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01/jun

Se você não leu o livro, não leia o post. Tem spoilers (tipo, contar quem é o assassino).
 

Recentemente, terminei de ler A Garota no Trem, assinado por Paula Hawkins, e me pergunto até agora qual é desse buzz todo. Sinto-me a diferentona por não ter gostado desse livro tanto assim. Até agora me sinto enganada, juro!

 

Para vocês terem ideia, o que me marcou depois da leitura, de todas as coisas que poderiam me marcar (que foram poucas), foi Tom, o marido abusador. Assim que fechei o PDF, ele ficou comigo e me vi indignada pela forma como o personagem terminou, logo quando a história atinge seu real e único potencial. Inclusive, único instante que simboliza o thriller psicológico que não está nem um pouco presente no livro – que, de quebra, ganhou um fim tão a desejar que desacreditei.

 

Tentei encontrar o perdão porque a narrativa propõe mostrar o pior de cada personagem feminina, não necessariamente do marido abusador, na tentativa de “escandalizar”. Atitude que abre margem para julgamentos que chegam pertinho da linha tênue da misoginia internalizada – até que consegui não me incomodar tanto quanto o esperado. Afinal, todas são “erradas” e é “impossível” ficar ao lado delas.

 

Assim, fiquei com a sensação de que o propósito era mostrar o lado péssimo das mulheres para gerar impacto com a revelação de Tom. Pena que não me horrorizei.

 

Sobre o enredo:

Todas as manhãs, Rachel pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. O arrastar trepidante pelos trilhos faz parte de sua rotina. O percurso, que ela conhece de cor, é um hipnotizante passeio de galpões, caixas d’água, pontes e aconchegantes casas. Em determinado trecho, o trem para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel observa diariamente a casa de número 15. Obcecada com seus belos habitantes a quem chama de Jess e Jason , Rachel é capaz de descrever o que imagina ser a vida perfeita do jovem casal. Até testemunhar uma cena chocante, segundos antes de o trem dar um solavanco e seguir viagem. Poucos dias depois, ela descobre que Jess na verdade Megan está desaparecida. Sem conseguir se manter alheia à situação, ela vai à polícia e conta o que viu. E acaba não só participando diretamente do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos. – Sinopse retirada do Skoob.

 

A sinopse é onde começa o erro do livro, acreditem em mim. Trata-se da casca de uma proposta que é cumprida, mas tem algo mais. Por isso, me senti no direito de fazer este post para falar sobre o que não importou tanto assim na história: o quase omisso Gaslighting.

 

Não culpo quem não sacou esse tipo de abuso, porque essa real ferida do enredo não ganhou tanta relevância – e merecia demais, juro. Venderam a sinopse errada que maquiou quem/o quê realmente interessava e que nada tinha a ver com o desaparecimento de Megan, que só afeta a trama ao apresentar quem a matou – e o Gaslighting.

 

Este livro é fraco demais no suspense e o matei quando vi o trailer. E foi por causa do trailer que comecei a lê-lo de maneira diferente, por ter sacado que era o cara o assassino e, automaticamente, passei a olhar com mais rigor os buracos na mente de Rachel. Buracos que sinalizam abuso emocional.

 

No caso, o Gaslighting. A falta de investimento nisso me deixou frustradíssima. Conforme Tom se revelava, só pensava é gaslighting, é gaslighting, é gaslighting, façam ele parar! Pauta que deveria ter sido a razão central do livro por explicar o comportamento de três mulheres (duas, na verdade) que você passa mais de 200 páginas julgando, pedindo para calar a boca e chamando de trouxa.

 

Vai me dizer que você ficou apaixonada por elas? Não mente.

 

A Garota no Trem não tem nada de Garota Exemplar. Nem de romance policial. Nem de thriller psicológico – e teria se Hawkins tivesse investido mais em Tom. Não sei nem classificar esse livro porque não capturei nenhuma dessas descrições em peso na narrativa e sou sedenta por elas. Parecem passagens de diário, com data e horário, que não segue sempre a ordem cronológica dos fatos. Isso obriga quem lê a ficar de olho no tempo para remontar o que cada mulher quer dizer e aonde elas querem chegar.

 

Por esperar tanto o psicológico, o pavor pungente, gritos e tapas, rolou uma forte decepção porque não há várias reviravoltas carpadas. Até a polícia não teve voz e não passou de encheção de linguiça. E ainda tenho que aguentar comparação com o falecido Hitchcock.

 

Mas não é uma resenha que trago para vocês hoje. Girando a roleta, vamos falar de uma personagem chamada Rachel – e da pitada de “ódio feminino” – para assim emendar no Gaslighting.

 

Mulheres que se desprezam vs. o abuso invisível

 

Megan

Usarei imagens do filme a partir daqui. Acima, temos Megan.

 

Quando você lê, você automaticamente escolhe o melhor personagem. No caso de A Garota no Trem, não há. Tem que filtrar muito o que Rachel, Anna e Megan, trio de narradoras, diz por causa da moral de cada uma que rebate na moral de quem lê. Não consegui chamá-las de terríveis, por exemplo, porque, ao menos, consegui reconhecer as falhas e abracei algumas dessas falhas.

 

Falhas que estão atreladas à moral do livro que não tem nada a ver com a morte de uma delas – que é o suspense vendido como se fosse Garota Exemplar e que não passa de engana leitor. Quem lê focará tanto em saber quem matou Megan, se foi Rachel quem fez isso, ao ponto de correr o risco de perder a mensagem das entrelinhas.

 

Com o sangue já bem frio com relação a este livro, vale dizer que o que pesou para essa minha antipatia oscilante sobre as personagens (tem dois homens e eles nem participam direito, o cúmulo da perda de oportunidade) foi o estilo da narrativa. Não sou a mais fã de títulos em primeira pessoa e pego abuso rápido. A facilidade que há em mim para abandonar um livro pela antipatia com a/o protagonista nesse esquema é batata. Só não larguei este porque haveria uma futura discussão no clube do livro. Caso contrário, teria chutado.

 

Não entro tanto em discussão sobre voz narrativa porque é particular de quem escreve e de quem lê. E, não adianta, posso ter amado o livro, mas sempre direi que teria mais potencial em 3ª pessoa. Sou Gêmeos, curiosa, quero detalhes de cada canto da casa e não entrega singela.

 

E A Garota no Trem faz uma entrega singela. Ou seja…

 

O desafio mesmo deste livro é saber para onde Megan foi enquanto destrincha a obsessão de Rachel pela vida alheia (por que @Deusa sendo que tinha Gaslighting?) e os esforços de Anna em manter Rachel longe da sua vida perfeita na companhia de… Tom. Há um teste de não julgar essas mulheres que você “não aguenta” por saber que elas são verossímeis. Essas mulheres existem em algum canto e julgá-las mexe com nossa moral.

 

Eu me senti péssima em vários momentos e quem não se sentiu assim, nenhuma vez, vai ler esse negócio de novo. Não confio em você!

 

Para não desistir da leitura, encarei tudo como um teste para saber o quanto eu, mulher leitora, se desconstruiu sobre outra mulher e como encaro o sofrimento pessoal das narradoras. Fosse no lar ou sobre decisões passadas. Afinal, é muito fácil dizer “te amo, mana” para qualquer mulher, mas quando há uma Rachel na roda há quem se sinta impelida a ignorá-la. E tá errado (a não ser que essa Rachel seja cheia dos preconceitos, aí o papo é outro). Há o teste também do “ela pode se livrar do homem a hora que quiser”, e a trama dá na cara com o abuso quase velado. Nesse quesito, foi uma boa experiência.

 

(vamos lembrar que elas não são santas, se odeiam mutuamente e fazem nhacas homéricas, mas desafiam quem lê a segurar a peruca).
 

Se você julga as personagens, o que isso diz de você na vida real?, o livro propõe. O desafio é válido, mas havia um tópico muito mais relevante que impulsionar hate feminino que vem de novo de caracterizações que não cansam de investir: da mulher vadia que só quer sexo (estou com você, Megan!), da outra que não tem mais o que fazer e fica bitolada na vida alheia (estou com você, Rachel, porque preciso ter o que escrever) ou da outra insuportável que tem medo de ser igual a concorrente que, aos seus olhos, não passa de uma fracassada (Anna, vamos conhecer o feminismo?). Essas mulheres são aquelas que você precisa sentar e conversar, e não destilar o veneno como o livro intenciona.

 

E você destila o veneno.

 

Sim, discursos como os das personagens ainda rolam no cotidiano feminino porque há mulheres que não se desconstruíram. Porém, o livro tem uma pauta, mas preferiu apostar na encrenca das três narradoras e em um mistério que não envolve. Você fica focado em saber quem matou e, quando chega o ápice da história, você está exausta. É o Tom, e aí? O que podemos tirar disso? Ora, vamos para o meio prático e matá-lo porque é Girl Power. Falso empoderamento, a gente se vê por aqui.

 

No começo, confesso que não suportei Rachel por causa da obsessão por Tom. Já lidei com mulheres como Anna e algumas são irreparáveis e convivi com mulheres como Megan e só me restou o silêncio. Agora, sobre Rachel, minha experiência de leitora e de seriadora não aceita mais mulher romantizando cara abusivo em produtos culturais porque só fazem errado. Neste caso, você só se toca disso quando termina a leitura.

 

Sem contar que sou traumatizada com essa pegada porque, geralmente, não tem a ver com amor. Tem a ver com dependência e se quem escreve não tiver tato, danou-se, melou a trama.

 

Só que Rachel tem uma “necessidade” de se prender às memórias não tão claras de um passado e isso não lhe faz bem – e isso a torna quase insuportável de acompanhar. Há a romantização de um homem inesquecível que mudou sua vida, sendo que ele não passa de um tormento do qual não conseguiu se livrar. Somado a isso, a personagem tem um feeling de posse que, às vezes, não dá.

 

Rachel

Emily rainha como Rachel

 

Você pensa que é fixação demais para uma mulher que está livre para fazer o que bem entender (que hobby é esse não é mesmo?), mas ela não consegue se desvirtuar por causa do abuso que ainda está enraizado dentro dela. Você percebe isso quando Rachel começa a se indagar com mais propriedade a cada página sobre suas memórias. Foi aí que a leitura se alterou para mim porque notei que tinha algo além do sumiço de Megan para se agarrar. E é o que realmente importa.

 

Obrigada a todos os envolvidos com o trailer – que entrega demais, pfvr!

 

Rachel entrou na minha lista de personagem “menos pior” desse livro. Compactuei da sua necessidade de imaginar, mas o caso dela é fixação – se é que posso colocar dessa maneira. Por um lado, imaginar ocupa sua mente danificada pelo abusador e dei meu joinha porque meu pai foi meu maior abusador emocional e imaginar me ajudou a fugir da realidade. Me identifiquei em alguns aspectos.

 

Por outro lado, isso é um problema porque a personagem é lançada na história como uma figura que só sabe ficar imersa no mundo externo alheio devido à busca incessante de tapar buracos internos deixados/causados pelo ex-marido. Levam-se páginas e páginas para que vejamos que o problema não é ela, mas o fato de não ter enfrentado o abuso e de ainda se sustentar em uma linha que a conecta com Tom. O que dá aval para a romantização.

 

E mordemos essa isca, outro ponto positivo do enredo. A todo instante, Rachel romantizou o abusador e você acredita que Tom é esse homem lindo e cheiroso até o jogo virar.

 

Rachel cultiva uma fixação que não lhe é saudável. No caso, a vida de Megan e de Scott, em que cria um plot para eles, dá outros nomes e vira e mexe relembra do que viveu com Tom. Há outras coisas, mas dá para ver que imaginar não é só uma válvula de escape, mas sua própria ruína em vários âmbitos. Tais como não abrir a mente para compreender o que o ex-marido lhe fez por anos.

 

Close aqui: a mente dessa personagem prega peças o tempo inteiro e ela tem dificuldade de discernir o que de fato aconteceu, o que deixou de acontecer e o que não aconteceu.

 

Ela tenta remontar vários episódios vividos com Tom e é quando comecei a me indagar que, talvez, o problema era outro – algo que se fortaleceu depois que vi o trailer. Você começa a dar mais atenção às lembranças do falido casamento, em que ela afirma que poucas coisas são palpáveis. A personagem não consegue sentir esses fatos como seus, nada é 100% tangível, e rola a dúvida sobre os showzinhos que deu para envergonhar o ex-marido.

 

Sabe quando você tem um sonho, mas não tem certeza se teve esse sonho, sendo incapaz de recriá-lo na íntegra e impor detalhes? Ou de ter bebido tanto na noite anterior ao ponto de apagar e depois não se lembrar de nada? Essa é a mente da Rachel. Quem tinha a função de preencher as lacunas era Tom que, claro, recriava a versão dele, empurrando na mente dela mentiras que a deixavam cada vez mais frágil. Chegou o instante em que ela chegou a suspeitar da sua sanidade – algo dito com frequência no livro – e aí entra o Gaslighting.

 

Só que a autora se preocupa tanto em tornar as personagens irritantes e detestáveis que, quando chega no final, você tenta encontrar uma gota de empatia. Daí, Tom já tragou tudo. Não tiro completamente os méritos porque, para o bem ou para o mal, elas são relacionáveis e um tanto quanto viscerais. Você se vê pegando fragmentos de cada uma e os reconhece dentro de si.

 

E acredito que essa é a parte mais incômoda porque você não aceita ser, por qualquer motivo, parecida com uma delas. O que você faz? O clássico “é tudo culpa delas, como podem ser tão burras”. Estou mentindo?

 

Mas o que é Gaslighting?

 

Gaslighting---A-Garota-no-Trem

Uma imagem vale mais que mil palavras, não é mesmo Anna?

 

Gaslighting é uma palavra que acena para o filme americano Gaslight (assistam!), em que o homem manipula a mulher sobre seu real background e foca em enlouquecê-la para esconder sua própria verdade – que é o que Tom faz com Rachel várias vezes. Trata-se de um tipo de abuso psicológico e emocional em que a verdade da vítima que vive nesse relacionamento é distorcida, omitida ou inventada pelo abusador na intenção de fazê-la duvidar da memória e da percepção de realidade. O que coloca a sanidade da vítima em cheque.

 

A própria Rachel.

 

No livro, o Gaslighting só é confirmado no final e é quando se vê o quanto se perdeu ao investir em uma personagem que não era tão relevante quanto Rachel e o abuso emocional que sofreu. Tom manipula emocionalmente as mulheres e o fato da autora não ter desenvolvido isso melhor, optando por focar apenas no assassinato de Megan, deixou o enredo a desejar. Ao menos para mim, era aí que morava o thriller psicológico que arremataria com a presença policial. Afinal, esse cidadão não era só o assassino, mas um fucking abusador.

 

Claro que o livro não nos entrega o Gaslighting no primeiro parágrafo. A trama insiste em Megan, fica com Megan até o final, enquanto esse tipo de abuso é maquiado para surgir nas páginas conclusivas como se estivesse o tempo todo ali. Quem nunca passou por isso ou nunca ouviu falar desse abuso emocional, dificilmente associará uma coisa com a outra. Muito provável que esse leitor só fique com a verdade de que Tom matou Megan e fim, e que ele é “desequilibrado”. De novo, não culpo, porque a proposta vendida é o desaparecimento de uma mulher que é fonte de curiosidade de Rachel.

 

Vamos a duas passagens do livro que cospe Gaslighting na nossa face:

 

Apagões de memória acontecem, e não é simplesmente uma questão de não ter ideia de como você voltou para casa depois de uma noitada, nem de esquecer o que foi tão engraçado naquela conversa que você teve no pub. É diferente. Breu total; horas perdidas que nunca mais serão recuperadas.

Tom comprou um livro para mim que falava disso. Não foi um gesto muito romântico, mas ele estava cansado de me ouvir pedindo desculpas de manhã quando eu nem sabia pelo que estava pedindo desculpas. Acho que ele queria que eu visse o dano que eu estava causando, o tipo de coisa que eu poderia ser capaz de fazer.

 

Tom entrou na minha lista de melhor personagem no quesito trama (porque obviamente ele é o pior dos piores), mas não diria a melhor revelação tendo em vista a venda do sumiço de uma das narradoras que… Era sua amante. Juntando os pontos, ele foi o único homem deste livro sem voz, ao contrário de Scott, o marido de Megan, que apareceu mais e mostrou um sério problema de temperamento – e ele tinha um lado agressivo assustador e lhe dou os créditos pelas melhores cenas de A Garota no Trem por realmente terem mexido comigo entre tanta monotonia narrativa. O ex de Rachel fala mais ao telefone, romantizado, o que ajuda a camuflar um pouco seu eu verdadeiro.

 

A Garota no Trem nos dá homens suspeitos, mas o foco fica nas mulheres que desviam o caminho do abuso – porque não caíram em si do abuso. A história nem tem espaço para Megan, pois é Rachel e Anna as “protagonistas” (Megan tem voz narrativa, mas não se entrelaça com essas mulheres, a não ser por Tom). Essas duas vendem a ideia de um homem maravilhoso e você poderia ter começado a se indagar já no início da leitura o que esse cara tem de tão bom que todo mundo quer dormir com ele. Mas você é enganada.

 

Tom é um personagem que faz pouco, mas ofusca as mulheres ao se revelar como o abusador – que não lhe confere estrelinhas porque o cara é um abusador. Ele é o vilão omisso que sabe manipular as mulheres direitinho. O vilão que omite o Gaslighting.

 

Esse cidadão é o homem dos sonhos, então, não gera suspeita porque caímos na lenda de que abusador é alguém desconhecido ou que Anna, Megan e Rachel são assim porque lhes falta vergonha na cara em reagir. Não. O abuso doméstico está ali. Tudo bem que Anna não me inspira confiança porque tenho certeza que se as condições fossem favoráveis, ela, infelizmente, teria tomado a defesa do marido.

 

Gaslighting aka abuso emocional. Não é exclusivo do homem para mulher. Pode acontecer de mulher para mulher (mãe e filha, por exemplo). Essa palavrinha aparece em peso no âmbito relacionamento amoroso e é aí que A Garota no Trem perdeu um pouco da chance de fazer a diferença.

 

O drama de Rachel

 

Rachel

 

Rachel é a maior vítima, a narradora de peso e que meio mundo detesta, que se afogou no alcoolismo por não ter engravidado. Ou seja, não conseguiu satisfazer um desejo do marido querido e a casa caiu. Rolou traição seguida de divórcio, mas não antes dele fazer um belo estrago na mente dela o que, automaticamente, impulsionou os comportamentos autodestrutivos da personagem.

 

O livro vende que Rachel tem perda de memória por ser alcoólatra, embora esse seja o método autodestrutivo dela por motivos do abandono e da traição do marido. Que ela é patética e que está do jeito que está porque quer. Que não tem nada pra fazer da vida (e não tem, mas até entendermos o motivo a leitura acabou). Não seja essa pessoa, não quando o abuso emocional se torna berrante depois da primeira consulta dessa personagem com o psicólogo.

 

Instante que as coisas se esclarecem porque ela diz que as memórias que Tom lhe dera depois das tretas não parecem ser suas por não senti-las. Rachel não sente que brigou com tal pessoa, que agrediu o ex-marido e que fez o inferno na vida de Anna, a esposa atual e outra vítima. Ela não é santa, ninguém é, e isso não é motivo para dar amém ao sofrimento calado dessa personagem.

 

O que acontece é que Tom aproveitou de todos esses buracos mentais de Rachel, os brancos, para criar histórias que lhe apetecessem e que a fizesse duvidar de si mesma. O que acontece a partir daí? A sensação de autodúvida da vítima quanto ao seu valor e à sua sanidade. Uma mulher que sofre Gaslighting sempre achará que ficou louca e o abusador insistirá nisso. A própria personagem que não confia em si mesma.

 

Rachel foi vítima de Tom a partir do momento em que começou a ficar mais vulnerável por não conseguir engravidar. Ela parou de atender uma expectativa e encontrou seu conforto na bebida. Pelo fracasso, nasceu a brecha e os apagões se saíram como meios de manipulação. O ex-marido floreia os acontecimentos com a expressão de cachorro abandonado e de homem completamente magoado pelas mancadas. Ações que tornam a manipulação mais frequente e fácil porque há a culpa que começa a movê-la e, às vezes, a ameaça de abandono. O que ela faz? Pede desculpas sem saber o que fez e promete melhorar para não desapontá-lo.

 

Só que o ciclo de duvidar de si mesma foi acionado, e fica cada vez pior, o que a torna um monstro que deixa o parceiro infeliz. Ela é culpada pela infelicidade dele e fica em um posto de desesperança por não saber o que fazer. E, claro, a sensação de que está ficando louca por perder completamente a percepção da realidade que a circunda.

 

Pedir desculpas e se achar maluca são apenas exemplos padrões de Gaslighting e que acarretam os mais variados impactos na vida da vítima. Inclusive, esse abuso pode acontecer no ambiente de trabalho.

 

Aos meus lindos olhos, essa é a história que deveria ter sido contada com mais afinco em A Garota no Trem porque precisamos de mais enredos como esse – dentre tantas outras iniciativas – para gerar conscientização. A autora usou os brancos de Rachel para criar o suspense se ela teria ou não matado Megan, e ficou deveras enrolativo e sem propósito. Os brancos poderiam ter sido usados para algo mais impactante a ser um fingimento de que Rachel matou Megan.

 

Rachel sofre com o chamado Character Assassination, mais ou menos “assassinato de caráter”. É uma ação mais política (ISIS?), por assim dizer, mas que cabe nesse tipo de abuso por aniquilar caráter, valores, credibilidade e reputação. Praticamente uma lavagem cerebral. Recuperar-se depois do que viveu não acontece de uma hora para a outra, como essa personagem bem mostra, toda estragada.

 

Ela viveu um tipo de abuso e A Garota no Trem não discutiu, sendo que não é um tópico óbvio até o abusador se revelar. Isso só aumentou minha decepção. Essa personagem viveu acuada e implorava por desculpas. Tom minimizava o que ela sentia, a culpava pela sua vida infeliz, e dizia que ela precisava se recompor caso ainda quisesse manter o relacionamento. Isso é muito revoltante.

 

Embora não tenha gostado do desencadear dos fatos, Tom toca em uma ponta sensível e respondeu todas as minhas indagações inconformadas sobre o quanto essas mulheres – tirando Megan – eram tão apaixonadas e tão dependentes desse cara. Se eu ignorar o formato da narrativa e ser mais investigativa, a história em si tem muito impacto na vida de mulheres que sofrem diariamente com esse tipo de abuso emocional, só que precisa ter o feeling para identificá-lo.

 

O abusador paga de vítima

 

Tom-Abusador

Você tem ideia de como ficou chata, Rachel? E feia. Triste demais para sair da cama de manhã, cansada demais para tomar banho ou lavar o cabelo? Meu Deus. Não é de se admirar que eu tenha perdido a paciência, é? Não é de se espantar que eu tenha ido procurar um jeito de me distrair. A culpa é toda sua, sim.

Você mentiu para mim. Você me dizia que era tudo culpa minha. Você me fez acreditar que eu não tinha valor.

 

 

Tom representa a figura do homem que mente bem e que se faz confiável por ser perfeito. Todo mundo fala bem dele e suas parceiras só faltam colocar um tapete vermelho por onde passa. Daí, há sempre o argumento de que mulher é burra em não notar um sujeito desses, mas, de fato, elas não sabem até serem sugadas pelo relacionamento – e mesmo assim não é garantia porque muitas sofrem desse abuso e não notam o que tá rolando.

 

Anna e Rachel viam Tom como a escapatória de todos os seus problemas de insegurança e isso é uma linha do perfil de mulheres que caem em um relacionamento abusivo. Elas queriam um homem que as segurassem, que as protegessem, que não fosse só um parceiro como um aventureiro. Há muito dentro de cada mulher que pode ser dito como um traço que a faz mais suscetível ao Gaslighting, como a carência por algo que aconteceu no passado.

 

Tom é um produto que chama a atenção de uma mulher como Rachel. Ela tem sim sua carência pessoal e se apoiou completamente em um homem que a manipulou por anos. Por amá-lo tanto, por botar tudo de si no casamento, consumi-la mental e emocionalmente foi fácil para ele.

 

Sinalizando o Gaslighting:

 

– Seu protetor se torna o seu opressor;
– Gaslighting é invisível porque a pessoa é controlada e distraída do que acontece;
– Memórias são manchadas e suprimidas para criar outras do ponto de vista do opressor;
– Gaslighting não termina quando se sai do relacionamento. Além de mexer com as memórias, esse abuso mexe com o caráter e os valores da vítima;
– É difícil separar as lembranças falsas das verdadeiras. Às vezes, é impossível fazer essa separação;
– Uma vez fora do abuso, você tem dificuldade em confiar nas pessoas e em si mesma;
– A vítima não consegue explicar o que acontece ou o que aconteceu para outras pessoas.

 

Tá bom ou querem mais?

 

Tom tem uma sede por mulheres que precisam de conserto ou que farão de tudo para tê-lo, e joga. O personagem persegue o frágil e quando fica frágil demais, ele se cansa. Fragilidade que também compõe o perfil de mulheres que podem abrir espaço para um relacionamento abusivo. A mulher verá o cara com certa dependência e ficará paranoica com qualquer coisinha – e isso diverte porque haverá o prazer de dizer que não é e de inventar história.

 

Rachel destaca que vivia pedindo desculpas por coisas que nem sabia e, com o tempo, isso começou a irritar o ex. Atitude que alimentou mais a situação de trauma que silenciava com o comportamento nocivo de beber. Assim, ela perdeu a graça por não estar mais no juízo perfeito para ser manipulada, tornando o jogo repetitivo.

 

É aí que Anna entra por mostrar parte do que Rachel viveu com Tom. O instante que o Gaslighting fica mais claro antes da revelação dele como assassino de Megan.

 

Tom contou com poucas cenas no livro, mas seus diálogos foram precisos ao denunciar o Gaslighting, bem como as respostas de Rachel que respaldam o abuso. Com o tempo, ele passou a achar cansativo lidar com a ex-esposa e não ficou feliz ao vê-la se degradar. O processo é o que o mantém animado, mas, uma vez que as moças enfraqueciam demais, só restavam as cartadas para que elas recuassem e acreditassem que eram o veneno da relação e que realmente estavam loucas.

 

Anna se destacou para mim como a mulher no início do abuso e foi o que a tornou de repente interessante de acompanhar. Rachel é o produto final e Anna o inicial. Ela é a personagem que não quer ser como Rachel e acaba perto de ser uma nova Rachel.

 

Tom mexe com Anna também quando o casamento começa a desandar. A esposa atual se vê na mesma neurose e começa a beber. Com simplicidade, o personagem põe duas mulheres completamente diferentes no mesmo patamar de desconfiança, de insatisfação pessoal e de súbita dependência de querê-lo por perto o tempo todo.

 

Há também a questão da aparência embutida no Gaslighting de Tom. Enquanto Rachel perdeu seus traços vivazes por não conseguir engravidar, Anna perdeu a beleza por ter se tornado mãe e por ter focado completamente nos cuidados da filha. Nisso, entra Megan, outra mulher frágil e lindíssima (e morre ao contrário das duas).

 

Ele culpa as mulheres de sua vida de tudo de ruim que lhe acontece e dá para ler nas entrelinhas que a bebida de Rachel + o bebê de Anna as fizeram se esquecer dele. E o abusador não aceita ser deixado de lado. Não é à toa que quem abusa emocionalmente sempre dá um jeito de ser o centro das atenções. Para reforçar a dependência.

 

O ponto-chave do livro é que Tom não suporta mulheres vulneráveis, porém, ele tem queda pelo vulnerável. Mulheres vulneráveis lhe dão atenção e isso o alimenta. Não é à toa que, sutilmente, a intenção de virada de jogo acontece quando a única mulher a desafiá-lo é Megan. Ela representa a recusa do controle dele, reage quando o tempo fica ruim, e acaba morta. Só que até você entender isso, o livro acabou.

 

Por estarem tão comprometidas mental e emocionalmente, Rachel (principalmente) e Anna não conseguem sair desse ciclo enquanto Megan lança umas boas verdades com honestidade e insolência. Ele não aceita o insolente e nem ser desafiado, o que o impede de “escolher” mulheres, digamos, fortes e muito esclarecidas de quem são e do que querem. A última amante só se faz de vulnerável.

 

Abusador-Tom

 

O abusador pagou de vítima sendo que elas eram as vítimas. Isso também caracteriza Gaslighting, em que ele afirma que fez de tudo por elas, mas ambas estavam acabadas, não se importavam mais com a aparência, que tentou ajudá-las e não era ouvido. Tudo o que ele é e tudo que ele fez é supostamente com base no comportamento desvairado delas. Afinal, ele é o apoio. Elas precisam dele para sobreviver.

 

Tom não teve um desenvolvimento no livro, mas, em poucas páginas, se revela como um abusador nato ao fingir que não entende as esposas, ao questionar a memória delas, ao chamá-las de loucas, ao botar em xeque afirmações com outras variantes que criara e alimentara na mente delas. Ele tem controle nos instantes que aparece e é quando a adrenalina corre. É quando você percebe que o assassinato de Megan nem devia ter acontecido.

 

Por isso, digo com propriedade que A Garota no Trem pede um entendimento de baixo para cima. Uma vez que você sabe quem é Tom, você compreende todo o resto. Você compreende Rachel. E, sendo bem honesta, quem não saca o abuso emocional caracterizado como Gaslighting não entenderá que o nervo da história não era saber quem matou Megan, mas o que tornava Rachel e Anna tão dependentes do mesmo homem. Tão dedicadas a ele.

 

A história quer que compreendamos isso, só que a sinopse prejudica essa visão porque a atenção de quem lê vai para o desaparecimento de Megan que, no fim, é dispositivo de trama para revelar quem é Tom.

 

Rachel era vista como a manipuladora. O monstro de Tom. A abusiva. Sem ter apoio da própria memória, ela se apoiou no homem que amava e que era o real abusador. Depois, veio Anna, que estava tão focada em culpar Rachel que sentiu o que é ser Rachel por alguns instantes.

 

Fato é que uma parte de mim queria ignorar essas mulheres e isso é errado. Talvez, uma Stefs do passado as teria ignorado por não conseguir compreender a dificuldade de uma mulher sair do relacionamento abusivo sendo que é “uma questão de apenas terminar”. E não é só isso. Tenho que agradecer e muito ao feminismo por abrir minha mente todos os dias, porque tenho certeza que ficaria ao lado do homem porque essas “mulheres são chatas e tapadas demais, como não puderam ver que o cara é um safado”.

 

A ponta Megan de suspense é fraquíssima e é aonde mora todo o foco do livro sendo que é Tom a cereja. O vilão que a história procurou e não investiu.
Concluindo

 

A Garota no Trem foge da proposta de thriller psicológico porque o foco mesmo é o julgamento dessas três mulheres sobre si mesmas, entre si e sobre os outros. Ninguém as vê como anti-heroínas que estão presas em assuntos da vida real, como a violência doméstica até o medo de envelhecer. Se você não reconhece o abuso de cara, a luz no final do túnel pode se acender tarde demais. Por essas e outras que tive que fazer esse post porque vocês precisam saber do Gaslighting.

 

É direito de qualquer pessoa não simpatizar com outra mulher, mas não dá direito a julgamento. Não é algo que se aprende desde o nascimento, mas ter tato é o mínimo porque você não sabe o que acontece do outro lado. A Garota no Trem entrega esse outro lado, quer ver como você reage diante de tanta porcaria em torno de 3 mulheres adultas, só que, infelizmente, a empatia vem tarde demais. Quando você já descascou as personagens e só sente a culpa por ter feito isso.

 

Se era a intenção? Não sei, mas, se foi, tem meu like. Mulher tem que pensar mais sobre a outra mulher a fim de se desconstruir.

 

Tom reina na minha decepção maior com esse livro por causa do encerramento meia-boca que voltou ao clichê de que tudo se resolve com a morte do abusador – pensamento popular. As personagens se livram dele, mas nem têm chance de refletir sobre isso e não aprendem nada. Quando fechei o livro, consegui ver Rachel cair na mesma cilada e sofrer do mesmo jeito anos depois.

 

Como disse no clube do livro do IATG, A Garota no Trem dava para ser BBC America, mas terminou CW. Não que esperasse uma obra-prima, mas a autora perdeu a chance de conscientizar quem lê sobre um assunto tão sério, tão pertinente, especialmente por focar em personagens femininas (o que é sempre um milagre). Penso que o relato delas seria intrigante se denunciasse mais diretamente o abuso, mas penso também que isso requereria uma omissão completa de Tom – que poderia ter tido um POV e acharia bárbaro de odioso (Garota Exemplar teve).

 

Por algum motivo, a fórmula da escrita de mostrar e não contar não foi tão efetiva para mim. Fiquei mais impaciente que curiosa, porém, dei três estrelas porque peguei a tempo o cerne importante e passei a me nortear por ele. Obrigada, trailer!

 

Meu medo é que o filme não explore o Gaslighting e foque só em Megan. Será uma perda de oportunidade em abordar uma pauta que precisa ser discutida com mais seriedade. Sem contar que acredito que a adaptação será melhor e transportará para as telonas tudo que não senti durante a leitura (o trailer me deixou sem fôlego).

 

Mais informações sobre Gaslighting: Gaslighting como tática de Abuso | O que é Gaslighting?

 

Sobre o livro

Título: A Garota no Trem

Autora: Paula Hawkins

Páginas: 378

Editora: Record

 

Stefs
Postado por:       

       
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  • alsndrte

    Acho que sua resenha é coerente, mas acreditaria se eu lhe dissesse que tive uma forte empatia por todas as mulheres deste livro? Não saberia falar se a autora de fato tinha intenção de apresentar o lado sobra das mulheres. Penso mais que a abordagem foi o da perspectiva de quem está sofrendo. Assim, deste ponto de vista do personagem, assumida também pelo leitor, acaba ficando com “os buracos” e falta de clareza que a personagem tem. A questão do gaslighting aparece de forma periférica, de fato, mas essa sutileza é o que vai fazer o leitor lembrar dessa questão pra sempre. Eu particularmente gosto de narrativas que não entregam tudo ao leitor de forma direta. Mas também concordo com sua análise de que o drama da Rachel e a questão do gaslighting poderiam ser melhores exploradas, fazendo subir algumas camadas é ter tido um destaque maior e com isso trazendo mais clareza para a grande parte do público sobre esse tema.
    Grande abraço!

  • Mamma

    Estive num dilema por quase um ano e meio “Ler ou não ler?”.

    Ai estava linda e verde no cinema e bang, o trailer pipocou na minha cara.

    Resultado? Cri cri cri, não me despertou interesse algum, principalmente pela premissa “A Proxima Vitima” de que matou a moçoila, pois é foi vendido assim, certo?

    Sexta passada resolvi assistir o filme, por puro amor a Mrs Blunt, mas ai que me vi envolvida em 2hrs de pura tortura extremamente incomoda.

    Sala estava lotada, nitidamente de mulheres que leram a obra e ao lado delas seus namorados, inclusive um deles que jogava video game no celular no meio do filme (juro por Jová).

    Não tenho a perspectiva da leitura, entao fui pelo entretenimento da coisa e ate isso se esvaiou nas duas horas de filme totalmente mal estruturado, sem suspense algum e sofrimento pelo POV dessas mal aproveitadas personagens.

    Nada alem irei declarar, pq depois de assistir, fato que nao lerei esse book, mas foi maravilhoso ler o que tens a dizer e quao eloquente sempre é em sua analise P.

    Parabens e obrigada por reforçar certas temáticas que precisam sim ser explorados, principalmente nessa industria.

    Smack <3

    • Hey, Random Girl

      Esses namorados que jogam videogame hahahhaahha socorro!

      Olar, Person! Jamais deixaria o comentário passar batido. Só estava meio que sem disposição.

      Eu não gostei do livro, só das páginas finais que foi onde a coisa toda pegou e, honestamente, não vi suspense algum. Não é thriller psicológico de maneira alguma também. Aqui temos o famoso “vamos vender igual aquele outro porque assim todo mundo se atrai”. Não é nem de perto Gone Girl.

      Não sei se terei estômago para ver o filme, mas capaz que vá me torturar para ver se realmente abordaram o que pontuei nesse texto. O que considero muito difícil porque tiveram que segurar o cara até o final.

      Heart claps, P. <3

  • Veve

    Arrasou seu post. Sucesso !

    • Hey, Random Girl

      Obrigada, mozona! Pela visita e pelo comentário (com delay, perdoa! hahahaha) <3