. Um episódio irônico – e épico – porque a personagem começa toda focada em mudar sua rotina depois do tiro por ser dita como previsível – que se assemelha ao incompetente.

 

Este episódio botou pressão em uma mulher que ainda não estava completamente pronta para retornar ao trabalho, mas estava lá, firme e forte. E enfrentou tudo com sua dita fraqueza e mostrou o quanto os desdobramentos anteriores já começavam a fazer efeito dentro dela.

 

E na S3? Bem, nada marcante. Chicago P.D. tem se perdido na hora de valorizar seus personagens, algo que não acontecia na S1 e na S2. Como rolou com Fire, tentaram mudar os ares da série e a prova é um episódio mais repetitivo que o outro. Poucos conquistaram e praticamente nenhum policial/detetive teve a história passada desenvolvida – a não ser Voight.

 

Mensagem final

 

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Abraço comunitário na Burgess

 

Já me indagaram bastante pelo fato de eu gostar mais da Burgess que de Lindsay. Gosto mesmo, porém, não significa que não goste da Lindsay, porque gosto sim. Mas o que me encanta na Burgess – e que foi esquecido ao longo da S3 de P.D. – é que ela sempre batalhou pelo seu espaço enquanto a amiga detetive ganhou o seu espaço de mão beijada e com um laço. Identifico-me com essa luta, de querer mostrar que é capaz e só tomar na face.

 

Não desmereço os esforços da personagem de Bush. Porém, ela não tem mudado em tanta coisa, só na S2 ao querer abdicar do rótulo Voight’s girl, que dei os parabéns na época. E depois?

 

Sim, tenho um grande impasse com padrinhos mágicos na ficção, mas isso não desmerece Erin. Apesar de ter subido fácil na carreira, isso não significa que ela não tenha lutado para estar onde está. O problema é que P.D. não mostra o background no formato flashback – e dificilmente isso acontece em séries desse gênero – e dá a impressão de que a história dessa personagem é sempre igual. Ao contrário de Burgess que quando era centralizada, mostrava diferencial.

 

Burgess costumava se jogar em zonas de risco para chamar a atenção a fim de subir para a Unidade de Inteligência – que é a grande coisa dessa série. Lindsay não precisa batalhar por praticamente nada já que tem seu espaço e uma vez que tentou ter outro por conta própria a desculpa foi “ninguém gostou da storyline” – e a verdade é que esse instante foi usado unicamente para iniciar o romance com Halstead (e não reclamo).

 

A personagem deste post não tinha nada a não ser sua formação na Academia e muita vontade de mostrar serviço para realizar o sonho de ser uma detetive – esperando até agora. É fato que ela precisa de mais. Muito mais para compensar o estrago chamado Chicago Justice. Só que começo a perder a esperança, uma vez que as mulheres das Chicagos estão cada vez mais sem voz.

 

Para piorar a desesperança, deram outro arco amoroso para essa personagem em questão. E depois?

 

O que particularmente me dói, e que me deixa confusa, é que Benson foi empoderada por ter um passado dark. Erin não foi chamada de “louca” porque socou uma mulher na face no ímpeto da resolução de um caso. E temos Burgess, que poderia ser tão igualmente empoderada, mas optaram por atacá-la (pelo homem) sobre o fato de sentir e de ter a vida sexual muito bem ativa, obrigada.

 

Ou eu estaria ~igualmente louca~?

 

benson

O rosto da vulnerabilidade por 17 temporadas

 

Estamos em 2016 e é preciso parar com essa de criticar duramente a mulher, humilhá-la completamente, pelas suas emoções ou porque trocou de parceiro muito rápido. De chamá-la de louca e de vadia porque sente e/ou porque tem autoridade do próprio corpo. Burgess pode não ter sido drasticamente silenciada, mas havia o homem que a fez sentir medo e vergonha de si mesma. E isso está muito errado. Errado pra c***! Não interessa se é ficção ou não.

 

A vocês que consideram emoções uma fraqueza, um “problema feminino”, aqui vai meu bilhetinho: ao negar as emoções, como você acha que lidará quando realmente quebrar? Digo isso por experiência própria, pois fui dessas que tinha que brincar de ser forte enquanto meu interior só precisava do soco certo para espatifar. E quando espatifava, não sabia lidar porque via a minha vulnerabilidade como uma fraqueza que seria usada pelos inimigos.

 

E a vulnerabilidade está longe de ser uma fraqueza. Já diziam que as pessoas mais fortes são aquelas que cedem ao que sentem e aprendi duramente a concordar com isso. Você vê o que está certo e o que está errado, aonde dói mais e dói menos. Além disso, a vulnerabilidade não é coisa de “mulher histérica que precisa de um macho” para se sentir melhor. Vulnerabilidade não deve ser arma para chamar alguém de incompetente. Ela existe, está aí dentro de você, e arrisco a dizer que é o sentimento que traz tudo que Burgess representa. Um combo lindo de empatia e de compaixão.

 

Preciso mesmo continuar para mostrar que o que Justice fez foi um desserviço com um traço que faz muitos de nós mais humanos? Que foi um episódio 100% problemático? Principalmente quanto ao papel de Burgess? Acredito que não.

 

E se você também se sentiu ofendida (o) com o que fizeram com Burgess, vem cá me dar um abraço.

Stefs
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  • Mateus Moraes

    Realmente PD está decaindo no seu nível, o que era uma série moderna e atual, foi brutalmente destruída por Justice. Por favor tio Wolf, o pessoal tá cansado de Law & Order, os anos 90 já acabaram!!!!
    Espero que recuperem essa personagem assim como a série toda, que parece estar perdida e aleatória. Parabéns pelas palavras, beijos!

    • Hey, Random Girl

      Eu queria botar um post-it na mesa do Dick com: migo, século 21, a roda de conversa se alterou. Mas o bichinho tem um ego tão grande que é capaz de destroçar meu bilhetinho hahaahahahah; Agora com o fim da temporada, espero que CPD sofra um belo de um tapa, mas rola um medinho porque nem Fire anda escapando da mão mole dos roteiristas. Tá tudo tenso em Chicago hahahaha

      E Burgess tão amor que me dói vê-la de lado. A maneira como ela terminou a temporada foi uma das piores partes pra mim, sério.

      Obrigada pelo comentário (e desculpa a demora em respondê-lo) <3