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27/jun

Meu vício por Orange is the New Black está confirmado e só tenho a agradecer aos envolvidos (e tô com dó de maratonar a 4ª temporada pela verdade de não querer ficar órfã até ano que vem). Não me aprofundarei sobre esse amor (que terá um post em breve) porque a meta de hoje é falar da geminiana Laverne Cox. Um amor que nasceu e que foi alimentado conforme algumas matérias sobre ela caíam na minha timeline. Tudo só aumentou graças a sua personagem Sophia Burset.

 

Foi inevitável não vir aqui dar uma paparicada nessa mulher maravilhosa. Ainda mais por ser mês do orgulho LGBT. ❤

 

Se você nunca assistiu Orange, aqui vai um resuminho do background de Sophia: ela foi presa por fraudar cartões de crédito para bancar as cirurgias que culminaram na sua readequação sexual. No início, vemos a personagem como Marcus (que é interpretado pelo seu irmão gêmeo), um bombeiro que tem colegas machistas. De início, o vemos abraçando a identidade feminina em meio a discussões com a esposa que não esconde a mágoa desse processo, mas dá todo apoio. Ambos têm um filho que não aceita bem a mudança.

 

Há muita ingenuidade da parte da personagem, sentida depois da cirurgia em que vê que não basta apenas ela mudar, mas o lado de fora também. Sophia se abre para um mundo que não lhe sorri de volta, que fala que te aceita, mas não exatamente de tal forma. A única pessoa que tem para contar é a esposa, que nem sabe mais como se comportar por se lembrar de que ele agora é ela.

 

O que acontece com Sophia é deveras relacionável com o background de Laverne no período da transição de gênero. A atriz usou sua história para compor a personagem e é por isso que se vê tanta verdade na sua atuação. Orange não traz preconceito à toa no cerne mulheres e uma vez que investe a intenção é sempre impactar, como aconteceu com a presidiária que vivencia a transfobia da parte delas. Situação que a atriz é familiarizada tanto no âmbito social quanto no pessoal.

 

Mas quem é Laverne Cox?

 

Quem-é-Laverne-Cox

 

Laverne parece que foi lançada ao mundo quando Orange caiu na Netflix, mas tudo começou basicamente em 2008, quando concorreu para ser uma assistente do Diddy (me pergunto aonde é que essa pessoa está atualmente). Ela não ganhou, mas a perda lhe deu visibilidade, principalmente por ter sido a primeira trans negra a ter destaque em um reality show americano. Atenção que aumentou sua vontade em se dedicar ainda mais à carreira artística.

 

Ela tem muito da Priyanka Chopra, se querem saber, por ter a palavra primeira estampada em seu currículo. Além de ser a primeira transexual negra em um reality, Laverne também é a primeira a ter um papel de destaque numa série mainstream. Sem ser estereotipada, vejam. O “primeira” ainda se estende a ser dona de um programa de televisão, o TRANSForm Me, que chegou a ser indicado ao GLAAD Media Award (ONG voltada para a comunidade LGBT).

 

Fora de Orange, Laverne fez participações menores em diversas séries, tais como The Mindy Project, Girlfriend’s Guide to Divorce, Law & Order: SVU e a cancelada Faking It. É claro que o reconhecimento veio ao viver a inesquecível Sophia, o que lhe abriu muito mais portas e lhe rendeu até uma indicação ao Emmy pelo seu trabalho nessa série.

 

E mal posso esperar para vê-la como Dr. Frank-N-Furter no musical The Rocky Horror Picture Show que tem previsão de ser exibido este ano pela FOX.

 

Nem só de atuar vive Laverne. Ela também soma projetos pessoais como o Laverne Cox Presents: The T Word, que foi exibido na MTV. Trata-se de um documentário que centraliza jovens transexuais e a determinação del@s em comandar suas vidas como as pessoas que estão destinadas a ser. O projeto também rendeu uma indicação ao GLAAD.

 

A questão de gênero

 

Laverne---Sophia

Sophia Burset, prazer!

 

Laverne cresceu com a mãe e o irmão gêmeo M Lamar (que também faz os paranauês no mundo artístico). Ela nunca conheceu o pai e ele também nunca fez parte da sua vida. A ausência paterna não a ateve de ter uma infância amorosa e criativa, como se dedicar a aulas de dança (só não balé porque sua mãe achava muito gay, considerando que se tratava de um menino).

 

Na infância, Laverne já tinha sua feminilidade aflorada e sofria bullying por isso. Uma das suas memórias mais marcantes vem de quando saltara do ônibus escolar e fora perseguida por um grupo que não hesitara em agredi-la. O segredo seria mantido se uma pessoa não tivesse visto o incidente e dedurado ao diretor. Caso contrário, jamais teria confessado uma agressão que fez a mãe indagar o por quê a filha (que era filho) não tinha revidado. A praxe de que os garotos precisam reagir a qualquer briga por serem garotos, sendo que tudo que Cox sentira foi pavor.

 

A descoberta sobre ser transgênero veio na 3ª série, quando um professor disse à sua mãe que ela terminaria em New Orleans usando um vestido se não buscasse terapia. Nesse ponto da vida, Laverne já se via como uma garota e achava que não havia essa de diferença de gênero. Na sua imaginação, a puberdade chegaria e, automaticamente, impulsionaria a transição sexual. O terapeuta entrou em cena, tendo como peso a lembrança do professor que se traduzira em um medo singelo sobre seu futuro. Esse foi um dos seus momentos que considera mais vergonhosos.

 

Até porque Laverne também não associava a “verdade” de que uma pessoa degenerada era o mesmo que ser uma pessoa sem sucesso – da série de coisas que se ouve por aí. Impressão fortalecida pela mãe que sempre dizia que ela e o irmão tinham que ser pessoas realizadas. Algo que, em tese, não poderia acontecer uma vez que não se identificava como homem. Para sua sanidade, ela não relacionara o sucesso ao fato de ser trans porque já tinha enraizado na mente que queria ser famosa e performar. Bastava correr atrás.

 

Só que seu mundo caiu quando a avó faleceu, momento difícil demais em que voltou a se questionar. Um tempo em que sua atração por meninos começava a ficar mais forte e que se tornou um fardo porque aprendera na igreja que se sentir dessa forma era pecado. O peso do luto fez Laverne se ver como uma decepção justamente por se sentir como se sentia, uma vergonha aos olhos da falecida vó, o que foi devastador ao ponto de contemplar suicídio.

 

Vale dizer que por um tempo Laverne adotou a androginia como uma tentativa de ter um compromisso em termos de gênero. Ainda havia o medo e a negação ao mesmo tempo em que queria deixar todo mundo feliz e orgulhoso. E ela nesse meio só queria encontrar seu lugar feliz. Essa foi uma das decisões ditas como mais importantes na sua jornada. Foi a que a impulsionou a ser quem é agora, uma mulher incrível e cheia de ensinamentos para compartilhar.

 

Por mais que contasse com o amor da família, Laverne sabia, naquela época, que precisava se limitar ao seu espaço, por assim dizer. Ela não sobrecarregou o irmão que já tinha seus problemas e nem a mãe que vivia estressada com N coisas, especialmente no como alimentá-los. A atriz sempre diz que a imaginação foi sua salvação durante o crescimento, bem como ser uma boa aluna e amar performar. Detalhes que a sustentam hoje e sempre.


Autenticidade e representatividade

 

Laverne-Cox-Gênero

 

Levou-me anos para internalizar que alguém poderia olhar para mim e dizer que sou uma transgênero. Que não é apenas ok, como também lindo. Que trans é lindo. Que todas as coisas que me fazem única e lindamente trans, minhas mãos grandes, meus pés grandes, meus ombros largos, minha voz profunda, são lindos.

 

Lembro-me como se fosse ontem do bafafá com relação à Caitlyn Jenner. Situação que abriu meus olhos para algumas coisas, especialmente no que condiz ao feminismo. Sou uma pessoa que acredita que qualquer outra pessoa pode e deve correr atrás do que a faz feliz, o que não necessariamente quer dizer muito dinheiro no bolso. No caso de Laverne, ela queria ser uma mulher completa e conseguiu depois de muito sufoco.

 

Essa é a parte que incomoda muita gente… A definição de liberdade quando um homem abraça sua identidade feminina porque não se reconhece no masculino. É onde parte do barraco mora para feminista que oprime mulheres transexuais (vide esse artigo). E não tem vergonha nenhuma de dizer isso pra passar vergonha. Já li histórias de tretas porque a primeira coisa que ressaltam é que aquela mulher foi homem e que mesmo com a transição ela continua sendo homem, tipo??.

 

Não é meu espaço de fala, só transexuais podem dizer com propriedade sobre o peso da transição, o preconceito e as dificuldades que sofrem antes e depois. Mas sei que requer muito mais que apenas querer mudar. Ninguém acorda com uma decisão pronta dessas. Há busca, há luta, há o recobrar constante de forças porque o maior dos impasses nem sempre vem de fora, mas de dentro de si.

 

Só tenho impressões, porém, tive uma única experiência na faculdade que me colocou diante de uma trans se adequando a sua feminilidade. Não soube como conversar sobre isso, mas admirei como ela se posicionava para que sua identidade fosse aceita, principalmente diante dos professores (como pedir que a chamassem pelo nome feminino e não masculino).

 

Laverne já contou em várias entrevistas que dentre as coisas mais difíceis que teve que lidar durante e depois da transição foi o racismo e a homofobia internalizados. Dando um exemplo simples, é o gay saber que é gay, mas faz chacota de gay como se não fosse gay (ou acha que ser gay é de um jeito X e não do jeito Y). Mesmo buscando autenticidade, ela teve dificuldade de se sentir confortável na própria pele e isso vinha muito das impressões e das cobranças do lado de fora. A atriz até se sentia adequada por si só, mas nunca adequada para quem discordava da sua transição sexual.

 

Nisso, entramos em uma pauta que ela sempre debate: a busca pela autenticidade. Uma busca que sempre vem com um preço, como se vê em Orange. Sophia abalou a família tradicional para nascer, teve que abrir mão da esposa e do filho, teve sua liberdade encolhida por medo do que poderia lhe acontecer e terminou presa porque correu atrás da sua realização pessoal de uma maneira criminal – e que não deixou de ser recompensadora para a personagem que é quem queria ser. As duas também se assemelham com os problemas vividos para ingerir hormônios porque lhes foram negados cuidados adequados para sua transexualidade.

 

Nesse redemoinho, a treta maior foi encontrar a sua aceitação e não a aceitação pelos olhos dos outros. E tem conseguido, sendo uma luz de esperança para a comunidade transexual (mesmo não intencionada a ser modelo para ninguém).

 

Ela é bem otimista quanto ao futuro de transexuais e tem consciência do quanto a sua presença na TV, especialmente em Orange, não é nada aleatória. Para ela, estar num programa de tamanho sucesso pode ajudar a diminuir o preconceito. Um preconceito que é um problema sério e, dando um sutil exemplo, que já vi em alguns grupos feministas. Há transexuais que são praticamente humilhadas e enxotadas desses grupos. Aonde mora o problema?

 

Negatividade de lado, Laverne também é símbolo de representatividade. Há pessoas que ainda acham que esse tópico não importa, mas, queira você ou não, importa. Ainda mais quando falamos de personagens da minoria que vivem marginalizados nas tramas, avulsos ou sendo piada ou estereotipados. Cox é uma maravilhosa quebra desse descaso, o que a torna uma grande inspiração, real e honesta, para quem está do outro lado da telinha e se identifica com a trajetória de Sophia. Isso é representatividade positiva, ter uma personagem e lhe dar uma história de impacto. Não apenas fazê-la existir.

 

Acompanhar Laverne foi uma das melhores coisas que fiz na minha vida porque passei a entender muito mais o quanto é importante falar sobre transexualidade e transfobia, e ceder papéis para quem realmente é transexual. Não apenas por questão de representatividade e de protagonismo, que são sim 100% importantes, mas porque traz veracidade e com isso inspiração. Fazendo uma sutil comparação, não me comovi em A Garota Dinamarquesa porque Eddie é cis. Ao contrário de Cox que me derrubou em 5 minutos de cena de introdução à Sophia. A atriz é a personagem que vive. E quem consegue transparecer um tópico da vida dessa comunidade só quem vive nessa comunidade.

 

(E, agora, temos Cauã Reymond pagando micão em um país que é completamente atrasado em representatividade. Tava divino no papel, mas podiam ter escolhido alguém mais representativo).

 

Laverne manda a mensagem de que as coisas podem ser difíceis para a comunidade trans, mas que no fim é sempre mais importante estar bem consigo mesma. Além disso, ela quer mostrar, e tem mostrado por meio de Sophia, que mesmo que haja a sua história e sua representatividade, há muitas outras por aí que precisam ser narradas. É necessário dar atenção, principalmente se há intenção de criar retratações numa mídia que costuma contar a mesma coisa sobre “pessoas com a alma presa no corpo errado”. É muito mais que isso e Orange tem se expressado cada vez mais nos altos e baixos que envolvem sua transexual.

 

Cox quer que todos saibam que nem todo mundo possui sua identidade determinada pela genitália. Se uma pessoa precisa expressar seu gênero de outra maneira, é preciso ter cuidados médicos adequados e suporte, e não afirmar que tá errado. Afinal, se você fica desconfortável com a informação, o problema não está em quem é trans, mas em você mesmo. Né, nom?

 

Nossa própria verdade

 

Laverne-LGBT

 

Fui designada masculino no nascimento, é a maneira como gosto de me posicionar porque acho que nascemos como quem somos e a coisa de gênero é algo que alguém impõe a você. E, então, fui designada masculino no nascimento, mas sempre senti que eu era uma garota.

 

Uma vez que se sente mais autêntica, tudo que Laverne quer é se manter verdadeira em todos os âmbitos da vida. Ela quer explorar a sua própria verdade e quer que todos façam o mesmo. Isso acontece, especialmente, por meio da sua oratória em eventos dos quais é convidada. A atriz sempre manda mensagens empoderadoras, como viver muito além das expectativas do gênero, com autenticidade, porque é o que mais importa.

 

A atriz é famosa nos eventos da comunidade LGBT e se faz ouvida. Um tremendo apoio para aqueles que se sentem sozinhos, que sofrem calados e que não sabem o que acontece consigo mesmos. Tanta influência que se estampa nas listas da vida, como ser uma das mulheres do ano da revista Glamour em 2014, uma das 100 mulheres afro-americanas influentes, uma das 50 ícones trans pelo Huffington Post. Esse mês, ela fez parte da propaganda do United States of Women, projeto de Michelle Obama que culminou em um evento maravilhoso. Reconhecimento que não tem hora pra acabar – e nem quero que acabe.

 

Honestamente, só quero me fazer feliz, e se as outras pessoas gostam, então, isso é ótimo. Se não, então, ainda estou feliz.

 

Mesmo com várias conquistas, Laverne não isolou o medo da sua vida. Ainda há inseguranças, mas, no fim, ela está sendo ela mesma, exatamente como queria. A atriz não consegue nem imaginar como sua vida seria se ainda estivesse em negação ou mentindo ou fingindo ser um homem. No fim, Cox buscou sua própria verdade. O que vem depois é batalha e aprendizado.

 

Considerando o tempo atual, Laverne acredita no poder da internet, algo que não teve quando começou a enfrentar o duelo interno de não se reconhecer no gênero que nasceu. De acordo com ela, as pessoas podem se conectar com seus semelhantes, trocar ideias e acessar conteúdo de diferentes partes do mundo. Sem contar a questão de representatividade, o quanto é importante ter transexuais na mídia para que crianças e adolescentes digam de um jeito assertivo que estão ali.

 

Tudo isso são meios para que ninguém se sinta sozinho. Como ela se sentiu, em que por anos se indagou o que acontecia consigo mesma. Esse, seu maior confronto.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

 

And if your mirror won’t make it any clearer. I’ll be the one to let you know

 

Essa música do John Legend traduz muito quem Laverne representa. Posso não ter o ponto em comum que vem da transexualidade, mas a vejo como uma forte fonte de inspiração. Admiro seu charme, sua alegria, a sua vontade em performar (dá pra ver naquele sorrisão cheio de dentes que meldels, abaixa que é tiro) e na sua missão de fazer a diferença na comunidade trans. Uma diferença que rebate em todo mundo, em todo mundo que acredita que a sociedade precisa urgentemente se extirpar do preconceito e da intolerância.

 

Por mais que não tenha amigas trans, eu as respeito, e isso inclui as manas que pertencem à comunidade LGBT no geral. Tenho vontade de adotar todo mundo, verdade.

 

Laverne é um símbolo de reconquista de si mesma, algo que nem todas as pessoas estão preparadas ou simplesmente não fazem por faltar coragem. Não é fácil tentar reivindicar quem se é em uma sociedade que “não nos permite” ser quem somos, independente de gênero. Ela é sim uma luz de que tudo é possível e são celebridades como essa linda que confortam e aquecem meu coração.

 

O recado que fica é: reconquiste-se. Só há uma versão da gente aqui e precisamos amá-la.

 

(E vai ter mais Laverne na fall deste ano na série Doubt da CBS, em que será Cameron Wirth. Uma advogada trans que é tanto competitiva quanto compassiva. My body is ready)!

Stefs
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